
71
Isadora Sipp Valle
“RESPOSTA EM NÍVEL CIENTÍFICO”: A ESCRITA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E NAS CIÊNCIAS
BIOMÉDICAS A PARTIR DA EPIDEMIA DE VÍRUS ZIKA EM RECIFE/PE
“RESPOSTA EM NÍVEL CIENTÍFICO”: A ESCRITA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E NAS CIÊNCIAS
BIOMÉDICAS A PARTIR DA EPIDEMIA DE VÍRUS ZIKA EM RECIFE/PE
duas culturas. Para Ortiz, a globalização redefine esse ordenamento de forças, e o inglês passa a “constituir-
-se em um idioma interno, autóctone à condição da modernidade-mundo” (Ortiz, 2003, p. 10). Nesse sentido,
o idioma deixa de figurar como língua internacional, que irradia de uma nação central para outras, e passa a
ser visto como língua global, desterritorializada e ressignificada em suas múltiplas situações de uso.
Ortiz também desenvolve reflexões em torno do inglês como a língua da ciência, situando o advento dessa
supremacia na constituição da “sociedade da informação”, datada da segunda metade do século XX e carac-
terizada pela aliança entre desenvolvimento científico e tecnológico nos Estados Unidos. Ao apresentar um
conjunto de dados quantitativos gerados em séries históricas do século mencionado, o autor destaca: 1) o
crescimento exponencial de artigos publicados em língua inglesa; 2) a prática de referenciar quase exclusiva-
mente trabalhos escritos nessa língua; 3) uma ignorância sistemática da produção em língua não inglesa por
parte das bases de dados científicas. Desse modo, Ortiz aponta que o reconhecimento internacional de um
corpus literário para que este opere como padrão de referência depende de sua disponibilidade em inglês,
dinâmica ligada também às noções de prestígio na ciência. Outro ponto relevante abordado pelo autor é a
importância dada, pelas revistas de alto fator de impacto, às “informações de primeira mão”, inéditas, que
refletem descobertas recém-feitas.
A partir dos elementos expostos, é possível perceber que, para atuar como padrão de referência frente à
comunidade central da ciência, o MERG priorizou as revistas de alto fator de impacto e a escrita em língua
inglesa. Em termos do tempo emergencial da epidemia de Zika, o inglês torna-se favorável, não só por seu
caráter instrumental, mas também por sua capacidade de “representar a informação liberada dos aspectos
não informacionais da linguagem” (Ortiz, 2003, p. 14), maximizando uma comunicação “neutra”. O tempo
emergencial também se coaduna com a noção de ineditismo: respostas biomédicas são requeridas, e as no-
vas descobertas alimentam o sistema internacional da ciência.
Apesar desse padrão geral escolhido pelo MERG, alguns artigos diversificaram o estilo de comunicação dos
achados do grupo, abrangendo mais atores sociais como destinatários. Observemos mais uma fala de Ana
Catarina Bastos para entender isso:
Há os dois artigos de caso-controle
6
, nós queríamos uma revista de maior impacto. Foi no Lancet as duas. Já aquele [artigo]
que eu escrevi, eu quis deixar registrado para o público brasileiro como foi essa construção [do conhecimento] aqui. É, ela tem
em inglês também. Décadas atrás, eu tinha feito [um artigo (Braga, Albuquerque e Morais, 2004)] que era [sobre] o gap entre a
pesquisa e a incorporação numa política pública de saúde. E eu escrevi sobre a filariose. Então, o editor [da revista Cadernos de
Saúde Pública] disse “não, vamos publicar em inglês.” [Na época], eu disse: “eu não quero, sabe por quê? Eu quero que os gesto-
res dos municípios, dos estados, leiam esse artigo. Então, se for em inglês, muitos não vão ler”. Então, tinha essa peculiaridade.
Mas, fora o meu [artigo (Albuquerque et al., 2018)], que fala sobre como se construiu o conhecimento sobre a Zika, eu acho que
a gente procurou revistas de alto impacto porque era um hábito, um critério de publicar em revistas confiáveis, que tenham um
board, que tenham um comitê editorial (Ana Catarina Bastos, entrevista concedida à autora, 2025).
É interessante notar que Renato Ortiz (2003) não só chama atenção para as condições de idioma que o sis-
tema internacional da ciência impõe para que um corpus literário seja alçado a padrão de referência, mas
também sinaliza uma consequência dessa dinâmica para países do “Terceiro Mundo”. Essa consequência
consiste em transitar entre atividades “locais” e “universais”, o que fica evidente na fala de Ana Catarina.
Em grande parte dos momentos, a prioridade do MERG foi a aquisição de visibilidade na cena mundial,
concentrando ações na ciência de “elite”, publicando em revistas internacionais “confiáveis, com um board,
com um comitê editorial”. Contudo, em outros momentos, o grupo concentrou-se em atividades “locais”,
escrevendo em idioma nacional e publicando em revistas do país. É possível dizer, portanto, que o MERG
realizou, majoritariamente, um direcionamento prático de suas ações no sentido de centralizá-las, produzin-
do “identidade central” (Neves, 2020) na ordem hierarquizada da ciência. No entanto, podemos falar em um
trânsito entre identidades, pois, quando escreveu em português e publicou em revistas nacionais, produziu
“identidade periférica”.
Um exemplo desse direcionamento prático do MERG ao escolher, em determinadas situações, a “identidade
periférica” está na escrita de um artigo sobre a construção do conhecimento epidemiológico no grupo. A
referida publicação foi feita em 2018, após os dois artigos de caso-controle serem divulgados e circulados;
ou seja, ela surge em um momento em que o conhecimento produzido pelo MERG já gerou consenso entre
a comunidade científica e a situação emergencial passou por um certo arrefecimento. O título do artigo é
“Epidemia de microcefalia e vírus Zika: a construção do conhecimento em epidemiologia” (Albuquerque et
al., 2018). Considero esse trabalho especialmente significativo para análise, pois, como mencionado por Ana
Catarina, trata-se de uma publicação voltada para o público brasileiro, o que me leva a lançar a hipótese de
6 Os “casos” se referem às crianças diagnosticadas com a SCVZ enquanto os “controles”, às crianças (expostas ou não ao vírus) nascidas saudáveis
no mesmo dia e local que as primeiras.