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Isadora Sipp Valle
“RESPOSTA EM NÍVEL CIENTÍFICO”: A ESCRITA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E NAS CIÊNCIAS
BIOMÉDICAS A PARTIR DA EPIDEMIA DE VÍRUS ZIKA EM RECIFE/PE
“RESPOSTA EM NÍVEL CIENTÍFICO”: A ESCRITA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E NAS CIÊNCIAS
BIOMÉDICAS A PARTIR DA EPIDEMIA DE VÍRUS ZIKA EM RECIFE/PE
Nem sempre eu podia ir pros eventos, porque eu estava atarefada com as coisas aqui da universidade. Quando Sarita Gurgel ia
para um evento, ela escrevia o diário de campo dela e me passava um áudio ou então me ligava dizendo o que tinha acontecido.
[...] Hoje eu vejo isso como uma forma de produção também, esse diálogo que a gente tinha, a gente conversava muito sobre
[...] como tinha sido tal visita, cada novidade que ia acontecendo – porque era um campo muito rápido, tudo acontecendo
muito rapidamente, e as coisas eram publicadas, e, se se descobria uma coisa hoje, amanhã já era outra coisa (Roberta Castro,
entrevista concedida à autora, 2025).
Roberta Castro e Sarita Gurgel são um exemplo de uma produção que estava ocorrendo no meio virtual,
mas o “gabinete”, no caso do Etnografando cuidados, foi a sede do FAGES, localizada no 13º andar do Centro
de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFPE. Os momentos de encontro na sede do FAGES foram
essenciais para afinar ideias, atualizar aqueles que não haviam ido a campo sobre o que havia ocorrido
recentemente, promover discussões e reflexões sobre possíveis temas para artigos e ponderar sobre os
cuidados éticos com as interlocutoras de pesquisa.
Essas reuniões e os debates delas advindos foram, digamos assim, a liga entre a coleta de dados e o momento
posterior de escrita de artigos e, por envolverem um grupo grande de pessoas, demandaram um tempo mais
dilatado para a harmonização das ideias. Trago aqui, então, um trecho de entrevista com Sarita Gurgel, que
nos contou sobre sua percepção de como o FAGES lidou com o tempo da emergência para publicar:
Olha, são tempos distintos. O tipo de material que a gente trabalha em Humanas, em Ciências Sociais e o tipo de material que eles
[na Saúde] trabalham é distinto. Então, a gente precisa burilar, a gente precisa refletir. Uma entrevista ajuda na outra, o tempo
é muito importante. Eu acho que o tipo de material é diferente, as relações são diferentes também, porque a gente depende
muito do que é vivo, das pessoas. Nem sempre as pessoas podem nos receber, ou nem sempre as pessoas estão dispostas, ou
nem sempre a pessoa quer falar sobre aquele tema, naquela entrevista, daquela vez. Tiveram pessoas que a gente entrevistou
mais de uma vez. Ou então a gente entrevistou uma vez e depois a gente ficou convivendo muito com essas mulheres. Já não era
mais uma entrevista, era um convívio. E você pensava que ela ia refletindo também sobre ela e sobre a vida dela, sobre a política,
ou sobre a ciência. E aquilo ia modificando. Então, assim, lá no FAGES, eu não sentia essa pressa desesperada (Sarita Gurgel,
entrevista concedida à autora, 2025).
A fala de Sarita parte de uma distinção nós/eles (antropólogos/pesquisadores da saúde) para defender que
a publicação no FAGES seguiu um ritmo diferente daquele das ciências da saúde. Como colocado por Ortiz
(2003), devido ao caráter mais interpretativo do que informativo das ciências sociais, essa é uma área que
demanda tempo de amadurecimento e análise. A publicação acelerada, portanto, não se configura como
valor para seus representantes, o que se reflete na fala de Sarita. É interessante notar como ela recorreu aos
materiais de pesquisa – as relações humanas – para explicar essa distinção, reforçando ideias referentes
à importância do convívio e da participação na realidade do outro para que a antropologia construa seus
conhecimentos. A resposta de Sarita se aproxima, em certa medida, do relato de Miriam. Antes de publicar
rapidamente, o foco do FAGES era construir espaços de sociabilidade, e, neste ponto, gostaria de destacar
a categoria “modificar”, acionada por Sarita, bem como a ideia de reflexão conjunta entre pesquisadora e
sujeitos de pesquisa. Essa categoria e essa ideia nos ajudarão a pensar numa dimensão política da antropologia
produzida pelo FAGES.
Pacheco de Oliveira (2013), em coletânea sobre os desafios da antropologia brasileira, chama atenção
para o movimento contemporâneo da disciplina de se tornar antropologia “aplicada”, processo ligado ao
pressuposto de que as investigações científicas têm consequências sociais importantes. Nesse sentido,
procedimentos de pesquisa cristalizados na disciplina, anteriormente garantidores da positividade dos
dados antropológicos, passam a ser questionados, como é o caso da clivagem entre “pesquisador” e “objeto
do conhecimento”. O contexto contemporâneo da pesquisa passa a demandar novas técnicas de observação
e um entendimento do trabalho de campo como uma “situação etnográfica” (Pacheco de Oliveira, 2013) em
que, em vez de tentar criar um cenário artificial para a objetivação da realidade, se considera a convergência
dialógica entre sujeito pesquisador e sujeitos pesquisados.
É relevante que percebamos como essa noção dialógica e politicamente situada se mostrou presente nas
falas de Sarita, Roberta e Miriam. Quando Sarita fala que o convívio entre a antropóloga e a mulher afetada
pela epidemia desemboca em processos reflexivos “sobre a política, ou sobre a ciência” em ambas as partes
envolvidas na interação, isso remete a uma antropologia que produz com os sujeitos. Aproveito a discussão
sobre a antropologia aplicada para trazer mais um trecho de sua fala. Nesse momento, percebemos que, para
Sarita, a pressa para publicar artigos está relacionada a essa dimensão política de um conhecimento capaz
de transformar a realidade:
Alguns temas eu tinha vontade de escrever rápido pra levantar a discussão rápido. Um dos temas que eu tinha vontade de
escrever de forma rápida foi essa questão da antropologia da ciência, que era uma reclamação muito forte das mulheres. A
gente tinha vontade de falar sobre isso rápido, ao passo que eu também tinha vontade de escrever da importância da ciência
para elas, quando você via a intersecção entre ciência e política pública. Esse artigo que eu escrevi, o “Nada sobre nós sem nós”