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Mariana Petruceli
CIÊNCIA E RESPONSABILIDADE: UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO
SOBRE A PESQUISA EM SAÚDE EM RECIFE/PE
de pesquisas ocorreu especialmente após o decretamento de Estado de Emergência em Saúde Pública de
Importância Nacional (ESPIN) – e posteriormente de importância internacional (ESPII).
De acordo com Matos e Silva (2020), isso ocorre, em parte, devido ao crescente fomento a pesquisas re-
alizadas não apenas pelo estado de Pernambuco, mas também no âmbito federal e por agências/organis-
mos internacionais e fundos privados. Desse modo, a capital pernambucana foi palco de empreendimentos
científicos variados, com grupos igualmente sortidos, por vezes integrados por médicos de diferentes espe-
cialidades, assistentes sociais, cientistas sociais e profissionais da reabilitação – tais como fonoaudiólogos,
fisioterapeutas, psicólogos etc. Entre os anos de 2015 e 2018, havia cerca de 90 projetos de pesquisa relacio-
nados ao tema apenas na Região Metropolitana de Recife (Simas, 2020).
Somado a isso, como descrito por Débora Diniz (2016), as famílias também estavam produzindo conheci-
mento – nesse caso experiencial – em relação à epidemia de Zika. Com base no saber adquirido no cotidiano
com as crianças, as famílias produziam o que a pesquisadora denomina de “ciência doméstica”. Esse conhec-
imento, assim como o dos cientistas, circulava entre grupos e associações de mães, mas também nos encon-
tros com especialistas, contribuindo para a construção de uma resposta à epidemia em curso.
A resposta científica foi formulada a partir do encontro da classe científica com essa parcela da população
a partir de mutirões de saúde, pesquisas clínicas e acompanhamento periódico em projetos que, na maior
parte do tempo, mesclavam a assistência clínica e a pesquisa científica. No entanto, a relação entre esses dois
principais atores na construção das Ciência do Zika foi permeada de desencontros e insatisfações, principal-
mente do lado das famílias.
Com o passar do tempo e o avanço das pesquisas científicas, as mães de crianças com microcefalia pas-
saram a se queixar de aspectos da relação com a ciência e os pesquisadores, como a falta de compartilha-
mento dos resultados de exames, a ausência de respostas sobre a síndrome, a dificuldade de comunicação
com os pesquisadores, entre outros. Como demonstra Soraya Fleischer (2022), nessa intensa construção
de relações científicas, as famílias passaram a formular suas próprias análises sobre o que seria uma “boa
ciência” ou uma “boa cientista”. Por outro lado, quando vivenciavam experiências insatisfatórias, algumas
famílias começaram a evitar convites para integrar novas empreitadas científicas e, inclusive, a abandonar
projetos já em andamento. Esses pontos estão no centro das queixas dos pesquisadores do Zika, que enfren-
taram dificuldades para prosseguir com seus projetos devido à debandada das famílias.
Isso demonstra que as famílias estavam atentas e não se contentavam com qualquer tratamento por parte
dos especialistas. Buscavam uma boa comunicação na relação médico-paciente, a tradução de resultados
dos exames aos quais seus filhos eram submetidos, atenção e carinho no tratamento com seus bebês e acol-
himento por parte dos profissionais de saúde. A noção do que seria uma “boa ciência” e uma “má ciência”
já era nítida entre as famílias. Mas, e os cientistas? Eles se questionavam sobre suas práticas? Como isso se
desdobrava no cotidiano das pesquisas/atendimentos? Na próxima seção, apresentarei minha entrada em
campo e meu encontro com profissionais/pesquisadores da saúde que atuaram diretamente com as famílias
anteriormente citadas.
3. ENTRANDO EM CAMPO
O que hoje conhecemos por Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCTs) tem muito a agregar nos estu-
dos do campo de conhecimento que foi desenvolvido para estruturar uma resposta científica à epidemia do
ZIKV na capital pernambucana. A começar pelo desenho do meu próprio campo de pesquisa: à luz da teo-
ria latouriana, compreendi que, para contribuir para a abertura da “caixa-preta” das Ciências do Zika, seria
necessário delimitar o campo antropológico não geograficamente, mas sim no formato de uma rede (Latour,
2000)
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. Por isso, a primeira atividade que eu e minha colega Thais Valim
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enfrentamos foi a de realizar uma
extensa pesquisa ao Lattes para encontrar, entre as publicações e projetos dos cientistas conhecidos, mais
atores dessas redes. Somado a isso, buscamos também pedir recomendações aos próprios cientistas e entre-
vistar seus orientandos e orientadores, colegas de pesquisa, etc., de modo que, em minha viagem ao Recife
em maio de 2022, entrevistei 16 cientistas que se organizaram em quatro diferentes grupos de pesquisa.
2 Em um projeto anterior voltado para a compreensão da perspectiva das famílias sobre a epidemia do Zika, algumas pesquisadoras do projeto que
integro tiveram encontros pontuais com alguns poucos profissionais da saúde. Esses encontros e o posterior compartilhamento de dados me auxiliaram
a construir a minha rede de contatos e facilitaram a realização de entrevistas.
3 À época, Thais era doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília e coordenadora do projeto que
integrei.S