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Mariana Petruceli
CIÊNCIA E RESPONSABILIDADE: UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO
SOBRE A PESQUISA EM SAÚDE EM RECIFE/PE
Em suas palavras, tratava-se de recolocar a pesquisa em ação por meio de uma prática que dissolvesse a separação
rígida entre quem pesquisa e quem é pesquisado, permitindo uma influência mútua e transformadora – um processo
em que ambos os lados se “contaminam” positivamente e se agenciam de forma recíproca. Ao definir a clínica como
um encontro entre sujeitos – sejam eles técnicos de saúde ou famílias –, Berenice ampliava intencionalmente os
limites da prática biomédica, desafiando suas bases morais e hierárquicas e propondo uma ciência mais integrada,
sensível às complexidades sociais que atravessam o cuidado em saúde.
A ideia de clínica ampliada foi experimentada na formulação do Ambulatório de SCVZ, que integrou médicos
de diversas especialidades, como otorrinolaringologistas, neuropediatras, oftalmologistas, endocrinologistas e
gastroenterologistas pediatras. No entanto, Berenice enfatizou que a complexidade da sociedade e das condições de
saúde não pode ser compreendida apenas pelo olhar biomédico. Por isso, sua equipe também incluiu profissionais
das ciências da reabilitação (fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais) e do serviço social, que, além
de auxiliar no andamento das pesquisas, desenvolviam estudos próprios sobre as condições sociais das famílias
atendidas, como vimos em seção anterior.
A centralização dos atendimentos no Ambulatório solucionava um dos principais desafios relatados pelas mães:
a dificuldade de locomoção entre unidades dispersas, reunindo múltiplas especialidades em um único espaço e
promovendo redes de cuidado – aspecto já evidenciado no eixo biopsicossocial. Dessa forma, o Ambulatório não
apenas produzia conhecimento científico, mas também criava redes de acolhimento e cuidado – questão visível
principalmente no eixo biopsicossocial.
Quando adentrei o campo, esperava que os médicos, em sua totalidade, assumissem uma postura alinhada ao que
Brigitte Jordan (1993[1978]) chama de conhecimento autoritativo, em inglês authoritative knowledge – ou seja, um
conhecimento considerado único e suficiente para a tomada de decisões coletivas. No caso dos profissionais da saúde,
acreditei que seu conhecimento técnico-científico, validado por pares por meio dos diferentes diplomas, seria tido
como suficiente para a formulação de agendas científicas. No entanto, a experiência no Ambulatório demonstrou
que nem todos os pesquisadores adotavam essa perspectiva.
Como ficou claro ao longo deste artigo, Berenice defendia repetidamente a necessidade de ouvir diferentes vozes
na formulação de pesquisas e políticas de saúde. Sua proximidade com o Departamento de Antropologia da
universidade foi, para mim, um reflexo desse compromisso. Como referência nos estudos sobre Zika e SCVZ, a
equipe de antropólogos pernambucanos realizou pesquisas etnográficas junto às famílias afetadas, trazendo para
o debate acadêmico as experiências e percepções das mães e cuidadores (Scott, 2018; Matos e Silva, 2020, e outros).
Berenice reconhecia que as ciências humanas foram fundamentais para compreender a epidemia sob a perspectiva
da comunidade afetada, permitindo que os pesquisadores tivessem acesso não apenas a dados clínicos, mas também
às experiências vividas pelas famílias. Para ela, o desafio era integrar essas diferentes perspectivas na construção da
ciência, sem cair nas hierarquias tradicionais que frequentemente isolam as ciências biomédicas das ciências sociais,
já que, para Berenice, a formação de redes interdisciplinares é um dos principais legados das emergências sanitárias.
A epidemia de Zika mobilizou profissionais que, por meio do intercâmbio e da colaboração direta, alcançaram
descobertas científicas enquanto prestavam assistência à saúde. A responsabilidade com o atendimento e a pesquisa
se concretizou no fortalecimento dessas redes. O eixo de redes integradas ia além do campo acadêmico, abrangendo
cuidado, acolhimento e garantia de direitos. O Ambulatório, portanto, não era apenas um espaço de pesquisa e
atendimento, mas também um experimento social e político sobre como a ciência pode operar de forma mais
integrada com a sociedade. A ciência responsável, como defendida por Haraway (1995), não se limita à neutralidade
e ao distanciamento, mas assume suas implicações éticas e políticas. No contexto do Zika, isso significava promover
uma ciência responsável não apenas com a produção de conhecimento, mas com a transformação das condições de
vida das populações afetadas.
O eixo de redes integradas de atenção e políticas de saúde evidencia que a produção científica e a assistência não
são processos separados, mas dimensões interdependentes da resposta à epidemia de Zika. A construção de redes
interdisciplinares possibilitou não apenas avanços na compreensão da SCVZ, mas também soluções concretas para
os desafios enfrentados pelas famílias afetadas. Ao reunir especialistas de diferentes áreas, dialogar com as ciências
humanas e incorporar a perspectiva da comunidade, o Ambulatório de SCVZ se tornou um espaço de inovação não
apenas biomédica, mas também social e política. A experiência da epidemia de Zika mostrou que a ciência, para
ser verdadeiramente responsável, precisa ser construída em rede – não apenas entre cientistas, mas também com
aqueles que vivem na pele os impactos das emergências sanitárias.