Um corpo, uma alma e um olhar
| 138
Um corpo, uma alma e um olhar
Ismael Silva
1
ORCID: 0009-0000-7834-4135
Figura 1 Mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre, Brasília. 2024.
Figura 2 Mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre, Brasília. 2024.
1
Fotógrafo documental e doutorando em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB). E-mail: ismaelpana-
fricanista@gmail.com
Um corpo, uma alma e um olhar
| 139
Figura 3 Jovens indígenas no Acampamento Terra Livre, Brasília. 2024.
Figura 4 Homem indígena no Acampamento Terra Livre, Brasília. 2024.
Um corpo, uma alma e um olhar
| 140
Ao longo de 2024, fui tomado pela experiência de viver e fotografar povos indígenas.
Viver vem antes de fotografar, pois é possível fotografar o que já aconteceu. Fotografar é
sobre o que foi visto, sentido e vivido. É nesse contexto que reside a relevância da imagem:
documentar. Mas documentar sob o ponto de vista de quem? Quais atravessamentos? Quais
afetações? Essas indagações nos recolocam no centro do debate sobre a contribuição das ima-
gens para o pensamento sócio-antropológico brasileiro.
Etienne Samain, em seu clássico Como pensam as imagens? (2012), provoca-nos: "Por
que as imagens nos fazem pensar?". Mais tarde, Samain (2021) convida-nos a repensar nossa
relação com as imagens, questionando suas camadas de sentido. De forma igualmente brilhante,
Sylvia Caiuby Novaes, no artigo “The eloquent silence of photographic images and their im-
portance for ethnography (2014)”
2
, afirma que a fotografia nos faz falar, mesmo diante dos
silêncios de um olhar frequentemente pré-moldado. Concordo profundamente com ambos, es-
pecialmente ao refletir sobre os silenciamentos nas imagens, que muitas vezes parecem apenas
reproduzir estéticas paisagísticas superficiais.
O sentir e o viver vêm antes do clique. A fotografia é resultado e consequência dessas
interações. Peter Burke, em Testemunha ocular: história e imagem (2004), apresenta a imagem
como um testemunho da relação da humanidade com o imagético, algo tão antigo quanto a
própria história da espécie humana. No entanto, a fotografia, surgida no século XIX com o
desenvolvimento da máquina fotográfica, trouxe à humanidade a capacidade de congelar o
tempo. É intrigante pensar o que, de fato, é congelado na fotografia, considerando que ela é
quase sempre sobre quem a tira e raramente sobre quem aparece nela. A fotografia é sempre
um olhar sobre e o olhar de.
E o que acontece quando os sujeitos historicamente fotografados os exóticos, os con-
denados da terra (no conceito fanoniano) passam a fotografar? O que dizem essas imagens?
Quem está disposto a ouvir esses gritos e gemidos? E quem deseja ouvi-los? No Brasil, os
estudos sobre fotografia que abordam questões de raça e cor estão marcados por dores e silen-
ciamentos. A fotografia que atravessa os séculos XIX e XX é permeada por sangue, choro e
suor. Essas imagens o apenas comunicam; elas gemem de dor. Mas é possível e urgente
esboçar outra narrativa imagética sobre nós mesmos. Uma narrativa que nos permita sorrir
e acalentar a alma. Uma onde a dor e a desgraça não sejam nossas únicas sombras. Precisamos
de imagens que ressoem brilhos, afetos e esperança.
Um corpo, uma alma e um olhar
| 141
Referências
BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
NOVAES, Sylvia Caiuby. The eloquent silence of photographic images and their importance
for ethnography. Vibrant Virtual Brazilian Anthropology, v. 11, n. 2, 2014.
SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens? São Paulo: Annablume, 2012.
Recebido em 02/12/2024
Aprovado em 02/12/2024
Publicado em 31/12/2024