Um corpo, uma alma e um olhar
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Ao longo de 2024, fui tomado pela experiência de viver e fotografar povos indígenas.
Viver vem antes de fotografar, pois só é possível fotografar o que já aconteceu. Fotografar é
sobre o que foi visto, sentido e vivido. É nesse contexto que reside a relevância da imagem:
documentar. Mas documentar sob o ponto de vista de quem? Quais atravessamentos? Quais
afetações? Essas indagações nos recolocam no centro do debate sobre a contribuição das ima-
gens para o pensamento sócio-antropológico brasileiro.
Etienne Samain, em seu clássico Como pensam as imagens? (2012), provoca-nos: "Por
que as imagens nos fazem pensar?". Mais tarde, Samain (2021) convida-nos a repensar nossa
relação com as imagens, questionando suas camadas de sentido. De forma igualmente brilhante,
Sylvia Caiuby Novaes, no artigo “The eloquent silence of photographic images and their im-
portance for ethnography (2014)”
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, afirma que a fotografia nos faz falar, mesmo diante dos
silêncios de um olhar frequentemente pré-moldado. Concordo profundamente com ambos, es-
pecialmente ao refletir sobre os silenciamentos nas imagens, que muitas vezes parecem apenas
reproduzir estéticas paisagísticas superficiais.
O sentir e o viver vêm antes do clique. A fotografia é resultado e consequência dessas
interações. Peter Burke, em Testemunha ocular: história e imagem (2004), apresenta a imagem
como um testemunho da relação da humanidade com o imagético, algo tão antigo quanto a
própria história da espécie humana. No entanto, a fotografia, surgida no século XIX com o
desenvolvimento da máquina fotográfica, trouxe à humanidade a capacidade de congelar o
tempo. É intrigante pensar o que, de fato, é congelado na fotografia, considerando que ela é
quase sempre sobre quem a tira e raramente sobre quem aparece nela. A fotografia é sempre
um olhar sobre e o olhar de.
E o que acontece quando os sujeitos historicamente fotografados — os exóticos, os con-
denados da terra (no conceito fanoniano) — passam a fotografar? O que dizem essas imagens?
Quem está disposto a ouvir esses gritos e gemidos? E quem deseja ouvi-los? No Brasil, os
estudos sobre fotografia que abordam questões de raça e cor estão marcados por dores e silen-
ciamentos. A fotografia que atravessa os séculos XIX e XX é permeada por sangue, choro e
suor. Essas imagens não apenas comunicam; elas gemem de dor. Mas é possível — e urgente
— esboçar outra narrativa imagética sobre nós mesmos. Uma narrativa que nos permita sorrir
e acalentar a alma. Uma onde a dor e a desgraça não sejam nossas únicas sombras. Precisamos
de imagens que ressoem brilhos, afetos e esperança.