Ciranda de Saberes: mulheres negras como guardiãs de um conhecimento ancestral
| 132
atlântica” (Martins, 2020, p.8). Um corpo que é síntese de outros corpos que transcrevem e se rees-
crevem na cidade, forjando formas de vida entre o resistir e sorrir, entre suor e lágrimas.
Dentre essa coletividade, é imprescindível destacar a figura das mulheres negras e dos
terreiros de candomblé como um dos grandes espaços de preservação e manutenção da vida
comunitária. Diante das diversas atribuições que desempenharam ao longo da história, as mu-
lheres negras trouxeram o cuidado com o outro como um marcador importante para pensar seu
papel na sociedade. Essas experiências estão em diferentes esferas, muitas vezes invisibilizadas
ou marginalizadas pela historiografia dominante. As quituteiras e ganhadeiras não só ocuparam
as ruas, como organizaram arquitetônica e esteticamente a paisagem das grandes cidades, ree-
laborando modos de viver na garantia da subsistência dos seus (Mattoso,1992; Soares,1994;
Albuquerque,1999).
Apesar das inúmeras tentativas de apagamento histórico, desumanização e dominação,
essas mulheres insistem em reescrever e afrografar sua história com os corpos, perpetuando
suas trajetórias e legado e transmitindo afeto, ainda que submetidas em contextos de subordi-
nação, com uma capacidade afiada de rasurar pelas brechas a ordem estabelecida. (Martins,
2002; Carneiro, 2005). Os terreiros de candomblé, são um desses exemplos, de locais que re-
sistem a perseguições e ao ódio religioso e se reafirmam como espaço de cuidado e acolhimento,
fornecendo subsídios para a construção de uma outra ontologia de ser, estar e se relacionar com
o mundo, fortalecendo a identidade étnica racial de crianças, homens e mulheres.
A fotografia de Mayana e Mãe Maria de Tempo, capturada no Terreiro Bandalekongo,
em Juazeiro, Bahia, no ano de 2023, ilustra uma dessas mulheres negras que, de forma insur-
gente, lideram suas comunidades, mantendo vivos os saberes e práticas que constituem a resis-
tência e a ancestralidade africana no Brasil. A imagem faz parte de uma pesquisa etnográfica
realizada dentro do projeto Ciranda do Brincar
, que mapeou as práticas lúdicas em quatro co-
munidades tradicionais da Bahia: marisqueiras, quilombolas, de matriz africana e indígenas. O
projeto teve como objetivo documentar a memória brincante dessas comunidades, com especial
atenção à transmissão desses saberes para as novas gerações, promovendo também a formação
de professores e a inserção do brincar no processo pedagógico