Ciranda de Saberes: mulheres negras como guardiãs de um conhecimento ancestral
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Ciranda de Saberes: mulheres negras como guardiãs de
um conhecimento ancestral
Joelma Antunes
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ORCID: 0000-0002-7768-8187
Figura 1 Ciranda de Saberes: mulheres negras como guardiãs de um conhecimento ancestral. Ma-
yana e Mãe Maria de Tempo no terreiro Bandalekongo (Juazeiro/BA).
ANTUNES, Joelma. Ciranda de Saberes: mulheres negras como guardiãs de um conhecimento
ancestral. Mayana e Mãe Maria de Tempo no terreiro Bandalekongo (Juazeiro/BA). 2023.
Fotografia digital, 35 x 54 cm.
Hoje, é impossível pensar na formão cultural brasileira sem reconhecer as contribuões
substanciais de mulheres e homens negros na construção do país. Quando refletimos sobre a me-
ria, cultura e transmiso de saberes, percebemos a imporncia da oralidade enquanto tecnolo-
gia de cuidado e de ensino e aprendizagem. Pensamos numa corporalidade coletiva, um corpo-
documento, como nos ensina Beatriz Nascimento, que carrega consigo mais do que as marcas do
racismo e do processo colonial. Trata-se de corpo que pode ser entendido aqui “como femeno
que transcende dualidades, por isso mesmo plástico, dinâmico, autopoético, resiliente, adaptável e
atravessado pelas mais distintas formas de ‘dobras e quebras’ localizadas na pós-travessia
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Doutoranda em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da
Bahia. E-mail: Joelmaantunes95@gmail.com.
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atlântica(Martins, 2020, p.8). Um corpo que é ntese de outros corpos que transcrevem e se rees-
crevem na cidade, forjando formas de vida entre o resistir e sorrir, entre suor e grimas.
Dentre essa coletividade, é imprescindível destacar a figura das mulheres negras e dos
terreiros de candomblé como um dos grandes espaços de preservação e manutenção da vida
comunitária. Diante das diversas atribuições que desempenharam ao longo da história, as mu-
lheres negras trouxeram o cuidado com o outro como um marcador importante para pensar seu
papel na sociedade. Essas experiências estão em diferentes esferas, muitas vezes invisibilizadas
ou marginalizadas pela historiografia dominante. As quituteiras e ganhadeiras não só ocuparam
as ruas, como organizaram arquitetônica e esteticamente a paisagem das grandes cidades, ree-
laborando modos de viver na garantia da subsistência dos seus (Mattoso,1992; Soares,1994;
Albuquerque,1999).
Apesar das inúmeras tentativas de apagamento histórico, desumanização e dominação,
essas mulheres insistem em reescrever e afrografar sua história com os corpos, perpetuando
suas trajetórias e legado e transmitindo afeto, ainda que submetidas em contextos de subordi-
nação, com uma capacidade afiada de rasurar pelas brechas a ordem estabelecida. (Martins,
2002; Carneiro, 2005). Os terreiros de candomblé, são um desses exemplos, de locais que re-
sistem a perseguições e ao ódio religioso e se reafirmam como espaço de cuidado e acolhimento,
fornecendo subsídios para a construção de uma outra ontologia de ser, estar e se relacionar com
o mundo, fortalecendo a identidade étnica racial de crianças, homens e mulheres.
A fotografia de Mayana e Mãe Maria de Tempo, capturada no Terreiro Bandalekongo,
em Juazeiro, Bahia, no ano de 2023, ilustra uma dessas mulheres negras que, de forma insur-
gente, lideram suas comunidades, mantendo vivos os saberes e práticas que constituem a resis-
tência e a ancestralidade africana no Brasil. A imagem faz parte de uma pesquisa etnográfica
realizada dentro do projeto Ciranda do Brincar
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, que mapeou as práticas lúdicas em quatro co-
munidades tradicionais da Bahia: marisqueiras, quilombolas, de matriz africana e indígenas. O
projeto teve como objetivo documentar a memória brincante dessas comunidades, com especial
atenção à transmissão desses saberes para as novas gerações, promovendo também a formação
de professores e a inserção do brincar no processo pedagógico
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.
O que mais chamou a atenção durante a pesquisa foi a presença marcante das mulheres
nos postos de liderança, especialmente as mulheres negras. Elas não desempenham um papel
central no cuidado das suas comunidades, mas também são responsáveis pela preservação e
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Websérie “Ciranda do Brincar”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3qHyXfdQr-E.
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Cartilha Práticas Pedagógicas da Ciranda do Brincar”. Disponível em: https://assessoriacirandas.org/proje-
tos/ciranda-do-brincar/.
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transmissão dos saberes ancestrais, religiosos e culturais, cumprindo uma função crucial na
reorganização da vida comunitária e na formação das novas gerações.
Referências
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. Algazarra nas ruas: Comemorações da Independência na
Bahia (1889-1923). Campinas: Unicamp, 1999.
CARNEIRO, Aparecida Sueli. Do epistemicídio. In: CARNEIRO, Aparecida Sueli. A
construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Tese (Doutorado em Educação)
Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo (FEUSP), 2005. p. 96-124.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: GONZALEZ, Lélia. Por um
Feminismo Afro-Latino-Americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos. Rio de Janeiro: Zahar,
2020. p. 7-93.
MARTINS, Leda. Performances do tempo espiralar. In: RAVETTI, Gabriela; ARBEX, Márcia
(Orgs.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte:
Departamento de Letras Românicas, Faculdade de Letras/UFMG; Poslit, 2002. p. 67.
MARTINS, Leda Maria. Prefácio. In. TAVARES, Julio Cesar de Org..Gramática das
Corporeidades Afrodiaspóricas: Perspectivas Etnográficas.1. Ed. Appris, Curitiba, p.301,
2020.
MATTOSO, Katia M. de Queirós. Bahia Século XIX: Uma província no Império. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
SOARES, Cecília Moreira. Mulher negra na Bahia no século XIX. 1994. 133 f. Dissertação
(Mestrado em História) Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da
Bahia, Salvador, 1994.
Recebido em 02/12/2024
Aprovado em 02/12/2024
Publicado em 31/12/2024