Apresentão |Semeando coragem e inveão junto à Lélia Gonzalez
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Apresentação | “Semeando coragem e invenção junto à
Lélia Gonzalez”
Nayra Joseane e Silva Sousa
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ORCID: 0000-0002-4131-9670
Matheus Pereira de Andrade
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ORCID: 0009-0002-4992-301X
Dyane Brito Reis Santos
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ORCID: 0000-0003-1146-8840
Rosana da Silva Pereira
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ORCID: 0000-0002-3209-4457
É com imensa alegria que apresentamos a Segunda Edição do Caderno Virgínia Bicudo
e reafirmamos o compromisso da Revista Pós em parceria com o Coletivo Zora Hurston (UnB),
para a produção de mais uma edição atenta às transformações oriundas das Políticas Afirmati-
vas no Ensino Superior. Passadas duas décadas das primeiras ações e práticas vinculadas às
Reservas de Vagas Étnico-Raciais e a promoção da conhecida Lei de Cotas, Lei Federal n.º
12.711/2012 e demais Políticas de reparação, sabemos que o resultado é o perfilamento de um
projeto de universidade mais plural e pluriepistêmica.
Nos últimos anos, sobretudo, a partir dos esforços de muitos intelectuais negras e ne-
gros, bem como de estudantes negras e negros cotistas foi possível tensionar os currículos dos
cursos de graduação e pós-graduação e denotar o reconhecimento epistêmico da intelectuali-
dade negra. Atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão sobre os Estudos Negros no Brasil e na
América Latina passam à protagonizar as trajetórias estudantis, e portanto, podemos afirmar
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Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Bralia (UnB). Mestre em Antropologia pela Universidade
Federal do Pia(UFPI) e graduada em Ciências Sociais pela mesma universidade. Associada efetiva da Associação
Brasileira de Antropologia (ABA). Professora de Sociologia do Ensino dio Público no Marano (SEDUC-MA).
Atualmente é pesquisadora no Laboratório Matula - sociabilidades, diferenças e desigualdades (DAN/UnB) e no Grupo
de Pesquisa em Antropologia, Política e Economia (GAPE/UFPI). Email: nayrasousapi@gmail.com.
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Mestrando em Antropologia Social pela Universidade Brasília - UnB. Licenciado em Ciências Sociais pela Uni-
versidade Federal Fluminense. Atualmente é aluno pesquisador no Laboratório de Antropologia da Ciência e da
Técnica da Universidade de Brasília (LACT/UnB), faz parte do Atelier de Etnografias e Narrativas Antropolíticas
(ATENA/ InEAC/UFF). E-mail: andraddem@gmail.com
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Professora Associada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Pós Doutora em Sociologia pela USP.
Doutora em Educação, Mestre em Ciências Sociais e possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade
Federal da Bahia (UFBA). É Vice Líder do Observatório de Política Social e Serviço Social (OPSS - UFRB) e
Membro Pesquisadora do Programa A Cor da Bahia (UFBA). E-mail: dyanereis@ufrb.edu.br.
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Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Mestra em Educação: Conhecimento e Inclusão
Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Sociologia da Educação e Cultura.
Graduada em Cncias Sociais na modalidade Licenciatura pela Universidade Federal do Rencavo da Bahia
(UFRB). Integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) e do cleo de nero e Diversidade
(NUGED) do Instituto Federal de Brasília-Campus Planaltina. E-mail: rosanadasilvapereira079@gmail.com.
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que as Políticas Afirmativas de Acesso e Permanência Material e Simbólica (Santos, 2009)
consagram o reconhecimento da existência epistêmica negra, indigena e quilombola como ins-
trumento imprescindível para a justiça étnico-racial.
Neste ensejo, saudamos nossa intelectual Amefricana Lélia Gonzalez (1935-1994). A
filha de Oxum, filósofa, antropóloga, professora, militante do movimento negro e feminista
caminhou em defesa da igualdade racial. No âmbito acadêmico e intelectual através de concei-
tos como Amefricanidade, Améfrica, América Ladina e Pretuguês, Lélia mobiliza um projeto
político de Brasil que tem a contribuição negra, indigena e quilombola como fator determinante
para a identidade nacional (Gonzalez, 1984; Gonzalez, 1988; Bairros, 1998; Rios; Ratts, 2010;
Lima; Rios, 2020).
Na década de 80, Lélia já proclamava: “Toda linguagem é epistêmica. Nossa linguagem
deve contribuir para o entendimento da nossa realidade [...]”(1988, p. 78), e neste sentido, com o
seu olhar interseccional, a intelectual apresenta de forma inventiva reflexões sobre a articulação
entre as relações de raça, gênero e classe, demarcando sua denúncia ao racismo, sexismo e clas-
sismo, desta forma, semeando coragem para uma geração de estudiosas e estudiosos ao reafirmar
que a militância e o rigor teórico-analítico se fazem necessários para o enfrentamento de ões
violentas tão presentes no cotidiano brasileiro dentro e fora dos muros das universidades.
Esta edição nomeada Semeando coragem e invenção junto à Lélia Gonzalez busca ecoar
as contribuições por meio de fotografias e textos de pesquisadoras/es negras/os de todas as regiões
do país, cuja a inspiração de Lélia Gonzalez torna-se fundamental para diálogos antirracistas,
feministas e de enfrentamentos das contradições impostas pelo colonialismo, colonialidade, ma-
chismo, patriarcalismo, cisteronormatividade e demais violências sistematizadas no país.
Se por um lado o apagamento e silenciamento de produções de intelectuais negras/es,
indígenas e quilombolas nas universidades se fez/faz em razão da manutenção de uma monoe-
pisteme branca e eurocêntrica. Por outro lado, a produção de uma gramática teórico analítica
que se alinha aos modos de conhecimentos afro-brasileiros, africanos, indígenas, quilombolas
e demais povos e comunidades tradicionais não se faz sem luta. Esta edição, bianual, é contun-
dente em reconhecer a semeadura de Lélia Gonzalez, em uma edição que conflui em uma mu-
lheragem
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para as duas intelectuais negras que estão em consonância com as agendas de pes-
quisas realizadas nas diversas universidades brasileiras.
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Escolhemos o termo Mulheragem para expressar a admiração e reconhecimento às mulheres, sobretudo às mu-
lheres negras afro-latinoamericanas. Contrariando o viés masculinista, compreendemos que a terminologia é apro-
priada à nossa proposta textual e acadêmica, bem como condiz com o protagonismo das mulheres nas lutas por
direitos fundamentais.
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Construída exclusivamente por produções intelectuais de autoras negras e autores ne-
gros, esta edição também tem o protagonismo negro em seu processo de avaliação editorial -
realizado por pareceristas, duplo cego, igualmente negras e negros. Este compromisso exigiu
de nós uma seletiva e redobrada atenção, desde a publicação da chamada do número em nossas
redes sociais e no site da Revista, em maio de 2024. Para nossa surpresa, atingiu entre curtidas
e compartilhamentos mais de três mil acessos e repercutiu em uma quantidade volumosa de
trabalhos acadêmicos.
Na construção deste número, Rafael LaCruz, multiartista belorizontino de nascimento e
contagense de criação, nos agraciou com a elaboração da ilustração para a capa desta edição. A
qualidade do seu trabalho e a gentileza nesta parceria com a Revista Pós, nos deixou extrema-
mente felizes e honrados. Além disso, também estendemos nossos agradecimentos aos fotógra-
fos Vinícius Venâncio, Igor Ganga e Ismael Silva e a fotógrafa Joelma Antunes, que também
apresentam suas fotografias, resultantes de trabalhos acadêmicos e profissionais.
No fortalecimento dessa semeadura proposta nesta edição, temos o artigo Lélia e Vir-
gínia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras, de Rafaela
Rodrigues de Paula e Steffane Santos que ao tecer um diálogo entre Lélia Gonzalez e Virgínia
Bicudo, ressaltam as conexões de trajetórias de vida e acadêmica das intelectuais, ratificando
as contribuições delas na produção do pensamento social brasileiro centrado em perspectivas
raciais, o que implicou em um pioneirismo, mas também em ações sistemáticas de apagamentos
de suas produções intelectuais nas academias. Entretanto, a partir de esforços que vem de uma
geração de pesquisadores negros, esta luta é fortalecida com esperança e é apregoada pelas
autoras do artigo, ao endereçar uma carta para as duas intelectuais mulherageadas.
O epistemicídio, manifesta-se como mais uma das violências no campo intelectual con-
tra acadêmicas e acadêmicos negras e negros. É a partir dessa narrativa que Laís Moreira de
Oliveira aborda no artigo A análise sobre a encruza teórica do Reconhecimento e o Epistemi-
cídio, a relação entre racismo estrutural e exclusão intelectual no Brasil, destacando como o
epistemicídio a negação sistemática da produção de conhecimento de pessoas pretas sus-
tenta padrões brancocêntricos de poder e silenciamento. A autora propõe a teoria do reconhe-
cimento como uma aposta para horizontalizar a produção científica.
Em sequência, temos o ensaio Lélia Gonzalez como artesã de redes educativas contra
as desigualdades sociais estruturais, de Flávia Helena dos Santos da Silva que retrata a impor-
tância e a influência de Lélia Gonzalez para os coletivos e o movimento negro. O texto destaca,
também, sua relevância intelectual e acadêmica, sobretudo na luta pela educação antirracista,
tecendo redes educativas. A autora apresenta Lélia Gonzalez como uma 'intelectual orgânica',
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conceito gramsciano que evidencia a inseparabilidade entre sua atuação intelectual e política.
Neste sentido, há o convite para a imersão em nas redes antirracistas junto com .
Seguindo pelas dimenes poticas, Amanda dos Santos Pereira, apresenta uma reflexão
sobre a formão dos quilombos e seus dilemas na contemporaneidade no ensaio Quilombos: the
land is life and freedom. A autora destaca como a relão com a terra é essencial para pensarmos
sobre as comunidades quilombolas, que entendem não apenas como sinônimo de liberdade, mas
também como espaço de aprendizado e ensinamento. Falar de terra quilombola é falar de ancestra-
lidade e resisncia o apenas em relação às violências do passado, historicamente abordadas,
mas tamm às violências atuais, como a luta pelo reconhecimento de seus territórios, incêndios
intencionais, homicídios, ameaças e outras formas que o racismo assume.
No artigo de Maria Aparecida de Oliveira Lopes, no artigo Sonhos e vivências transa-
tlânticos de Nize Isabel de Moraes, professora negra do estado de São Paulo (1955-1978), a
autora reconstrói analiticamente a trajetória profissional da professora Nize Isabel de Moraes
em um fio condutor que explora diários, cartas e documentos oficiais, e promove reflexões
sobre os atravessamentos de uma mulher negra em contextos de instabilidades políticas e eco-
nômicas na conexão entre o Brasil e o Senegal entre as décadas de 1950 e 1970 do século XX.
No artigo 30 anos da presença ancestral de Lélia Gonzalez entre nós: o fazer política e
a construção de agendas inegociáveis, na qual Francisco Nonato do Nascimento Filho e Geyse
Anne Souza da Silva nos conduzem à refletir sobre o legado e a memória de Lélia Gonzalez,
especialmente no contexto do movimento negro brasileiro. O texto ênfase às experiências
do nordeste, evidenciando como as ideias de Gonzalez moldaram uma geração politicamente
engajada, que se posiciona a partir de uma perspectiva decolonial e amefricana. Essa abordagem
se torna essencial para resistir à lógica colonizadora.
Concluímos com A paciência revolucionária de Lélia Gonzalez, intelectual amefricana
e intérprete do Brasil, de Taynara Aparecida Ferreira da Silva. No artigo a autora traz reflexões
sobre as propostas políticas de Lélia Gonzalez, através da análise de uma entrevista concedida
ao Jornal Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), realizada em 1991 para Jônatas
Conceição da Silva e editada por Edson Cardoso. Através deste artigo, é possível compreen-
dermos a atuação política e intelectual transgressora de Lélia, bem como suas potencialidades
epistemológicas para a interpretação do Brasil.
A memória se faz presente na Teoria Social Crítica de Lélia Gonzalez, na qual se institui
como uma manifestação histórica, cultural e política da ancestralidade afro-brasileira. Como
uma tecnologia ancestral, a memória é reconhecer, relembrar e evidenciar as potencialidades
da intelectualidade negra brasileira, por isso, caras leitoras e caros leitores, esperamos que esta
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edição possa fertilizar imaginações em diversos solos empíricos que estão em busca de coragem
para inventar um novo porvir. E viva aquelas que vieram antes de nós. Viva Lélia Gonzalez!
Viva Virgínia Bicudo! Viva à Intelectualidade das Mulheres Negras!
Boa leitura, Axé Muntu!
Referências
BAIRROS, Luiza. Lembrando Lélia Gonzalez, 1998. Disponível em:
https://institutoodara.org.br/wp-
content/uploads/2019/07/LEMBRANDO_LeLIA_GONZALEZ.pdf. Acesso em: 20 de
dezembro de 2024.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural da amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. n.
92-93, Rio de Janeiro: Ed. Global, jan./jun. 1988.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje,
Anpocs, p. 223-244, 1984.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: Ensaios, intervenções e
diálogos. Orgs: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia. Editora Zahar, 2020.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje,
Anpocs, p. 223-244, 1984.
RATTS, Alex; RIOS, Flávia. Lélia Gonzalez. Retratos do Brasil Negro. São Paulo: Selo Negro,
2010.
SANTOS, Dyane Brito Reis. Para além das cotas: a permanência de estudantes negros no
ensino superior. 2009. 214 f. Tese (Doutorado em Educação) Pós-Graduação em Educação,
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.