CADERNO VIRGÍNIA BICUDO: SEMEANDO CORAGEM E INVENÇÃO JUNTO À LÉLIA GONZALEZ
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Prefácio
Lidomar Nepomuceno
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ORCID: 0000-0003-1080-4048
Jordhanna Cavalcante
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ORCID: 0000-0002-8078-8453
Em novembro de 2022, mês da consciência negra no Brasil, a Revista Pós lançava sua
nova seção editorial, o Caderno Virgínia Bicudo, com o intento de homenagear o marco histó-
rico das Políticas de Ações Afirmativas implementadas no Brasil, já aquela altura responsáveis
por uma transformação de grande impacto no perfil de classe e raça de universitáries pelo Brasil
afora. A convite da Revista Pós, o Coletivo Zora Hurston se tornou parceiro na criação do Ca-
derno desde a elaboração de suas diretrizes, com vistas em assumir um sério compromisso com
a produção científica de autorias negras, até a composição das peças que integrariam a publica-
ção. Aliado a criação do Caderno, a revista também criou um banco de pareceristas negres como
mais uma forma de fortalecer a política de ações afirmativas na própria publicação.
Nós, enquanto Coletivo, estivemos orgulhosamente irmanadas nessa construção, por sa-
bermos da importância de ocuparmos espaços como esse, haja vista a feroz política do episte-
micídio que nos marginaliza historicamente, apagando nossas histórias e nossas produções aca-
dêmicas. Não à toa, levamos o nome de uma grande autora, antropóloga negra, sabotada à época
no âmbito da academia e pelas editoras dominadas pela branquitude estadunidense, Zora Neale
Hurston, que chegou a ser sepultada como indigente, só recebendo o merecido reconhecimento
enquanto autora e pesquisadora, muitas décadas após a sua morte.
O Coletivo Zora Hurston nasceu em 2017, também sob esse profundo incômodo com o
processo de exclusão ao qual somos constantemente submetidos no âmbito acadêmico. As fun-
dadoras do Coletivo Zora, mobilizadas pelas discussões acerca da plena implementação das
ações afirmativas no âmbito do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Uni-
versidade de Brasília (PPGAS/UnB), considerando as condições não apenas de ingresso de
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Doutorando e Mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Uni-
versidade de Brasília (PPGAS/UnB). Integra o MOBILE - Laboratório etnografia das circulações e dinâmicas
migratórias (DAN/UnB) e o NERI - Núcleo de Estudos em Raça e Interseccionalidade (UFC). É produtor dos
podcasts Negras Antropologias Cast e O Hebreu podcast. E-mail: lidomarnepomuceno@gmail.com.
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Doutoranda em Antropologia Social (PPGAS/UnB). É integrante do Coletivo Zora Hurston de estudantes negros
do PPGAS/UnB. Mestra em Direito, Estado e Constituição (PPGD/UnB). Bacharel em Ciências Sociais habilita-
ção em Sociologia e licenciada em Ciências Sociais pela mesma instituição. Pesquisadora vinculada ao grupo
Describa (Desigualdades e Crítica no Brasil Contemporâneo SOL/UnB) e integrante do Maré cleo de
Estudos e Pesquisa em Cultura Jurídica e Atlântico Negro. Possui interesse de pesquisa na área de relações raciais
no Brasil e suas articulações com o território, práticas culturais e parentesco. E-mail: cjordhanna@gmail.com.
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discentes negres, indígenas e quilombolas, mas também de permanência, estavam atentas à
necessidade urgente de uma mudança também curricular que fosse capaz de trazer a pluralidade
epistêmica às ementas dos cursos de mestrado e doutorado do PPGAS/UnB.
Foi nesse contexto que as fundadoras do Coletivo Zora formularam a ideia do I Negras
Antropologias, um evento acadêmico que se dedicaria a discutir, valorizar e divulgar a produção
acadêmica de pesquisadoras negras. Também em 2022, nós realizamos o VI Negras Antropo-
logias, com a temática dos dez anos da Lei de Cotas e as (re)discussões das ações afirmativas,
sob o título: “Onda negra, medo branco”: tecendo caminhos e enfrentamentos futuros. No
mesmo ano o Coletivo Zora venceu a categoria de “Igualdade, Diversidade e Não Discrimina-
ção” do Prêmio Anual de Direitos Humanos Anísio Teixeira (promovido pela Secretaria de
Direitos Humanos da UnB), pela realização do VI Negras Antropologias. A nossa história, en-
quanto Coletivo, é mobilizada pela luta em prol da plena implementação das políticas de ações
afirmativas, o que inclui uma universidade que seja pluriepistêmica.
O caminho que trilhamos nos trouxe ao oportuno encontro com a Revista Pós e a ideia
do Caderno Virgínia Bicudo, ao qual nos somamos orgulhosamente em mais um número para
juntas multiplicarmos sementes de esperança. A parceria com a Revista Pós nos recorda de
como nossa luta se faz mesmo na coletividade, nas parcerias, no aquilombamento de quem se
compromete a não dar nem um passo atrás na luta antirracista. Ao fazer a escolha de construir
mais um número do Caderno Virgínia Bicudo, novamente com a participação do Coletivo Zora,
a Revista Pós reforça o seu compromisso com as ações afirmativas e com a participação de
pesquisadoras negras na construção de espaços de produção e divulgação do conhecimento ci-
entífico. Mas não só, ao buscar parceria conosco, reconhece também a urgência de uma produ-
ção acadêmica posicionada e consciente do seu papel político no enfrentamento às muitas faces
do racismo arraigado na sociedade brasileira.
Este número, que carrega o pensamento e o legado de Lélia Gonzalez em seu tema,
“Semeando coragem e invenção junto à Lélia Gonzalez”, nos oportuniza a realizar um encontro
entre três importantes intelectuais negras e também alumiar as maneiras como as suas contri-
buições incidem e reverberam essa nova geração, comprometida com suas agendas políticas e
com a construção de conhecimentos. Lélia, Virgínia e Zora, que abrem os caminhos desta edi-
ção, nos educam e nos formam com muita generosidade. Seus textos, organizados com uma
capacidade exemplar de interlocução com a pessoa leitora, rompem fronteiras temporais e ter-
ritoriais e se consagram, primeiro através de suas próprias complexidades e depois de nossos
esforços em projetá-las, como autoras clássicas do pensamento social e antropológico negros.
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Desse encontro, podemos nos perguntar: quais os elementos conectam Lélia Gonzalez,
Virgínia Bicudo e (por que não?) Zora Hurston? Os esforços pela retirada dessas autoras das
sombras da intelectualidade nas ciências sociais jogam luz não somente nas figuras delas e sua
relevância, mas na materialidade do que aprendemos a nomear como diásporas negras. As três
são grandes intelectuais dessas diásporas. Elas são atravessadas por particularidades subjetivas,
contextuais, temporais e territoriais que, no entanto, se tocam no caminho e se aglutinam a partir
de experiências que não se fiam somente na violência racial, mas nas brechas, fragmentos e nas
tecnologias de vida elaboradas por essas mulheres a partir do encontro, da troca e da ação polí-
tica. A habilidade de pensar as suas experiências como mulheres negras, as famílias e as suas
comunidades é um exercício muito importante que conecta essas três intelectuais.
Para além de terem sido mulheres preocupadas em responder às questões urgentes de
seus próprios tempos, comunidades e contextos, elas tiveram a destreza de elaborar questões
que transbordavam as experiências negras, conectando esse repertório às experiências de outros
grupos racializados e às formas como a branquitude e toda sua sofisticação operaram na orga-
nização da subalternidade e na sublimação de sujeitos não brancos física e intelectualmente.
Imersas em sociedades que até hoje codificam os problemas sociais nas figuras de sujeitos ne-
gros, indígenas e grupos não brancos, construindo arquétipos insolentes e violentos sobre essas
existências, elas implicaram a branquitude nesse processo e, dessa maneira, decodificaram es-
ses arquétipos.
Longe de humanizar essas populações a partir de um território romântico ou de res-
guardá-las em tipos ideais, as autoras abraçaram a contingência e analisaram as experiências
negras na sua inteireza, complexidades e conflitos. Fugindo também de construções narrativas
que aprofundam as habituais violências raciais, elas tiveram o cuidado e a delicadeza de invocar
a humanidade negra como aquela dotada de subjetividade e diferenças, contrariando os arqué-
tipos históricos e insistentes em nos confinar nos signos binários e pejorativos do racismo. Com
elas, aprendemos que o pensamento e a existência podem ser livres, criativos e corajosos, sem
a necessidade de filiação a modos unidimensionais de realização.
Voltando para a incidência do pensamento de Lélia Gonzalez, a autora consagrada nesta
edição, nos deparamos com textos que relembram a multiplicidade presente em seu repertório.
Esta é uma característica que fazemos questão de demarcar. A habilidade de Lélia de se enve-
redar pelos variados temas da sociedade brasileira, conectando-os às conflituosas relações ra-
ciais em nosso país, aparece não só como um elemento que afeta as suas leitoras, mas também
como característica que as mobiliza na escrita, nos seus interesses de pesquisa e nas suas abor-
dagens epistemológicas. Nos textos deste volume, as autoras nos informam os seus exercícios
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de criação e experimentação e, aqui, leitora, você encontrará o pensamento de Lélia em con-
versação com temas que atravessam os quilombos e as questões territoriais no Brasil, processos
de epistemicídio e educação, além de fotografias com olhares e estéticas atentos às relações
raciais e suas interseccionalidades.
Mostrando-se também habilidosas no exercício de escavação - uma espécie de arqueo-
logia do saber, como outrora fez Lélia para entender as nossas matrizes socioculturais formati-
vas, as autoras trouxeram à tona as histórias de outras intelectuais negras que tiveram seu pen-
samento e imagem sublimadas pela branquitude. Como tema desta sessão, a obra de Lélia ga-
nhou destaque e conquistou as graças das intelectuais que se debruçaram sobre o seu pensa-
mento para além do diálogo direto com ele. Isso está expresso nos escritos que tratam das con-
tribuições filosóficas de sua obra, do impacto gerado por ela na academia e de seus diálogos
com a própria Virgínia Bicudo. A partir do consenso de que a sua obra desafia e dilata o cânone
hegemônico, as autoras nos apresentaram em primeira mão o conjunto de habilidades que Lélia
nos ensinou. Essa dupla direção, de escrever sobre a sua obra e a partir dela, é um demonstrativo
primoroso dos frutos que o florescimento do pensamento de Lélia legaram para a intelectuali-
dade brasileira - e amefricana.
Convidamos a leitora, então, a mergulhar nas ressonâncias do pensamento de Lélia Gon-
zalez umas das muitas vibrações que honramos com muita alegria. Os textos aqui apresenta-
dos percorrem caminhos variados e a diversidade de temas, que podem ser espiados nos
títulos, querida leitora, mostram que o impacto de uma trajetória intelectual e política engajada
resguarda sua característica rizomática. Dizemos isso pois acreditamos que seu pensamento e
as elaborações sobre a sociedade brasileira encontram hoje outros intelectuais e se multiplicam,
criam conexões e incentivam as iniciativas negras a se engajarem na crítica e no combate ao
racismo, em todas as suas dimensões.
Seguindo seus passos, nós, do Coletivo Zora Hurston e o Caderno Virgínia Bicudo vie-
mos mais uma vez em bando, com a expectativa de multiplicar e conectar cada vez mais inte-
lectuais negros, indígenas e pessoas engajadas pelo pensamento da suntuosa e sofisticada inte-
lectual contemporânea brasileira, Lélia Gonzalez! Boa leitura.