CADERNO VIRGÍNIA BICUDO: SEMEANDO CORAGEM E INVENÇÃO JUNTO À LÉLIA GONZALEZ
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Desse encontro, podemos nos perguntar: quais os elementos conectam Lélia Gonzalez,
Virgínia Bicudo e (por que não?) Zora Hurston? Os esforços pela retirada dessas autoras das
sombras da intelectualidade nas ciências sociais jogam luz não somente nas figuras delas e sua
relevância, mas na materialidade do que aprendemos a nomear como diásporas negras. As três
são grandes intelectuais dessas diásporas. Elas são atravessadas por particularidades subjetivas,
contextuais, temporais e territoriais que, no entanto, se tocam no caminho e se aglutinam a partir
de experiências que não se fiam somente na violência racial, mas nas brechas, fragmentos e nas
tecnologias de vida elaboradas por essas mulheres a partir do encontro, da troca e da ação polí-
tica. A habilidade de pensar as suas experiências como mulheres negras, as famílias e as suas
comunidades é um exercício muito importante que conecta essas três intelectuais.
Para além de terem sido mulheres preocupadas em responder às questões urgentes de
seus próprios tempos, comunidades e contextos, elas tiveram a destreza de elaborar questões
que transbordavam as experiências negras, conectando esse repertório às experiências de outros
grupos racializados e às formas como a branquitude e toda sua sofisticação operaram na orga-
nização da subalternidade e na sublimação de sujeitos não brancos – física e intelectualmente.
Imersas em sociedades que até hoje codificam os problemas sociais nas figuras de sujeitos ne-
gros, indígenas e grupos não brancos, construindo arquétipos insolentes e violentos sobre essas
existências, elas implicaram a branquitude nesse processo e, dessa maneira, decodificaram es-
ses arquétipos.
Longe de humanizar essas populações a partir de um território romântico ou de res-
guardá-las em tipos ideais, as autoras abraçaram a contingência e analisaram as experiências
negras na sua inteireza, complexidades e conflitos. Fugindo também de construções narrativas
que aprofundam as habituais violências raciais, elas tiveram o cuidado e a delicadeza de invocar
a humanidade negra como aquela dotada de subjetividade e diferenças, contrariando os arqué-
tipos históricos e insistentes em nos confinar nos signos binários e pejorativos do racismo. Com
elas, aprendemos que o pensamento e a existência podem ser livres, criativos e corajosos, sem
a necessidade de filiação a modos unidimensionais de realização.
Voltando para a incidência do pensamento de Lélia Gonzalez, a autora consagrada nesta
edição, nos deparamos com textos que relembram a multiplicidade presente em seu repertório.
Esta é uma característica que fazemos questão de demarcar. A habilidade de Lélia de se enve-
redar pelos variados temas da sociedade brasileira, conectando-os às conflituosas relações ra-
ciais em nosso país, aparece não só como um elemento que afeta as suas leitoras, mas também
como característica que as mobiliza na escrita, nos seus interesses de pesquisa e nas suas abor-
dagens epistemológicas. Nos textos deste volume, as autoras nos informam os seus exercícios