
133
Gabriel Felipe Silva Coelho e Doiara Silva dos Santos
AMÉRICA LATINA “FORA DO ARMÁRIO”: RESENHA DO LIVRO
“LESBIAN, GAY AND TRANSGENDER ATHLETES IN LATIN AMERICA”
de futebol brasileiro Richarlyson e a opressão de expressões que fogem da masculinidade hegemônica. Ou-
tro capítulo versa sobre práticas, estilo de vida e desigualdades enfrentadas por pessoas LGBT na Colômbia.
A última parte do livro, com o título de “Trangender Issues and Sports”, aborda identidades transgênere
6
,
com reflexões sobre equipes de futebol transmasculinas no Brasil, bem como sobre uma escola criada para
a população transgênere na Argentina. A seguir, destacaremos conteúdos de alguns capítulos que compõem
as três partes.
Recorrentemente, a criação de clubes esportivos LGBT é tratada como uma questão problemática, devido
à interpretação de que eles produzem segregação de identidades. Para Miró e Piedra (2022)
7
, no capítulo
“LGBT Sport Clubs: Origin and Historical Changes in Spain and Latin American”, da primeira parte do livro, a
própria compreensão de que a criação de clubes para gays e lésbicas é uma forma de segregação retrata a
estruturação do preconceito. A autoria argumenta isso contrastando os clubes LGBT com clubes de religi-
ões específicas, por exemplo, que não são vistos como segregadores. Para a autoria, além de não segregar, os
clubes LGBT seriam mais acolhedores à diversidade e pluralidade de identidades.
O ambiente esportivo tradicional produziu uma masculinidade hegemônica que exclui as mulheres e sujei-
tos que fogem do padrão heterocisnormativo
8
, o que faria de lugares como os clubes LGBT mais acolhedo-
res. Todavia, pode ser difícil romper com o cenário hegemônico da heterocisnormatividade se, tanto lésbicas
e gays, quanto transexuais, travestis, pessoas não-binárias, intersexo — as quatro últimas identidades pouco
exploradas na obra — não tiverem espaço no esporte tradicional. Os clubes LGBT são apontados como ins-
trumento de combate à discriminação com relação à diversidade sexual no contexto esportivo, mas, uma
vez que mantêm as pessoas LGBT fora do esporte tradicional, podem não auxiliar no processo de ruptura
da hegemonia da heterocisnormatividade neste contexto. Afinal, direcionando a população LGBT para ou-
tros clubes e competições esportivas, o esporte tradicional continua a ser majoritariamente ocupado por
identidades que reforçam e (re)produzem a heterocisnormatividade de maneira compulsória, resultando
em marginalização dos sujeitos dissonantes.
Na concepção de Jennings (2022), uma questão nas pesquisas que analisam sexualidade dentro do contexto
mexicano está no tratamento da mesma como um problema. Em seu capítulo “Conceptualising Sexuality
Through the Mexican Martial Art of Xilam”, na segunda parte do livro, Jennings(2020) apresenta o objetivo
de tratar sexualidade como fluida e de diferentes possibilidades. Para isso, analisa a arte marcial “Xilam”
9
,
que possui suas próprias perspectivas antropológicas, filosóficas e culturais, e uma relação particular com
gênero e sexualidade. Por influência de uma filosofia Asteca, o Xilam promove a ideia de “remover a pele”
como uma metáfora para a desconstrução de preconceitos encarnados por julgamentos, em prol de uma
compreensão de gênero e sexualidade de maneira fluida e não hierárquica. É uma filosofia que se desenvolve
sob forte influência dos povos pré-hispânicos.
O capítulo em questão traz uma reflexão sobre como sociedades das Américas possuíam uma compreensão
diferente de gênero e sexualidade pré-colonização. Era comum uma ideia de gênero sem existência das di-
visões binárias (que normatizam identidades de gênero em masculino e feminino). Havia seres mitológicos,
posições de poder e símbolos ritualísticos e religiosos importantes para estes povos que se construíam a
partir de uma perspectiva de fluidez de gênero e sexualidade, sem hierarquias. Junto com os povos europeus,
chegaram às Américas o catolicismo e o modelo binário de gênero com a hierarquia entre ideais de masculi-
no e feminino atrelados ao machismo. Nas sociedades modernas, a cultura dos colonizadores se impôs sobre
a cultura de povos pré-hispânicos, instalando-se o preconceito quanto à diversidade sexual e de gênero.
Na segunda parte do livro, o brasileiro Knijnik (2022), no capítulo “More Than a Man: Richarlyson, Ambiguous
and Non-orthodox Masculinities in South American Football”, explora como o então jogador profissional Ri-
charlyson tensionou, ao longo de sua carreira, a heterocisnormatividade e representações masculinas no
futebol. De fato, o futebol no país atuou e atua na produção e reprodução de uma masculinidade hegemônica
6 Para Jesus (2012), “transgênero” é um termo guarda-chuva que engloba identidades como transexuais, travestis, pessoas não binárias e intersexo.
O termo “transgender”, em inglês, como apresentado no livro, é invariável. Nesta resenha, utiliza-se “transgênere” acompanhando formas de resistência
discursiva ao agenciamento identitário, reconhecendo o papel político da linguagem, da perspectiva da Língua Portuguesa brasileira (Borba; Silva,
2024).
7 Todas as referências presentes no corpo do texto são de capítulos da obra resenhada.
8 Diz respeito à imposição da heterossexualidade e identidade cisgênero, ou seja, relacionar-se afetivamente com pessoas de sexo oposto e identifi-
car-se com o gênero atribuído no nascimento. A heterocisnormatividade define identidades hegemônicas como norma e oprime as demais (Carvalho;
Júnior, 2019).
9 O livro apresenta o Xilam como uma arte marcial mexicana desenvolvida nos anos 1990 por Marisela Ugalde, com objetivo de resgatar uma filosofia
pré-colonial. Envolve golpes, agarrões, chaves, chutes, arremessos e uma variedade de armas de estilo pré-hispânico e equipamentos de treinamento
rústicos. A proposta é ser simultaneamente uma arte marcial e um sistema de desenvolvimento humano, em aspectos como energia sexual e a cons-
trução de um México pacífico, inclusivo e não discriminatório.