AMÉRICA LATINA “FORA DO ARMÁRIO”:
RESENHA DO LIVRO “LESBIAN, GAY AND
TRANSGENDER ATHLETES IN LATIN AMERICA”
PIEDRA, Joaquín. Lesbian, gay, and transgender athletes in Latin America. London: Palgrave Macmillan,
2021.
GABRIEL FELIPE SILVA COELHO
1
ORCID: 0009-0003-3653-0724
DOIARA SILVA DOS SANTOS
2
ORCID: 0000-0002-4718-7226
Questões de gênero e diversidade sexual
3
envolvem um grande nível de complexidade, englobando uma sé-
rie de constructos sociais que produziram, historicamente, significações e normatizações. Tais constructos
são atravessados por outros marcadores sociais da diferença que constituem as identidades dos sujeitos em
variados níveis de singularidade como, por exemplo, raça, classe, origem, etc. Marcadores sociais definem
hierarquias e sistemas de opressão sobre as possibilidades de vivência da diversidade sexual e de gênero, e
podem influenciar a significação e a perspectiva dos sujeitos sobre estas questões. Diante disso, as identida-
des latino-americanas, atravessadas por influências do processo colonial sobre a configuração cultural e his-
tórica de seus povos, se constituem a partir de implicações desses fatores sobre as compreensões e vivências
do gênero, sexualidade e diversidade.
Partindo deste contexto, esta resenha tem por objetivo analisar a obra “Lesbian, Gay, and Transgender Athle-
tes in Latin America”, organizado por Joaquín Piedra e Eric Anderson. O livro traz diferentes estudos teóricos
e empíricos sobre gênero e diversidade sexual no contexto esportivo, que abordam como povos de língua
portuguesa e espanhola, especialmente da América Latina, têm significado essas questões diante de uma
tendência geral de “liberalização de atitudes diante de minorias sexuais” que adentra o século XXI (Piedra;
Anderson, 2022, p.1). O livro foi lançado em 2022 pela editora Palgrave Macmillan, parte da Springer Natu-
re, localizada na Suíça. Compõem a autoria, ao todo, 24 pessoas, de universidades das Américas do Sul e do
Norte, como também da Europa, responsáveis pela escrita de 10 capítulos. A obra possui como público-alvo
acadêmicos com interesse em estudos de gênero, sexualidade e esporte, que busquem a perspectiva da Amé-
rica Latina. Até a produção desta resenha, não foram encontradas informações sobre a disponibilidade do
livro em um idioma que não o inglês, o que é paradoxal diante da proposta de visibilizar pesquisas da e sobre
a região, pois, pode limitar a possibilidade de consumo da obra na própria América Latina.
Os 10 capítulos do livro são organizados em três partes. A primeira é “Historical and Sociological Perspecti-
ves”, com temáticas como a existência de clubes LGBT
4
na América Latina e na Espanha, o campo de estudos
sobre diversidade sexual e de gênero no Brasil, e os estágios do processo de inclusão social destes sujeitos em
países como México e Espanha
5
. A segunda parte é intitulada “Sexual Orientation and Sports”, e envolve refle-
xões sobre gênero, sexualidade e práticas corporais pré-hispânicas. Um dos capítulos dedica-se à percepção
dos sujeitos quanto à diversidade sexual no contexto esportivo mexicano, outro dedica-se ao caso do jogador
1 Licenciando em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa, bolsista de iniciação científica do CNPq pelo segundo ano consecutivo e
membro do Laboratório de Estudos Olímpicos e Socioculturais dos Esportes (LEOS). Para além do interesse no campo dos estudos olímpicos, já de-
senvolveu e ainda participa de pesquisas no campo dos estudos de gênero e sexualidade. E-mail: gabriel.f.coelho@ufv.br.
2 Professora Adjunta do Departamento de Educação Física. Professora do Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de
Viçosa. Líder do Laboratório de Estudos Olímpicos e Socioculturais dos Esportes (LEOS). Interesses de pesquisa: estudos socioculturais do esporte e
do Movimento Olímpico, mídia e esporte, política e esporte. E-mail: santosdoiara@ufv.br.
3 Essa é uma tradução livre e literal do termo “sexual diversity”, constantemente utilizado no livro. Nesta resenha, mobilizamos o termo entendendo-o
como parte do conceito de sexualidade.
4 A sigla LGBT refere-se a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero.
5 O livro não define claramente o que e/ou quais países considera como parte da América Latina. Todavia, no desenrolar dos capítulos, dá a entender
que a Espanha é considerada um país à parte, utilizado como complemento para a análise.
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de futebol brasileiro Richarlyson e a opressão de expressões que fogem da masculinidade hegemônica. Ou-
tro capítulo versa sobre práticas, estilo de vida e desigualdades enfrentadas por pessoas LGBT na Colômbia.
A última parte do livro, com o título de “Trangender Issues and Sports”, aborda identidades transgênere
6
,
com reflexões sobre equipes de futebol transmasculinas no Brasil, bem como sobre uma escola criada para
a população transgênere na Argentina. A seguir, destacaremos conteúdos de alguns capítulos que compõem
as três partes.
Recorrentemente, a criação de clubes esportivos LGBT é tratada como uma questão problemática, devido
à interpretação de que eles produzem segregação de identidades. Para Miró e Piedra (2022)
7
, no capítulo
“LGBT Sport Clubs: Origin and Historical Changes in Spain and Latin American”, da primeira parte do livro, a
própria compreensão de que a criação de clubes para gays e lésbicas é uma forma de segregação retrata a
estruturação do preconceito. A autoria argumenta isso contrastando os clubes LGBT com clubes de religi-
ões específicas, por exemplo, que não são vistos como segregadores. Para a autoria, além de não segregar, os
clubes LGBT seriam mais acolhedores à diversidade e pluralidade de identidades.
O ambiente esportivo tradicional produziu uma masculinidade hegemônica que exclui as mulheres e sujei-
tos que fogem do padrão heterocisnormativo
8
, o que faria de lugares como os clubes LGBT mais acolhedo-
res. Todavia, pode ser difícil romper com o cenário hegemônico da heterocisnormatividade se, tanto lésbicas
e gays, quanto transexuais, travestis, pessoas não-binárias, intersexo — as quatro últimas identidades pouco
exploradas na obra — não tiverem espaço no esporte tradicional. Os clubes LGBT são apontados como ins-
trumento de combate à discriminação com relação à diversidade sexual no contexto esportivo, mas, uma
vez que mantêm as pessoas LGBT fora do esporte tradicional, podem não auxiliar no processo de ruptura
da hegemonia da heterocisnormatividade neste contexto. Afinal, direcionando a população LGBT para ou-
tros clubes e competições esportivas, o esporte tradicional continua a ser majoritariamente ocupado por
identidades que reforçam e (re)produzem a heterocisnormatividade de maneira compulsória, resultando
em marginalização dos sujeitos dissonantes.
Na concepção de Jennings (2022), uma questão nas pesquisas que analisam sexualidade dentro do contexto
mexicano está no tratamento da mesma como um problema. Em seu capítulo “Conceptualising Sexuality
Through the Mexican Martial Art of Xilam”, na segunda parte do livro, Jennings(2020) apresenta o objetivo
de tratar sexualidade como fluida e de diferentes possibilidades. Para isso, analisa a arte marcial “Xilam”
9
,
que possui suas próprias perspectivas antropológicas, filosóficas e culturais, e uma relação particular com
gênero e sexualidade. Por influência de uma filosofia Asteca, o Xilam promove a ideia de “remover a pele”
como uma metáfora para a desconstrução de preconceitos encarnados por julgamentos, em prol de uma
compreensão de gênero e sexualidade de maneira fluida e não hierárquica. É uma filosofia que se desenvolve
sob forte influência dos povos pré-hispânicos.
O capítulo em questão traz uma reflexão sobre como sociedades das Américas possuíam uma compreensão
diferente de gênero e sexualidade pré-colonização. Era comum uma ideia de gênero sem existência das di-
visões binárias (que normatizam identidades de gênero em masculino e feminino). Havia seres mitológicos,
posições de poder e símbolos ritualísticos e religiosos importantes para estes povos que se construíam a
partir de uma perspectiva de fluidez de gênero e sexualidade, sem hierarquias. Junto com os povos europeus,
chegaram às Américas o catolicismo e o modelo binário de gênero com a hierarquia entre ideais de masculi-
no e feminino atrelados ao machismo. Nas sociedades modernas, a cultura dos colonizadores se impôs sobre
a cultura de povos pré-hispânicos, instalando-se o preconceito quanto à diversidade sexual e de gênero.
Na segunda parte do livro, o brasileiro Knijnik (2022), no capítulo “More Than a Man: Richarlyson, Ambiguous
and Non-orthodox Masculinities in South American Football”, explora como o então jogador profissional Ri-
charlyson tensionou, ao longo de sua carreira, a heterocisnormatividade e representações masculinas no
futebol. De fato, o futebol no país atuou e atua na produção e reprodução de uma masculinidade hegemônica
6 Para Jesus (2012), “transgênero” é um termo guarda-chuva que engloba identidades como transexuais, travestis, pessoas não binárias e intersexo.
O termo “transgender”, em inglês, como apresentado no livro, é invariável. Nesta resenha, utiliza-se “transgênere” acompanhando formas de resistência
discursiva ao agenciamento identitário, reconhecendo o papel político da linguagem, da perspectiva da Língua Portuguesa brasileira (Borba; Silva,
2024).
7 Todas as referências presentes no corpo do texto são de capítulos da obra resenhada.
8 Diz respeito à imposição da heterossexualidade e identidade cisgênero, ou seja, relacionar-se afetivamente com pessoas de sexo oposto e identifi-
car-se com o gênero atribuído no nascimento. A heterocisnormatividade define identidades hegemônicas como norma e oprime as demais (Carvalho;
Júnior, 2019).
9 O livro apresenta o Xilam como uma arte marcial mexicana desenvolvida nos anos 1990 por Marisela Ugalde, com objetivo de resgatar uma filosofia
pré-colonial. Envolve golpes, agarrões, chaves, chutes, arremessos e uma variedade de armas de estilo pré-hispânico e equipamentos de treinamento
rústicos. A proposta é ser simultaneamente uma arte marcial e um sistema de desenvolvimento humano, em aspectos como energia sexual e a cons-
trução de um México pacífico, inclusivo e não discriminatório.
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que opera na perspectiva de excluir outras expressões. Essa exclusão não se limita a pessoas homossexuais e pro-
duz homofobia contra homens que manifestam corporalmente expressões que desafiam estereótipos e norma-
tividades de gênero. O ex-jogador brasileiro, Richarlyson
10
, viu a sua carreira ser atravessada por homofobia e
preconceito, inclusive, por parte de torcedores de equipes em que atuou. Richarlyson viveu episódios de homofo-
bia, com cânticos e gritos de torcedores e opressão quanto aos seus comportamentos e manifestações da sua cor-
poreidade. Parte dos ataques que sofreu em sua carreira ocorreu na sua passagem pelo São Paulo Futebol Clube,
este que foi associado historicamente a uma associação de homens de uma classe elitista, o que produziu estigmas
sobre masculinidades menos viris e, a partir disso, foi estigmatizado como um clube de gays nas rivalidades entre
torcidas, exacerbadas nas décadas de 1990 e anos 2000 (Martins; De Assunção, 2019). Em um ambiente que, his-
toricamente, despreza as mulheres e supervaloriza estereótipos de virilidade e força, Richarlyson sofreu precon-
ceito ao não performar estas características. Para a autoria do capítulo, ao ocupar espaço no futebol, Richarlyson,
assim como outras masculinidades que não se encaixam no padrão heterocisnormativo, desafiam a hegemonia
constituída e tendem a ser resistência, contribuindo para o desenvolvimento da ideia de fluidez de gênero.
Na parte final do livro, dois capítulos tratam a respeito da discussão sobre pessoas transgênere nos esportes. Um
deles é intitulado “Trans Masculinities on the Sport Courts of Brazil, ‘The Country of Football’”, de Silvestrin e Fer-
nández-Vaz (2022). O texto trata a respeito de clubes de futebol formados por homens transexuais. Entretanto, a
autoria pondera sobre a problemática de que clubes LGBT não tensionam a heterocisnormatividade presente nos
esportes tradicionais. O contexto esportivo tradicional é um ambiente hostil para pessoas transexuais, que tem
sua elegibilidade constantemente negada no contexto esportivo. Toda essa hostilidade faz com que clubes espe-
cíficos para pessoas transexuais surjam como uma possibilidade para criar um ambiente esportivo que permita
a visibilidade, socialização desses sujeitos, um ambiente seguro de prática e afirmação de identidades coletivas e
individuais.
Silvestrin e Fernández-Vaz (2022) pesquisaram a inserção de clubes transmasculinos no contexto de competi-
ções LGBT mais abrangentes. A partir de observações participantes em alguns clubes de futebol transmasculinos
brasileiros, encontraram que, para sobreviver no ambiente esportivo, alguns homens transexuais reproduziram
lógicas da masculinidade hegemônica, com expressões de violência, agressividade e ofensas verbais relacionados
a uma mesma cultura que oprime a própria transexualidade masculina.
Noutra perspectiva, a autoria destaca casos de transfobia praticados por homens homossexuais contra homens
transexuais, em uma competição esportiva LGBT que visava celebrar a diversidade. Atletas homens gays inferio-
rizaram um clube transmasculino que participava da competição, proferindo que o time era composto por “mu-
lheres” e que, por isso, eram esportivamente inferiores. Este caso expõe que nem sempre clubes e competições
LGBT são mais acolhedoras à diversidade.
O tema transgeneridade está em uma porção muito pequena da obra. Os textos compactam as identidades LGBT
em gays e lésbicas, mostrando que ainda há uma invisibilização quanto às demais identidades, inclusive no con-
texto acadêmico. Tratar de questões de gênero e sexualidade a partir da perspectiva da América Latina é enri-
quecedor para a análise, entretanto, produções científicas e obras futuras devem expandir suas temáticas para
contemplar um arcabouço de possibilidades de manifestação do gênero e da sexualidade. Em alguns momentos,
os capítulos do livro tratam países da América do Norte (especificamente Canadá e Estados Unidos) e Europa
(Reino Unido e Espanha) como modelos de desenvolvimento e precursores no que diz respeito a avanços quanto
à denominada “liberalização” sobre questões de gênero e sexualidade, reproduzindo uma lógica de hierarquia.
A obra contribui para colocar em pauta perspectivas da América Latina sobre significações de gênero e sexua-
lidade no contexto da produção científica internacional. Assim como esta, outras referências devem fomentar a
valorização e visibilidade de perspectivas epistêmicas latino-americanas sobre gênero, sexualidade e esporte e
tensionar implicações do colonialismo. Assim, reconhecendo noções hegemônicas de poder operadas pelo norte
global nas sociedades (consequências do processo de colonização dos países do sul global), será possível somar
para contextualizar o tema em diferentes níveis de singularidade e subjetivação.
Ademais, a obra colabora para circular e valorizar saberes, práticas e perspectivas da denominada América Lati-
na. Ao trazer capítulos que operam análises a partir de diferentes níveis de singularidade, contribui para pluralizar
o debate de gênero e identidades em um espectro internacional, ancorando-se em experiências, atores e manifes-
tações esportivas que expressam crenças, atitudes e valores próprios, agregando ao campo de conhecimento que
articula as Ciências Sociais, o esporte e os estudos de gênero. A obra ressalta tematizações emergentes que podem
impulsionar pesquisas para captar e pensar mais realidades e expressões de gênero e esporte nas diferentes so-
ciedades.
10 Em 2022, Richarlyson declarou ser bisexual e se tornou o primeiro jogador abertamente LGBT a participar da série A do campeonato brasileiro e
a ter jogado pela seleção brasileira.
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Gabriel Felipe Silva Coelho e Doiara Silva dos Santos
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“LESBIAN, GAY AND TRANSGENDER ATHLETES IN LATIN AMERICA”
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PIEDRA, J.; ANDERSON, E. Lesbian, Gay, and Transgender Athletes in Latin America. Cham: Springer
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