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João Paulo Siqueira
CONTEXTO PRA LÁ, CONTEXTO PRA CÁ: CONTRIBUIÇÕES ANTROPOLÓGICAS
PARA A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS-PSICOTERAPEUTAS
Fica claro, com isso, que existe uma ambiguidade na utilização de contexto, mas, quando o objetivo é dar o
sentido mais amplo, o complemento “social” é usado; porém, quando não há complemento, parece associar-
-se ao sentido de ambiente ou circunstância, como se esse fosse o sentido normal, carecendo de especificação
somente quando desvia do objetivo absoluto. Assim como as etnopsis, que incluem o prefixo etno aos saberes
psi, indicando que estes não englobam o etno em seu uso normal, sendo necessário detalhar quando o fazem.
Isso pode ser uma expressão, conforme sistematizado por Karin Knorr-Cetina (1991), da relação constituin-
te da ciência moderna, no sentido da recusa ou dissimulação do contexto em seu sentido sociocultural.
“O contexto da ciência, seja pessoal, social ou mais amplamente cultural, é normalmente considerado irrelevante para uma
compreensão filosófica adequada da ciência” (Giere 1988, p. 3). Este comentário é interessante não apenas porque mostra até
que ponto a filosofia considera a ciência sinônimo de racionalidade, mas também porque mostra toda a força com que a racio-
nalidade é vista como sinônimo de procedimento sem contexto, sem textura. Na filosofia da ciência, a racionalidade é caracte-
risticamente configurada contra o ‘contexto’ em um arranjo centro-periferia, com a racionalidade percebida como estando no
centro da conduta de interesse (...) A visão de que ‘contexto’, ‘sociedade’ ou ‘cultura’ está à margem da ciência/conhecimento e
que a questão é, na melhor das hipóteses, como domínios que ‘afetam’ o procedimento cientificamente racional é estranhamen-
te auto-restritivo na medida em que ignora como determinante externo de algo que é puro método científico ou puro pensa-
mento, mas como parte da organização interna e desempenho dos procedimentos de desenvolvimento e base de conhecimento
(Knorr-Cetina, 1991, p. 106-107).
Este fundamento científico diz respeito ao seu contexto sociocultural de estruturação, pois, como afirma o
teórico decolonial Enrique Dussel (2005), as bases epistemológicas da ciência moderna estão enraizadas em
um determinado território e momento histórico, em que a colonização se mostra fundante no pensamento,
na experiência e nas teorizações filosóficas que deram base para o surgimento da ciência moderna. A exem-
plo disso, Dussel cita a filosofia cartesiana, que compreendia o poder do pensamento/racionalidade a partir
da lógica onipresente da divindade cristã e por meio de um universalismo.
É, então, a partir desta matriz ontoepistêmica, nos termos de Denise Ferreira da Silva (2022), que analiso
como o uso de contexto aparece no PPC de forma esvaziada em termos socioculturais. Para além da ausên-
cia nos documentos, esta dinâmica de silenciamento do contexto sociocultural já foi identificada na prática
psicoterapêutica de psicólogos e psiquiatras, na etnografia de Alexandre Pereira (2020), junto a um ambula-
tório transcultural para imigrantes-refugiadas em São Paulo. Os resultados dessa pesquisa mostram como o
ideal universalista do sofrimento psíquico opera na prática de psicólogos e psiquiatras, sobretudo em termos
epistemológicos, não só no âmbito dos livros utilizados como referência bibliográfica no curso, mas também
na compreensão dos relatos trazidos pelas pacientes, as quais eram analisadas por meio de um manual uni-
versal de transtornos mentais. Os argumentos do autor apontam para a caracterização da psicoterapêutica
centrada na assimilação psi, nos termos de Fanon e Azoulay ([1954] 2020):
Reflexivamente, o psiquiatra adota a política da assimilação. O autóctone não tem necessidade de ser compreendido em sua
originalidade cultural. O esforço tem de ser feito pelo “nativo”, que tem todo o interesse em se assemelhar ao tipo de homem que
lhe é proposto. A assimilação, nesse caso, não implica reciprocidade de perspectivas. Há toda uma cultura que deve desaparecer
em benefício de outra (Fanon; Azoulay [1954] 2020, p. 143).
Nesse sentido, o relato das imigrantes-refugiadas era tomado como fictício, escamoteando uma raiz noso-
gráfica biomédica universal “que não era um modelo explicativo, mas explicação. Se era biologia, não era
cultura: apenas era” (Pereira, 2020, p. 147). Ainda segundo o autor, as bases epistemológicas eram aplicadas
nos tratamentos e também assumidas e performadas pelos profissionais, ou seja, entendiam-se como agen-
tes universais e aculturais da ciência, ao passo que as imigrantes-refugiadas eram tidas como hiperculturais,
prescindindo de uma hierarquia — também característica simbólica da ciência moderna.
De acordo com Pereira (2020), era bastante comum a falta de adesão das imigrantes-refugiadas aos trata-
mentos em saúde mental, dado esse que não tensionava a equipe de saúde a repensar os métodos e técnicas
utilizados, mas acabava por imputar às pacientes uma falta de comprometimento, reforçando o estereótipo
de que imigrantes e minorias raciais seriam pacientes problemáticos — algo já assinalado por Frantz Fanon
([1976] 2020) e pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN/MS) brasileira de
2009.
Dessa forma, evidencia-se o emudecimento dessas imigrantes-refugiadas atendidas pelos serviços: essas pessoas e seus proble-
mas tornam-se antes as interpretações que as profissionais que povoam esses espaços fazem delas, do que o que elas mesmas
acreditam que sejam - assim, as interpretações tornam-se mais reais que as pessoas. Os saltos interpretativos são próprios de
um multiculturalismo condescendente que não acha que deve escutar as pessoas antes de formular juízos de verdade sobre elas
e, ainda que as escute, faz-se ouvidos moucos: o autismo cultura é antes uma condição projetada sobre imigrantes-refugiadas do
que algo que ela produz internamente a suas estruturas biológicas e/ ou psicológicas (Pereira, 2020, p. 140).