CONTEXTO PRA LÁ, CONTEXTO PRA CÁ:
CONTRIBUIÇÕES ANTROPOLÓGICAS PARA A
FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS-PSICOTERAPEUTAS
Context here, context there: anthropological
contributions to the training of psychologist-psychotherapists
Contexto por aquí, contexto por allá: contribuciones antropológicas
a la formación de psicólogos-psicoterapeutas
JOÃO PAULO SIQUEIRA
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ORCID: 0000-0002-6154-1324
RESUMO
Este artigo pretende discutir possíveis contribuições da ciência antropológica para a formação de psicólogos,
em especial no que se refere à atenção ao contexto sociocultural para um cuidado racializado em saúde mental.
Como recorte de uma investigação etnográfica de maior escala, junto a um grupo de estágio e serviço de
psicoterapia racializada, analiso os documentos que regem a formação de psicólogos em uma universidade
do Centro-Oeste brasileiro, especificamente o Projeto Pedagógico do Curso de Psicologia (PPC). Na análise
desse documento, identifiquei determinadas imposições de significação, como na demasiada utilização da
palavra “contexto”, usada de forma ambígua, ora referindo-se a ambiente, ora como sinônimo de cultura.
A partir dessa identificação, argumento que determinados dispositivos ético-metodológicos – como a
desnaturalização, levar o outro a sério e o relativismo – são características da antropologia e podem contribuir
para a formação de profissionais da saúde mental. Portanto, aposto na antropologia enquanto disposição
reflexiva, que não oferece respostas manualísticas, mas que pode gerar perguntas transformadoras, para
potencializar a comunicação entre alteridades, a mediação diplomática entre mundos e um cuidado em
saúde mental que ressoe com o contexto sociocultural, que seria, então, racializado.
Palavras-chave: cuidado racializado; antropologia da ciência; antropologia da saúde; saberes psi;
etnografia com documentos.
ABSTRACT
This article aims to discuss possible contributions of anthropological science to the training of psychologists,
especially regarding attention to the sociocultural context for racialized mental health care. As part of a
larger ethnographic investigation with a psychology internship group and a racialized psychotherapy
service, I analyze the documents that govern the training of psychologists at a university in the Central-
West region of Brazil, specifically the Psychology Course Pedagogical Project (PPC). In the analysis of this
document, I identified certain impositions of meaning, such as the excessive use of the word “context,” used
ambiguously—sometimes referring to environment, sometimes as a synonym for culture. Based on this
identification, I argue that certain ethical-methodological tools—such as denaturalization, taking the other
seriously, and relativism—are characteristics of anthropology and can contribute to the training of mental
health professionals. Therefore, I bet on anthropology as a reflexive disposition that does not offer manual-
like answers but can generate transformative questions, enhancing communication between alterities,
1 Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Bacharel em Psicologia pela mesma universidade. Integra o laboratório de
pesquisa em Antropologia e Saúde Coletiva (CASCA) do PPGAS/UnB. Tem experiência de pesquisa sobre relações raciais e étnicas, saúde e racismo,
formação de psicólogos, além de processos de subjetivação e decolonialidade. E-mail: joaop.307@gmail.com
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PARA A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS-PSICOTERAPEUTAS
diplomatic mediation between worlds, and mental health care that resonates with the sociocultural context—
which would then be racialized.
Keywords: racialized care; anthropology of science; anthropology of health; psychological
knowledge; ethnography with documents.
RESUMEN
Este artículo pretende discutir posibles aportes de la ciencia antropológica a la formación de psicólogos,
especialmente en lo que se refiere a la atención al contexto sociocultural para un cuidado racializado en salud
mental. Como recorte de una investigación etnográfica de mayor escala, realizada con un grupo de prácticas
y un servicio de psicoterapia racializada, analizo los documentos que rigen la formación de psicólogos en
una universidad de la región Centro-Oeste de Brasil, específicamente el Proyecto Pedagógico del Curso de
Psicología (PPC). En el análisis de dicho documento, identifiqué ciertas imposiciones de significación, como
el uso excesivo de la palabra “contexto”, utilizada de forma ambigua—en ocasiones refiriéndose al entorno,
en otras como sinónimo de cultura. A partir de esta identificación, sostengo que ciertos dispositivos ético-
metodológicos—como la desnaturalización, tomar al otro en serio y el relativismo—son características
propias de la antropología y pueden contribuir a la formación de profesionales de la salud mental. Por lo tanto,
apuesto por la antropología como una disposición reflexiva que no ofrece respuestas manualísticas, sino que
puede generar preguntas transformadoras, potenciando la comunicación entre alteridades, la mediación
diplomática entre mundos y un cuidado en salud mental que resuene con el contexto sociocultural, que sería,
entonces, racializado.
Palabras clave: cuidado racializado; antropología de la ciencia; antropología de la salud; saberes
psicológicos; etnografía con documentos.
INTRODUÇÃO
“A sua cabeça pensa a partir do lugar onde estão fincados os seus pés.”
(Conceição Evaristo, 2017, 3’56’’ em O ponto de partida da escrita)
A partir de investigação etnográfica junto ao Sankofa, um grupo de estágio e serviço de psicoterapia
racializada para universitários negros, discuto a formação de psicólogos para atenderem demandas raciais
na clínica psicológica. O recorte escolhido para este artigo foi a discussão de documentos que regem a
formação de psicólogos em uma universidade do Centro-Oeste brasileiro. Especificamente, analisei o
Projeto Pedagógico do Curso de Psicologia (PPC), instituído em 2014, como parte da etnografia realizada
em 2023. A discussão a seguir tem como mote a identificação e o estranhamento de um determinado padrão
de significação imposto ao documento, a saber: a frequente e ambígua utilização da palavra contexto, tomada
como princípio explicativo.
O PPC define, em âmbito local, princípios e compromissos; competências e habilidades gerais; eixos
estruturantes; ênfases curriculares e orientações nos âmbitos do ensino, pesquisa e estágio para o curso de
Psicologia. Nesse sentido, elenco este documento como artefato etnográfico para compreender a perspectiva
da Ciência e do Estado a respeito da formação de profissionais da saúde mental (Lowenkron; Ferreira,
2014), o qual foi elaborado e aplicado por docentes, cientistas e, ao mesmo tempo, servidores do Estado,
constituídos de subjetividade, raça, política, gênero, desejo e, portanto, de ciência. Isto posto, argumento que
o PPC não só delineou uma específica formação, mas produziu experiências, realidades e profissionais que
se formaram sob a égide deste.
No PPC, documento com quase 150 laudas, a palavra contexto foi mobilizada em 78 oportunidades. Embora a
palavra contexto pareça não necessitar de detalhamento em seu significado, identifiquei que o sentido do uso
é diferente a depender do referencial teórico utilizado, podendo referir-se às variáveis ambientais, alinhadas
a uma tradição psicológica cognitivista da aprendizagem (Ingold, 2010); como também se aproximar
de uma noção de contexto mais ampla, nos termos socioculturais e estruturantes, como assumido pela
decolonialidade (Bernardino-Costa et al., 2018) ou pelas etnopsis, a saber: etnopsicologia, etnopsicanálise e
etnopsiquiatria (Scorsolini-Comin; Bairrão, 2023).
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O estranhamento do contexto, enquanto categoria, foi fruto de minhas primeiras análises dos documentos,
pois, ao encontrar essa palavra, assumi, tacitamente, o seu sentido como sinônimo de sociocultural. Esse
significado, contudo, não ressoava necessariamente com o sentido imposto no documento. Nessa empreitada
etnográfica de constantes aproximações e distanciamentos, vejo que essa naturalização muito se deu por ter
me graduado em Psicologia, sendo muito influenciado pelas etnopsis e pela decolonialidade.
De forma comum, as etnopsis apropriam-se de reflexões da Antropologia para fundamentar o entendimento
de contexto sociocultural enquanto estruturante dos processos de subjetivação, sofrimento e saúde mental
e, assim, balizar suas intervenções (Siqueira, 2024). Estas surgiram como propostas alternativas diante da
inabilidade do enfoque biomédico no cuidado de grupos sociais fora do padrão eurocêntrico, especialmente
imigrantes-refugiados (Pereira, 2020).
A exemplo disso, apresentarei duas pesquisas que indicam a potencialidade do encontro entre os saberes psi e a
Antropologia para um cuidado racializado em saúde mental e, portanto, contextualizado socioculturalmente.
As pesquisas a serem discutidas são a colaboração entre Frantz Fanon e Jacques Azoulay ([1954] 2020),
psiquiatras atuantes num hospital psiquiátrico na Argélia, e a de Alexandre Pereira (2020), antropólogo
num ambulatório transcultural no Brasil. Em ambas as investigações, a Antropologia se mostrou como
importante recurso ético-metodológico para a capacitação de profissionais da saúde, sobretudo psiquiatras
e psicólogos. Especialmente ao tensionar as bases ontoepistêmicas dos saberes psi, como o etnocentrismo,
o cognitivismo biológico e a desterritorialização, fortalecendo, assim, os serviços e gerando maior adesão,
autonomia e compreensão integral.
Isto posto, argumento que a palavra contexto utilizada no PPC, sob um sentido cognitivista, denega as
relações raciais e os aspectos socioculturais. Dinâmica característica do racismo à brasileira (Gonzalez,
1984), já identificada na prática de profissionais da saúde e gestores do Estado, nos termos de resistência,
silenciamento e recusa à racialização (Milanezi; Silva, 2019). Diante disso, compreendo que essa resistência à
racialização permeou a produção dos documentos que orientam a formação analisada. Portanto, aposto no
diálogo com a Antropologia, munida de seus dispositivos ético-metodológicos — como a desnaturalização,
levar o outro a sério e a contra-hegemonia — enquanto possibilidade de ressignificação nestes termos; não
mediante respostas prontas, mas por meio da elaboração de outras perguntas (Ingold, 2019).
1. O PPC: PARA QUÊ? POR QUEM? O QUE GERA? A PARTIR DE QUAL REFERENCIAL
TEÓRICO?
Este artigo é resultante da minha pesquisa de mestrado (Siqueira de Araújo, 2024). Durante o ano de 2023,
dediquei-me a investigar a formação de psicólogos por meio da etnografia, isto é, uma disposição teórico-
metodológica de escuta, convivência e abertura para a aprendizagem no processo de pesquisa; um modo de
relação (Ingold, 2019). Acompanhei o cotidiano do Sankofa e sua relação institucional com a Clínica-Escola
que o abrigava, mas, sobretudo, seus itinerários formativos para educar psicólogos-psicoterapeutas para
uma escuta racializada. Para isso, realizei observações participantes das reuniões de supervisão e eventos
do grupo, bem como empreendi entrevistas com seus participantes e membros da instituição de ensino,
contabilizando quase 20 interlocutoras.
Os documentos surgiram como importante objeto de análise, justamente ao identificar que estes eram
utilizados para justificar normas e condutas. Ao mesmo tempo, compreendi que produziam realidades
formativas e construíam determinados profissionais (Freire, 2022). Diante disso, tomei como objeto de
análise o documento que impunha uma formação específica aos graduandos em Psicologia: o Projeto
Pedagógico do Curso de Psicologia.
O PPC vigente deste curso de Psicologia foi elaborado em 2012 e implementado em 2014. Com quase 150
páginas, contou com um grupo de trabalho dedicado à sua elaboração, composto por um docente pertencente
a cada um dos quatro departamentos do curso, bem como um representante da Clínica-Escola, associado ao
Instituto de Psicologia, e um presidente; sendo cinco mulheres e um homem, todos heteroidentificados por
mim como brancos. Nenhum deles, à época, possuía formação ou produção sobre relações raciais.
Esse grupo de trabalho realizou a revisão do currículo anterior e, pareado às Diretrizes Curriculares Nacionais
para os cursos de graduação em Psicologia (DCN), delimitou os Eixos Estruturantes, Competências e
Habilidades desejadas para a formação de profissionais. Ademais, o PPC foi apresentado e revisado por
diferentes instâncias institucionais, como outros grupos de trabalho, conselhos internos, colegiados e
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decanatos, para sua posterior aprovação. No entanto, parece ter havido pouco diálogo com os discentes,
especialmente em termos deliberativos: o documento indica que eles foram informados, mas que não
tiveram participação decisiva no processo de elaboração dos documentos.
O projeto pedagógico é um documento destinado à estruturação de uma proposta curricular e, no caso deste
documento analisado, sua revisão teve como objetivo adequá-lo às demandas científicas, mercadológicas
e sociais, apontando competências e habilidades necessárias para a formação de psicólogos para atuação
profissional nos âmbitos supracitados e com orientação ética segundo os preceitos do Código de Ética da
profissão. O PPC inicia-se com a descrição histórica da universidade, do instituto e de seus departamentos,
bem como dos laboratórios e linhas de pesquisa em vigor à época. Apresenta a reestruturação curricular e o
planejamento acadêmico — em especial, destaco a preconização de determinadas habilidades e competências
a serem desenvolvidas por meio do currículo.
Habilidades e competências são termos polifônicos que dependem do referencial teórico que orienta o seu uso.
No PPC da universidade, esses termos referenciam e partem de um viés estadunidense da psicologia cognitiva
aplicada ao ambiente organizacional (Abbad; Borges-Andrade, 2014), no qual se entende habilidades como a
capacidade de “saber como fazer” determinadas atividades, e competências como a aplicação bem-sucedida
de conhecimentos, habilidades e atitudes. Assim, categorizam as habilidades como pré-requisitos para o
desenvolvimento de competências, indicando uma noção específica de aprendizado baseada nas ciências
cognitivas estadunidenses (Ingold, 2010).
De modo mais amplo, na pesquisa etnográfica, foi por meio da identificação dessas habilidades e competências
que compreendi a potencialidade de contrastar — ou melhor, inter-relacionar — o delineado e o aplicado,
entre o documento e o cotidiano, no que se refere à escolha de determinados aspectos em detrimento de
outros, especificamente no currículo. Dessa forma, em diálogo com as interlocutoras que viveram a formação
produzida por esse PPC, as habilidades e competências preconizadas não indicavam, de forma focalizada,
a atenção às relações raciais. Benedita, interlocutora membro do Sankofa e graduada em Psicologia entre
2011 e 2018, destacou que a desatenção epistemológica detectada nos documentos influenciava diretamente
os aspectos praxiológicos, configurando uma espécie de “ciclo vicioso”, ao relacionar que a denegação
do racismo na formação teórica produziria um enfoque desracializado nas intervenções profissionais.
Acompanhemos a sua fala:
Quando comecei o curso de Psicologia, em 2011, me assustou o quanto não se falava sobre o racismo. Lembro que a gente
tinha uma matéria chamada “Psicologia: Ciência e Profissão” e, nela, se falava de diversas abordagens e um pouco do fazer
do psicólogo e tudo, mas eu pensava: “Gente, por que ninguém está preocupado com a saúde mental das pessoas pretas? Por
que a galera só fala de vulnerabilidade [socioeconômica], como se isso fosse suficiente para explicar como essas pessoas estão
adoecidas ou não?” Então, comecei a questionar isso logo no início e, rapidamente, entendi que a saúde mental da população
negra não era algo que fizesse parte das preocupações do que estava sendo transmitido (Benedita, entrevista concedida ao
autor, 2023).
Como recorte deste artigo, percebi que o estranhamento com a repetição do termo contexto ocorreu
justamente na descrição das habilidades e competências, ao tomá-lo como sinônimo de sociocultural e, assim,
interpretar que as diretrizes preconizavam a compreensão das relações de poder estruturantes da sociedade
brasileira. A título de exemplo, apresento as habilidades e competências que devem ser desenvolvidas por
meio do currículo, especialmente aquelas que mobilizam a categoria contexto. Primeiro, as habilidades: das
sete definidas, três utilizam o termo.
(1) Analisar variáveis contextuais sobre as quais o psicólogo atua;
(2) Selecionar, aplicar e avaliar instrumentos e procedimentos de avaliação conforme o contexto de atuação;
(3) Selecionar, aplicar e interpretar instrumentos e procedimentos de intervenção psicológica conforme o contexto de atuação
(PPC de psicologia da universidade investigada, grifo meu).
No que se refere às competências, três das dez listadas podem ser associadas ao recorte, são elas:
(a) Realizar intervenções psicológicas de acordo com as características do contexto e do problema;
(b) Atuar em diferentes contextos promovendo a saúde e a qualidade de vida de pessoas;
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(c) Atuar em diferentes contextos promovendo o desenvolvimento e a inserção no mundo do trabalho de pessoas, grupos,
organizações e comunidades (PPC de psicologia da universidade investigada, grifo meu).
Nos exemplos citados, a palavra contexto ora se associa ao contexto profissional, ora a variáveis mais
amplas, mas sem a focalização em aspectos raciais ou socioculturais, gerando entendimentos ambíguos e,
por vezes, inócuos. Como discutirei na próxima seção, compreendo que esse descolamento ou denegação
das questões raciais e socioculturais nos documentos está relacionado às bases ontoepistêmicas das ciências
psi e aos fundamentos do racismo no Brasil, reverberando na atenção à saúde mental e em suas intervenções.
Considero o potencial dos recursos ético-metodológicos da Antropologia para mediar tal distanciamento, de
forma sensível e provocativa (FLEISCHER et al., 2014).
2. CONTEXTO! (MAS PARA QUEM?)
A palavra contexto foi utilizada 78 vezes no PPC, um documento com quase 150 laudas. Ao mapear essa
repetição, constatei dois movimentos em minha análise: 1) propor o estranhamento ao que me era familiar;
e 2) entender que a repetição não é aleatória, ou seja, havia um sentido. Pude perceber minha interpretação
não como algo universal, compartilhado por todos, mas como um entendimento particular, atravessado por
influências teóricas. Diante disso, visei identificar e investigar os sentidos do uso presentes no documento a
respeito dessa palavra.
Embora contexto pareça não necessitar de detalhamento em seu significado, o sentido de seu uso varia a
depender do ponto de partida (para quem? A partir de onde?). Em uma rápida busca no Google sobre o
termo, encontrei, no Dicionário Online de Português, a seguinte definição: “relação de dependência entre as
situações que estão ligadas a um fato ou circunstância” (grifo meu). A fim de comparar, também busquei a
definição em dicionários estadunidenses, pois, como já discutido, esse país é o grande centro de produção
e divulgação histórica da Psicologia Científica e exerce grande influência no cenário estudado. Segundo o
Collins Dictionary, a palavra context é utilizada da seguinte maneira: “the context of an idea or event is the
general situation that relates to it, and which helps it to be understood” (grifo meu). Desse modo, parece
haver um entendimento diferencial na intensidade da influência do contexto, pois, na definição brasileira, a
palavra mobilizada foi “dependência”; já o dicionário estadunidense utilizou “helps”.
A análise etimológica e linguística não é o centro da discussão, ainda que possa contribuir para o entendimento.
A minha compreensão de contexto, nessa dimensão aplicada cientificamente, prescinde do acompanhamento
das palavras “social” e “cultural”, ou melhor, da junção destas em “sociocultural”, atribuindo ao termo
o sentido de pano de fundo organizativo das ideias, valores e práticas de determinada formação social,
constituída historicamente. Sendo assim, meu entendimento de contexto é automaticamente um sinônimo
de “cultura”, em consonância com as etnopsis, que a compreendem enquanto sistema simbólico que permite
interpretar e organizar a experiência do mundo, do corpo e das relações sociais de forma coletiva (Moro,
2010).
No entanto, conforme citado, no PPC há a indicação do referencial teórico que embasa o entendimento dos
processos de aprendizagem e subjetivação, estando alinhado a uma perspectiva da psicologia organizacional
estadunidense (Abbad; Borges-Andrade, 2014), de matriz cognitivista, como categoriza Ingold (2010). Nessa
perspectiva, hegemônica na universidade investigada, contexto é facilmente tomado como ambiente, numa
aproximação com o entendimento biológico sobre ambiente — isto é, o microcenário que circunda, como
oposição ao interno —, mas sem necessariamente explorar o macro, o sociocultural.
Sendo assim, discerni que, no PPC, o uso da palavra contexto servia, com maior frequência, como sinônimo
de situação ou circunstância de ação profissional, numa dimensão micro das relações interpessoais, com
vistas a operacionalizar as habilidades de proatividade e criatividade frente às adversidades que constituem
as intervenções. Dessa forma, há uma separabilidade entre o uso de contexto e as demandas sociais, como
listado nas habilidades e competências. No entanto, na descrição de um dos eixos estruturantes do currículo,
o eixo “H”, a palavra contexto remete à necessidade de se considerar os fenômenos humanos e sociais para
garantir uma atenção integral:
H) Interfaces com campos afins do conhecimento: fenômenos Humanos e Sociais para demarcar a natureza e a especificidade
do fenômeno psicológico e percebê-lo em sua interação com fenômenos humanos e sociais, assegurando uma compreensão
integral e contextualizada dos fenômenos e processos psicológicos (PPC de psicologia da universidade investigada, grifo meu).
2
2 De forma curiosa, embora haja essa preconização por interface com os aspectos humanos e sociais, não há uma obrigatoriedade de cursar discipli-
nas centradas na discussão destes fenômenos sociais, essencialmente próximos da sociologia e antropologia. Dado esse que, conforme discutirei mais
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Fica claro, com isso, que existe uma ambiguidade na utilização de contexto, mas, quando o objetivo é dar o
sentido mais amplo, o complemento “social” é usado; porém, quando não há complemento, parece associar-
se ao sentido de ambiente ou circunstância, como se esse fosse o sentido normal, carecendo de especificação
somente quando desvia do objetivo absoluto. Assim como as etnopsis, que incluem o prefixo etno aos saberes
psi, indicando que estes não englobam o etno em seu uso normal, sendo necessário detalhar quando o fazem.
Isso pode ser uma expressão, conforme sistematizado por Karin Knorr-Cetina (1991), da relação constituinte
da ciência moderna, no sentido da recusa ou dissimulação do contexto em seu sentido sociocultural.
“O contexto da ciência, seja pessoal, social ou mais amplamente cultural, é normalmente considerado irrelevante para uma
compreensão filosófica adequada da ciência” (Giere 1988, p. 3). Este comentário é interessante não apenas porque mostra
até que ponto a filosofia considera a ciência sinônimo de racionalidade, mas também porque mostra toda a força com que
a racionalidade é vista como sinônimo de procedimento sem contexto, sem textura. Na filosofia da ciência, a racionalidade
é caracteristicamente configurada contra o ‘contexto’ em um arranjo centro-periferia, com a racionalidade percebida como
estando no centro da conduta de interesse (...) A visão de que ‘contexto’, ‘sociedade’ ou ‘cultura’ está à margem da ciência/
conhecimento e que a questão é, na melhor das hipóteses, como domínios que ‘afetam’ o procedimento cientificamente racional
é estranhamente auto-restritivo na medida em que ignora como determinante externo de algo que é puro método científico ou
puro pensamento, mas como parte da organização interna e desempenho dos procedimentos de desenvolvimento e base de
conhecimento (Knorr-Cetina, 1991, p. 106-107).
Este fundamento científico diz respeito ao seu contexto sociocultural de estruturação, pois, como afirma o
teórico decolonial Enrique Dussel (2005), as bases epistemológicas da ciência moderna estão enraizadas em
um determinado território e momento histórico, em que a colonização se mostra fundante no pensamento,
na experiência e nas teorizações filosóficas que deram base para o surgimento da ciência moderna. A exemplo
disso, Dussel cita a filosofia cartesiana, que compreendia o poder do pensamento/racionalidade a partir da
lógica onipresente da divindade cristã e por meio de um universalismo.
É, então, a partir desta matriz ontoepistêmica, nos termos de Denise Ferreira da Silva (2022), que analiso
como o uso de contexto aparece no PPC de forma esvaziada em termos socioculturais. Para além da
ausência nos documentos, esta dinâmica de silenciamento do contexto sociocultural já foi identificada na
prática psicoterapêutica de psicólogos e psiquiatras, na etnografia de Alexandre Pereira (2020), junto a um
ambulatório transcultural para imigrantes-refugiadas em São Paulo. Os resultados dessa pesquisa mostram
como o ideal universalista do sofrimento psíquico opera na prática de psicólogos e psiquiatras, sobretudo
em termos epistemológicos, não só no âmbito dos livros utilizados como referência bibliográfica no curso,
mas também na compreensão dos relatos trazidos pelas pacientes, as quais eram analisadas por meio de
um manual universal de transtornos mentais. Os argumentos do autor apontam para a caracterização da
psicoterapêutica centrada na assimilação psi, nos termos de Fanon e Azoulay ([1954] 2020):
Reflexivamente, o psiquiatra adota a política da assimilação. O autóctone não tem necessidade de ser compreendido em sua
originalidade cultural. O esforço tem de ser feito pelo “nativo”, que tem todo o interesse em se assemelhar ao tipo de homem que
lhe é proposto. A assimilação, nesse caso, não implica reciprocidade de perspectivas. Há toda uma cultura que deve desaparecer
em benefício de outra (Fanon; Azoulay [1954] 2020, p. 143).
Nesse sentido, o relato das imigrantes-refugiadas era tomado como fictício, escamoteando uma raiz
nosográfica biomédica universal “que não era um modelo explicativo, mas explicação. Se era biologia, não
era cultura: apenas era” (Pereira, 2020, p. 147). Ainda segundo o autor, as bases epistemológicas eram
aplicadas nos tratamentos e também assumidas e performadas pelos profissionais, ou seja, entendiam-se
como agentes universais e aculturais da ciência, ao passo que as imigrantes-refugiadas eram tidas como
hiperculturais, prescindindo de uma hierarquia — também característica simbólica da ciência moderna.
De acordo com Pereira (2020), era bastante comum a falta de adesão das imigrantes-refugiadas aos
tratamentos em saúde mental, dado esse que não tensionava a equipe de saúde a repensar os métodos e
técnicas utilizados, mas acabava por imputar às pacientes uma falta de comprometimento, reforçando o
estereótipo de que imigrantes e minorias raciais seriam pacientes problemáticos — algo já assinalado por
Frantz Fanon ([1976] 2020) e pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN/MS)
brasileira de 2009.
Dessa forma, evidencia-se o emudecimento dessas imigrantes-refugiadas atendidas pelos serviços: essas pessoas e seus
problemas tornam-se antes as interpretações que as profissionais que povoam esses espaços fazem delas, do que o que elas
mesmas acreditam que sejam - assim, as interpretações tornam-se mais reais que as pessoas. Os saltos interpretativos são
próprios de um multiculturalismo condescendente que não acha que deve escutar as pessoas antes de formular juízos de verdade
sobre elas e, ainda que as escute, faz-se ouvidos moucos: o autismo cultura é antes uma condição projetada sobre imigrantes-
refugiadas do que algo que ela produz internamente a suas estruturas biológicas e/ ou psicológicas (Pereira, 2020, p. 140).
adiante, dificulta o encontro com as demandas do território no qual a psicologia será aplicada.
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Nesse sentido, argumento que este universalismo e descontextualização sociocultural se caracterizam como
uma violência em saúde. Realidade essa já relatada em outro país do Sul Global, na qual Frantz Fanon ([1954]
2020), em coautoria com Jacques Azoulay, descreveram a ineficiência de extrapolar métodos e técnicas
psicoterapêuticos de um determinado contexto sociocultural para serem aplicados em outro — a saber, a
técnica francesa de socioterapia em sujeitos argelinos.
Em 1954, os autores atuavam como médicos-psiquiatras a serviço da França na conjuntura colonial
sobre a Argélia, em um hospital psiquiátrico que possuía alas separadas por gênero e nacionalidade. Eles
identificaram a eficácia da socioterapia e da ergoterapia (terapia ocupacional) na ala de mulheres europeias,
propondo encontros semanais de caráter artístico, laboral e lúdico, que, somados às psicoterapias, se
mostraram bastante eficazes — interpretação embasada no aumento das altas médicas, diminuição do uso
de equipamentos de contenção e em indicadores gerais de qualidade comunitária de vida. Diante do sucesso
desse método, tentaram aplicá-lo na outra ala, a de homens muçulmanos.
O objetivo era criar cooperação comunitária e potencializar a sociabilidade; contudo, foi um fracasso. Os
autores constataram que isso ocorreu justamente porque os processos de socialização, endoculturação e
subjetivação constroem noções de saúde, doença e terapêuticas específicas e fincadas numa determinada
matriz sociocultural. Isto é, não se trata de noções universais, mas particulares. No entanto, por meio da
colonização e do imperialismo, a compreensão específica oeste-europeia foi imposta como ideal a outros
contextos.
Para chegar a essas conclusões, Fanon e Azoulay ([1954] 2020) realizaram uma investigação etnográfica
junto aos seus pacientes e seus territórios, identificando origens, valores e costumes, e descobrindo uma
significativa diversidade étnica entre eles. Diante disso, apontaram as razões para o fracasso da extrapolação
psicoterapêutica: a linguagem falada era distinta entre o psiquiatra e o paciente; e, como o diagnóstico
psiquiátrico se dá pela linguagem, é necessária a compreensão do patrimônio afetivo e cultural da sociedade
à qual o sujeito está inscrito.
Além disso, as intervenções artísticas propostas, como teatro, coral, confecção de jornais e cinema, não
faziam sentido fora do contexto sociocultural europeu, assim como, em termos lúdicos, as brincadeiras
ensinadas em ambientes escolares não eram compartilhadas por crianças árabes, que nesse período da
vida dedicam-se à atividade do pastoreio. Ainda, de forma genérica, a ergoterapia junto à terra mostrou-se
profícua por associar-se ao vivido pelos sujeitos muçulmanos:
[No] hospital psiquiátrico, pode-se tentar organizar ateliês de ráfia, tecelagem ou cerâmica. Mas seria melhor, ao que parece,
confiar tais trabalhos às pacientes mulheres [europeias]. Para os homens [muçulmanos], é preciso partir de predisposições mais
genéricas e mais arraigadas na personalidade do paciente - constatamos isso com os delirantes e mesmo com os catatônicos.
Basta lhes dar uma pá ou uma enxada para que se ponham a carpir e a roçar, sem que haja nenhuma necessidade de incentivá-
los a isso. Esses camponeses são próximos à terra, têm um vínculo com ela. E, se conseguirmos atrelá-los a um lote de terra
específico, despertar neles o interesse pelo produto do cultivo, então o trabalho será genuinamente um fator de reequilíbrio;
essa ergoterapia poderá ser inserida numa atividade social específica (Fanon; Azoulay, [1954] 2020, p. 151).
A partir da importação dos operadores terapêuticos da cultura dos pacientes, como festejos, alimentos e
histórias tradicionais, Fanon e Azoulay identificaram maior adesão às atividades e à vivência comunitária,
ou seja, maior adesão ao tratamento psicoterapêutico. A importação desses operadores terapêuticos é uma
das premissas fundantes das etnopsis, ou abordagens transculturais, e o que todas elas têm em comum é a
estreita relação com os saberes e fazeres da antropologia (Siqueira; Vieira; Lima, 2021).
Inclusive, no referido estudo de Fanon e Azoulay ([1954] 2020), os autores diagnosticam que os erros
da universalização terapêutica ocorreram devido à falta de integração dos saberes da antropologia
contemporânea e que, a partir da utilização desses saberes, foi possível promover intervenções
psicoterapêuticas eficazes. Conforme sistematizado por Claude Lévi-Strauss em A Eficácia Simbólica,
“o universo simbólico do homem organiza-se pela cultura, e mostra que, quando existe coerência entre
o internalizado pelo sujeito e a intervenção à qual ele é submetido, a eficácia se comprova” (Lévi-Strauss,
[1949] 2008, p. 206).
Nesse sentido, a inserção das ciências sociais, sobretudo da antropologia, mostra-se fundamental para a
formação de profissionais da saúde, pois, conforme apontam as pesquisadoras dos estudos sociais de ciência
e tecnologia Kristin Asdal e Ingunn Moser (2012), as ciências sociais se caracterizam como dependentes
do contexto e promovem o esforço de contextualização no diálogo com outras ciências — algo também
assinalado pela tradição brasileira da antropologia da saúde (Langdon, 2014). A etnografia de Alexandre
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Pereira (2020) demonstra não só a importância do uso da antropologia na formação teórica de profissionais
da saúde mental, mas sobretudo sua potencialidade na prática cotidiana dos serviços de saúde, seja nos
momentos preliminares do cuidado, como no acolhimento dos pacientes, ou no pós-atendimento, na
discussão coletiva dos casos.
Os dados que fundamentam essa indicação estão no relato etnográfico do autor enquanto antropólogo
voluntário em um ambulatório de psiquiatria transcultural, no qual era demandado a ensinar, como docente,
sobre o contexto cultural e social para a equipe de saúde e para os profissionais em formação. Assim, a
antropologia se mostrou um importante insumo teórico-metodológico em termos formativos, ao promover
habilidades de reflexão, contextualização e escuta para os profissionais, diminuindo estereótipos, exotização
e etnocentrismo intrínsecos aos saberes psi e otimizando a comunicação (Siqueira, 2024).
Ainda que tais valências tenham sido reconhecidas na formação teórica, Pereira relata que, na prática, ao
compor o serviço de saúde, as intervenções dos antropólogos incomodavam os profissionais da saúde,
sobretudo os psicólogos, muito por conta do jogo hierárquico entre a psicologia e a psiquiatria. Anteriormente
ao ingresso dos antropólogos, as contribuições transculturais vinham dos psicólogos, pois estes teriam
uma formação teoricamente mais próxima dos aspectos socioculturais quando comparados aos médicos-
psiquiatras, o que, no cotidiano, se materializou em posturas resistentes a feedbacks. Sendo assim, o autor
percebeu que, embora os saberes antropológicos efetivamente contribuíssem para os serviços de saúde e
o cuidado integral em saúde mental, havia variáveis contextuais — macro e micro — que limitavam suas
contribuições, a saber: uma ontoepisteme fundamentalmente etnocêntrica e hierárquica, além da introjeção
desses valores na performance dos profissionais, bem como querelas relacionadas a disputas de mercado.
Dessa forma, os antropólogos, na prática, eram vistos como tradutores da cultura para o sujeito poder ser
mais facilmente assimilado psiquicamente:
[...] A antropóloga deveria ajudar, portanto, na limpeza dessa camada externa acessória de modo que médicas e psicólogas
pudessem desempenhar seu ofício da mesma forma que faziam com as “sem cultura”, ou seja, com aquelas que não eram
consideradas alteridades radicais e que “compreendiam” a - e não acreditavam na - clivagem epistêmica entre as elaborações
feitas por médicas e psicólogas e aquelas feitas pelas pacientes imigrantes-refugiadas (Pereira, 2020, p. 135).
Portanto, Pereira notou a tentativa de romper com os princípios éticos de uma antropologia implicada no
que tange a levar o sujeito a sério, incentivar a mediação diplomática entre mundos, tensionar saberes em
suas bases ontológicas e epistemológicas e, sobretudo, contextualizar socioculturalmente o sujeito. Caso
esse rompimento fosse concretizado, todas essas potencialidades seriam anuladas e invertidas, sendo
colocadas a serviço da biomedicina de forma acrítica e sem diálogo, contribuindo assim para a assimilação e
dominação — algo que não é novidade na antropologia, muito pelo contrário.
3. ENTRE A CIÊNCIA E A SAÚDE MENTAL, O RACISMO. MAS QUAL RACISMO?
Além de uma característica ontoepistêmica dos saberes psi, o silenciamento do contexto sociocultural está
relacionado à forma como o racismo é reproduzido no Brasil, sobretudo como negação das desigualdades
raciais (Gonzalez, 1984), as quais são constituintes do contexto sociocultural. No caso do PPC, identifico
que a estratégia de mobilizar o termo “contexto” funciona como um encobrimento da categoria “raça”, uma
negação similar àquelas historicamente feitas por meio do suposto englobamento de categorias maiores,
como “classe” ou o “social”. E, conforme o uso frequente do termo no documento, com o sentido inócuo que
lhe é atribuído, ele se mostra insuficiente para promover a atenção às demandas raciais; isto é, “contexto”
não engloba as relações raciais.
Segundo Joaze Bernardino-Costa (2022), as dinâmicas raciais brasileiras foram moldadas, por meio da
ideologia da democracia racial, para o antirracialismo — uma recusa moral de especificar as pessoas a partir
de sua raça/cor. No entanto, ainda segundo o autor, o antirracialismo não enfraquece o racismo, mas o torna
mais sofisticado ao reforçar sua capilaridade, sendo uma estratégia de negação criada para a manutenção
dos privilégios da branquitude. O caminho preconizado pelo autor e pelos movimentos negros brasileiros é
a racialização da realidade, ou seja, nomear e utilizar o pertencimento racial como categoria historicamente
construída para evidenciar que as desigualdades foram esculpidas a partir dela. Assim, pleitear políticas
públicas de reparação, pois entende-se que, para tratar um problema, é preciso reconhecê-lo previamente.
Nesse sentido, como uma proposta histórica da ideologia nacional, a ideia da democracia racial foi um
mote para os processos de subjetivação dos brasileiros, sobretudo para aqueles nascidos no último
século, quando essa ideologia possuía maior força. Essas pessoas, hoje adultas, gerem, delineiam o Estado
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e aplicam suas políticas. No cenário das políticas públicas de saúde, Milanezi e Silva (2019) argumentam
que esse antirracialismo se materializa no comportamento dos profissionais, por meio da interdição e do
silenciamento da raça, da ausência de procedimentos e da resistência ao conhecimento.
De forma similar, analiso que o referido PPC foi delineado sob um viés antirracialista, esculpido por docentes
que também são gestores — brancos, com formação e produção científica insipientes no que tange às relações
raciais — e por meio dos quais foi construída uma formação específica. Segundo Damasceno e Zanello (2022),
a ausência das relações raciais na formação tem produzido psicoterapeutas que negligenciam tais relações
em suas práticas profissionais, chegando a não considerar o racismo como produtor de sofrimento psíquico.
Ao mesmo tempo, sinalizo que esses docentes gestores também foram formados por um currículo
antirracialista, o que indica que a reprodução dessa lógica não é uma falha pessoal, mas um dado das
dinâmicas raciais no Brasil, em suas complexidades e ausências presentes (Rosa, 2024). Da mesma forma,
embora tenha identificado a ausência de disciplinas sobre relações raciais no PPC durante a pesquisa, fui
informado, em entrevista, sobre uma reformulação do PPC, indicando que haveria uma disciplina optativa
de Psicologia e Relações Étnico-Raciais e que o antirracismo estaria transversalmente presente nessa
reformulação. Ou seja, currículos e agentes estão em movimento.
A necessidade de uma formação racializada, ou racialista, está estabelecida na literatura científica das
ciências humanas e da saúde, considerando que o racismo histórico promove sintomas atuais em suas
vítimas, desde a alienação subjetiva (Fanon, 2020), o não pertencimento (Souza, 2020) e a diminuição da
autoeficácia (Siqueira; Ramos, 2021), até o adoecimento em transtornos mentais (Williams et al., 2019). Em
uma revisão sistemática sobre raça/cor e transtornos mentais no Brasil, realizada por Jenny Smolen e Edna
Araújo (2017), identificou-se maior prevalência ou risco de transtornos mentais em pessoas não-brancas
quando comparadas aos brancos brasileiros.
Na perspectiva do cientista social estadunidense David R. Williams, a exposição ao estresse é o mecanismo
causal da prevalência de transtornos mentais em não-brancos, no que ele denominou “estresse
discriminatório” (Williams et al., 1997). Segundo os autores, existe uma articulação entre os aspectos
socioculturais e biológicos-químicos no estresse psicossocial gerado pelo racismo no organismo, como na
“calcificação das artérias coronárias, desregulação do cortisol e maior estresse oxidativo” (Lewis et al., 2015,
p. 4, tradução minha).
Para o também estadunidense Robert Carter (2007), os efeitos do racismo assemelham-se aos sintomas do
Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Análise corroborada pelos brasileiros Lucas Oliveira e Julia
Carvalho (2024) que, a partir de uma leitura fanoniana da sociogênese do racismo, indicam a possibilidade
de categorizar o racismo como “trauma vicário” constituinte do TEPT. Ou seja, a frequente exposição às
violências cotidianas do racismo, seja contra seus pares ou contra si, pode “gerar expressões psíquicas,
emocionais e comportamentais que podem ser caracterizadas dentro do TEPT” (Oliveira; Carvalho, 2024,
p. 362).
Nesse sentido, diante da necessidade de se racializar a formação e do potencial contextualizador da
antropologia discutido aqui, argumento que o fato de o PPC não aplicar o pilar temático interdisciplinar com
as ciências sociais para a formação de psicólogos-psicoterapeutas contribui para a negação das dinâmicas
socioculturais, dentre elas as raciais. Entretanto, não compreendo que a simples institucionalização de um
pilar temático, em interface com as ciências sociais, garanta um letramento racial crítico das desigualdades,
pois isso depende de vários fatores, como a própria formação do docente e a perspectiva política que este
adota. Ademais, nem todo conhecimento produzido pelas ciências sociais fundamenta uma leitura crítica,
implicada e equitativa da realidade social; muito pelo contrário, alguns cientistas sociais contribuíram para a
estigmatização e discriminação de minorias sociais, conforme sinalizado por Lélia Gonzalez (1984).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A investigação de documentos tem se mostrado uma tradição emergente nos estudos antropológicos e/ou
etnográficos (Freire, 2022). Como parte da etnografia junto a um grupo de estágio e serviço de psicoterapia
vinculado a uma instituição, foi profícuo tomar o PPC de psicologia como artefato etnográfico para a
compreensão da racionalidade do Estado e da Ciência acerca da formação de psicólogos-psicoterapeutas
na universidade investigada (Lowenkron; Ferreira, 2014), mas também enquanto constituído por relações
humanas e como instrumento de conhecimento, poder e segregação (Teixeira; Castilho, 2020). Uma
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das pistas tensionadas ao realizar essa compreensão do documento foi a identificação da constância e a
investigação da naturalização de palavras, especialmente do termo “contexto”. Essa análise ressoou em mim,
pois, enquanto insider — isto é, graduado em psicologia — eu atribuía a esse termo um sentido específico que
não era o mesmo imposto no documento.
Elenco esse estranhamento ao que é familiar como uma das características da antropologia (Velho, 1978).
Além desse clássico exercício, por meio da discussão teórica, sobretudo a partir de Fanon e Azoulay ([1954]
2020) e Pereira (2020), argumento a potencialidade ético-metodológica da antropologia para gerar
reflexividade, não por meio de respostas manualísticas, mas por meio de perguntas, como aquelas que
constituem os três subtítulos: para quê? Por quem? Para quem? O que gera? A partir de qual? Sendo assim,
essas contribuições fundamentam o tensionamento relativista das bases ontoepistêmicas dos saberes psi
(Ingold, 2010) e a compreensão de que os processos de sofrimento e suas expressões são social e localmente
matizados (Langdon, 2014) e, portanto, suas intervenções e tratamentos também devem ser.
Isto posto, há um incentivo para perguntar melhor, escutar mais fundo e conviver com a incerteza (Ingold,
2019). Portanto, enquanto ciência do contexto — sociocultural — (Asdal; Moser, 2012), argumento que esse
diálogo interdisciplinar entre a antropologia e os saberes psi potencializa a comunicação entre alteridades, a
mediação diplomática entre mundos e um cuidado em saúde mental que ressoa com o contexto sociocultural,
que seria, então, racializado.
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