Fazer pesquisa com acadêmicos indígenas da UFRR: a di-fícil tarefa de fazer Antropologia “dos outros” ao mesmo
tempo “de nós mesmos”, os acadêmicos.
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consciência de uma história e experiência em comum, e, aqui, compreendida como um elemento
de luta por direitos, tendo em vista que “as características que são levadas em consideração não
são a soma das diferenças ‘objetivas’ [partilha da mesma língua, religião, território ou história],
mas somente aquelas que os próprios atores consideram significantes” (Barth, 1998, p. 194).
Além de tudo, esse processo "diz respeito à forma como os grupos ou comunidades são imagi-
nadas [em relação aos outros]” (Vermeulen, 2001, p. 85), de modo que é “a fronteira étnica que
define o grupo e não a cultura que ela abrange (Barth, 1998, p. 195). Em meio a esse fenômeno,
encontram-se os povos indígenas Macuxi e Wapichana, agindo por brechas, ou fissuras, exis-
tentes no sistema de dominação, “desjogando” o jogo.
O terceiro capítulo, que recebe o título “A presença indígena na Universidade Federal
de Roraima”, analisa a participação indígena na instituição. Nesse tópico, apresenta-se o perfil
da universidade com base na presença de acadêmicos indígenas nos cursos de graduação da
UFRR. Tais questões permeiam a análise: quem são? Quantos são? Quais cursos fazem? Qual
o número de ingresso por ano? Quantas vagas foram ofertadas? Assim, consideram-se ingresso
por etnia, políticas de permanência e as transformações provocadas na universidade a partir do
ingresso desses acadêmicos. Além disso, o capítulo também reflete sobre a presença do pesqui-
sador no campo, que faz com que ele lance um olhar mais atento sobre as organizações e polí-
ticas indígenas no ensino superior. Ao escutar um dos interlocutores, depreende-se que “a busca
pela formação é assim mobilizada em função da ‘luta’, por meio de cursos universitários que
forneceriam o instrumental necessário para o fortalecimento do movimento, das comunidades
e das lideranças indígenas” (Lisboa, 2022, p. 117).
No capítulo 4 – “Vida de estudantes indígenas” –, a pesquisa lança luz na análise dos aca-
dêmicos no contexto da universidade, da cidade, da família, da militância e da arte. Esses novos
sujeitos sociais provocam transformações ao se relacionarem com o universo da academia, de modo
que sua presença e mudanças não ficam restritas ao espaço físico da universidade. Contudo, a pre-
sença física indígena no campus da UFRR traz o caráter afirmativo de visibilidade da identidade
indígena, possibilitado, em alguma medida, por estarem ligados ao instituto Inskiram.
Neste capítulo, ao priorizar a voz de estudantes indígenas, o autor reflete sobre o prota-
gonismo indígena e seus movimentos acadêmicos e políticos, bem como as formas que intelec-
tuais indígenas contemporâneos refletem e mediam as relações entre os dois universos, o da
comunidade e o da universidade. Com isso, o autor relata seu encontro com o acadêmico Eriki
Aleixo com uma aparente simetria entre eles:
No caso de Eriki, as regras do mundo acadêmico, seus “rituais” e hierarquias, linguagem
científica específica e normas técnicas, seus eventos importantes. No meu caso, as