Fazer pesquisa com acadêmicos indígenas da UFRR: a di-fícil tarefa de fazer Antropologia “dos outros” ao mesmo
tempo “de nós mesmos”, os acadêmicos.
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Fazer pesquisa com acadêmicos indígenas da UFRR: a
difícil tarefa de fazer Antropologia “dos outros” ao
mesmo tempo “de nós mesmos”, os acadêmicos.
LISBOA, João Francisco Kleba. Acadêmicos indígenas em Roraima e a construção da
interculturalidade indígena na Universidade [livro eletrônico]. São Paulo: Bookerfield, 2022.
Rejanne do Carmo Ramos
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ORCID: 0009-0004-2495-878X
Acadêmicos indígenas em Roraima e a construção da interculturalidade indígena na Uni-
versidade é fruto da pesquisa de doutorado de João Francisco Kleba Lisboa, junto aos acadêmicos
ingenas da Universidade Federal de Roraima estudantes indígenas matriculados ou formados
por esta instituição. A obra trata-se de uma pesquisa sobre povos indígenas do Norte do Brasil,
mas também sobre o ambiente acadêmico, universirio e urbano" (Lisboa, 2022, p.21).
João Francisco Kleba Lisboa é um pesquisador não indígena, membro do conselho da
ERIP Ethnic Relations and Indigenous Peoples, seção da LASA (Latin American Studies
Association) e professor substituto no Departamento de Antropologia da Universidade Fede-
ral do Paraná (DEAN/UFPR). Desde a graduação, Lisboa desenvolve pesquisas sobre os direi-
tos dos povos indígenas. Assim, destacamos que sua pesquisa, que resultou no livro, funda-
menta-se na etnologia indígena e antropologia urbana:
Nas comunidades [...] e entre a maior parte das pessoas com quem conversei, os meus
objetivos tendiam a ser vistos pelos indígenas como algo útil para eles também, uma
vez que esse problema o de jovens indígenas que saem para estudar em uma univer-
sidade configura uma de suas grandes preocupações (mas também é motivo de espe-
rança) nos últimos anos (Lisboa, 2022, p. 36).
Para compreender a construção do processo de luta por direitos à educação dos povos
indígenas, o autor abordou a complexidade inerente a uma pesquisa etnográfica, com o objetivo
de realizar um estudo com os acadêmicos indígenas, e não sobre eles. Outro aspecto que merece
destaque é a interculturalidade, um conceito-chave que permeia a obra, articulado no contexto
do processo de educação escolar e do acesso à universidade pelos povos indígenas, conforme a
perspectiva elaborada pelos próprios acadêmicos indígenas.
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Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação e Contemporaneidade, da Universidade do Estado da
Bahia (PPGEDUC/UNEB), com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CA-
PES). Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e licenciada em
História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). E-mail: rejanner0@gmail.com.
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A obra é organizada em cinco capítulos, além da introdução e das considerações finais,
a saber: 1) “Mito e geografia, história e ciência”; 2) “O movimento indígena em Roraima e a
escolarização”; 3) A presença indígena na Universidade Federal de Roraima”; 4) “Vida de
estudantes indígenas”; e 5) “Formação e transformação: a interculturalidade dos povos indíge-
nas”. Na introdução, o autor situa suas escolhas conceituais e ético-políticas, além de apresentar
o contexto em que se deu o desenvolvimento da pesquisa, englobando parte da sua experiência
e observação na tessitura das aproximações entre Brasília e Boa Vista e suas respectivas insti-
tuições, UnB e UFRR.
Com isso, o autor reflete sobre as transformações nas universidades com a emergência
de novos sujeitos sociais ocupando o espaço acadêmico. Para isso, ele opta pela chave interpre-
tativa da interculturalidade na perspectiva dos acadêmicos indígenas para compreender "por
que os indígenas estão buscando cada vez mais o ensino superior" (Lisboa, 2022, p. 27) e o que
"a universidade tem a oferecer a eles" (2022, p. 27), sendo possível dedicar um espaço da pes-
quisa para apresentar ao leitor um "universo de referências materiais e simbólicas dos povos
indígenas" (Lisboa, 2022, p. 37).
O capítulo 1 “Mito e geografia, história e ciência” recupera alguns mitos e suas
formas de apropriação por não indígenas, discutindo as "formas tradicionais de transmissão do
conhecimento indígenas" (Lisboa, 2022, p. 57), além das noções de temporalidade dos povos
indígenas, que dão sentido a sua própria história e comunicam a simbiose de um conhecimento
transformado violentamente pelo "mundo dos brancos". Nesse capítulo, o diálogo crítico e
insubmisso com a antropologia eurocêntrica e com a inclusão das críticas decoloniais, especi-
almente as contribuições dessa ciência para o colonialismo (Quijano, 2005).
O capítulo 2, intitulado "O movimento indígena em Roraima e a escolarização", aborda
a emergência do movimento indígena contemporâneo e suas articulações na luta por uma edu-
cação indígena diferenciada. Esse movimento chega às universidades não apenas por meio das
políticas de acesso e permanência, mas também pelas transformações provocadas pelos movi-
mentos sociais indígenas na UFRR, como a criação do Curso de Formação Superior de Educa-
ção Intercultural Indígena (2003).
A luta indígena vem acompanhada do fenômeno de tomada de consciência. Para ex-
plicá-lo, Lisboa utiliza o termo etnogênese, que se trata do processo de constante resgate que
os grupos étnicos fazem de partes dos elementos da tradição: “a noção que se depreende é que
a tradição cultural serve, por assim dizer, de ‘porão’, de reservatório onde se irão buscar, à
medida das necessidades no novo meio, traços isolados do todo [...] "(Cunha, 1987, p. 88). A
tradição seria, assim, utilizada para novos fins, como instrumento de reafirmação étnica, de
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consciência de uma história e experiência em comum, e, aqui, compreendida como um elemento
de luta por direitos, tendo em vista que “as características que são levadas em consideração não
são a soma das diferenças ‘objetivas’ [partilha da mesma língua, religião, território ou história],
mas somente aquelas que os próprios atores consideram significantes” (Barth, 1998, p. 194).
Além de tudo, esse processo "diz respeito à forma como os grupos ou comunidades são imagi-
nadas [em relação aos outros]” (Vermeulen, 2001, p. 85), de modo que é a fronteira étnica que
define o grupo e não a cultura que ela abrange (Barth, 1998, p. 195). Em meio a esse fenômeno,
encontram-se os povos indígenas Macuxi e Wapichana, agindo por brechas, ou fissuras, exis-
tentes no sistema de dominação, “desjogando” o jogo.
O terceiro capítulo, que recebe o título “A presença indígena na Universidade Federal
de Roraima”, analisa a participação indígena na instituição. Nesse tópico, apresenta-se o perfil
da universidade com base na presença de acadêmicos indígenas nos cursos de graduação da
UFRR. Tais questões permeiam a análise: quem são? Quantos são? Quais cursos fazem? Qual
o número de ingresso por ano? Quantas vagas foram ofertadas? Assim, consideram-se ingresso
por etnia, políticas de permanência e as transformações provocadas na universidade a partir do
ingresso desses acadêmicos. Além disso, o capítulo também reflete sobre a presença do pesqui-
sador no campo, que faz com que ele lance um olhar mais atento sobre as organizações e polí-
ticas indígenas no ensino superior. Ao escutar um dos interlocutores, depreende-se que a busca
pela formação é assim mobilizada em função da luta’, por meio de cursos universitários que
forneceriam o instrumental necessário para o fortalecimento do movimento, das comunidades
e das lideranças indígenas” (Lisboa, 2022, p. 117).
No capítulo 4 Vida de estudantes ingenas” , a pesquisa laa luz na alise dos aca-
micos no contexto da universidade, da cidade, da falia, da milincia e da arte. Esses novos
sujeitos sociais provocam transformões ao se relacionarem com o universo da academia, de modo
que sua presença e mudaas não ficam restritas ao espaçosico da universidade. Contudo, a pre-
sea sica ingena no campus da UFRR traz o caráter afirmativo de visibilidade da identidade
ingena, possibilitado, em alguma medida, por estarem ligados ao instituto Inskiram.
Neste capítulo, ao priorizar a voz de estudantes indígenas, o autor reflete sobre o prota-
gonismo indígena e seus movimentos acadêmicos e políticos, bem como as formas que intelec-
tuais indígenas contemporâneos refletem e mediam as relações entre os dois universos, o da
comunidade e o da universidade. Com isso, o autor relata seu encontro com o acadêmico Eriki
Aleixo com uma aparente simetria entre eles:
No caso de Eriki, as regras do mundo acadêmico, seus “rituais” e hierarquias, linguagem
científica específica e normas técnicas, seus eventos importantes. No meu caso, as
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regras do movimento indígena, suas organizações, maneiras corretas de falar e se dirigir
aos líderes tradicionais e aos dirigentes, seus eventos importantes (Lisboa, 2022, p. 230).
Isso é observado, ainda, sem a intenção de apagar a assimetria marcadamente manifesta
em Boa Vista e na UFRR, “decorrente de posições coloniais de poder que historicamente sepa-
raram índios e brancos” (p. 230) com posições hierárquicas de subalternização dos povos indí-
genas. Na paisagem da UFRR, a presença e a intervenção de indígenas nesse espaço configuram
um manifesto político de (re)existência. Esse processo resgata o protagonismo exercido por
esses acadêmicos, especialmente na transmissão de conhecimentos tradicionais, na organização
da vida cotidiana, na preservação de artefatos culturais e na valorização dos elementos mitoló-
gicos de diversas etnias, com destaque para os povos Wapixana e Macuxi, em sua interação
intercultural com a academia.
O artista indígena do povo Macuxi, Jaider Esbell, é o autor da obra de arte que ilustra a
capa do livro, intitulada Dignidade e Conhecimento. Em suas palavras, “a arte me leva a lugares
onde eu demoraria muito mais tempo para chegar se fosse de outra forma”. Suas reflexões con-
vidam o leitor a perceber a decolonialidade do olhar, estimulando a construção de um repertório
de experiências visuais múltiplas sobre os povos indígenas. Esse repertório integra narrativas pro-
duzidas sobre e por esses povos, que refletem seus modos de fazer, ser, pensar e estar no mundo.
No quinto e último capítulo, intitulado “Formação e transformação: a interculturalidade
dos povos indígenas”, o autor dialoga com o acadêmico Mário Nicácio, explorando sua traje-
tória e pensamento. A narrativa destaca a materialização das experiências de novos sujeitos
sociais que ingressam nas universidades, construindo utopias possíveis para esses espaços,
como a proposta de uma universidade indígena. Esses sujeitos, forjados nas lutas dos movimen-
tos sociais e engajados em temas socialmente relevantes, são majoritariamente não brancos,
incluindo indígenas, negros, mulheres e pessoas periféricas. Eles vêm promovendo transforma-
ções significativas nas universidades brasileiras, criando e (re)existindo dentro e fora da UFRR,
enquanto fomentam a coexistência de saberes e uma interculturalidade ético-política.
Assim, ao enfatizar as vozes dos acadêmicos indígenas da UFRR, o autor buscou apre-
sentar, na primeira pessoa, a coexistência de saberes e influências diversas (indígenas, urbanas,
acadêmicas, familiares, entre outras) que moldam o olhar e as experiências desses indivíduos
(Lisboa, 2022, p. 289). A obra também provoca reflexões sobre as relações assimétricas entre
indígenas e não indígenas na cidade de Boa Vista, onde as populações indígenas ocupam ma-
joritariamente territórios periféricos, enfrentando um histórico de exploração da mão de obra e
racismo epistêmico. Essas dinâmicas estão associadas à posição de classe, considerando que
"não há cultura étnica isenta da posição de classe" (Vermeulen, 2001, p. 60).
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Referências
BARTH, Fredrik. Grupos Étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-
FENART, Jocelyne. Teorias da etnicidade - edição: Seguido de "Grupos étnicos e suas
fronteiras". São Paulo: UNESP, 1998, p. 185-227.
CUNHA, Manuela Carneiro da. Etnicidade: da cultura residual, mas irredutível. In: CUNHA,
Manuela Carneiro da. Antropologia do Brasil. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (Org.).
A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección
Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina, set. 2005. Dispovel em:
http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf. Acesso em: 6 jun. 2023.
VERMEULEN, Hans. Imigração, integração e a dimensão política da cultura. Lisboa: Edições
Colibri, 2001.
Recebido em 17/07/2024
Aprovado em 13/11/2024
Publicado em 31/12/2024