A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
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dentro das Ciências Sociais e da Antropologia sobre a forma de analisar o Outro (Magnani et
al., 2023). Como se constitui esse sujeito, que é também objeto de uma pesquisa? Magnani et
al. (2023) apontam a construção das relações de estranhamento numa pesquisa social urbana,
já que a imagem do outro – que passa de selvagem, para primitivo, depois para o diferente e,
por fim, se torna minoria – foi sempre vista com a conotação exótica dentro da Antropologia.
Acredito que a questão da formulação dos objetos de estudo, ou seja, os sujeitos, seus
modos de vida e os significados que orientam seu agenciamento cotidiano dentro de uma dinâ-
mica social específica, é muito importante para o debate que constrói a Etnografia Urbana, já
que o seu interesse de pesquisa se desenvolve na mesma cultura da pesquisadora, com indiví-
duos que muitas vezes compartilham a mesma língua, o mesmo sistema político e os mesmos
espaços, dinâmica que exige um refinamento na prática etnográfica voltada para o urbano. Na
visão dos autores:
Quando, porém, seu interesse de pesquisa está situado na sua própria cultura, o movi-
mento é inverso: deve transformar o que lhe parece familiar em exótico. Nesse caso, o
objetivo é produzir um estranhamento, atitude fundamental para dirigir o olhar etnográ-
fico (Magnani et al., 2023, p. 31, grifos dos autores).
As classificações tradicionais da etnografia urbana formuladas por Magnani – pedaço,
mancha, circuito, trajeto e pórtico – traçam as formas de enxergar relações de reconhecimento,
pertencimento e afinidade de indivíduos entre si e com o próprio espaço da cidade. As relações
entre casa e rua e público e privado podem ser destrinchadas a partir da aplicação das classifi-
cações num espaço urbano, já que, por exemplo, tanto as características próprias da casa quanto
as da rua são englobadas na ideia de pedaço. Para Magnani et al. (2023),
De acordo com DaMatta, a casa é o lugar dos parentes, das relações de sangue – descendên-
cia e consanguinidade –, de acolhimento. A rua, lugar do estranho, do diferente e mesmo do
perigo – mas também do imprevisto, de novas oportunidades. Nesse esquema, onde entra o
pedaço? Entre a casa e a rua! Se esta é o lugar do estranho e aquela do parente, o pedaço é
o lugar do chegado. Sem pedir licença, só o parente pode entrar na casa: de outra forma,
intempestiva ou violenta, é a polícia ou o bandido. O chegado pode entrar, porém quando
convidado e em determinadas ocasiões: uma festa, um batizado, casamento, aniversário.
Mas seu lugar, mesmo, é o pedaço, espaço intermediário entre aqueles dois domínios, a casa
e a rua (Magnani et al., 2023, p. 54, grifos dos autores).
A prática etnográfica vai permitir à pesquisadora que empreenda as categorizações em
seu estudo, desde que a preparação para o trabalho de campo – que engloba revisões bibliográ-
ficas e construção do projeto de pesquisa – seja efetuada. A fórmula etnográfica já citada nesta
resenha, “de perto e de dentro”, possibilita à pesquisa a conexão com os interlocutores, a inte-
ração entre os diversos planos de análise de um estudo urbano e a observação desta dinâmica
por meio de seus cenários, atores e regras. Na minha visão, a dinâmica etnográfica proposta é