A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
| 199
A construção da pesquisa etnográfica nos espaços
urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
MAGNANI, José Guilherme Cantor; SPAGGIARI, Enrico; NOGUEIRA, Mariana Hangai Vaz
Guimarães; CHIQUETTO, Rodrigo Valentim; TAMBUCCI. Yuri Bassichetto. Etnografias
Urbanas: quando o campo é a cidade. Petrópolis: Vozes, 2023.
Pedro Henrique Queiroz
1
ORCID: 0009-0005-4428-7482
A obra Etnografias Urbanas: quando o campo é a cidade (2023) faz parte do guarda-
chuva temático dos estudos e publicações vinculados ao Núcleo de Antropologia Urbana da
Universidade de São Paulo (NAU/USP), coordenado pelos docentes Silvana de Souza Nasci-
mento e José Guilherme Cantor Magnani do Departamento de Antropologia da mesma univer-
sidade. Magnani, que possui uma vasta literatura acerca da pesquisa etnográfica em contextos
urbanos, lidera a organização da obra e detalha a evolução da linha de pesquisa em Antropolo-
gia Urbana no Brasil, em especial na USP, seus paradigmas teóricos e formas de classificação,
numa abordagem que se constitui através do “olhar de perto e de dentro” (Magnani, 2002).
Todos os co-autores deste livro são Pesquisadores Associados ao NAU, que fazem ou fizeram
parte do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP e participaram das pes-
quisas etnográficas coletivas descritas ao longo da obra.
Magnani et al. (2023, p. 17) deixam evidente que a intenção do texto não é ser um “ma-
nual de etnografia”, tendo em vista a grande capacidade de atualização que o método possui, o
que evita o emprego de uma rigidez teórica numa abordagem de pesquisa flexível e criativa,
possibilitando sua aplicação em contextos e situações socioculturais distintas. A obra, que é
dividida em três partes e nove capítulos, expressa muito bem o caráter flexível e adaptativo do
método etnográfico, que se desenvolve ao longo do tempo, modificando-se desde a formação
da disciplina antropológica, até a sua consolidação no Brasil e a multiplicidade de interesses e
abordagens específicas nos trabalhos etnográficos mais atuais.
Na primeira parte da obra, os autores levantam a importância das correntes socioantro-
pológicas das Escolas de Chicago e de Manchester na construção dos paradigmas teóricos do
estudo antropológico em contextos urbanos. Esses campos científicos motivaram o surgimento
de novas interpretações e óticas de estudo sobre o meio urbano, renovando os questionamentos
1
Mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (UnB) e cursando a Licenciatura em
Sociologia pelo mesmo departamento, Bacharel em Ciência Política, também pela Universidade de Brasília. Faz
parte do grupo de pesquisa do Observatório das Metrópoles, núcleo de Brasília. E-mail: phqueiroz94@gmail.com.
A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
| 200
dentro das Ciências Sociais e da Antropologia sobre a forma de analisar o Outro (Magnani et
al., 2023). Como se constitui esse sujeito, que é também objeto de uma pesquisa? Magnani et
al. (2023) apontam a construção das relações de estranhamento numa pesquisa social urbana,
que a imagem do outro que passa de selvagem, para primitivo, depois para o diferente e,
por fim, se torna minoria foi sempre vista com a conotação exótica dentro da Antropologia.
Acredito que a questão da formulação dos objetos de estudo, ou seja, os sujeitos, seus
modos de vida e os significados que orientam seu agenciamento cotidiano dentro de uma dinâ-
mica social específica, é muito importante para o debate que constrói a Etnografia Urbana,
que o seu interesse de pesquisa se desenvolve na mesma cultura da pesquisadora, com indiví-
duos que muitas vezes compartilham a mesma ngua, o mesmo sistema político e os mesmos
espaços, dinâmica que exige um refinamento na prática etnográfica voltada para o urbano. Na
visão dos autores:
Quando, porém, seu interesse de pesquisa está situado na sua própria cultura, o movi-
mento é inverso: deve transformar o que lhe parece familiar em exótico. Nesse caso, o
objetivo é produzir um estranhamento, atitude fundamental para dirigir o olhar etnográ-
fico (Magnani et al., 2023, p. 31, grifos dos autores).
As classificações tradicionais da etnografia urbana formuladas por Magnani pedaço,
mancha, circuito, trajeto e pórtico traçam as formas de enxergar relações de reconhecimento,
pertencimento e afinidade de indivíduos entre si e com o próprio espaço da cidade. As relações
entre casa e rua e público e privado podem ser destrinchadas a partir da aplicação das classifi-
cações num espaço urbano, que, por exemplo, tanto as características próprias da casa quanto
as da rua são englobadas na ideia de pedaço. Para Magnani et al. (2023),
De acordo com DaMatta, a casa é o lugar dos parentes, das relações de sangue descendên-
cia e consanguinidade , de acolhimento. A rua, lugar do estranho, do diferente e mesmo do
perigo mas também do imprevisto, de novas oportunidades. Nesse esquema, onde entra o
pedaço? Entre a casa e a rua! Se esta é o lugar do estranho e aquela do parente, o pedaço é
o lugar do chegado. Sem pedir licença, só o parente pode entrar na casa: de outra forma,
intempestiva ou violenta, é a pocia ou o bandido. O chegado pode entrar, pom quando
convidado e em determinadas ocasiões: uma festa, um batizado, casamento, aniversário.
Mas seu lugar, mesmo, é o pedaço, espaço intermediário entre aqueles dois domínios, a casa
e a rua (Magnani et al., 2023, p. 54, grifos dos autores).
A prática etnográfica vai permitir à pesquisadora que empreenda as categorizações em
seu estudo, desde que a preparação para o trabalho de campo que engloba revisões bibliográ-
ficas e construção do projeto de pesquisa seja efetuada. A fórmula etnográfica já citada nesta
resenha, “de perto e de dentro”, possibilita à pesquisa a conexão com os interlocutores, a inte-
ração entre os diversos planos de análise de um estudo urbano e a observação desta dinâmica
por meio de seus cenários, atores e regras. Na minha visão, a dinâmica etnográfica proposta é
A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
| 201
essencial na construção de uma pesquisa social urbana, tendo em vista as peculiaridades que
esse tipo de estudo enfrenta. A orientação do olhar, que se posiciona num intermediário ideal
no continuum macro-micro, é essencial numa etnografia que propõe um estudo nem tão abran-
gente, genérico, nem tão específico, restrito (Magnani et al., 2023, pp. 65-67).
A obra apresenta experiências de pesquisa etnográfica coletiva empreendidas pelo NAU
em parceria com instituições públicas e outros grupos de pesquisa. É importante destacar tais
pesquisas, pois elas contam com uma profundidade empírica e teórica impressionantes, carac-
terísticas que não são simples de se encaixar numa iniciativa de pesquisa em grupo. Magnani
et al. (2023, pp. 169-171) explicam que a pesquisa individual é a forma de pesquisar mais co-
mum na Antropologia, ao ponto da própria área científica priorizar pesquisas individuais.
Apesar disso, os estudos sociais e etnográficos produzidos no Brasil já davam espaço a
essa prática científica grupal, como no “Projeto Vale do São Francisco” – uma parceria entre a
Universidade de Chicago e a Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP) da Universidade de
São Paulo na década de 1950 (Maio et al., 2013) e o “Projeto Columbia University Estado
da Bahia”, que, liderado por Anísio Teixeira e Charles Wagley, foi um estudo que visava a
analisar os contextos da educação e da saúde na Bahia na década de 1940 (Magalhães et al.,
2014). Esses são exemplos de estudos de comunidade que não apenas motivaram o trabalho
coletivo de pesquisa antropológica e etnográfica entre estudantes e professores brasileiros e
estadunidenses, mas também contribuíram para a institucionalização da área científica (Mag-
nani et al., 2023).
No âmbito do NAU, as etnografias coletivas são incentivadas e se tornaram estudos
acadêmicos e sociais bem sucedidos. É o caso da EtnOcupação, ocorrida em 2007, que mesclou
prática etnográfica com militância estudantil, acompanhando a ocupação da reitoria da USP e
do Grupo de Etnologia Urbana (GEU) parceria entre o NAU e a Universidade Federal do
Amazonas (UFAM) , que empreendeu algumas pesquisas etnográficas com coletivos indíge-
nas na região de Manaus e a partir de cidades que se localizam ao longo do Rio Solimões.
Outra experiência de etnografia coletiva marcante empreendida pelo NAU foi a pesquisa
“Cultura e lazer: as práticas culturais dos frequentadores do Sesc em São Paulo”, que analisou,
em duas etapas, um total de 14 unidades do Sesc em São Paulo, na capital, no litoral e no interior
paulistas. A magnitude da pesquisa necessitou do trabalho coletivo de coleta de dados nos es-
paços dos Sesc, que teve o objetivo de
[...] entender as motivações dos frequentadores em sua procura pelas atividades e servi-
ços oferecidos nas diferentes unidades Sesc no Estado de São Paulo, que estão presentes
em diferentes contextos urbanos.” (Magnani et al., 2023, p. 210).
A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
| 202
Dessa forma, o estudo demandou uma preparação maior e a aplicação mais aprofundada
dos procedimentos prévios da pesquisa. Essa etnografia contou com quatro etapas, a etapa pi-
loto, que elaborou os protocolos de pesquisa coletiva, a etapa pré-campo, traçando o planeja-
mento estratégico do estudo, a etapa do trabalho de campo, na qual os protocolos são aplicados
e o olhar “de perto e de dentro” é colocado em ação, e a etapa pós-campo, na qual os relatos de
campo são consolidados, analisados e formalizados nos relatórios de campo, produzindo um
grande volume de informação e dados qualitativos.
A pesquisa buscou compreender o espaço que as unidades do Sesc ocupam na cidade e no
imaginário coletivo dos seus frequentadores, abordando temáticas como cultura, esporte, lazer e
sociabilidade, identificando uma série deunidades de sentido” (Magnani et al., 2023, p. 219) que
o aplicadas por funcionários e frequentadores dos Sesc, o que auxiliou na alise dos significados
que são atribuídos ao Sesc e suas dinâmicas cotidianas. Com um esforço coletivo de pesquisa, foi
possível aumentar o escopo de abrangência do estudo, cobrindo mais unidades do Sesc, consequen-
temente mais regiões e realidades sociais diferentes em que o Sesc está presente, trazendo um as-
pecto de totalidade para a pesquisa, sem perder o detalhamento, característica central de uma etno-
grafia. Pesquisas como essa são importantes para compreender melhor as relações que os moradores
de grandes cidades e regiões metropolitanas mantêm com os espos da cidade e como eles contri-
buem para as relões entre os indivíduos que os frequentam.
Por fim, o livro Etnografias urbanas: quando o campo é a cidade constitui-se como
uma grande condensação das etnografias produzidas pelo LabNAU-USP, das perspectivas ci-
entíficas que constroem os estudos sociais de populações urbanas e das contribuições teóricas
de José Magnani para o fazer etnográfico na cidade. A leitura dessa obra é amplamente indicada
para aqueles que possuem interesse pelos estudos urbanos, seja na ótica antropológica, socio-
lógica ou até geográfica, já que a aplicação da metodologia teórico-etnográfica apresentada no
livro aprofunda as análises de dinâmicas sociais que acontecem através dos espaços urbanos. O
diálogo entre contextos urbanos diversos (interior, litoral, metrópole e áreas ribeirinhas) é in-
centivado na obra, sustentando que a etnografia urbana é um caminho metodológico nutrido de
flexibilidade, rigor teórico e aplicabilidade diversificada.
Referências
MAGALHÃES, Lívia Diana Rocha; LOMBARDI, José Claudinei; CASIMIRO, Ana Palmira
Bittencourt Santos. Projeto de pesquisa “revisitando o Projeto Colúmbia”. Revista HISTEDBR
On-line, Campinas, SP, v. 14, n. 56, p. 616, 2014.
A construção da pesquisa etnográfica nos espaços urbanos do Brasil: quando a cidade é o campo de estudos
| 203
MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 17, n. 49, p. 11-29, 2002.
MAIO, Marcos Chor; OLIVEIRA, Nemuel da Silva; LOPES, Thiago da Costa. Donald Pierson e
o Projeto do Vale do Rio São Francisco: Cientistas Sociais em Ação na Era do Desenvolvimento.
DADOS Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 56, n. 2, p. 245-284, 2013.
Recebido em 30/08/2024
Aprovado em 14/11/2024
Publicado em 31/12/2024