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Rocheli Koralewski e Luís Fernando Santos Corrêa da Silva
EMPREGO VERDE: ALIADO OU ALGOZ
DA JUVENTUDE BRASILEIRA?
3. EMPREGOS VERDES NOS RELATÓRIOS DA PNUMA (2021) E DIEESE (2022)
De acordo com reportagem do Exame (2022), os empregos verdes serão o futuro da juventude, a qual já
apresenta o desejo de ocupar esses postos, que, em maior ou menor grau, demonstram compromisso ético
com a sustentabilidade ambiental. Contudo, com base na alta taxa de desemprego juvenil no Brasil, é impor-
tante questionar se as juventudes se interessam por empregos verdes por uma questão ética ou se o inter-
esse provém da necessidade de trabalhar. Quando inserido em perspectiva, o trabalho apresenta sentidos e
significados diversos, sobretudo na formação da identidade e das subjetividades dos indivíduos (Wautier,
2012). Entretanto, no recorte juvenil, considerada a relação de classe, o trabalho ainda se insere como uma
necessidade (Guimarães, 2004).
Analisar um conteúdo é “(...) uma tarefa paciente de desocultação” (Bardin, 1977, p. 09). Diante disso, após
uma investigação
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sobre materiais produzidos em relação à temática, foram selecionados dois relatórios: o
“Guia Global para a Educação sobre os Empregos Verdes: conectando o ensino superior e as oportunidades
verdes pela saúde planetária” (2021); e o “Empregos verdes e sustentáveis no Brasil” (2022). Para isso, cabe,
de início, destacar o contraste do contexto de produção dos relatórios, tendo em vista que o primeiro é finan-
ciado pelo Banco Mundial, enquanto o segundo foi desenvolvido por um departamento intersindical.
Desse modo, ao comparar os conteúdos, é importante chamar a atenção para dois fatores. Primeiramente,
o relatório da PNUMA está disponível apenas em inglês, espanhol e chinês. Portanto, os trechos aqui apre-
sentados serão traduzidos pela autora. O segundo ponto diz respeito aos dados empíricos, tendo em vista
que o debate é focado na definição etária brasileira apresentada pelo Estatuto da Juventude, que considera
jovens as pessoas de 15 a 29 anos. A definição etária de juventude para a ONU é dos 15 aos 24 anos, gerando
uma lacuna de cinco anos entre as duas definições. Como já foi exposto, a diversidade juvenil não pode ser
medida pela faixa etária
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, todavia os governos e entidades utilizam a idade como um critério para a formu-
lação de políticas públicas.
Aqui serão realizadas uma descrição e uma análise comparativa do conteúdo dos materiais. O relatório da
PNUMA, desenvolvido pelas pesquisadoras Mari Nishimura e Debra Rowe, apresenta a definição de empre-
go verde (green job) a partir da Organização Mundial do Trabalho tido como um trabalho decente
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(decent
job) que contribui para preservar ou restaurar o meio ambiente (Nishimura; Rowe, 2021). Empregos desse
tipo podem estar vinculados aos setores tradicionais (manufatura e construção), bem como aos setores
verdes (energia renovável e eficiência energética). Eles podem ser criados em qualquer área desde que ten-
ham relação com o debate ambiental. As pesquisadoras utilizam a expressão “greening the workforce” (Nishi-
mur; Rowe 2021, p. 03) – isto é, “esverdear a força de trabalho” em tradução livre – para afirmar a necessi-
dade de tornar a força de trabalho mais verde e, consequentemente, mais sustentável.
Outro ponto interessante é que os empregos verdes são conceituados em uma relação econômica diferente
da tradicional, tendo em vista que produzem ou fornecem serviços que, ao utilizar menos recursos naturais,
beneficiam o meio ambiente (Nishimur; Rowe, 2021). De acordo com a PNUMA, essa é uma nova forma de
pensar as escolhas relacionadas com o trabalho, desde escolhas simples, sempre considerando o planeta. O
relatório do DIEESE aponta que, no Brasil, o debate vai na contramão, tendo em vista que
A fragilidade no mercado de trabalho vem ainda acompanhada pelo negacionismo ambiental traduzido, entre outras ações,
pelo aumento do desmatamento, desmonte das políticas ambientais, expansão de atividades ilegais em territórios dos povos
originários (Dieese, 2022, p. 4).
Apesar de a Organização Internacional do Trabalho debater essas questões há mais de uma década, o neg-
acionismo climático tornou-se um elemento crescente no debate público nos últimos anos, especialmente
com a eleição de governos de extrema-direita, como nos Estados Unidos, com Donald Trump, e no Brasil,
com Jair Messias Bolsonaro (Miguel, 2022). Esses aspectos têm grande impacto no mercado de trabalho,
uma vez que a transição para uma economia de baixo carbono precisa ser não apenas justa, mas também
4 A investigação foi iniciada por meio da busca de artigos na plataforma Scielo, produções da Biblioteca Brasileira de Teses e Dissertações e de
relatórios disponíveis no site da ONU.
5 Alguns pesquisadores já apontam que a adolescência está indo até aos 24 anos, não mais aos 19. Definições etárias podem ser arbitrárias (BBC
News Brasil, 2022).
6 “O trabalho decente é definido como a promoção de oportunidades para que mulheres e homens possam ter uma atividade decente e produtiva em
condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humana. O trabalho decente satisfaz as aspirações das pessoas em suas vidas profissionais
– por oportunidades de renda; direitos, participação e reconhecimento; estabilidade familiar e desenvolvimento pessoal; justiça e igualdade de gênero.
Em última análise, essas diferentes dimensões do trabalho decente constituem a base para que a paz seja efetivamente estabelecida em comunidades
e na sociedade. O trabalho decente é essencial nos esforços voltados à redução da pobreza e é um meio de se alcançar um desenvolvimento susten-
tável, equitativo e inclusivo.” (OIT, 2012, p. 2).