Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes,
professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
Transatlantic dreams and experiences of Nize Isabel de Moraes, a black teacher from the state
of São Paulo (1955-1978)
Sueños y experiencias transatlánticas de Nize Isabel de Moraes, profesora negra del estado de
São Paulo (1955-1978)
Maria Aparecida de Oliveira Lopes
1
ORCID: 0000-0002-9967-8801
Resumo
Este artigo rememora a trajetória da professora Nize Isabel de Moraes, uma paulista
que atuou de 1955-1978 como professora da rede pública de São Paulo. Nossa
narrativa pretende construir a genealogia das suas escolas de atuação em São Paulo e
explorar a comunicação entre Brasil e Senegal, uma vez que a historiadora trabalhou
como pesquisadora no Instituto Fundamental da África Negra entre 1967-2003, na
Universidade de Dakar, enquanto estava lotada na Secretaria da Educação. Analisamos
as tensões geradas pela condição de ser professora concursada e investir na formação
de pesquisadora, escrutinar os aspectos da historicidade dos seus discursos, relatos e
as questões raciais e educacionais que atravessaram sua experiência transatlântica.
Palavras-chave: Professora; Pesquisadora; Mulher Negra; Profissionalização.
Abstract
This article recalls the trajectory of teacher Nize Isabel de Moraes, a São Paulo native
who worked from 1955-1978 as a public school teacher in São Paulo. Our narrative
intends to build the genealogy of her schools of activity in São Paulo and explore the
communication between Brazil and Senegal, since the historian worked as a researcher
at the Fundamental Institute of Black Africa between 1967-2003, at the University of
Dakar, while she was assigned at the Department of Education. We analyze the tensions
generated by the condition of being a certified teacher and investing in training as a
researcher, scrutinizing aspects of the historicity of her speeches, reports and the racial
and educational issues that permeated her transatlantic experience.
Keywords: Teacher; Researcher; Black Woman; Professionalization.
Resumen
Este artículo recuerda la trayectoria de la profesora Nize Isabel de Moraes, paulistana,
que trabajó entre 1955 y 1978 como profesora de escuela pública en São Paulo.
Nuestra narrativa pretende construir la genealogía de sus escuelas de actividad en São
Paulo y explorar la comunicación entre Brasil y Senegal, ya que la historiadora trabajó
1
Doutora em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professora da Universidade Federal do Sul
da Bahia nos cursos de graduação e Pós-Graduação. Coordenou o Programa de Pós- Graduação em Ensino e
Relações Étnico Raciais (PPGER) no biênio (2017-2018). Atua no Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-
Graduação em Estado e Sociedade (PPGES-UFSB) e coorienta na Escola de Doutorado Único da Université
Cheikh Anta Diop. E-mail: senegalbrasil48@gmail.com.
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como investigadora en el Instituto Fundamental del África Negra entre 1967-2003, en
la Universidad de Dakar, mientras fue asignada en el Departamento de Educación.
Analizamos las tensiones generadas por la condición de ser docente certificada e
invertir en la formación como investigadora, escudriñando aspectos de la historicidad
de sus discursos, reportajes y las cuestiones raciales y educativas que permearon su
experiencia transatlántica.
Palabras clave: Docente; Investigadora; Mujer Negra; Profesionalización.
Os primeiros passos de uma caetanista
Escrevemos que Nize Isabel de Moraes, protagonista desta narrativa, nasceu em 1938
na cidade de Bauru
2
. Repensando e retraçando sua trajetória, criamos a hipótese que em 1951,
aos treze anos, começou a cursar a Escola de Formação de Professores Instituto de Educação
Caetano de Campos. Achamos prematura a sua entrada no magistério aos treze anos. O profes-
sor Diógenes Nicolau Lawand, lendo o prontuário da Nize para colaborar na organização da
exposição sobre os estudantes negros do Instituto de Educação Caetano de Campos, encontrou
escritos do próprio punho de Nize informando que ela nasceu em 1928. O ano de 1928 está
registrado na sua Certidão de Nascimento, incorporada à documentação do Instituto de Educa-
ção Caetano de Campos. Moraes começou a cursar a Escola de Formação para Professores aos
23 anos. Para sua genealogia faz mais sentido adotar o ano de 1928 como ano de nascimento.
Acreditamos que, durante o processo de tradução dos seus documentos, do português para o
francês, a sua data de nascimento foi alterada. A alteração da data de nascimento teria aconte-
cido em razão das exigências para entrada no curso de Estudos Superiores ou no Mestrado da
Universidade de Dakar? A historiadora, por vezes, reclamou do cansaço físico frente a carga de
estudos da Pós-graduação, como se a idade fosse um peso para o seu desempenho intelectual,
como se o tempo do seu corpo físico não fosse amigo.
Nize cursou a primeira e a segunda séries, do curso ginasial, no Colégio Paulistano entre
os anos de 1947 e 1948. Cursou a terceira e a quarta séries no Instituto de Educação Caetano de
Campos, entre os anos de 1949 e 1950. Enquanto estudante matriculou-se no curso de Formação
de Professores em 1951, mediante aprovação no vestibular. Entre 1952 e 1953, encarou duas
reprovações e solicitou, em 05 de março de 1954, transferência para a Escola Normal de Bauru.
O antrologo Alexandre Araújo Bispo analisou aspectos da formação da artista negra e
paulista Alice Rezende da Silva (1933-1961). Alice Rezende foi produtora de cultura, por ter sido
2
Esta informação consta em outro artigo escrito pela autora referente a trajetória da professora Nize Moraes. Cf:
LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. (Des) fragmentando a vida acadêmica de Nize Isabel de Moraes, historia-
dora da Petite Côte. Revista de Teoria da História, Goiânia, V. 26, n. 1., 2023.
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atriz de teatro, cinema, rádio e TV, vedete, dançarina e modelo vivo. Para Bispo, a mãe de Alice,
Maria Helena (1912-1990), desempenhou um papel fundamental na formão da artista, uma vez
que lhe incentivou a consumir livros, jornais, revistas, cinema, rádio e práticas de escrita (Bispo,
2023). Ressaltamos que Alice Rezende não passou por uma escola formal de artes cênicas, como
fez Nize ao cursar o magisrio e, posteriormente, a graduação em História. Alice Rezende e Nize
Moraes o se conheceram, entrelaçamos suas hisrias para pensarmos no impacto da cidade de
o Paulo em suas vidas: no acesso às instituições culturais e educacionais e na agência cultural.
Alice, como Nize, fez parte deste ambiente paulista, propício ao consumo cultural. Apostamos que
a prática da escrita foi sua companheira desde a adolescência, visto que cultivava escrever diários,
meio pelo qual é posvel a elaboração de uma conscncia de si no mundo.
Alice Rezende, que integrou, entre outros grupos, o Teatro Experimental do Negro de
São Paulo, tirou sua carteira de atriz profissional em 1951. Neste ano, Nize estava imersa no
processo de formação de professores. A análise da trajetória de Nize Moraes ressoou ao ser
problematizada junto à massa populacional negra. O cenário do pós-abolição não foi próspero
de oportunidades para o segmento negro, quando as famílias negras sobreviveram do trabalho
doméstico, entre outras profissões manuais de serviços, ligados a limpeza, cuidado de crianças,
idosos e doentes. Notamos então que ocupar a profissão de professora, o lugar que no passado
lhe foi negado, representou mais do que inserção profissional. Esta retrospectiva nos elucida
que a história de Nize ilumina a luta da mulher negra, e de outras categorias da população negra,
para acessar seu direito à educação. Em nossa defesa argumentamos que não tencionamos fazer
apologia da biografada mas reconhecer a sua luta enquanto mulher negra para profissionalizar-
se, tornando-se professora e historiadora, duas profissões não elitistas.
Maria Lucia Muller, analisando o cenário do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Distrito
Federal nos alertou que uma ideia comum, advinda do imaginário social brasileiro, confirma
que a população negra só teve acesso à escola nos anos 50 do século XX. Esse acesso tardio se
justifica pelo desenvolvimento restrito do ensino público e pelo descuido das famílias negras.
As pesquisas de Muller, baseadas também em análises fotográficas, demonstraram que tal ideia
é falsa. Muller encontrou turmas de crianças negras, pertencentes às famílias negras preocupa-
das com o futuro e a educação dos seus filhos (Muller, 2003, p. 2)
Nize não deixou de mobilizar uma rede de apoio político e familiar para efetivar sua
formação como professora e historiadora, nos estimulando a analisar aspectos do seu planeja-
mento e cálculos para se manter na profissão. Muller sublinhou a raridade dos estudos que desta-
caram as condições existenciais das professoras negras e nos explicou que a profissão exigiu es-
tudos e conhecimentos para ingressar no magistério e exigiu também condições familiares, isto
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é, a construção de uma estrutura de apoio e estímulo para estar em condições de lutar pelo ingresso
e permanência na profissão. Desde o século XIX, a profissão docente exigia o planejamento e o
lculo associados a um conjunto de símbolos negados à população negra. Exemplificando, a
população negra não foi vista como símbolo ou referência intelectual. A profissão demandou
capacidade de mobilizar uma rede de apoio social e político, principalmente no período em que
o concurso público aindao estava estabelecido (Muller, 2003, p. 4).
Acessamos a poucas informações da documentação para pensarmos a relação de Nize
com a profissão de professora, para sabermos se sua família lhe ajudou a criar condições favo-
ráveis de estudo à sua formação. Localizamos uma carta de Corina Barbosa, sua mãe, na qual
demonstrou alegria em saber que Moraes cursava Pós-graduação em Paris. Ela anunciou, em
carta escrita no ano de 1972, que se sentia feliz por saber que sua filha, merecidamente, estava
em Paris realizando seu sonho de estudo. Acreditamos que as pelejas, sussurradas nos relatos
nizianos, não apagaram as ações solidárias entre mãe e filha. Notamos que Corina Barbosa
dividiu o seu salário de empregada doméstica e cozinheira com Nize, nas fases em que estava
de licença sem vencimento como funcionária pública do estado de São Paulo. Durante a greve
da Universidade de Dakar de 1968, Corina enviou dinheiro duas vezes para Nize. À época, ela
estava com o salário de professora do estado e a bolsa do Instituto Fundamental da África Negra
(IFAN), ou seja, experimentou dificuldades financeiras mesmo como bolsista e com salário de
professora no exterior. Apesar de poucos indícios, não é difícil imaginar a solidariedade entre
mãe e filha durante o tempo de formação de Nize, no tempo em que investia suas energias para
tornar-se professora da Educação Básica, estudando no Instituto de Educação Caetano de Cam-
pos (1949-53), frequentando a Escola Normal de Bauru ou como estudante do curso de História
na Universidade de São Paulo.
Nas palavras de Nilma Lino Gomes (1995), o que contribuiu para o processo de rompi-
mento histórico-social das mulheres negras no campo educacional foi a democratização da edu-
cação. Esse processo permitiu uma maior entrada da classe trabalhadora na escola, nos anos 40
do século XX. As mulheres negras que se mantiveram analfabetas, ou sem condições de conti-
nuar seus estudos, em razão das condições raciais, econômicas e sociais, tiveram oportunidades
de acesso à escola. O processo de expansão dessas escolas provocou o aumento de vagas nos
cursos noturnos e profissionalizantes, inclusive no magistério.
Como argumenta Nilma Lino Gomes (1995), ser mulher negra representou um acúmulo
de lutas, indignação, avanços e conflitos constantes entre a negação e a afirmação de nossas
origens étnico-raciais. As mulheres negras suportaram diferentes tipos de discriminação e, con-
sequentemente, a condição de pobreza. A ocupação do posto de professora exigiu um acúmulo
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de complexidades, representou uma maneira de ocupação no espaço público. Na história de
vida de muitas mulheres negras, a ocupação do espaço público sempre foi caracterizada como
luta pela sobrevivência, exigindo que se trabalhasse, no campo do saber, desmistificando uma
das correntes do pensamento racista. A ocupação do posto como professora representou o rom-
pimento do lugar que o racismo reservou à mulher negra. Apresentamos aqui uma reflexão
histórico-política sobre o significado de ser professora negra na história brasileira, enfatizando
a sua importância enquanto ocupação de um espaço público que se relaciona diretamente com
o saber formal (Gomes, 1994). Nize foi, sem dúvida, uma figura pública produtora de saberes
históricos, sobretudo de saberes africanos expressos nas suas pesquisas acadêmicas centradas
na história da Petite Côte
3
. Por outro lado, não cansamos de nos indagar como esses saberes
foram recriados em sala de aula.
Ambicionamos construir reflexões ancoradas no impacto dos estudos africanos e das
questões raciais nas práticas pedagógicas da nossa historiadora em destaque. Entretanto, após
o seu doutoramento, concluído em 1977, Nize Moraes se ausentou da sala de aula para se dedi-
car às pesquisas no IFAN. Nossa retórica nos possibilita, então, refletirmos como a África era
pensada pela população negra nos anos 50, 60 e 70 do século XX, no Brasil, ou ainda nos
tempos em que a historiadora frequentava a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de
Estudos Africanos da USP. Do outro lado do Atlântico, no Senegal, os relatos de Nize respon-
dem como se desenvolveu sua formação no âmbito da pós-graduação e dos estudos africanos.
Seus relatos permitem acompanhar suas participações em movimentos sociais, educacionais e
políticos na cidade de Dakar, local de sua interação com os movimentos estudantis da experi-
ência histórica no pós-independência.
Trajetória escolar e acadêmica de Nize Moraes
Por conseguinte, com a leitura referendada no rastro das atuações dos intelectuais e ati-
vistas negros, analisamos particularidades do cenário brasileiro, marcados pelas questões raci-
ais, de inclusão e cidadania, que, em parte, mobilizaram os processos de entrada de Nize na
3
A partir da A la découverte de la Petite Cote, da própria obra de Nize Moraes, encontramos uma explicação
geográfica que nos permite entender a diferença entre Grande Côte e Petite Côte, um dado importante para quem
desconhece a geografia do Senegal. A costa do Senegal desenha um ângulo e um lado é chamado de Grande Côte,
que se estende desde a foz do rio Senegal até a Península de Cabo Verde, enquanto o segundo, frequentemente,
chamado de Petite Côte, estende-se desta península até à foz da Gâmbia. Estas duas porções da costa começaram
com um rio para se juntarem no que se transformou em aglomeração dakaroase. Linear, sem porto, nem ponto de
água, a Grande Cotê pertencia a dois reinos: o de Cayor, na maior porção de sua extensão, o de Oualo na foz do
rio. Já a região da Petite Côte possuía, onde a barra era fraca, mesmo ausente, com a baía de Hann, um excelente
lugar de ancoragem ao qual se juntou, por uma feliz conjuntura, um famoso balneário, situado no fundo desta
mesma baia. Quatro estados terminam nesta baía: Cayor, Baol, Sine e Saloum (Moraes, 1993, p. 19)
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escola e na universidade. Os problemas enfrentados por Nize em termos de inclusão, pensando
nas marcas raça e racismo, não se distanciaram daqueles enfrentados por outros sujeitos e inte-
lectuais negros. No contexto em que Moraes estudou no Instituto de Educação Caetano de Cam-
pos e na Universidade de São Paulo, Paulina Alberto (2017) apontou que as reformas democrá-
ticas e o crescimento econômico, dos anos 1950 e 1960, proporcionaram novas oportunidades
para parcela dos negros brasileiros, especialmente em cidades do Sudeste brasileiro, como Rio
de Janeiro e São Paulo. Carlos Hasenbalg (1979) registrou a inexistência da publicação de dados
do censo sobre raça nos anos de 1960 e 1970. O estudo de Carlos Hasenbalg (1979), usando
informações coletadas na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, de 1976, apontou
uma melhoria social para a população negra.
Hasenbalg (1979) indicou que a existência de "taxas de alfabetização para pretos e par-
dos" duplicou e a "média nacional, passou de 25% em 1950 para 59,8% em 1976". Esse cres-
cimento representou um avanço para a população negra, considerando que a alfabetização era
um requisito no processo de votação. Algumas reformas realizadas pelo governo não solucio-
naram as disparidades e discriminações relacionadas à raça. O crescimento econômico e o au-
mento das oportunidades educacionais permitiram uma maior participação da população negra
na vida nacional "como produtores ou eleitores". Em outras palavras, aumentou o número de
alfabetizados entre a população negra e ao mesmo tempo caiu o acesso ao ensino superior.
Carlos Hasenbalg (1979) demonstrou que o desenvolvimento capitalista reinscreve as diferen-
ças raciais apesar da criação de novas oportunidades. A persistência e a reprodução geracional
da discriminação, além da desigualdade de classe, impediram a população negra de participar
em condições de igualdade do crescimento econômico.
O analfabetismo entre a população negra representou um entrave para a conquista da
cidadania no tempo em que a taxa de analfabetismo era alarmante. Guerreiro Ramos (1915-
1982), sociólogo e político brasileiro, viu sua inclusão, e de outros intelectuais negros na aca-
demia, como um passo importante na conquista da justiça social. Ramos propôs que a UNESCO
promovesse um congresso internacional sobre relações raciais. O ativista criticou os estudos
que enfatizavam "o problema do negro como isolado" (Ramos, 1954, p.1), se centralizavam no
folclore negro e espetacularizavam problemas estruturais como a pobreza, o desemprego, o
analfabetismo, a desnutrição, etc.
O famoso Teatro Experimental do Negro (TEN), do qual Guerreiro Ramos fez parte,
desenvolveu estratégias de inclusão da cultura e da população negra. O TEN ofereceu oficinas
de teatro, aulas de alfabetização, sessões de terapia e concursos de beleza (Alberto, 2017). Na
visão de Solano Trindade - outro ativista e poeta, o TEN não tinha uma linguagem cultural
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apropriada para o povo. O TEN ofereceu cursos de alfabetização para adultos e cursos de his-
tória da África e dos africanos nas Américas. O seu público congregou em torno de 600 estu-
dantes (Alberto, 2017).
No livro Lugar do Negro, Lélia Gonzalez (1982) escreveu que a poesia constitui uma
das expressões vigorosas das elites negras dos anos 70 e Solano Trindade marcou as novas
gerações, sintetizou a criação do Teatro Popular e a produção poética. A poesia revolucionária
de Solano Trindade afirmou a identidade cultural e denunciou a exploração dos oprimidos. A
pesquisa em tela nos instigou a problematizar, no rastro da história do ativismo negro como os
intelectuais negros, e principalmente as mulheres, refletiram sobre o conceito de raça entrela-
çado as questões de acesso à educação. A leitura do livro de Paulina Alberto, Termos de Inclu-
são (2017), como fortuna crítica sobre o ativismo no Brasil, nos obrigou a refletir sobre quais
termos os ativistas reivindicaram a inclusão da população negra, uma inclusão que, de fato,
nunca se efetivou. Seu livro examinou como os negros pensaram a desigualdade racial entra-
nhada a vida brasileira, priorizando uma análise do comportamento de um grupo de homens e
mulheres, com certo grau de instrução e status, frente aos debates proeminentes da identidade
nacional. (Alberto, 2017)
lia Gonzalez (1935-1994) denunciou a propagação do mito da democracia racial brasi-
leira pelo Estado e a seleção racial criada pela sociedade brasileira. Em sua análise, a maioria das
mulheres negras não atingiu níveis altos de escolaridade. A seleção racial eliminou as mulheres
negras com níveis de escolaridade elevados. A seleção racial podia ser notada em anúncios de
emprego que exigiam "boa aparência". Nos anos 80, 83% das mulheres negras e 92% dos homens
negros se concentravam em trabalhos manuais não qualificados. As desigualdades se fizeram
presentes no acesso às oportunidades de escolarização. Em 1980, o Censo revelou a "existência
de 35% de analfabetos entre a população maior de cinco anos". Entre os brancos, a proporção era
de 25% enquanto entre os negros era de 48%. Em 1980, os brancos tinham 1,6 % mais chances
de completarem doze ou mais anos de estudos. Os negros nasciam com menos chance de chega-
rem ao segundo grau e sem chance de atingirem a universidade. (Rios; Lima, 2020, p. 97)
Os encontros históricos na Universidade Cândido Mendes promoveram discussões so-
bre o racismo e suas práticas de exclusão, entre fins de 1973 e 1974, e fomentaram a atuação
das mulheres negras para discutir seus cotidianos. Gonzalez (1982) argumentou que o femi-
nismo deste tempo se diferenciava do movimento ocidental por se fundar na solidariedade e na
experiência histórica comum das mulheres negras. As reuniões agregaram nomes como Beatriz,
Marlene, Vera, Mara, Joana, Alba, Judite, Stella, Lucia, Norma, Zumba, Alzira, Lisia e várias
outras mulheres negras. A historiadora Maria Beatriz Nascimento foi, na visão de Gonzales,
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liderança das mulheres negras na reorganização do movimento negro dos anos 70. Para come-
morar o ano internacional da mulher, as mulheres negras produziram um documento denunci-
ando a exploração da mulher negra (Rios; Lima, 2020). Não por acaso, o final da década de
1970 e início da de 1980, testemunhou a criação de movimentos feministas negros, tais como
Aqualtune, Luiza Mahin, Grupo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. As mulheres destas
organizações ultrapassaram as tarefas femininas dentro do movimento negro (André Rebouças,
IPCN, Sinba, MNU, etc), no período em que as esquerdas estavam receosas em "dividir a luta
do operariado" (Rios; Lima, 2020, p. 103). As ativistas negras diziam que a exploração do tra-
balho doméstico permitiu a libertação de muitas mulheres brancas no processo de engajamento
nas lutas femininas.
lia Gonzalez esteve presente na Conferência Internacional sobre as sanções contra a
África do Sul, realizada em Paris (1981) e analisou o discurso do governo brasileiro centrado nas
relações entre África e Brasil. Na visita de Ahmed Sékou Touré (Guiné-Conacri) ao Brasil, João
Figueiredo já havia reafirmado a contribuição da cultura africana à cultura brasileira. O governo
brasileiro condenou o apartheid e a invasão militar sul africana em Angola, Zâmbia e Moçambi-
que, reconhecendo o apartheid como uma violação aos direitos humanos e da paz internacional.
Parecia que a realidade, do apartheid era condenada pelo Brasil (Rios; Lima, 2020).
Nos interessamos em afinar o diálogo com Lélia Gonzalez (1982) em razão do interesse em
entender os diálogos que estabeleceu com os (as) intelectuais em Dakar e pela possibilidade de
analisarmos como ela pensou raça e gênero de forma relacional entre África e Brasil. Gonzalez
(1982) recordou os efeitos da ideologia do branqueamento, em rao dos aparelhos ideológicos
(falia, escola, igreja e meios de comunicão) veicularem tais valores. Os valores do branquea-
mento, atrelados ao mito da democracia racial, possibilitam a compreensão do "racismo à brasi-
leira". Em sua visão, os negros internalizam tais valores e, consequentemente, sentem vergonha da
sua condição racial. Gonzalez (1982) relembrou que sua companheira do Movimento Negro Uni-
ficado (MNU), Neusa Santos (1948-2008), desenvolveu um importante trabalho sobre o tema "ser
negro no Brasil", explicando, em termos psicanaticos, que o branco era vivenciado como ideal de
ego. Daí a negação de si pelo próprio negro. Cheikh Anta Diop (1923-1986), intelectual senegalês,
tamm analisado numa perspectiva psicanalítica por Gonzalez, entendeu que "a universal fobia de
negro remetia justamente para o contrário" (Gonzalez, 1982, p. 51).
Lélia Gonzalez esteve no Festival Pan Africano de Arte e Cultura (1982) realizado em
Dakar. Durante o discurso na Constituinte, ainda nos anos 80, rememorou a luta pela cidadania
enfrentada pela população negra, destacando uma das grandes reivindicações lançadas pelo
Movimento Negro Unificado, a luta pela instauração da história da África no currículo em todos
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níveis e graus do ensino público. Em diálogo com outra intelectual, a professora Helena Theo-
doro, lançou algumas palavras para esmiuçamos o pensamento de Cheikh Anta Diop:
[...] a famosa filosofia grega não passou de uma apropriação muito grande dos egípcios,
porque, o Egito, na Antiguidade era o centro de produção do saber e que houve uma
apropriação por parte de Sócrates, de Aristóteles, de Anaximandro, dos Empédocles, de
Pitágoras etc, e que de repente nós ficamos, assim, encantadas com esses senhores,
quando nós sabemos que a fonte em que eles se abeberam foi justamente a dos mistérios
egípcios. E para quem tem um pouco de consciência histórica, para quem tem um pouco
de saber histórico, sabe perfeitamente que os egípcios negros foram os civilizadores do
mundo ocidental. que isso é devidamente recalcado e tirado de cena. Nós sabemos
que toda uma egiptologia foi criada no século passado justamente para tirar de cena,
para recalcar a contribuição negra no sentido da humanidade, da civilização humana.
Nós sabemos da presença de culturas negras importantíssimas entre os sumerianos, fe-
nícios, na Índia e mesmo na América, antes de Colombo. Mas nada disso nos é trazido.
Então nós temos que lutar sim companheiros, nesses dois níveis, sempre tendo em vista
a questão da construção de um projeto de nação, porque um povo que desconhece a sua
própria história, a sua própria formação, é incapaz de construir o futuro para si mesmo.
E o povo brasileiro, neste momento, se encontra nessa encruzilhada: o povo brasileiro
representado pelos constituintes (Rios; Lima, 2020, p. 255).
Estratégias de profissionalização de Nize Moraes dos dois lados do Atlântico
Os relatos dos diários nizianos não nos permitiram reconstruir as dinâmicas da sua vida,
como professora no ensino público do estado de São Paulo, mas possibilitaram pontuar, que a
continuidade dos estudos em nível de pós-graduação traduziu seu engajamento com a educação,
na medida em que se comprometeu com a sua qualificação profissional. A longa luta travada
pela historiadora, nas décadas de 60, 70 e 80, para não perder o cargo de professora, nos fez
entender a importância da profissão em sua vida. Concomitantemente, sublinhamos uma frase
da historiadora expressando descontentamento com a experiência docente em São Paulo. Nize
sentiu descontentamento com a carreira de professora. Em um dos relatos, dos anos 60, a pro-
fessora falou abertamente sobre o seu descontentamento com a vida paulistana: Mas meu
Deus, se voltar para o Brasil a minha vida será a mesma em todos os sentidos: (...) vizinhança,
trabalho - maldade e perseguição” (Moraes, 1969). Moraes sofria e se sentia perseguida nas
escolas nas quais atuou como docente? Quais maldades experienciou nas escolas? Que malda-
des seriam essas?
Uma certidão assinada pela Diretora Eunice Patrício do Nascimento, da Prefeitura Mu-
nicipal de São Bernardo do Campo (SP), indicou que Moraes ocupou o cargo de Professora
Primária Padrão entre 1955 e 1957. Outro documento expedido pela Secretaria da Educação,
atestou que Nize Izabel de Moraes compareceu às provas de História Geral e do Brasil em
outubro de 1964. O atestado foi assinado pela Secretária da Comissão Examinadora do Con-
curso de Ingresso no Magistério Secundário Normal, Leda Berard Lauza. As notas do Diário
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Oficial, daquele ano, também anunciavam que Moraes realizou a prova escrita de História Geral
e do Brasil no Colégio São Paulo, localizada no Parque Dom Pedro.
A documentão, analisada a partir dos Atestados de Frequência, comprovou que a profes-
sora Nize Moraes atuou nas seguintes escolas do estado de São Paulo: 1) 1961-1963: Grupo Escolar
Jardim Helena, e 2) 1962-1964: Grupo Escolar da Vila Industrial (Grupo Escolar Prof Maria da
Glória da Costa e Silva). Neste tempo foi convocada para prestar serviço na tima Delegacia de
Ensino Elementar da Capital. 3)1965: Grupo Escolar Heroes da FEB e Escola Ms S. Theodoro de
N.S de Sion, 4) 1966: Escola Ms S. Theodoro de N.S de Sion, 5) 1968-1974: Escola Visconde de
Congonhas do Campo, 6) 1978: Cogio sar Marengo, 7) 1978: Colégio Erasmo Braga.
Na documentação da instituição escolar, um Adicional Por Tempo de Serviço, infor-
mando que ela atuou também no Grupo Escolar Heroes da FEB. Em 1968, com trinta anos de
idade, Moraes estava lotada, como professora efetiva no Colégio Estadual Visconde Congonhas
do Campo, na capital paulistana. Em mais uma nota de transferência escolar, consta que foi re-
movida da escola Mista São Teodoro Nossa Senhora para o Visconde de Congonhas do Campo,
assim como indicou um afastamento - a partir de 25 de outubro de 1967 - para frequentar um
curso junto a Universidade de Dakar (Senegal), ao ser contemplada com bolsa de estudos. Esta
resolução de 1967 foi publicada no Diário Oficial e prorrogou o afastamento de Nize, inclusive,
para que frequentasse um curso junto à Universidade de Orleans Tours na França. Os diários de
Nize não registraram relatos desse período na Universidade francesa, mas apresentaram relatos
do seu período de estudo no Senegal. Acompanhemos um relato do início da jornada em Dacar:
Quando cheguei, depois de ter ido a cité universitária e ter ido ao banco trocar dólares,
eu entrei em contato com o Adido Cultural do meu país, o qual me levou nos lugares
principais de Dakar e em bons restaurantes.(..) Fui matriculada no curso de Sociologia
(Pós Graduação). Mas meu francês segundo o Adido Cultural brasileiro, estaria muito
fraco e eu deveria seguir em curso junto aos anglófonos porque tenho um pouco de
conhecimento de inglês. Já estou cursando o mesmo. Não sou muito querida no meio
deles, pois não fui bem aceita. A turma da mbia (apenas 2 e um da Nigéria que
tenho como amigo). A minha sorte é que os professores e dirigentes do referido curso
me dão apoio moral e intelectual. Estou fazendo progresso nos estudos. Mas estou
sempre isolada. (..) Quando voltei a me isolar do mundo estudantil, entrei em contato
com a comunidade cabo-verdiana aqui existente. A Secretaria da Cite Universitária é
uma Cabo Verdiana e ela me ajuda muito. Falamos a mesma língua com algumas
alterações . Mas tem sido um guia para mim. Fui numa festa cabo-verdiana, estava
boa. [...] (Moraes, 1967).
Nize se integrou, inicialmente, à comunidade anglófona em razão da fluência na língua
inglesa e por indicação do Adido Cultural Pedro Moacyr (1929-2008). Identificamos relatos de
Nize, referente ao ano de 1967, comentando a situação política senegalesa e a construção de
uma rede de contato com as Embaixadas no Senegal, incluindo a Embaixada brasileira:
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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Durante o fim do ano de 1967 e o começo do ano de 1968 muitas coisas aconteceram
boas e ruins. Durante o ano de 1967, começou bem. Fui ao Mali na Páscoa em abril,
passei 15 dias com a minha amiga senegalesa, gostei do país e de sua história. Povo
bom e simpático, mas tive decepção com as pessoas que convivi, enfim. Esta é a vida,
tudo que é de graça acaba assim mesmo. Voltei um pouco triste e fui morar com uma
francesa na Cité Camp Claudel. A vida continua simples, complicada e triste. Os estu-
dantes não estão contentes com as atitudes das autoridades escolares e pouco menos
com o presidente. Dizem que vão boicotar os exames e se isso não acontecer vão à
greve. Bem isto aconteceu, não entendi o que havia com os colegiais, com os ginasianos
e estudantes senegaleses. Só sei que na véspera dos exames 27/05/1968, para os angló-
fonos e outras faculdades, estourou uma greve de maneira violenta como em Paris.
Devo dizer que nesta mesma época um surto de greve estourou em França. Lideradas
por elementos joviais e com ideais revolucionários. O principal era um estudante ale-
mão. Houve mortes e as faculdades francesas foram fechadas. Na África Ocidental, de
língua francesa, o fenômeno veio a se repetir com o exército do presidente despojando
os estudantes da Universidade de Dakar. A mesma foi fechada e nos estudantes, negros,
brancos e estrangeiros fomos expulsos do país. Todos tivemos que sair apressadamente
da área universitária, pois os policiais eram duros conosco. Eu consegui sair da cite e
voltei dois dias para pegar minhas coisas, acompanhada do tal Adido Cultural. Até
tudo bem. Consegui me alojar falando com o diretor do Ifan, que me cedeu uma cama
num quarto junto com uma egipciana, a qual me detestava. Fiquei com ela uns dois
meses depois, esta partiu para França, pois sua bolsa do Ifan terminou (Moraes, 1968).
No relato anterior, Nize reconheceu o apoio da Embaixada Brasileira na estadia em Da-
kar e, no seguinte, apontou a existência de abuso de poder por parte da Embaixada brasileira e
de confrontos com Pedro Moacyr. As relações de Moraes se complicaram com a Embaixada
Brasileira em razão da sua insistência em permanecer na Universidade de Dakar mesmo no
cenário de turbulência e instabilidade política no Senegal:
No dia 05/06/1968 a Embaixada do Brasil me deu o ultimato, se você parte traremos
toda a sua bagagem, passagem e tudo, mas no caso da recusa terá que assinar uma de-
claração, na qual aquela embaixada não terá mais nenhuma responsabilidade sobre mi-
nha pessoa. Jamais fui tão humilhada na minha vida. Debaixo de gritos do tal Adido
Cultural e Embaixada Juntos, os quais, creio eu, eram racistas em todos os sentidos.
Acabei assinando. Fiquei desde então na dependência dos amigos franceses, principal-
mente de um casal, sendo que sua esposa foi expulsa pelo tal Adido Cultural da nossa
embaixada. Devo lembrar que estes representantes do nosso país não eram de carreira e
sim de proteção, o que é admirável no nosso país, principalmente em se tratando de um
país de negro como é o caso do Senegal. Muita gente gostou da minha situação, pois
creio eu, muita gente não simpatizava comigo, principalmente os dois brasileiros que
aqui estão. Fiquei sob a responsabilidade da embaixada francesa e dependendo de ami-
gos franceses. Interessante que de 2
A
a sábado eu tinha compromissos com as várias
famílias. Fiquei doente e tive a assistência de um casal que por mim se interessou, me
olhando durante a minha doença e me levando a todas as festas possíveis (nas embaixa-
das principalmente). Mamãe precisou me mandar dinheiro duas vezes. Isto foi levado
em efeito até o mês de outubro de 1968, pois tivemos a reabertura da Universidade de
Dakar e as bolsas também. Muitas bolsas foram cortadas e muitos funcionários france-
ses foram expulsos de suas funções e tiveram que voltar à França, a revolta desses ex-
pulsos foi enorme [...] (Moraes, 1968).
Os relatos nizianos referentes à questão da licença, como professora, anseiam pela apro-
vação com comissionamento, informam sobre a feitura de ofícios, cartas e procurações,
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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comunicam o desenrolar do fluxo burocrático dependente das comunicações entre instituições
e autoridades políticas e educacionais. Para continuar com a licença, Nize produziu documen-
tos, mobilizou uma rede de autoridades políticas e educacionais, acompanhou os recortes dos
Diários Oficiais e se amarrou aos prazos estabelecidos pela Secretaria da Educação para forma-
ção e qualificação profissional. A dependência da assinatura legal, para angariar a licença no
exterior, se deu, entre outras razões, pelo fato de Nize ter extrapolado o tempo de qualificação
profissional expedido pela Secretaria da Educação, para professores bolsistas no exterior.
Como dissemos anteriormente, a licença como professora foi ponto de preocupação
nos relatos do cotidiano, inclusive aquele referente ao maio de 68. Nize indicou, repetindo, que
viveu dias estressantes e tensos em Dakar, quando explodiu a greve dos estudantes durante o
governo de Léopold Sédar Senghor:
Meus últimos dias em Dakar. Desde o dia 25 de maio que a situação dos estudantes
tanto senegaleses como estrangeiro está perigritante (sic.). Tivemos a greve proclamada
oficialmente em 27/05/1968 onde tiveram lugar os exames dos anglófonos e dos demais
estudantes das diversas Faculdades. Mas a bomba explodiu no dia 25/05/1968 quando
os estudantes da Farmácia teriam o primeiro exame e foram bloqueados pelos estudantes
senegaleses. Desde esse dia estariam em greve limitada (primeira semana, 15 dias, etc)
até o governo senegalês entrar em acordo com as mesmas reivindicações das bolsas
senegalesas para todos os estudantes do país. Mas o governo não concordou com a pro-
posta estudantil e a greve eclodiu de maneira desastrosa. Domingo tivemos meeting e
por irmandade todos concordaram em aderir a greve e a não realização dos exames(..)
Retornei ao campi Claudel para rever M. Classein (?) e para pegar dinheiro, quero dizer
que estarei na rua como todos os estudantes. Eu estou na maior confusão da minha vida.
Uma semana já se passou e não tomei uma decisão precisa, pois não sei por onde come-
çar. Não sei se sigo para o Brasil ou se fico em Dakar. Para mim parece que o fato
alojamento foi resolvido, visto que passei três noites no Foyen Protest, 1 noite em casa
dos David e 2 no Ifan. uma semana que não consigo ter paz de espírito. A embaixada
brasileira não nenhum apoio, ao contrário, faz enorme pressão para que eu deixe o
país. Procuro encontrar um meio para ficar, pois outra oportunidade não terei para entrar
na França. Tenho amigos que poderão me ajudar muito (estrangeiros é claro). Não con-
sigo dormir. Nós os estudantes franceses, daomeanos e camaroneses, nigerianos, nigea-
nos, tunisianos e brasileiros não concordamos muito com a coisa mas tivemos que con-
cordar e assim cedermos tudo aos caprichos dos estudantes senegaleses. Devo aceitar
que nem todos estavam de acordo conosco, os estrangeiros: malianos, guineenses, mau-
ritanianos, chineses estavam em pleno acordo. Have meeting 2
a
e 3
a
27 e 28/05/1968,
29/05 continuamos a greve até segunda ordem, maior confusão. A polícia entra em ação,
bombas lacrimogêneas e granadas são lançadas para manter a ordem. Liceu Blaise Di-
agne, o principal e o mais numeroso (Moraes, 1968).
Os relatos nizianos iluminam a história política do Senegal, a partir das ações dos estu-
dantes senegaleses frente a atuação do presidente Léopold Sédar Senghor. Por outro viés, con-
cluímos, inicialmente, que a historiadora foi se adaptando às condições de trabalho sem pensar
ou elaborar um projeto acadêmico para sua vida. Como se tivesse deixado levar pelas oportu-
nidades de trabalho surgidas no Senegal. Esta ideia inicial não fazia sentido frente às inúmeras
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pistas do seu protagonismo político para manter-se como pesquisadora e professora. Diante de
uma análise mais atenta aos relatos dos diários, parece mais coerente concluir que o protago-
nismo de Nize nem sempre floresceu. Já nos anos 60 ela planejava entrar na França como estu-
dante, daí a resistência em permanecer em Dakar nos momentos de turbulência política e du-
rante a greve fomentada pelos estudantes na Universidade.
A partir de outra narrativa, de abril de 1969, sabemos que ela esperava uma carta de sua
mãe, enquanto transcorreu a segunda semana de greve devido a expulsão dos estudantes da
Escola de Pesca da Universidade de Dakar. Comentou ainda que se sentia gratificada por não
trabalhar de graça, no IFAN, ao fazer a tradução de documentos dos séculos XVI e XVII do
português para o francês, referentes à crônica da Guiné de Francisco Azevedo C Coelho. Anun-
ciou também que preparava seu mestrado inspirado na tese de Jean Boulègue, centrada na Se-
negâmbia do fim do século XVII. Estava preocupada com a aprovação nos exames nas disci-
plinas de História da África e de História Moderna e Contemporânea (Moraes, 1969).
As narrativas nizianas iluminam o cenário de turbulência política senegalesa e os enca-
minhamentos burocráticos frente ao seu comissionamento como professora. No relato de junho
de 1969, encontramos Nize “mais desanimada do que nunca” e ainda preocupada com os exa-
mes e com sua escrita, pois ainda “não conseguia escrever bem” em francês. No Departamento
de História, da Universidade de Dakar, recebia a colaboração do pesquisador Guy Thilmans,
que lhe ajudava no resumo dos pontos ao estudar para os exames. Estava ansiosa para saber se
sua Dona Corina havia recebido o dinheiro enviado pelo banco. Não sabia se Corina teria o
direito de receber seu ordenado de professora da rede pública do estado de São Paulo, uma vez
que o comissionamento não tinha sido liberado pela Secretaria da Educação. Esperava que seu
procurador, conhecido por Caruso, recebesse a carta com a assinatura do reitor da Universidade
de Dakar, esperava conseguir seu afastamento como funcionária pública até o fim daquele ano
ou até janeiro de 1970 (Moraes, 1969).
Em outra narrativa escrita em um sábado de 1969, sobre Dakar, Nize permaneceu estu-
dando no Departamento de História na companhia de Thilmans, que lhe ajudava novamente
nos estudos de História da África e História Moderna e Contemporânea. Ela tinha ido ao curso
de História da Rússia. O professor se encontrava doente e a aula foi cancelada. Nize aproveitou
o tempo livre e deslocou-se à universidade para adquirir um livro de Jan Vansina. Neste mesmo
dia, desempenhou outra tarefa, foi à reitoria pedir ao reitor Paul Teyssier a “bendita assinatura”
da documentação a ser enviada para a Secretaria da Educação de São Paulo. Naquele instante
tinha recebido uma carta de um amigo brasileiro, provavelmente seu procurador chamado
Caruso, dando notícias de Corina e pedindo a carta do reitor assinada. No contexto da greve,
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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dois estudantes do Mali estavam presos e acabavam de ser condenados com uma pena de um
ano cada um. Diante deste caso, Nize se posicionou: “A coisa não está cheirando bem, pois não
é justo que os estudantes senegaleses estejam fora da prisão e estudantes estrangeiros dentro”.
O Ministro do Mali chegaria em Dakar para resolver os problemas com as autoridades senega-
lesas. (Moraes, 1969).
Durante a greve na Universidade de Dakar, Moraes se posicionou favorável aos estu-
dantes e entendeu que as autoridades políticas, no caso, o governo do Senegal, estavam punindo,
em demasia, os estudantes que participaram das greves contra o corte de bolsas estudantis. Os
protestos estudantis se agregaram aos protestos mais amplos, causados por uma crise econômica
vivida pelo Senegal. Destacamos suas críticas políticas ao governo senegalês enquanto estu-
dante da Universidade de Dakar, e, pontuamos, como sua postura crítica frente à política go-
vernamental transformou-se com o estabelecimento de relações com o presidente Léopold Sen-
ghor nos anos 70, chegando ao ponto de escrever carta em apoio ao governo e acompanhar o
presidente em visita ao Brasil. Os relatos de Moraes ampliaram as nossas lentes sobre o cotidi-
ano da cidade de Dakar.
Retomando o desenho da trajetória de formação, lembramos que Nize cursou as disci-
plinas de História da África, Sociologia e História Moderna e Contemporânea, na Universidade
de Dakar, sem deixar rastros dos resultados das duas últimas disciplinas em seus relatos. En-
quanto estudante expressou seu agito emocional com o final dos exames. Acreditava ter tido
um desempenho regular em História Moderna e Contemporânea. A matéria de avaliação cen-
trou-se na atuação de Portugal no Oriente, e ela esperava passar. Nos dias 24 e 25 de junho de
1969 fez provas sobre a Revolução Francesa, que discutiu texte de Lille et Lyon a Convention”.
Parece que Nize não foi bem nesta prova. No dia 25, realizou outros exames referentes aos
efeitos da interferência de Portugal no Congo nos séculos XVI e XVII. Em 1969, Nize estava
com 41 anos. Se esforçava intelectualmente porque não desejava voltar ao Brasil e pretendia
efetivar seus projetos intelectuais. Concomitantemente, comemorava a situação da mãe. Corina
estava garantida financeiramente, até os meses de janeiro e fevereiro de 1970. Nize recebeu a
carta da sua mãe e o recorte do Diário Oficial, aprovando sua licença para continuar no Senegal,
com alegria (Moraes, 1969).
A exoneração da professora Nize Moraes
Legalmente, o prazo permitido para Nize estudar no exterior findou-se em 1971 (Mo-
raes, 1971), porém, conseguiu prorrogação em razão de sua articulação política. A autorização
do governador do Estado de São Paulo, Roberto Abreu Sodré, permitiu que a referida professora
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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continuasse frequentando o curso de pós-graduação na Universidade de Dakar. Em 1972, uma
nota publicada pela Folha de São Paulo e com reconhecimento da Reitoria da Universidade de
São Paulo, da Divisão de Difusão Cultural Seção de Relações Universitárias e Divulgação,
confirmou que a professora Nize Isabel de Moraes, do Grupo Escolar Congonhas do Campo,
foi autorizada pelo governador Laudo Natel, em caráter excepcional, a permanecer por mais
um ano da Universidade de Dakar, no Senegal, com bolsa de estudo de pós-graduação. Para sua
permanência no país africano, Amar Samb, diretor do IFAN, enviou uma carta pessoal à pro-
fessora Esther de Figueiredo Ferraz, Secretária da Educação, solicitando sua intervenção junto
ao governador, para uma solução favorável à Nize (Folha de São Paulo, 13 de janeiro de 1972).
O conteúdo das folhas avulsas revelou relações mais profundas do que imaginávamos
entre Moraes e a Secretaria da Educação de São Paulo. Notamos que, em carta escrita à mão
por Nize, Elvira Verre foi professora e diretora da escola Erasmo Braga. Dona Corina Barbosa,
mãe de Nize, apareceu na redação de Moraes endereçada à Verre. Resumimos as críticas de
Nize frente às dificuldades em permanecer se qualificando no exterior:
Cara dona Elvira acabo de receber a sua amável e amarga carta, na qual a senhora diz
coisas tristes referentes a minha situação e sobre minha mãe. Quanto a minha situação
profissional não estou de acordo consigo para exoneração e nem tampouco para o aban-
dono de cargo. Já estou tomando providências junto das autoridades senegalesas e bra-
sileiras principalmente o chanceler Azeredo da Silveira. Estou aguardando respostas. Se
for preciso irei até o presidente da República para normalizar minha situação neste in-
ferno e odioso país complicado e cheio de injustiças, que é o Brasil, o gigante Brasil.
[...] Dona Elvira, assim que puder venha até aqui em Dakar, para ver o tipo de vida que
eu levo para ser alguém. Estou trabalhando como louca para não perder minha bolsa de
estudos no Ifan e se ficar doente as autoridades me jogam para fora do Instituto. Isto ela
não compreende, escrevi duas cartas, lhe mandei uma foto minha nem resposta.
Aqui não se fala de dias das mães pois o pais é pobre e o povo é bom, gentil, calmo e
negro como eu. [...] Valor eu tenho para as pessoas que seguiram minha luta (...). Eu
estou cansada [...] de todo mundo. Vou ver se eu consigo emprestar dinheiro para ir ve-
la no mês de julho ou agosto, não lhe diga nada pois a passagem Dakar-São Paulo é
muito cara e como sou bolsista do governo senegalês (Moraes, 1976).
Em janeiro de 1978, Nize escreveu para o diretor do Serviço de Administração da Dire-
toria Regional de Ensino da Capital (DRECAP-II), como professora lotada e em exercício na
Escola Estadual Erasmo Braga, solicitando a contagem do seu tempo de serviço e certidão para
fins de licença prêmio. A condição de Nize no Senegal, como professora que lutava para per-
manecer como pesquisadora mereceu a atenção do primeiro presidente da República do Sene-
gal, Léopold Sédar Senghor. Em ofício assinado por Senghor, o presidente afirmava ter a honra
de confirmar, ao Ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil, Antônio
F. Azeredo da Silveira, a autorização de prorrogação da licença de Nize Izabel de Moraes, até
31 de dezembro de 1978 (Senghor, 1978).
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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Considerações finais
Apesar da luta e articulação ao lado das autoridades políticas e educacionais, no ano de
1977, Nize reassumiu o cargo de professora da Educação básica já com o título de Doutora em
História e, em seguida, foi indiciada processualmente por abandono do cargo de professora. No
dia 9 de fevereiro de 1978, compareceu à Delegacia de Ensino para resolver questões relativas
ao seu cargo de professora e, em 31 de março de 1978, reassumiu o posto de professora na
Escola Estadual Erasmo Braga. O diretor da Escola César Marengo, em que atuou anterior-
mente, João Muniz de Oliveira, acusou o recebimento de uma carta escrita por Nize em 30 de
setembro de 1978 e informou que o procurador Humberto Betteto tinha ciência de sua situação.
Muniz explicou que a punição resultou em multa de 50% do salário de Nize.
O procurador Humberto Betteto escreveu um ofício endereçado a João Muniz de Oli-
veira, diretor do Colégio César Marengo, que naquele tempo era localizado no Subdistrito da
Vila Formosa. Quais razões levaram o procurador Humberto Betteto a argumentar, frente ao
diretor do colégio César Marengo, existir escassez de elementos” para justificar a permanência
da professora Nize Moraes em Dakar? Nize defendeu a tese de Doutorado, sobre a região da
Petite Côte, em 6 de outubro de 1977, como consta no diploma emitido pela Universidade de
Sorbonne. Notamos que seu processo de exoneração como funcionária pública do estado de
São Paulo começou a se materializar às vésperas da sua defesa de Doutorado, em 1976, quando
ela estava imersa na pesquisa. Recebeu como presente de Doutorado, do estado de São Paulo,
a exoneração. Na escrita da própria professora, endereçada à Elvira Ferre, encontramos palavras
perfeitas para traduzir o seu caso. Como ela mesma disse, “o Brasil é um país infernal, odioso,
complicado e cheio das injustiças” (Moraes, 1976).
Na missão de desfragmentar a trajetória de Nize descobrimos que ela usufruiu, entre
1968 e 1978, de algumas licenças com e sem vencimento como professora da Educação Básica
do estado de São Paulo. A maioria dos afastamentos se efetivou sem vencimentos. Os afasta-
mentos comissionados se efetivaram em 1969 e 1972. No ano de 1975 Nize trabalhou no setor
administrativo da Embaixada Brasileira no Senegal e desfrutou de pelo menos 4 bolsas como
pesquisadora do IFAN entre os anos de 1967-1977. No ano de 1972 estava associada ao Depar-
tamento de Antropologia Física da Universidade de Dakar. Em dezembro de 1976 foi nome-
ada para a função de pesquisadora associada do Departamento de História da
Universidade de Dakar. Em 1979 fazia parte do segundo escalão como pesquisadora
da Universidade de Dakar, no ano de1981 alcançou o terceiro escalão. A funcionária atingiu o
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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quarto escalão da carreira como pesquisadora da Universidade. O tempo não lhe permitiu cum-
prir todas as categorias do quarto escalão, daí ter se aposentado no terceiro escalão.
Reescrevemos sua trajetória para pensarmos neste tempo de atuação como professora con-
cursada da cadeira de História da redeblica de ensino do estado de São Paulo. A documentão
está indicando que a partir de 1967 os cursos da s-graduação e, as atividades como pesquisadora,
consumiram boa parte do tempo de Nize como professora. Quantas vezes ela retornou à sala de aula
enquanto cursava o Mestrado e o Doutorado? Encontramos alguns rascunhos de ocios, escritos a
o, destinados às escolas de atuação de Nize. Por isso mesmo e, por enquanto, a documentação
nos permite falar da posse oficial, em 1964, na condição de professora de História, sem apresentar
maiores informações sobre retorno e atuão em sala de aula.
Nize cursou Estudos Superiores na Universidade de Dakar para acessar a Sorbonne,
que a entrada na Universidade de Dakar lhe daria dupla titularidade no Mestrado. Em conversas
com Guy Thilmans falou dos seus planos em estudar na França ou na Bélgica. Neste período,
a crise econômica enfrentada pelo Senegal resultou no corte das bolsas dos estudantes. Reexa-
minamos o assunto para sublinhar a posição política de Nize frente ao corte das bolsas e para
redimensionar, teoricamente, a política econômica do Senegal independente na análise da so-
cióloga Fatou Sow (1973). Entre outras intenções, uma leitura histórico-sociológica dos papeis
de gênero, no Senegal, nos autorizou a redimensionar os discursos trabalhistas e femininos ni-
zianos da sua experiência em Dakar.
Escrevendo sobre a situação política dos países africanos nos períodos da independên-
cia, a socióloga Fatou Sow (1973) apontou a extroversão como uma característica da política
econômica. A crise política e econômica enfrentada pelo Senegal fazia parte dos problemas
político-econômicos enfrentados pelo continente africano. Recorremos às explicações da pes-
quisadora senegalesa para explicar as turbulências políticas e econômicas enfrentadas pelo Se-
negal. Em suas palavras, a extroversão gerou uma dependência da maioria das nações africanas
às antigas metrópoles. Os capitalistas europeus organizaram, em escala global, as relações de
dependência entre o centro dominante e a periferia. O peso das relações de integração e de
dominação das economias periféricas, pelo centro, impactou todos os níveis da vida. No nível
dos núcleos familiares tais relações pesaram na formação dos indivíduos, em suas possibilida-
des de trabalho, na remuneração do trabalhador, na acumulação de riqueza e no consumo. Re-
sumindo, o contexto africano caracterizou-se como neocolonial (Sow, 1973).
Fatou Sow (1973) argumentou que a dependência econômica tornou improvável uma
emergência real e autêntica do continente africano e, ao mesmo tempo, afetou a evolução e
transformação profunda da condição feminina na África. No contexto da dependência, homens
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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e mulheres encontraram dificuldades. O bloqueio do crescimento impactou a formação dos in-
divíduos, resultou numa baixa escolaridade, em limitação profissional, restrição à oportunidade
de emprego, sobretudo nos setores primário e terciário. Para Sow (1973), a baixa escolarização
feminina se justificava em razão da negligência dos poderes coloniais. No passado o poder
colonial não investiu na educação feminina.
Até se efetivar como funcionária do IFAN nós diríamos que Nize não usufruiu de um
emprego remunerado efetivamente, mês a mês. Os escritos nizianos sussurraram suas dificul-
dades para sobreviver como moradora no espaço urbano de Dakar, nas décadas de 60 e 70.
Seria coerente dizer que ela experimentou as mesmas condições das mulheres senegalesas, sem
qualificação profissional, antes da conquista do título de doutora, quando ainda não dominava
os códigos culturais dos letrados senegaleses?
Como argumentou Fatou Sow (1983), os serviços públicos africanos aumentaram nos
tempos da Independência quando a administração colonial foi a única fonte de promoção dos
executivos nacionais. A política educacional colonial, que negligenciou a educação feminina,
criou setores médios e subordinados capazes de desempenhar as tarefas de gestão: escriturários,
agentes técnicos, intérpretes, funcionários de correios, professores, médicos, etc. A indepen-
dência favoreceu a criação significativa de novos empregos para garantir o funcionamento do
aparelho estatal. Tornou-se urgente preencher e criar novas vagas nos ministérios, embaixadas,
etc. Como apontamos anteriormente, Nize apresentou qualificações que lhe permitiram angariar
postos nos braços do estado senegalês por trabalhar na Universidade de Dakar e na Embaixada
brasileira. Sabemos então que a brasileira era bem qualificada como professora e historiadora.
Inicialmente era fluente em inglês e português e, depois de concluir o doutorado, tornou-se
fluente em francês.
Os países da antiga África Ocidental Francesa e da África Equatorial Francesa viveram
essa situação, de investimento na burocracia estatal, uma prática vivida pelos países de coloni-
zação de ngua inglesa, como Nigéria e Gana. Muitos ganenses seguiram carreiras diferentes
da administrativa em profissões liberais, no comércio, etc. Sob a presidência de Nkrumah, de-
fensor de uma política nacionalista, Gana recuperou e controlou setores inteiros da economia
monopolizados pelos britânicos, como o comércio, parte da indústria e dos bancos. Estes países,
entretanto, não escaparam ao crescimento da burocracia estatal, símbolo do poder, que se ex-
pandiu e se consolidou em outras partes da África (Sow, 1983: p. 13)
Para Sow a noção de emprego, em se tratando das mulheres do Terceiro Mundo, carecia
de uma análise cautelosa. De acordo com a definição keynesiana, o emprego era um trabalho
remunerado no sistema econômico. Esta definição não se aplicou estritamente a África,
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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considerando que as atividades desempenhadas pelas mulheres foram vistas como invisíveis.
Naquele tempo, nos anos 80 do século XX, 80% das mulheres africanas trabalhavam com a
terra, ocupando as culturas de víveres destinadas ao consumo familiar e as culturas de exporta-
ção, cujos rendimentos eram recebidos pelos gestores da exploração (marido, pai, etc). Estas
profissões não eram remuneradas, ou quantificáveis, por se localizarem fora do espaço urbano,
fora da sociedade comercial e suas relações, fora do sistema econômico oficial e legal. As pro-
fissões do campo desapareceram das estatísticas oficiais. Logo, a mulher rural foi descrita como
inativa e dona de casa (Sow, 1983: p. 18)
A integração da mulher no mundo urbano se deu de forma mais dura do que no meio
rural, visto que o estatuto rural tradicional era mais equilibrado sobre o plano econômico e
social. Na cidade, embora os fenômenos da modernização fossem mais importantes, e as mu-
lheres se beneficiassem de estruturas globais, ela teve que gerenciar sua caminhada pelo capi-
talismo de centro. A educação e a competência técnica lhe permitiram vivenciar um contexto
de concorrência profissional acirrado. O trabalho na cidade exigiu a aquisição de escolarização
e competência técnica. Por isso mesmo o papel essencial desenvolvido pelas mulheres esteve
atrelado aos trabalhos domésticos e a educação se referia aos cuidados das crianças. As mulhe-
res analfabetas experimentaram a marginalização econômica. O homem era considerado o
agente produtivo, às vezes com recursos e salários reduzidos para os custos de vida urbanos e
familiares. (Sow, 1973: p. 33)
A partir das explicações de Fatou Sow, referentes a qualificação e formação do seg-
mento feminino, compreendemos que a brasileira Nize Moraes, enfrentou dificuldades, inicial-
mente, para se inserir no mercado de trabalho e ao evoluir no domínio da língua francesa, e da
cultura francesa, competiu com mulheres locais qualificadas na corrida pelo emprego em Dacar.
Mesmo neste quadro educacional desfavorável às mulheres, a brasileira conseguiu, no campo
do trabalho, uma vaga para realizar o mestrado, outra como funcionária administrativa da Em-
baixada Brasileira e, por fim, o cargo de pesquisadora do Ifan nos departamentos de Antropo-
logia Física e História.
No tempo que Nize estudava na Universidade de Dakar as dificuldades de emprego fe-
minino se explicavam pela falta de infraestrutura e ausência de uma política de promoção de
bem-estar pensada para as mulheres. A sociedade senegalesa resistiu a escolarização e formação
profissional das mulheres, vistas como sinônimos de uma nova cultura. As famílias muçulma-
nas demonstraram mais reservas à escolarização e à formação profissional. As famílias muçul-
manas foram hostis à educação ocidental e aos novos comportamentos promotores de uma nova
concepção de mulher. As mulheres cristãs urbanizadas tiveram, através da ação da Igreja, mais
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possibilidades de acesso à educação. Elas converteram-se, ao mesmo tempo, na e nas práticas
religiosas e culturais europeias, às suas línguas, aos seus comportamentos e hábitos. Ser cristã
significou falar, se vestir e viver na língua europeia. As perspectivas de formação ofertadas às
mulheres só foram alargadas após a independência (Sow, 1983: p. 34)
A historiadora Penda Mbow argumentou que a crise dos anos 80 obrigou a sociedade
senegalesa a refletir sobre os direitos humanos no islã, uma vez que a realidade sociológica não
permite dissociar o que é bíblico, manipulação e interpretação tendenciosa. Nos esforçamos
para responder, então, como a religião muçulmana tornou-se uma prisão para as mulheres se-
negalesas. Mbow entendeu que a razão fundamental é a afirmativa de um versículo dedicado
ao repúdio na segunda Sura do Alcorão (capítulo): "As esposas têm direitos sobre si mesmas
(...) Os homens porém tem proeminência sobre eles". A partir desta frase criou-se um imaginá-
rio machista e paternalista, abrindo caminho para discriminações contra as mulheres. Daí a ne-
cessidade de um tutor masculino para acompanhar as mulheres nas tarefas do cotidiano: ir à
escola, frequentar festa, casar, comparecer perante o juiz, fazer peregrinação… Eis a razão da
sua exclusão de qualquer função religiosa ou política. (Mbow, 2011, p. 85)
No Senegal, as mulheres usufruíram de um estatuto secundário e de mecanismos de
discriminação, desafiando a realidade e os princípios da cidadania igualitária reconhecidos por
lei e pelas constituições. Os países muçulmanos passaram por dinâmicas históricas diferentes
ao concebermos as questões religiosas e dos direitos e deveres. Mbow produziu críticas ao fato
de se evocar o islã para limitar o acesso das mulheres no espaço público. Em sua visão, a
vivência das mulheres senegalesas entre duas culturas, moderna e tradicional, não impediu que
avançassem em termos de autonomia e independência. (Mbow, 2011: p. 83)
Durante a presidência de Senghor afirmou-se o caráter laico do Estado. O código da
família foi elaborado pelo presidente do Conselho, Mamadou Dia (1961), e foi retrabalhado por
outro comitê de Conselho, em 1965, ao unificar os costumes indígenas, a lei muçulmana (Sha-
ria) e o Código Napoleônico. O Código da Família foi apresentado aos senegaleses em 1972. A
principal característica do tal Código é a unificação da lei, a afirmação declarada do caráter
laico da sociedade, o reconhecimento dos princípios dos direitos individuais e do princípio da
igualdade de todos os cidadãos. A liberdade do islã se associou, essencialmente, à libertação
espiritual. O Alcorão e a Sunna proíbem, formalmente, o ato de prejudicar a vida humana.
Quanto à educação, o islã reverenciou o conhecimento e os estudiosos elevaram o conhecimento
ao nível da oração, zelando por diferentes aspectos da educação. Ademais, exigiu igualdade e
liberdade tanto aos ricos, quanto aos pobres, frente às oportunidades educacionais. O mesmo
islã pôs fim ao sistema de classes sociais, impôs a instrução aos homens e mulheres e lhes deu
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todos os meios. A Mbow enfatizou que os filósofos do islã foram unânimes em afirmar que o
único objetivo da educação é a perfeição moral sem negligenciar a educação física, intelectual
e científica. (Mbow, 2011: p. 83)
Historicamente o Estado senegalês, através de sua estrutura e do seu funcionamento,
consolidou, reproduziu e criou desigualdades. As instituições de poder, dirigidas e controladas
por homens, mantiveram a dominação masculina sobre a vida das mulheres. Citando, Fran-
çoise Collin, Fatou Sow se perguntou se a democracia não usa óculos disfuncionais para olhar
as mulheres. A socióloga acrescentou que os textos que regiam os cidadãos criaram um espaço
jurídico igualitário no qual as mulheres foram apenas toleradas. Resumindo: "o mundo político
africano foi construído sobre a exclusão das mulheres". O acesso das mulheres ao exercício real
da sua cidadania através da escolarização, da profissionalização ou do envolvimento político
destruiu as esferas da vida quotidiana dos indivíduos que a lei, cuidadosamente, definiu em
público e privado. Os homens dominaram a esfera pública e regeram, direta ou indiretamente,
a esfera privada, anteriormente administradas por mulheres. Esta dicotomia assumiu diferentes
formas nas sociedade africanas e reestruturou os espaços hierárquicos, sociais e familiares de
acordo com as ideologias religiosas patriarcais (judaismo, cristianismo e islamismo), com a
legislação colonial e com a sua nova ordem política (Sow, 2011: p. 7)
No ano de 1960, a taxa de analfabetismo entre as mulheres girava em torno de 82%,
gerando graves consequências para o desempenho nos serviços sociais e funções políticas. A
escassez de mulheres instruídas e qualificadas era tamanha que as mulheres universitárias não
encontraram problemas de emprego. Sua inserção no mercado de trabalho se deu de forma rá-
pida e sem problemas. Elas se integraram ao segmento médico, professoral e das magistradas.
Notamos que raramente ocupavam a posição de liderança política. A Universidade de Dakar
foi a primeira universidade da África Francófona. Em 1960, quando completou dez anos de sua
criação, não contava com uma vintena de senegalesas, ou seja 1, 96 por cento de um efetivo de
1.1018 estudantes de todas as nacionalidades. Esta porcentagem aumentou com o desenvolvi-
mento da Universidade. Sow constatou, igualmente, que as mulheres seguiram as fileiras clás-
sicas. Elas abraçaram os estudos literários e jurídico-econômicos que as levaram às funções de
ensinantes e administradoras. Elas estiveram, entretanto, em comparação com os homens, bem
menos representadas nas fileiras ditas científicas e reputadas (Sow, 1973: p.33 e 37)
Concluindo, o artigo envereda para uma abordagem positiva da construção de um cami-
nho de atuação da professora Nize Isabel de Moraes, privilegiando o foco analítico das suas
ações perseverantes e resilientes frente as adversidades sociais, políticas e educacionais para
profissionalizar-se como professora e historiadora. Reconhecemos que as narrativas de Nize
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Moraes, sobre o tempo em que esteve como estudante da pós-graduação e professora, são fra-
gmentadas, nos legando muitas questões sem respostas. As narrativas dos seus diários ainda
não produziram pistas sobre os impactos dos estudos africanos em suas aulas de história, sobre
conteúdos e processos de aprendizado em sala de aula. Estamos na fase inicial da pesquisa
centrada na dimensão educacional da trajetória de Nize Isabel de Moraes. No estado atual da
pesquisa localizamos mais dados sobre sua atuação como pesquisadora do que como professora
de história ou da educação básica. Este artigo nos oportunizou iniciarmos analises interseccio-
nais entre os papeis de professora e pesquisadora desempenhados por Nize Moraes e nos incitou
a pensar em narrativas que contemplem outras faces das intelectuais negras, ultrapassando o
importante campo analítico de compreensão e formação das ideias.
A documentação deixada por Moraes, por outro lado, abre um leque de reflexões para
pensarmos nos conteúdos das comunicações entre a Secretaria da Educação, Universidade de
Dakar, presidência senegalesa e embaixada brasileira sob o prisma da importância dos estudos
africanos. Em outros textos, para marcar a riqueza dos seus relatos, continuaremos o diálogo
com os aspectos da historicidade dos seus discursos e as questões raciais e educacionais pre-
sentes em sua experiência transatlântica. Esta pesquisa, se justifica então, entre outras razões,
por escrutinar as dimensões dos laços diaspóricos entre a história do Brasil e da África.
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Recebido em 22/07/2024
Aprovado em 21/12/2024
Publicado em 31/12/2024
Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de o Paulo (1955-1978)
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