Sonhos e vivências transatlânticos de Nize Izabel de Moraes, professora negra do estado de São Paulo (1955-1978)
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Durante o fim do ano de 1967 e o começo do ano de 1968 muitas coisas aconteceram
boas e ruins. Durante o ano de 1967, começou bem. Fui ao Mali na Páscoa em abril,
passei 15 dias com a minha amiga senegalesa, gostei do país e de sua história. Povo
bom e simpático, mas tive decepção com as pessoas que convivi, enfim. Esta é a vida,
tudo que é de graça acaba assim mesmo. Voltei um pouco triste e fui morar com uma
francesa na Cité Camp Claudel. A vida continua simples, complicada e triste. Os estu-
dantes não estão contentes com as atitudes das autoridades escolares e pouco menos
com o presidente. Dizem que vão boicotar os exames e se isso não acontecer vão à
greve. Bem isto aconteceu, não entendi o que havia com os colegiais, com os ginasianos
e estudantes senegaleses. Só sei que na véspera dos exames 27/05/1968, para os angló-
fonos e outras faculdades, estourou uma greve de maneira violenta como em Paris.
Devo dizer que nesta mesma época um surto de greve estourou em França. Lideradas
por elementos joviais e com ideais revolucionários. O principal era um estudante ale-
mão. Houve mortes e as faculdades francesas foram fechadas. Na África Ocidental, de
língua francesa, o fenômeno veio a se repetir com o exército do presidente despojando
os estudantes da Universidade de Dakar. A mesma foi fechada e nos estudantes, negros,
brancos e estrangeiros fomos expulsos do país. Todos tivemos que sair apressadamente
da área universitária, pois os policiais eram duros conosco. Eu consegui sair da cite e só
voltei dois dias para pegar minhas coisas, acompanhada do tal Adido Cultural. Até aí
tudo bem. Consegui me alojar falando com o diretor do Ifan, que me cedeu uma cama
num quarto junto com uma egipciana, a qual me detestava. Fiquei com ela uns dois
meses depois, esta partiu para França, pois sua bolsa do Ifan terminou (Moraes, 1968).
No relato anterior, Nize reconheceu o apoio da Embaixada Brasileira na estadia em Da-
kar e, no seguinte, apontou a existência de abuso de poder por parte da Embaixada brasileira e
de confrontos com Pedro Moacyr. As relações de Moraes se complicaram com a Embaixada
Brasileira em razão da sua insistência em permanecer na Universidade de Dakar mesmo no
cenário de turbulência e instabilidade política no Senegal:
No dia 05/06/1968 a Embaixada do Brasil me deu o ultimato, se você parte traremos
toda a sua bagagem, passagem e tudo, mas no caso da recusa terá que assinar uma de-
claração, na qual aquela embaixada não terá mais nenhuma responsabilidade sobre mi-
nha pessoa. Jamais fui tão humilhada na minha vida. Debaixo de gritos do tal Adido
Cultural e Embaixada Juntos, os quais, creio eu, eram racistas em todos os sentidos.
Acabei assinando. Fiquei desde então na dependência dos amigos franceses, principal-
mente de um casal, sendo que sua esposa foi expulsa pelo tal Adido Cultural da nossa
embaixada. Devo lembrar que estes representantes do nosso país não eram de carreira e
sim de proteção, o que é admirável no nosso país, principalmente em se tratando de um
país de negro como é o caso do Senegal. Muita gente gostou da minha situação, pois
creio eu, muita gente não simpatizava comigo, principalmente os dois brasileiros que
aqui estão. Fiquei sob a responsabilidade da embaixada francesa e dependendo de ami-
gos franceses. Interessante que de 2
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a sábado eu tinha compromissos com as várias
famílias. Fiquei doente e tive a assistência de um casal que por mim se interessou, me
olhando durante a minha doença e me levando a todas as festas possíveis (nas embaixa-
das principalmente). Mamãe precisou me mandar dinheiro duas vezes. Isto foi levado
em efeito até o mês de outubro de 1968, pois tivemos a reabertura da Universidade de
Dakar e as bolsas também. Muitas bolsas foram cortadas e muitos funcionários france-
ses foram expulsos de suas funções e tiveram que voltar à França, a revolta desses ex-
pulsos foi enorme [...] (Moraes, 1968).
Os relatos nizianos referentes à questão da licença, como professora, anseiam pela apro-
vação com comissionamento, informam sobre a feitura de ofícios, cartas e procurações,