30 anos da presença ancestral de Lélia Gonzalez entre nós: entre o fazer político e a construção de agendas inegociáveis
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A intelectualidade negra em movimento, ao assumir seu devido lugar na mesa e na es-
crita acadêmica, posiciona-se como agente histórico que movimenta e politiza o espaço de so-
cialização e construção de narrativas teóricas e práticas para desmantelar a ótica colonial racista.
Não se trata apenas de emoção. É sobre corpos marcados para morrer, ser encarcerados e in-
fantilizados no exercício da fala e do ato de falar, escrever, sistematizar e disputar. O ato de
teorizar, sistematizar e mobilizar a negra gente passa pelo corpo-cabeça e voz, pois temos a
língua cruzada nas mandingas do pretuguês, que é portadora deste axé que desperta cabeças
para a feitura pelas mãos de Lélia Gonzalez, a criadora de caos!
Feitos por Lelia Gonzalez e na dicisa dos Movimentos Negros: os negro-cearenses
na construção de espacialidades, epistemologias, sambas e política
O estado do Ceará é tão marcado pelo racismo e pela invisibilidade da presença negra
que foi necessária muita luta para afirmar direitos e visibilidade. Aqui, a 'intelectualidade' e os
'cânones' cearenses também se utilizaram do racismo científico presente nas Ciências Sociais e
em diversas áreas do conhecimento acadêmico e político para negligenciar os históricos de
massacres e de coletividades.
Segundo Ratts (2011), a invisibilidade negra (e indígena) no Ceará é um discurso geo-
gráfico e político. Se não há negros, não há movimento, história e direitos dos negros. Porém,
é nesse território que presenciamos a forma mais criativa de Amefricanidade, pois a existência
e resistência dos povos indígenas, negros e africanos se fazem presentes nas mais diversas épo-
cas de nossa história.
Atualmente, o Ceará está organizado em 5 macrorregiões (Fortaleza, Norte, Cariri, Ser-
tão Central, Litoral Leste e Vale do Jaguaribe), com uma população indígena estimada em cerca
de 36 mil pessoas, pertencentes a 15 povos indígenas – Anacé, Gavião, Kanindé, Kariri, Tre-
membé, Tapeba, Jenipapo-Kanindé, Pitaguary, Kalabaça, Karão, Tapuia-Kariri, Tubiba-Ta-
puia, Potyguara, Tabajara e Tupinambá, de acordo com os dados do Censo Demográfico do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022.
Quanto às comunidades quilombolas, foram registrados 23.955 quilombolas distribuí-
dos em 68 dos 184 municípios do estado. Destacam-se as cidades com maior número de rema-
nescentes quilombolas, como Caucaia (2.615), Horizonte (2.282), Salitre (1.804), Tururu
(1.804), Tauá (1.069), Novo Oriente (1.053) e Aracati (1.016). Além disso, o Censo Demográ-
fico de 2022 revelou que, no Ceará, 5.690.973 pessoas declararam-se pardas (64,7%),
2.456.214 brancas (27,9%), 595.694 pretas (6,8%), 56.372 indígenas (0,6%) e 11.256 amarelas
(0,1%), o que significa que 71,5% da população se identifica como negra.