Resgate de vivências e trajerias: uma resenha do livro Quilombos: Memórias e histórias de comunidades quilombolas
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Resgate de vivências e trajetórias: uma resenha do livro
Quilombos: Memórias e histórias de comunidades
quilombolas
PLÍNIO DOS SANTOS, Carlos Alexandre Barboza. Quilombos: memórias e histórias de
comunidades quilombolas. 1. ed. Brasília: Mil folhas, 2021. 268 p.
Calebe Silva de Carvalho
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ORCID: 0009-0007-4311-4365
Reconhecimento, essa é a palavra que define o livro Quilombos: memórias e histórias
de comunidades quilombolas, escrito por Carlos Alexandre Plínio
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, antropólogo e professor da
Universidade de Brasília. Esse é um livro que nos faz mergulhar em histórias e narrativas sobre
comunidades quilombolas, por meio de uma pesquisa etnográfica e etno-histórica. Existe uma
grande resistência, como é descrito em cada capítulo, para que as memórias se mantenham vivas
e direitos que a muito custo foram conquistados o sejam revogados. Diante disso, esta resenha
tem como objetivo destacar e apresentar algumas das narrativas, histórias, memórias e questões
do direito à terra em relação a quilombos que estão presentes no livro.
O livro está dividido em oito capítulos, e seu principal objetivo é apresentar a pesquisa
feita pelo autor que buscou apreender e descrever o modo como as comunidades quilombolas
estabeleceram suas territorialidades, bem como suas (re)produções materiais, simbólicas, me-
mórias e histórias. O livro é iniciado trazendo uma descrição no capítulo 1 (“Direitos quilom-
bolas: trinta anos de um ato constitucional”) sobre o artigo 68 do Ato das Disposições Consti-
tucionais Territoriais, inserido na Constituição Federal de 1988, o qual assegura os direitos das
comunidades quilombolas de possuírem a propriedade definitiva de suas terras. Nas últimas
décadas, uma série de atos políticos, como projetos de leis, tentam impedir e enfraquecer sua
total implementação.
Como vimos, desde a sua crião, o artigo 68 passou por sucessivas formas de revogação,
o que atinge diretamente comunidades quilombolas. O capítulo 2, denominado A fábrica de escra-
vizados: a escravidão negra no sul de Mato Grosso (1718 1888)”, descreve a realização de estudos
fundiários em áreas reivindicadas por quilombolas em Mato Grosso, onde houve manifestações e
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Graduando do Bacharelado em Ciência Política da Universidade de Brasília, integrante do grupo IPê (Informação
Pública e Eleições) do IPOL/UnB. Redator da Rede de Produtores de Conteúdo da Politize. Interesses de pesquisa:
Comportamento eleitoral e Político; Antropologia Urbana. E-mail: calebescb@gmail.com.
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Professor Adjunto do Departamento de Antropologia (DAN) da Universidade de Brasília (UnB). No
PPGAS/DAN/UnB, concluiu o Doutorado (2010) e o Mestrado em Antropologia Social (2006). Ainda no DAN/UnB,
realizou o Bacharelado em Ciências Sociais, com habilitão em Antropologia (1995). Possui tamm graduão em
Geografia (1990) e em Estudos Sociais (1989), além de especialização em Geografia do Brasil (1990).
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conflitos estimulados por instituições governamentais e não governamentais contrias aos direitos
territoriais quilombolas. O não reconhecimento das terras pertencentes às comunidades faz com que
suas histórias não se mantenham vivas e não possam permanecer ali.
A partir do capítulo 3 “Eva Maria de Jesus: comunidade quilombola tia Eva” , en-
contramos as histórias das comunidades e tradições culturais quilombolas, sendo interessante
como o autor narra e representa as memórias com detalhes contextualizando e trazendo de
forma completa o surgimento e como as comunidades atualmente estão organizadas. Nesse ca-
pítulo, o autor descreve a história da comunidade quilombola Tia Eva, que, através da história
oral, mantém vivas as narrativas e memórias de seu povo, sendo repassadas de uma geração
para outra, como é descrito no capítulo. O autor traz, nesse capítulo, a história de Eva Maria de
Jesus (1848 1926), a qual nos permite entender a formação dessa comunidade quilombola. A
ex-escravizada tia
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Eva nasceu na fazenda Ariranha, propriedade de José Manuel Vilela, e desde
cedo ajudava nos afazeres domésticos, desempenhando várias funções.
A história de tia Eva é marcada por sua trajetória como benzedeira, e foi através dessa
função, intimamente ligada à sua vocação religiosa, que tia Eva ascendeu socialmente e ganhou
notoriedade por seus trabalhos, gerando uma clientela que a procurava em busca de remédios
para tratamentos. No decorrer do capítulo, vemos como sua devoção e estão presentes na
formação da comunidade, permitindo que observemos como se desenvolveu o processo de mi-
gração e o nascimento de uma irmandade. Tia Eva, juntamente com outros ex-escravizados,
mudou-se para Campo Grande com o objetivo de continuar um “projeto camponês
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na terra
“prometida
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”, onde ela e seus companheiros almejavam viver livres, fortalecendo as teias soci-
ais que foram desenvolvidas nas relações familiares de compadrio, e de laços afetivos que co-
nectavam as fazendas escravagistas em Mato Grosso. O autor apresenta tia Eva e sua trajetória
de uma forma bastante reflexiva sobre uma irmandade
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e a organização social da comunidade
quilombola Tia Eva.
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“Tia” é uma categoria honorífica social. Eva Maria de Jesus era chamada assim por conta de seu empenho como
benzedeira.
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O projeto camponês é a vivência plena do modo de vida que comunidades quilombolas desejam viver. Nele, a
terra possui um outro valor e significado, assim como o trabalho e demais relações que se opõem totalmente ao
regime escravista
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O autor faz analogia a uma história bíblica da terra prometida, em que o povo hebreu conquista, após muitos
anos, a terra que Deus prometeu, mas até chegarem são provados. O mesmo acontece com tia Eva e demais
viajantes até Campo Grande.
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Essa “Irmandade”, com a letra inicial maiúscula, se diferencia das “irmandades”, com inicial minúscula, que são
mulheres negras religiosas, pelo fato das primeiras não estarem submetidas ao controle e às normas eclesiásticas
da organização política e religiosa da Igreja Católica.
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No capítulo 4 (Comunidade quilombola Dezidério Fellippe de Oliveira: Os Negros da
Picadinha), é apresentada a história da comunidade quilombola Dezidério Fellippe de Oliveira:
os negros da picadinha, localizada no Mato Grosso do Sul. O objetivo desse capítulo é descre-
ver, por meio da memória coletiva de idosos da comunidade quilombola, a trajetória de um ex-
escravizado. Os laços de compadrio são apresentados como uma forma de estabelecer e apro-
fundar os laços de solidariedade com outras famílias de negros camponeses. O autor apresenta
a trajetória de Dezidério com detalhes, dando ênfase às suas memórias familiares, assim como
fez o autor ao descrever a história de tia Eva no capítulo anterior.
A principal questão que podemos destacar nesse capítulo é o processo do não reconhe-
cimento das terras que eram da família de Dezidério. Como apontado no capítulo 1 existe um
imenso processo de articulação para a retirada de direitos e um projeto de desmonte das terras
pertencentes também a outras comunidades, processo que, segundo o autor, revela uma exclu-
são: “[...] identifico a desterritorialização como um processo de exclusão territorial
social. Nesse sentido, percebo as categorias “território” e “social” como intrínsecas,
sendo uma complementar a outra” (Plínio dos Santos, 2021, p.129). A perda da posse de terras
fez com que houvesse um grande impacto sobre a memória da família de Dezidério, o que nos
faz refletir sobre como é necessário que o Estado brasileiro repense esses processos de reco-
nhecimento e suas consequências quando ocorre uma exclusão.
No capítulo 5, intitulado “Negros do Buriti”: Memórias de uma comunidade negra rural
sul-mato-grossense”, o autor traz as memórias da comunidade rural Negros do Buriti, e inicia
abordando a história oral e suas oposições à memória nacional. A etnografia é usada como base
para pesquisas sobre comunidades negras rurais, com o objetivo de apresentar as trajetórias de
vida da família de ex-escravizados Nortório e Silva e, como consequência, a história da origem
e formação da comunidade negra rural da Chácara do Buriti, localizada na zona rural do muní-
cipio de Campo Grande/MS. A presença de narrativas familiares é algo bastante forte nesse
capítulo, e a interação das comunidades negras no Mato Grosso do Sul é importante na forma-
ção da rede de relações, como aponta o autor.
No capítulo 6, que recebe o título “Festejo e comensalidade: a festa de São Pedro dos
“Negros do Largo da Baía”, o autor nos apresenta outra comunidade: a dos Negros do Largo da
Baía. Aqui há uma abordagem cultural através da organização de uma festa tradicional em ho-
menagem a São Pedro, marcada para acontecer anualmente na primeira semana de julho. Os
preparativos do festejo começam no início de cada ano, e o autor os narra com detalhes: “[...]
as novenas se iniciam sete dias antes de começar a festejo, são realizadas no período noturno
na capela de São Pedro, com a participação de rios promesseiros e moradores da região do
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Largo da Baía, principalmente mulheres.” (Plínio dos Santos, 2021, p.174). É muito interes-
sante ver uma tradição cultural viva e como todos os envolvidos fazem o possível para que a
tradição se mantenha viva!
No capítulo 7 “Negros do Tapuio”: Estudo etnográfico de uma comunidade quilombola
do semiárido piauiense” , é narrada a história da comunidade Negros do Tapuio no Piauí. Esse
é o mais extenso de todos capítulos que foram escritos e organizados, que a abordagem é intei-
ramente etnográfica também usando a historiografia. Nos capítulos anteriores, vimos a construção
de histórias e narrativas usando a oralidade, de modo que o autor inicia o texto abordando a es-
cravidão no Piae faz críticas em relação ao modo como a história oficial é apresentada. Ao
decorrer do capítulo, é descrita a origem da comunidade, sua organização social e demais ques-
tões sobre ela, tornando possível que essa narrativa seja definida como intimista.
No capítulo 8 e final, denominado “Conjuntura de uma necropolítica: a epidemia da
covid-19 nas comunidades quilombolas”, o autor conclui a obra ao citar os impactos da pande-
mia do covid-19 nas comunidades quilombolas. Esse capítulo demonstra como as medidas
tomadas pelo Estado para conter o vírus e as suas consequências não foram tão eficazes devido
à ausência de um planejamento estratégico adequado, atingindo várias comunidades, que fica-
ram desassistidas durante a pandemia do novo coronavírus: “Como enunciado no título do
capítulo e na introdução, a necropolítica do Estado brasileiro, política que vem dos períodos
Brasil Colônia e Império e que continuou na República, foi a marca das revelações do Estado
com a população negra” (Plínio dos Santos, 2021, p. 262).
O movimento quilombola e a Coordenação Nacional de Articulão de Quilombos
(CONAQ) organizaram-se para que medidas fossem tomadas e os impactos pudessem ser
menores nas comunidades, tornando crucial a discussão das relões entre saúde pública no
Brasil e o movimento quilombola. Este livro é uma obra prima em que o autor resgata histórias
e narrativas de uma forma minuciosa. Histórias como a de tia Eva e as demais que estão presentes
na obra nos fazem refletir sobre como é necessário pensar as comunidades quilombolas, de modo
que a resistência pode ser vista em todos os capítulos escritos para que se mantenham vivas as
manifestações religiosas e culturais. Mais do que isso, vê-se, também, a importância de se garantir
o direito à existência e o reconhecimento das terras que pertencem a essas comunidades que lutam
para se manter de pé. Com isso, reforçamos que o Estado brasileiro precisa urgentemente repensar
sua relação com as comunidades quilombolas, principalmente aprender a valorizar e reconhecer
a ancestralidade religiosa, material e imaterial presente nas comunidades quilombolas.
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Referências
FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Brasília: Senado Federal, 2003.
GROFF, Paulo Vargas. Direitos fundamentais nas constituições brasileiras. Revista de
Informação Legislativa, Brasília, v. 45, n. 178, p.105-129, abr./jun. 2008.
LEAL, Hermes. Quilombo: uma aventura no vão das almas. São Paulo: Mercuryo, 1995.
Recebido em 21/07/2024
Aprovado em 14/12/2024
Publicado em 31/12/2024