Resgate de vivências e trajetórias: uma resenha do livro Quilombos: Memórias e histórias de comunidades quilombolas
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No capítulo 4 (Comunidade quilombola Dezidério Fellippe de Oliveira: Os Negros da
Picadinha), é apresentada a história da comunidade quilombola Dezidério Fellippe de Oliveira:
os negros da picadinha, localizada no Mato Grosso do Sul. O objetivo desse capítulo é descre-
ver, por meio da memória coletiva de idosos da comunidade quilombola, a trajetória de um ex-
escravizado. Os laços de compadrio são apresentados como uma forma de estabelecer e apro-
fundar os laços de solidariedade com outras famílias de negros camponeses. O autor apresenta
a trajetória de Dezidério com detalhes, dando ênfase às suas memórias familiares, assim como
fez o autor ao descrever a história de tia Eva no capítulo anterior.
A principal questão que podemos destacar nesse capítulo é o processo do não reconhe-
cimento das terras que eram da família de Dezidério. Como apontado no capítulo 1 existe um
imenso processo de articulação para a retirada de direitos e um projeto de desmonte das terras
pertencentes também a outras comunidades, processo que, segundo o autor, revela uma exclu-
são: “[...] identifico a desterritorialização como um processo de exclusão territorial
social. Nesse sentido, percebo as categorias “território” e “social” como intrínsecas,
sendo uma complementar a outra” (Plínio dos Santos, 2021, p.129). A perda da posse de terras
fez com que houvesse um grande impacto sobre a memória da família de Dezidério, o que nos
faz refletir sobre como é necessário que o Estado brasileiro repense esses processos de reco-
nhecimento e suas consequências quando ocorre uma exclusão.
No capítulo 5, intitulado “Negros do Buriti”: Memórias de uma comunidade negra rural
sul-mato-grossense”, o autor traz as memórias da comunidade rural Negros do Buriti, e inicia
abordando a história oral e suas oposições à memória nacional. A etnografia é usada como base
para pesquisas sobre comunidades negras rurais, com o objetivo de apresentar as trajetórias de
vida da família de ex-escravizados Nortório e Silva e, como consequência, a história da origem
e formação da comunidade negra rural da Chácara do Buriti, localizada na zona rural do muní-
cipio de Campo Grande/MS. A presença de narrativas familiares é algo bastante forte nesse
capítulo, e a interação das comunidades negras no Mato Grosso do Sul é importante na forma-
ção da rede de relações, como aponta o autor.
No capítulo 6, que recebe o título “Festejo e comensalidade: a festa de São Pedro dos
“Negros do Largo da Baía”, o autor nos apresenta outra comunidade: a dos Negros do Largo da
Baía. Aqui há uma abordagem cultural através da organização de uma festa tradicional em ho-
menagem a São Pedro, marcada para acontecer anualmente na primeira semana de julho. Os
preparativos do festejo começam no início de cada ano, e o autor os narra com detalhes: “[...]
as novenas se iniciam sete dias antes de começar a festejo, são realizadas no período noturno
na capela de São Pedro, com a participação de vários promesseiros e moradores da região do