A análise sobre a encruza teórica do Reconhecimento e o Epistemicídio
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Os pretos são comparação. Primeira verdade. Eles são comparação, ou seja, eles se pre-
ocupam constantemente com a autovalorização e com o ideal do ego. Cada vez que
entram em contacto com um outro, advêm questões de valor, de mérito. Os antilhanos
não têm valor próprio, eles são sempre tributários do aparecimento do outro. Estão sem-
pre se referindo ao menos inteligente do que eu, ao mais negro do que eu, ao menos
distinto do que eu (Fanon, 2008, p. 176).
O colonialismo reduziu o negro a estereótipos. Isso foi uma estratégia da comparação,
para delimitar marcadores que tipificassem o negro. A redução a estereótipos ocorria desde a
rítmica, passando pela sexualidade e a musicalidade. Os corpos dos negros, principalmente das
mulheres negras eram hipersexualizados e postos em condição de vulnerabilidade por isso. Os
esteriotipos criados pelo racismo constroem um complexo de inferioridade para o negro. E pen-
sar descolonialidade é pensar negro como sujeito pensante, que produz conhecimento, e que é
capaz de criar intelectualmente e mover estruturas com suas produções (Fanon, 2008).
Existe uma recusa em considerar os corpos negros como sujeitos pensantes e produtores
de conhecimento, o que causa uma invalidação, negação e por vezes um ocultamento das pro-
duções relacionadas aos povos em diáspora Africana. Esse caminhar é fundamentado por uma
imposição de embranquecimento cultural, justamente porque o branco é o padrão normativo da
humanidade pensante. Configurações como essas acima citadas são denominadas como episte-
micídio. Ações que sustentam um apagamento de produção intelectual, cultural, de povos de
minoria étnica (Carneiro, 2005).
De acordo com Nogueira (2020), a ideia do etnocentrismo origina-se da “heterofobia”,
sendo o medo ou hostilidade à existência do outro. O autor traz a ideia de que o reconhecimento
do outro como seu semelhante ou seu igual seria um movimento dificultoso. Além dessa difi-
culdade, o próprio ato de renunciar o outro, enquanto algo sem importância, já deixaria evidente
a própria identidade de quem renunciou. Em outras palavras, ele fala sobre um sujeito que ao
negar reconhecimento na cultura, religiosidade, sexualidade, epistemologia de um outro, já for-
mata a sua própria identidade. Onde o ser pensante é o ser universal, a norma, e tudo que se
afasta dessa universalidade é o outro. E dentro dessa conjuntura de universalidade como padrão
existencial, de referência, o outro é o avesso do que é aceito, não tem legitimidade. O racismo,
por exemplo, é uma ideia de supremacia racial que demonstra de forma inquestionável a atuação
da heterofobia para designar identidades humanas.
A questão central do racismo está na inferiorização de um outro grupo social, com traços
culturais, linguísticos, religiosos, diferentes do sujeito que se percebe como referência (Mu-
nanga, 2010). Pensando com Almeida (2019), entender o racismo como uma patologia é um
erro, racismo não é doença, racismo é um sistema que estrutura e organiza a sociedade. O ra-
cismo estrutural não é uma anormalidade, ou mais um tipo de traço de racismo, como racismo