A análise sobre a encruza teórica do Reconhecimento e o Epistemidio
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A análise sobre a encruza teórica do Reconhecimento e o
Epistemicídio
The analysis of the theoretical crossroads of Recognition and Epistemicide
El análisis sobre el cruce teórico del Reconocimiento y el Epistemicidio
Laís Moreira de Oliveira
1
ORCID: 0009-0007-1792-4276
Resumo
Quando pensamos sobre a estrutura social e racial do Brasil precisamos entender como
funciona a manutenção dos pilares que sustentam o racismo e suas facetas. Como por
exemplo, o fazer científico, o pensamento cognitivo intelectual, diante de uma
modelagem racista, tem uma face. Tem historicamente uma aparência, um rosto, e ele
não é preto. O corpo de pessoas pretas não é reconhecido facilmente como um
corpo/mente que é capaz de promover a cognição de forma estratégica, erudita, ou
ainda de qualquer outra ordem a qual possa ser entendida como fonte de
conhecimento. Esse não reconhecimento se configura como estratégia de manutenção
dos padrões previamente estabelecidos por uma sociedade cientificamente
brancocêntrica. O colonialismo costurou com linhas grossas a ideia de uma cognição
limitante para corpos pretos. Nutrindo o pensar de apequenamento das ideias e
produções intelectuais de povos subalternizados. Não pensar que o processo
intelectual de pessoas subalternizadas importa, não localizando essas pessoas como
agentes de produções de conhecimentos, é continuar a promover o apagamento
intelectual; é mais uma forma de silenciamento e morte. O epistemicídio acaba
atuando como mais uma ferramenta atualizada de poder em uma conjuntura de
opressão racial, que monopoliza, historicamente, produções intelectuais de pessoas
pretas; privilegiando culturalmente um grupo em detrimento de outro. Em vista disso,
esse material teórico busca tratar de assuntos como epistemicídio e teoria do
reconhecimento a partir de um cruzamento de ideias entre as duas teorias, buscando
entender como a relação de reconhecimento ou ausência dele colaboram para a
existência do epistemicídio.
Palavras-chave: Apagamento; Reconhecimento; Epistemicídio; Colonialismo.
Abstract
When we think about the social and racial structure of Brazil, we need to understand
how the maintenance of the pillars that sustain racism and its facets operates. For
example, scientific work and cognitive intellectual thought, when confronted with a
racist framework, have a face. Historically, they have a certain appearance, a face, and
it is not Black. The bodies of Black people are not easily recognized as bodies/minds
capable of promoting cognition in a strategic, scholarly way, or in any other manner
1
Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Graduada em Licenci-
atura em Química pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Professora da Rede Estadual de
Ensino de Cabaceiras do Paraguaçu - Bahia. E-mail: laimoreiraoliveira@gmail.com.
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that can be understood as a source of knowledge. This lack of recognition serves as a
strategy to maintain the standards previously established by a scientifically white-
centric society. Colonialism strongly stitched together the idea of limiting cognition for
Black bodies, nurturing the diminishment of ideas and intellectual productions of
subaltern peoples. Failing to recognize that the intellectual processes of subaltern
individuals matter by not acknowledging them as agents of knowledge production
continues to promote intellectual erasure; it is yet another form of silencing and death.
Epistemicide acts as an updated tool of power within a context of racial oppression,
historically monopolizing the intellectual productions of Black individuals while
culturally privileging one group over another. In light of this, this theoretical material
seeks to address topics such as epistemicide and recognition theory through a cross-
examination of ideas from both theories, aiming to understand how the relationship of
recognition or its absence contributes to the existence of epistemicide.
Keywords: Erasure; Recognition; Epistemicide; Colonialism.
Resumen
Cuando pensamos en la estructura social y racial de Brasil, necesitamos entender cómo
funciona el mantenimiento de los pilares que sustentan el racismo y sus facetas. Por
ejemplo, el hacer científico, el pensamiento cognitivo intelectual, frente a un marco
racista, tiene una cara. Históricamente, tiene una apariencia, un rostro, y no es negro.
El cuerpo de las personas negras no es fácilmente reconocido como un cuerpo/mente
capaz de promover la cognición de manera estratégica, erudita, o de cualquier otra
forma que pueda ser entendida como fuente de conocimiento. Este no reconocimiento
se configura como una estrategia de mantenimiento de los patrones previamente
establecidos por una sociedad científicamente blancocéntrica. El colonialismo tejió con
hilos gruesos la idea de una cognición limitante para los cuerpos negros, alimentando
el pensamiento de disminución de las ideas y producciones intelectuales de los
pueblos subalternizados. No pensar que el proceso intelectual de las personas
subalternizadas importa, al no localizarlas como agentes de producción de
conocimientos, es continuar promoviendo el borrado intelectual; es otra forma de
silenciamiento y muerte. El epistemicidio actúa como una herramienta actualizada de
poder en un contexto de opresión racial, que históricamente monopoliza las
producciones intelectuales de las personas negras, privilegiando culturalmente a un
grupo en detrimento de otro. A la luz de esto, este material teórico busca tratar temas
como el epistemicidio y la teoría del reconocimiento a partir de un cruce de ideas entre
ambas teorías, buscando entender cómo la relación de reconocimiento o su ausencia
colabora para la existencia del epistemicidio.
Palabras clave: Borradura; Reconocimiento; Epistemicidio; Colonialismo.
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Introdução
Nos últimos tempos tem se observado um avanço significativo na busca por espaços no
que tange a produção intelectual de povos subalternizados (população periférica, negros, indí-
genas). Não que antes a produção intelectual não acontecesse, acontecia, sempre aconteceu,
porém o racismo estrutural cuidou para que essa população em foco, não acreditasse no pro-
cesso de ruptura com o pensamento hegemônico de produção intelectual, e permanece a con-
sumir e a perpetuar reflexões fundamentadas em um único ponto de vista, por acreditar serem
incapazes de produzir outras epistemologias.
As construções epistemológicas se davam hegemonicamente pela face branca, sem aber-
tura para outras possibilidades de pensamento. Essa técnica de invalidação ou apagamento de
conhecimento e de produção é resultado da colonização dos povos, onde a população subalter-
nizada era assemelhada à animais irracionais. Animalizados, descaracterizados de humanidade,
considerados livres de desenvolvimento cognitivo intelectual, incapazes assim de serem reco-
nhecidos em uma produção de saberes (Nogueira, 2020).
A proposta desse ensaio se baseia justamente em investigar/ compreender como o apa-
gamento intelectual (epistemicídio) se relaciona com a teoria do reconhecimento. Buscando
entender por meio de análises feitas por Boaventura de Sousa, Sueli Carneiro e Frantz Fanon,
como historicamente a produção intelectual foi monopolizada de forma a normatizar um colo-
nialismo cognitivo que privilegia culturalmente um grupo em detrimento de outro. Forma essa
que traz uma ideia de conhecimento superior e conhecimento inferior, o que corrobora para a
ausência de reconhecimento de pessoas negras, consideradas secundárias, como pessoas capa-
zes de produzir epistemologias classificadas como importantes. Toda essa problemática é en-
trecruzada com a teoria de reconhecimento discutida por Axel Honneth e Nancy Fraser, e dia-
logando também com poder simbólico abordado por Pierre Bourdieu.
A relevância desse ensaio se fundamenta primeiramente na existência de poucas análi-
ses de epistemicídio pensado a partir da teoria de reconhecimento. Não existem muitos relatos
literários onde esse entrecruzamento seja discutido. Além da escassez de textos relacionando
os dois temas, que é relevante para a academia, há também a importância social, histórica, com
o entendimento sobre epistemicídio e o silenciamento de povos em diáspora africana. Bem
como a importância de cunho pessoal, pois me relaciono diretamente com essas questões que
estruturam a sociedade, como o racismo estrutural, e por consequência o epistemicídio. Pois
sou mulher preta, de axé, em diáspora africana que além de atravessada por opressões sociais
dentro dessa perspectiva, ainda desenvolvo pesquisas em outras esferas, como a cosmoconexão
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ancestral por meio das religiões afro e as pedagogias de cuidados produzidas em chão terreiro,
que se associam com esse estudo em questão, por serem pensamentos, ações, métodos produ-
zidos e realizados pela população preta que, inúmeras vezes, são invalidados, descredibilizados
e também demonizados. Todos esses assuntos se entrelaçam, pois tem a mesma fonte de origem
que é o arranjo social do racismo.
Diante de tudo que foi escrito até aqui, e de acordo com a complexidade da discussão
proposta entre reconhecimento e epistemicídio é possível perceber a pergunta que norteia esse
ensaio: Quais as possíveis conexões entre a teoria do epistemicídio e a teoria do reconhecimento?
Essa análise está organizada em três camadas. Na primeira delas é exposta a abordagem
do tema epistemicídio; trazendo informações sobre a branquitude e o colonialismo cognitivo, o
monopólio linguístico, privilégio da fala; assuntos que promovem a costura sobre a compreen-
são do tema, como também a sua relevância de pauta. Na segunda camada o reconhecimento
como teoria é apresentado, trazendo as formas as quais a temática é comumente abordada e
definida. Propondo uma compreensão sobre o tema de forma a explicitar como essa teoria per-
forma na sociedade. Na última porção de texto é apresentada a encruza de pensamentos que
promovem a comunicação da teoria do reconhecimento com o conceito de epistemicídio.
Epistemicídio
De acordo com Ribeiro (2017) entendimento sobre a existência de um monopólio
linguístico, onde o homem branco cisgênero, heteronormativo fala a partir do lugar de alguém
que é privilegiado. Privilegiado no discurso e privilegiado na existência. Isso é reflexo da exis-
tência de um olhar colonizador sobre nossos corpos, saberes e, especialmente, as nossas produ-
ções intelectuais. Configurando uma invisibilidade das narrativas e as construções de conheci-
mento advindo de povos negros. Povos que são lidos como inferiores, como meros informantes
do conhecimento, que não são reconhecidos como autoridades na fala em processo de constru-
ção de saberes (Carneiro, 2005).
Desde a colonização que os corpos brancos são sinônimos para padrões estéticos, cul-
turais e intelectuais. Com esse método colonizador a brancura dos povos se torna parâmetro
para medir pureza, nobreza, sabedoria científica, intelectualidade, etc. Ser branco é ser virtuoso,
é ser livre de questionamentos sobre qualquer tipo de manifestação de razão, de ideias, de emo-
ções. A existência da branquitude é a existência humana, retrato civilizatório, e padronizador
social (Nogueira, 1998).
Existe uma condução colonizadora que molda e que coloca o povo preto em constante
comparação, como Fanon (2008) revela:
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Os pretos são comparação. Primeira verdade. Eles são comparação, ou seja, eles se pre-
ocupam constantemente com a autovalorização e com o ideal do ego. Cada vez que
entram em contacto com um outro, advêm questões de valor, de mérito. Os antilhanos
não têm valor próprio, eles são sempre tributários do aparecimento do outro. Estão sem-
pre se referindo ao menos inteligente do que eu, ao mais negro do que eu, ao menos
distinto do que eu (Fanon, 2008, p. 176).
O colonialismo reduziu o negro a estereótipos. Isso foi uma estratégia da comparação,
para delimitar marcadores que tipificassem o negro. A redução a estereótipos ocorria desde a
rítmica, passando pela sexualidade e a musicalidade. Os corpos dos negros, principalmente das
mulheres negras eram hipersexualizados e postos em condição de vulnerabilidade por isso. Os
esteriotipos criados pelo racismo constroem um complexo de inferioridade para o negro. E pen-
sar descolonialidade é pensar negro como sujeito pensante, que produz conhecimento, e que é
capaz de criar intelectualmente e mover estruturas com suas produções (Fanon, 2008).
Existe uma recusa em considerar os corpos negros como sujeitos pensantes e produtores
de conhecimento, o que causa uma invalidação, negação e por vezes um ocultamento das pro-
duções relacionadas aos povos em diáspora Africana. Esse caminhar é fundamentado por uma
imposição de embranquecimento cultural, justamente porque o branco é o padrão normativo da
humanidade pensante. Configurações como essas acima citadas são denominadas como episte-
micídio. Ações que sustentam um apagamento de produção intelectual, cultural, de povos de
minoria étnica (Carneiro, 2005).
De acordo com Nogueira (2020), a ideia do etnocentrismo origina-se da “heterofobia”,
sendo o medo ou hostilidade à existência do outro. O autor traz a ideia de que o reconhecimento
do outro como seu semelhante ou seu igual seria um movimento dificultoso. Além dessa difi-
culdade, o próprio ato de renunciar o outro, enquanto algo sem importância, deixaria evidente
a própria identidade de quem renunciou. Em outras palavras, ele fala sobre um sujeito que ao
negar reconhecimento na cultura, religiosidade, sexualidade, epistemologia de um outro, já for-
mata a sua própria identidade. Onde o ser pensante é o ser universal, a norma, e tudo que se
afasta dessa universalidade é o outro. E dentro dessa conjuntura de universalidade como padrão
existencial, de referência, o outro é o avesso do que é aceito, não tem legitimidade. O racismo,
por exemplo, é uma ideia de supremacia racial que demonstra de forma inquestionável a atuação
da heterofobia para designar identidades humanas.
A questão central do racismo está na inferiorização de um outro grupo social, com traços
culturais, linguísticos, religiosos, diferentes do sujeito que se percebe como referência (Mu-
nanga, 2010). Pensando com Almeida (2019), entender o racismo como uma patologia é um
erro, racismo não é doença, racismo é um sistema que estrutura e organiza a sociedade. O ra-
cismo estrutural não é uma anormalidade, ou mais um tipo de traço de racismo, como racismo
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recreativo, racismo religioso, não, ao que se propõe ele é uma normalidade, é o normal. É um
sistema que funciona como tem que funcionar, garantindo manutenção de poder, naturalizando
desigualdades, legitimando segregação, genocídio e epistemicídio.
Se entendemos que o racismo é uma estrutura de dominação, manutenção de poder,
compreendemos o que Bourdieu traz sobre o poder simbólico. A disposição de poder na socie-
dade ocorre entre dominantes e dominados. Os dominantes são uma parcela muito pequena da
população e os dominados são a ampla maioria. Mas mesmo em quantitativo superior, não con-
seguem se opor a essa dominância e romper com essa conjuntura de poder. O pensamento do
poder ao qual Bourdieu expressa está relacionado aos símbolos, não é um poder de força física
e nem econômica (Ortiz, 1983).
Segundo Ortiz (1983):
Os estudos de Bourdieu acentuam, sobretudo, essa dimensão social em que as relações
entre os homens se constituem em relações de poder, mais ainda, em que elas reprodu-
zem o sistema objetivo de domina, ao interiorizado enquanto subjetividade; a sociedade
e, dessa forma, apreendida como estratificação de poder. A reprodução da ordem não se
confina simplesmente aos aparelhos coercitivos do Estado ou as ideologias oficiais, mas
se inscreve em níveis mais profundos para atingir inclusive as representações sociais ou
as escolhas estéticas (Ortiz, 1983, p. 25 e 26).
A categoria do poder simbólico é desenhada por um poder invisível, porque atua no
campo das ideias. As definições, por exemplo, sobre os locais aos quais a população negra
ocupa, sobre o perfil construído a respeito dessa mesma população, está fundamentado através
de uma agenda de poder, o poder de definir o outro, de categorizar, que está justamente sobre
o controle do dominador (Ortiz, 1983).
O dominado nem sempre percebe que está sendo dominado, como também o dominador
nem sempre tem consciência que está exercendo domínio. O que o dominador tenta a todo
tempo é manter a estrutura de poder, buscando a manutenção de seus privilégios, por isso que
as condições de opressão que emergem do racismo tendem a se atualizar para se manter sob o
poder do dominador (Ortiz, 1983).
Os padrões e as categorias são formatadas de gerações para gerações, o poder coloniza-
dor estabeleceu definições sobre o outro que ainda estão firmes atualmente. Por exemplo, a
definição de “cidadão de bem'' em uma sociedade segregacionista não cabe a personificação do
negro. Porque para ser cidadão de bem, primeiramente precisa ser considerado gente, coisa que
a população negra geralmente não é. O que ressoou da colonização não permite a categoria do
negro ocupar esse lugar.
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Entender a conjuntura do genocídio e do espistemicídio, é perceber que quando pessoas
consideradas como povos estranhos, porque tinham maneiras de pensar, e de produzir conheci-
mento, entendidas como estranhas em relação ao padrão de normalidade, eram eliminadas da soci-
edade, não era somente uma morte sica, era tamm morte simbólica, pois conhecimentos eram
eliminados juntos com o corpo físico. Merias apagadas, constrões epistemológicas banidas.
O epistemidio ecoa na subalternidade, nas formas de conhecimentos sustentados por povos lidos
como marginalizados. Povos que produzem uma forma cncia, uma forma de civilização, mas que
o conseguem coexistir em consonância com outras civilizões (Carneiro, 2005).
Reconhecimento
Dentro de um pametro normativo de justa, a teoria de reconhecimento defendida por Hon-
neth é baseada em três pilares, o amor, o direito e a solidariedade. O amor se relaciona com autocon-
fiança, o direito com o respeito e a solidariedade com a autoestima (Rosenfield; Saavedra, 2013).
Honneth estuda os pensamentos do jovem Hegel para refletir a teoria do reconheci-
mento. Onde Hegel traz a ideia de reconhecimento como sendo um comportamento de recipro-
cidade, um reconhecimento recíproco entre dois sujeitos. Desse modo, um indivíduo se vê
como um sujeito social se for reconhecido por outro. Caso não exista um reconhecimento nesse
sentido para o sujeito ele não existe socialmente (Rosenfield; Saavedra, 2013).
Segundo Honneth os indivíduos se inserem na sociedade atual por meio da luta por re-
conhecimento. Portanto o grande objetivo a ser alcançado é o reconhecimento. A evolução so-
cial pode ser entendida por meio da passagem progressista pelos três pilares do reconhecimento.
Para Honneth (2008) a compreensão sobre a teoria de reconhecimento agiria no sentido
de articular instrumentos para o alcance de justiça social em uma diversidade de esferas. De
acordo ao que o autor defende, é possível que mude as formas históricas que permeiam o reco-
nhecimento e as suas esferas, porém a necessidade de reconhecimento é uma busca universali-
zada, que se mantém como essencial para desdobramento de uma integração social. Desta forma
para efetiva adaptação sociedade necessita-se de uma conduta de reconhecimento.
Sem a experiência de que o outro indivíduo seja um próximo/ semelhante, nós não es-
taríamos em condições de dotá lo com valores morais que controlam ou restringem o
nosso agir; portanto, primeiramente precisa ser consumado esse reconhecimento ele-
mentar, precisamos tomar parte do outro existencialmente, antes de podermos aprender
a orientar-nos por normas do reconhecimento que nos intimam a determinadas formas
de consideração ou de benevolência (Honneth, 2008, p.73).
Refletir sobre justiça social, a partir do reconhecimento só se torna viável e possível se
houver um método global que estabeleça valores. O reconhecimento é um instrumento essencial
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para se pensar justiça. Como é possível observar na teoria do reconhecimento de Honneth
(2003), não existe possibilidade de uma ação de reconhecimento em relações desiguais, em
relações sem entendimento de justiça.
Em relações de poder, hierárquicas, não existe reconhecimento. Um indivíduo que está
em condição superior a outro indivíduo, não se reconhece no que está em condição inferior. Re-
lações desiguais não contemplam reflexões que abarquem a existência de reconhecimento. Fraser
(2007) dirige discussões sobre movimentações sociais que buscam por reconhecimento, movi-
mentos culturais, simbólicos, como movimentos que pautam raça e gênero. O patriarcado, por
exemplo, é um sistema que hierarquiza o poder do homem em detrimento da mulher. O homem
se estabelece como a norma e a mulher como oposto a essa norma. O que também acontece na
estrutura de superioridade racial que o racismo implanta, um grupo etnico é superior em relação
a outro. Como define Ribeiro (2018), quando relaciona a estrutura de racismo entre brancos e
negros: “Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder.
Negros não possuem poder institucional para serem racistas” (Ribeiro, 2018, p. 41).
Reconhecimento e Epistemicídio
A superioridade racial ofertada pelo racismo é um dispositivo de poder. O branco e o
preto têm direitos diferentes sobre viver e morrer. Essa dicotomia existe em uma tecnologia de
poder voltada a preservação da vida de uns e abandono de outros a exposição da morte. O
epistemicídio funciona como um elemento instrumentalizador de racialidade. Um recurso de
aniquilamento da racionalidade, cultura, e da civilização de outro. Novamente, funcionando
como um registro de violência que ressoa do período colonial, utilizando de violência física e
simbólica como estrutura de poder (Carneiro, 2005).
Quando Santos (2007) traz a discussão sobre a linha do Abissal entende-se melhor o pen-
samento de hierarquia do conhecimento de uma civilização em oposição a outra. Ele revela que
existem dois lados, na construção do conhecimento. O pensamento abissal concede à ciência lida
como moderna um donio de distinção universalizada sobre o que venha a ser verdade e o que
o é. Com isso se finda por promover uma disputa epistemológica firmada entre ciência cienfica
e o científica. Sendo de um lado o vivel e do outro o não visível. O que é produzido pela popu-
lação negra é conhecido e reconhecido como uma intelectualidade menor, o lado não visível, uma
formação de pensamento que opera e deve continuar sendo operada na margem. Isso se sustenta
por conta das hierarquias. O lugar de auncia de reconhecimento ocorre justamente pelas hierar-
quias. Onde relações de poder operam em disputa, o se habita reconhecimento.
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O pensamento Abissal tem a capacidade de gerar distinções, por exemplo, o pensamento
da ciência moderna se como detentor da razão, da verdade única, que a partir de critérios
determinados por ele dita o que são verdades ou invencionices. Na linha do visível está a ciência
moderna, e ciências alternativas como filosofia, teologia, do lado oposto (invisível), está o conhe-
cimento tradicional produzido por comunidades subalternizadas, quilombolas, povos negros. Do
lado visível tem leis, do outro lado tem uma terra de selvagens, de sub-humanos onde estão livres
de leis, sendo um território considerado como a-legal. O pensamento universalista do lado visível
o reconhece produção intelectual do lado invisibilizado. O outro lado da linha é entendido com
uma gama de experiências desperdiçadas, que são tornadas invisíveis, tal como seus autores.
Pensar e produzir a partir de uma intelectualidade é uma forma de representar poder.
Falar é exercer poder, ser ouvido é demonstração efetiva de poder. Está delimitando quem pode
ou não falar é reconhecimento de hierarquia. É uma estrutura de dominação. Apagar produção
intelectual de povos por não reconhecer legitimidade, cultura e uma epistemologia desenvol-
vida a partir de povos não dominantes é racismo, é o arranjo do epistemicídio por meio da
inexistência de reconhecimento.
As violências que surgem do processo colonizador não são somente demandadas de
forma física, elas acontecem de forma simbólica também. Perceber que o epistemicídio é en-
gendrado na sociedade para manter o poder de domínio cultural de uma parcela social, é com-
preender como essa violência simbólica de apagamento se perpetua perigosamente. Fanon
(2008) fala sobre a alienação colonial, no sentido de impossibilitar o sujeito negro a se consi-
derar como sujeito ativo de sua própria história. O sujeito pode estar imerso em uma sociedade,
mas se ele não tem condições de se constituir, de se entender identitariamente, como sujeito
dela, ele é alienado, mesmo que possivelmente tenha consciência de tudo que estabelece difi-
culdade no seu desenvolvimento, mesmo assim ele está em alienação.
O que comumente ocorre é a situação do negro na comunidade social ser delimitada,
condicionada pela branquitude que atua como dominadora e os negros que atuam como domi-
nados. Essa configuração desenha a violência simbólica no sentido de que a mesma ocorre em
consonância com o estado que viabiliza o processo de violência. Pois alimenta uma diferencia-
ção hierarquizada entre os povos (Fanon, 2008). O que se relaciona com o que Nogueira (2020)
fala sobre a heterofobia e a necessidade de construir uma identidade, sem negar a identidade
existencial do outro.
De forma parecida com o que acontece com a teoria de reconhecimento:
No caso da forma de reconhecimento do direito, são postas em relevo as propriedades
gerais do ser humano. No caso da valoração social, são postas em relevo as propriedades
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que tornam o indivíduo diferente dos demais, ou seja, as propriedades de sua singulari-
dade (Rosenfield; Saavedra, 2013, p. 21).
Como a questão da valoração social está vinculada ao processo do sujeito em se reco-
nhecer. necessidade de uma valorização da sociedade quanto ao sujeito e sua movimentação
dentro dela. A violência simbólica atua nesse sentido, quando não existe reconhecimento, existe
a ausência de valorização social, que está sustentado pela diferenciação. Um sujeito diferente
das normas de ser sujeito na sociedade é um indivíduo sem valor. Considerado sem cultura,
elevado a condição de desumanidade, o que só favorece a manutenção de poder dos que ditam
a norma e que se leem como universais.
O negro, o indivíduo tratado em questão, passa pelo “convencimento” de estar vivenci-
ando as exclusões pelo mesmo tempo que os privilegiados continuam a usurfruir de seus privi-
légios injustos, e pelo mesmo motivo, “convencimento”. Os ausentes de privilégio ao silenciar-
se estão possibilitando a voz dos privilegiados, é assim que a violência simbólica acontece. É
um modo totalmente interligado, não como existir oprimido sem opressor. E para que o
opressor continue a oprimir e exercer poder, o oprimido precisa ser convencido que aquela é a
situação a qual ele pertence (Fanon, 2008).
Munanga (2010) diz que o racismo no Brasil é uma problemática árdua, onde os indiví-
duos que cometem o crime de racismo, não se reconhecem como racistas. O reconhecimento do
sujeito que comete o crime de racismo como criminoso, minaria a técnica de manutenção de
hierarquias. Para esse debate a condição de criminoso é do subalterno, do irracional, do não hu-
mano, e nunca do sujeito proponente da ação, nesse caso, do racista. O referido autor afirma que:
O maior problema da maioria entre nós parece estar em nosso presente, em nosso
cotidiano de brasileiras e brasileiros, pois temos ainda bastante dificuldade para
entender e decodificar as manifestações do nosso racismo à brasileira, por causa de
suas peculiaridades que o diferenciam das outras formas de manifestações de ra-
cismo acima referidas. Além disso, ecoa dentro de muitos brasileiros, uma voz
muito forte que grita; “não somos racistas, os racistas são os outros, americanos e
sul-africanos brancos”. Essa voz forte e poderosa é o que costumamos chamar
“mito de democracia racial brasileira”, que funciona como uma crença, uma verda-
deira realidade, uma ordem. Assim fica muito difícil arrancar do brasileiro a con-
fissão de que ele é racista (Munanga, 2010, p. 1).
O autor citado diz que a diversidade é algo que não para contestar; ela existe e está
posta, e a classificação serve de modo a operacionar o pensamento. Hierarquização das dife-
renças, o que colocou a raça branca em superioridade a todas as outras. Essa condição, segundo
o autor, serve mais para justificar o processo de dominação racial do que propriamente explicar
uma variabilidade humana na perspectiva biológica. A necessidade da organização social está
arraigada no poder. Dar poder a uns e retirar total de outros. O reconhecimento nessas condutas
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não existe. De acordo com Fraser (2007) não se reconhece comunidades minoritárias como
civilizações que possam coexistir de maneira harmoniosa com outras comunidades, as quais
têm poder de dominação.
Fraser (2007) afirma que os movimentos que pautam por reconhecimento são movimen-
tos que estão mais focados em questões culturais, simbólicas. Os movimentos antirracistas, por
exemplo, se encaixam nesse propósito. A luta por reconhecimento das diferenças é à frente dos
movimentos sociais, de acordo com a autora. O reconhecimento das diferenças é precisamente
para demonstrar a subjetividade de cada sujeito na sociedade, e que o reconhecimento disso é
uma forma considerável de pensar em diversidade. A autora entende que existe o uso das injus-
tiças sociais como dominação cultural, o desrespeito das condições culturais e intelectuais dos
povos minoritários no caminho da luta por reconhecimento.
Para a manuteão de poder, o interessante, nesse caso de racismo, epistemicídio e reco-
nhecimento, é justamente a existência da dominão racial, da alienação colonial, de todos os as-
pectos que foram citados nessa seção. O poder precisa existir para que o reconhecimento o exista.
Não existindo reconhecimento, as estruturas de opreso sismicas continuam a existir, além de a
dominão ser fundamento de controle social. Se uma sociedade consegue organizar um pensa-
mento de reconhecimento entre os sujeitos envolvidos nela, o existiria poder dominante entre os
povos. Ou seja, as culturas diversas o seriam injustadas (Fraser, 2007). Nisso entendemos o
porque que epistemicídio o se relaciona com linearidade entre a teoria de reconhecimento. Se
existisse reconhecimento entre povos com identidades culturais diferentes, o seria priorizada cul-
turas, religiosidade, prodões intelectuais de um grupo para outro socialmente.
Conclusão
É possível existir uma sociedade em que pessoas pensem e ajam de formas diferentes,
em um processo de alteridade, mas sem relação de poder, sem hierarquias. Isso significa que
entender a teoria do reconhecimento é entender que não reconhecimento quando existem
relações desiguais. O epistemicídio, que é um traço do racismo organizado pelo sistema colo-
nialista, ocorre com a ausência de reconhecimento.
Como vimos, a teoria de reconhecimento estabelece relações sem poder, mas em um
vínculo horizontal. Por outro lado, o sistema colonial apaga a produção de conhecimento, cul-
tura, e promove a distinção de saberes entre comunidades, ao mesmo tempo em que é nutrido
por uma dominação. Poder racial, intelectual, normativo e segregacionista.
Epistemicídio, juntamente com o genocídio (que é a morte física do corpo) se findam em
uma ordenação social. Quando se mata o físico de um corpo preto, vulnerabilidade, não é somente
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uma eliminão de massa corpórea, é também simbólico, porque mata-se um corpo território, onde
habita conhecimento, produção, identidade e subjetividade. A morte epistemogica vem antes do
fim propriamente dito. Uma vez que matar a subjetividade do sujeito é destituí-lo de humanidade,
tirar a humanidade de um indiduo, não o reconhecendo como sujeito social é uma estratégia de
extermínio. Por conta disso, todas as estratégias de superação desses obsculos acabam sendo o
primeiro passo para uma sociedade mais democrática e horizontal.
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A análise sobre a encruza teórica do Reconhecimento e o Epistemicídio
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Recebido em 19/07/2024
Aprovado em 04/12/2024
Publicado em 31/12/2024