A paciência revolucionária de Lélia Gonzalez, intelectual amefricana e intérprete do Brasil
| 121
feminista negra, pois ela sugere “que a expressividade pessoal, as emoções e a empatia são
centrais no processo de validação do conhecimento” (Collins, 2020, p. 156). A ética da respon-
sabilidade, de forma conjunta, caracteriza essa episteme feminista negra, já que ela difere do
solipsismo abstrato, que retira o sujeito por trás da afirmação sob a ideia de que a obra pode ser
separada e que possui em si uma racionalidade. Tal conduta ética busca se responsabilizar pelos
saberes produzidos e afirmados.
A partir dessa noção, é examinado se quem está enunciando se porta enquanto sujeito ético,
condizendo com aquilo que propõe. Considerando a epistemologia feminista negra, quando me de-
parei com os potentes relatos das pessoas que conheceram Lélia Gonzalez, pude compreendê-la
como uma grande antecessora de tal prática engajada de produção de saberes e de compreensão do
que é ser uma intelectual. Lélia, que permaneceu em diálogo constante com diversos coletivos,
grupos e associações já bem descritas na introdução deste texto, efetivou uma postura ética, a qual
ela menciona, em entrevista ao Jornal do Movimento Negro Unificado, em 1991, como fruto de
uma paciência revolucionária que emerge na sua ancestralidade africana.
Sueli Carneiro, em entrevista à obra “Histórias do Movimento Negro no Brasil: depoi-
mentos ao CPDOC”, companheira de Lélia Gonzalez no Coletivo Nzinga, diz que Lélia veio,
para ela, organizar o que faltava nos debates raciais no contexto brasileiro, considerando a in-
tersecção entre gênero e raça, bem como a positivação dos corpos negros e da elevação da
autoestima das mulheres negras. Jurema Batista, que também foi companheira de Lélia, em fala
concedida ao “Projeto Memória – Lélia Gonzalez”, menciona que sempre que pensa em Lélia
se lembra do sorriso escancarado de alguém resiliente, que tinha orgulho de si e da sua comu-
nidade, apesar das violências diárias do racismo. Outro relato afetuoso que exemplifica a epis-
temologia feminista negra a partir da figura de Lélia Gonzalez é o de Nilza Iraci, presente tam-
bém no Projeto Memória:
Lélia Gonzalez foi muito mais que a formadora de opinião que influenciou uma geração
de mulheres na arte de reconhecer o significado do racismo, presente nas relações de
gênero, e a importância de enfrentar essas contradições. Divertida, visceral, irreverente,
corajosa, tocou corações, mentes e fígados. À frente do seu tempo, foi global quando
ainda nos afirmávamos local. Foi voz, suor, lágrimas, alma, quando a cumplicidade do
silêncio nos negava a humanidade. Foi uma mulher que viveu e morreu de amores – por
sua raça, suas crenças, seus ideais, seus amigos, sua comunidade. Uma mulher a quem
agradeço o privilégio do aprendizado (Carneiro, 2014, p. 121).
Tendo em vista os pressupostos da epistemologia feminista negra, Sueli Carneiro aponta
Lélia Gonzalez como uma intérprete do Brasil “da ótica da gente negra e das mulheres” (Carneiro,
2014, p. 123), pois aquilo que Lélia propunha em suas produções acadêmicas fazia parte indissoci-
ável da luta prática, de forma alinhada à realidade em que estava inserida, em que seus diagnósticos