lia e Virnia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras
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Lélia e Virgínia: produzindo diálogos entre as intérpretes
das realidades raciais brasileiras
Lélia and Virgínia: producing dialogues between interpreters of Brazilian racial realities
Lélia y Virgínia: produciendo diálogos entre intérpretes de las realidades raciales brasileñas
Rafaela Rodrigues de Paula
1
ORCID: 0000-0003-1978-2199
Steffane Santos
2
ORCID: 0000-0002-6457-7517
Resumo
O presente trabalho objetiva propor diálogos e confluências entre a antropóloga Lélia
Gonzalez e a socióloga e psicanalista Virgínia Bicudo, as quais compuseram parte
importante da construção do pensamento social brasileiro. A partir de uma revisão
bibliográfica da vida e obras das intelectuais, buscamos apresentar a intersecção entre
a trajetória de vida e o percurso acadêmico das intelectuais, ressaltando os encontros
entre experiência e temática de pesquisa. Propomos um diálogo entre as contribuições
das autoras nas dimensões das relações raciais brasileiras, propondo, assim, um
encontro entre as autoras que vai além do epistemicídio perpassado em suas
trajetórias. Por fim, produzimos uma carta direcionada às intelectuais, retomando as
suas ausências e presenças na formação acadêmica das autoras do presente texto.
Assim, tornou-se possível apresentar as descontinuidades presentes nos trabalhos que
se propuseram a pensar a formação brasileira sem considerar o papel fundamental do
segmento de pessoas negras nessa constituição, as quais tiveram um trabalho contra-
hegemônico, desafiando as diretrizes dos modos de fazer Ciências Sociais no país.
Palavras-chave: Lélia Gonzalez; Virgínia Bicudo; Pensamento social brasileiro.
Abstract
The present study aims to propose dialogues and confluences between anthropologist
Lélia Gonzalez and sociologist and psychoanalyst Virgínia Bicudo, who played a
significant role in shaping Brazilian social thought. Through a bibliographic review of
their lives and works, we seek to highlight the intersection between their life trajectories
and academic paths, emphasizing the interplay between lived experience and research
themes. We propose a dialogue between the contributions of these authors within the
1
Doutoranda em Antropologia Social no Programa de Pós Graduão em Antropologia na Universidade Federal de
Minas Gerais (PPGAn-UFMG), mestre em Antropologia Social pelo mesmo programa, graduada em Ciências Sociais
(Licenciatura) na mesma universidade. Possui interesse nas áreas de nero e Raça desenvolvendo pesquisa com esses
marcadores nas trajetórias de trabalhadoras domésticas negras. E-mail: depaularafaelar@gmail.com.
2
Mestre em Antropologia Social (PPGAn-UFMG). Doutoranda em Antropologia Social (PPGAn-UFMG). Ba-
charela em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro do Grupo de Pesquisa
Gênero e Sexualidades (GESEX/UFMG). Constrói o Coletivo Retomadas Epistemológicas, coletivo anti episte-
micídio que se articula objetivando a retomada de saberes contra hegemônicos. Pesquisadora associada a Associ-
ação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN). Possui interesse em estudos de gênero, raça, feminismo
negro, hip-hop, interseccionalidade, cultura negra, musicalidades periféricas, produção epistêmica e patrimônio
cultural.E-mail: steffanespereira@gmail.com.
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dimensions of Brazilian racial relations, thus fostering an encounter that transcends the
epistemicide embedded in their histories. Finally, we compose a letter addressed to
these intellectuals, revisiting their absences and presences in the academic formation
of the authors of this text. In doing so, it becomes possible to expose the discontinuities
in works that have attempted to analyze Brazilian development without acknowledging
the essential role of Black individuals in this processindividuals who engaged in
counter-hegemonic work, challenging the established paradigms of conducting Social
Sciences in the country.
Keywords: Lélia Gonzalez; Virgínia Bicudo; Brazilian social thought.
Resumen
El presente trabajo tiene como objetivo proponer diálogos y confluencias entre la antropóloga
Lélia Gonzalez y la socióloga y psicoanalista Virgínia Bicudo, quienes desempeñaron un papel
importante en la construcción del pensamiento social brasileño. A partir de una revisión
bibliográfica de la vida y obra de estas intelectuales, buscamos destacar la intersección entre sus
trayectorias de vida y sus recorridos académicos, subrayando los encuentros entre experiencia
vivida y temática de investigación. Proponemos un diálogo entre las contribuciones de las
autoras en las dimensiones de las relaciones raciales en Brasil, promoviendo así un encuentro
que trasciende el epistemicidio presente en sus trayectorias. Finalmente, elaboramos una carta
dirigida a estas intelectuales, revisitando sus ausencias y presencias en la formación académica
de las autoras de este texto. De este modo, fue posible evidenciar las discontinuidades presentes
en los trabajos que se propusieron reflexionar sobre la formación brasileña sin reconocer el
papel fundamental del segmento de personas negras en esta construcción, quienes llevaron a
cabo un trabajo contra-hegemónico, desafiando las directrices establecidas para la producción
de las Ciencias Sociales en el país.
Palavras clave: Lélia Gonzalez; Virgínia Bicudo; Pensamiento social brasileño.
Introdução
21 de maio de 1980
Queridas mulheres de cor, companheiras no escrever. [...] Minhas queridas hermanas,
os perigos que enfrentamos como mulheres de cor não são os mesmos das mulheres
brancas, embora tenhamos muito em comum. Não temos muito a perder nunca tive-
mos nenhum privilégio. Gostaria de chamar os perigos de “obstáculos”, mas isto seria
uma mentira. Não podemos transcender os perigos, não podemos ultrapassá-los. Nós
devemos atravessá-los e não esperar a repetição da performance. [...] Quem nos deu
permissão para praticar o ato de escrever? (Anzaldúa, 1981, p. 229-230).
O trecho acima é da carta escrita pela intelectual chicana Glória Anzaldúa (1981) e di-
recionada às mulheres escritoras do terceiro mundo, na busca por um gênero textual que pro-
duzisse intimidade e imediatez. A autora escreve uma carta a tais destinatárias desabafando e
articulando sua trajetória de vida com o ato de escrever, os obstáculos e a preocupação com as
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mulheres ditas de “cor”
3
do terceiro mundo e os enfrentamentos internos e externos que se pode
encontrar no ato de escrever, especialmente do reconhecimento como escritoras profissionais
que combatem estereótipos racistas que são confortáveis para grupos dominantes na produção
da escrita, e principalmente a posição que essas mulheres podem ocupar de monstros “perigo-
sos” a ser combatidos, apagados e esquecidos.
A carta, que também é por vezes um aconselhamento e alerta, demonstra uma experiên-
cia e uma preocupação com a produção escrita de mulheres e suas vivências em tal campo. Esse
tipo de alerta foi realizado, ao longo dos anos, por outras mulheres, como Zora Neale Hurston,
uma antropóloga negra estadunidense que viveu entre os anos de 1891 a 1960 e, nos seus últi-
mos anos de vida, endereçou uma carta ao intelectual negro William Edward Burghardt Du
Bois (Boyd, 2004), relatando não apenas uma preocupação com autores negros e suas produ-
ções, mas também o possível apagamento de suas trajetórias após a morte. Isso inclusive se
estende no alerta para a necessidade à época de rituais fúnebres dignos: “um cemitério destinado
a personalidades negras, cuja missão seria salvá-las do esquecimento na posterioridade” (Bas-
ques, 2021, p. 47). Zora infelizmente foi uma dessas autoras que “sucumbiu à própria profecia”
(Basques, 2021, p. 47), falecendo invisibilizada e, durante muitos anos, silenciada na história
da Antropologia e da Literatura (Santos; De Paula, 2024).
Nessa direção, bell hooks
4
, no texto Intelectuais Negras (1995), levanta a necessidade
de um debate sobre a invisibilização da produção intelectual negra, a partir do olhar das produ-
ções de mulheres negras intelectuais. A autora dirá que, ao falar de uma intelectualidade negra,
o grande público sempre recorda nomes masculinos em produção, deixando de lado nomes de
intelectuais negras, afirmando, então, que “a subordinação sexista na vida intelectual negra
continua a obscurecer e desvalorizar a obra das intelectuais negras” (hooks, 1995, p. 467).
Atrelado a esse sexismo dentro da produção intelectual negra, temos um outro caminho
que contribui para a inviabilização dessas mulheres negras intelectuais, que é o que Sueli Car-
neiro, na sua tese A Construção do Outro como Não-Ser como Fundamento do Ser (2005),
conceitua como um processo do epistemicídio: o apagamento da produção de conhecimento
que perpassa a produção dessas intelectuais por meio do rebaixamento e da deslegitimação do
conhecimento produzido por elas, tendo como fruto o seu não reconhecimento como produtoras
3
Em Anzaldúa, o termo “mulheres de cor” não se refere somente a mulheres negras como também a mulheres
mestiças e chicanas, contexto em que a própria autora está inserida.
4
O nome da autora é escrito em letras minúsculas, uma vez que, em vida, solicitou a escrita dessa forma, alertando
que com isso a produção e escritos dela deveriam ganhar mais destaque que seu nome (hooks, 2019).
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de conhecimento. Esse processo, por fim, acaba por posicionar pensadoras negras em uma si-
tuação de inferiorização intelectual.
A profecia de Zora Neale Hurston, que acompanha a reflexão de outras intelectuais negras,
nada tem de “autorrealizadora” à la Robert K. Merton (1949), visto que é verdadeira e se cumpre
perpassando as experncias de intelectuais negras, e continua em um processo de realizão na
produção das Ciências Sociais. Tendo tudo isso em vista, o presente trabalho visa a adentrar a tra-
jetória e prodão de duas intelectuais negras, lia Gonzalez e Virgínia Bicudo, com o objetivo
de discutir a invisibilização dos seus estudos no campo acadêmico no Brasil, especialmente em
Antropologia, Sociologia e Psicologia. Com isso, acreditamos ser possível mobilizar a grandiosi-
dade teórica dessas autoras para tais áreas do conhecimento, am de explorar as interseões entre
os pensamentos das autoras como intérpretes das realidades raciais brasileiras.
Lélia Gonzalez e Virgínia Leone Bicudo compreendem-se enquanto duas intelectuais
negras que foram cruciais para a inserção da categoria de raça na construção do pensamento
social brasileiro. As Ciências Sociais brasileiras foram alicerçadas em uma perspectiva que não
englobava raça como aspecto central para as análises na teoria social. Tendo a falácia da demo-
cracia racial em seu cerne, as Ciências Sociais passaram a ser continuamente influenciadas por
pensamentos como os de Gilberto Freyre
5
. Bicudo e Gonzalez foram intelectuais que romperam
com esses modos de fazer epistemológico dentro das Ciências Sociais. No entanto, o trabalho
bem articulado não se isentou do silenciamento perpetrado sobre corpos negros.
Lélia Gonzalez faleceu no dia 10 de julho de 1994, deixando uma extensa produção de
textos e contribuições para os estudos de raça e gênero no país, entre eles o clássico Racismo e
Sexismo na cultura brasileira (1984). A partir da leitura da obra, poderemos analisar como o
racismo e o sexismo no Brasil perpassaram a vida da antropóloga e seus estudos, os quais se
tornaram um objeto de muitos pesquisadores no trabalho de resgate e mobilização dessa extensa
produção e trajetória de vida de Gonzalez. Virgínia Bicudo faleceu no dia 26 de setembro de
2003. Em seus estudos, Bicudo buscou respostas para incômodos pessoais e avançou nos estu-
dos de relações raciais no Brasil, deixando uma grande produção intelectual, que trouxe contri-
buições para áreas como Sociologia e Psicologia, entre outras.
Nesse sentido, o presente ensaio está organizado em três seções. A primeira aborda a
trajetória de vida e a produção acadêmica de Lélia Gonzalez e Virgínia Leone Bicudo, valendo-
5
uma extensa discussão no cerne das Ciências Sociais que tensiona o mito da democracia. Lélia Gonzalez,
autora em diálogo no texto em tela, traz contribuições nessa direção, vide os trabalhos da autora: A mulher negra
como objeto no Brasil: contexto ideológico (1979); A mulher negra como objeto no Brasil: contexto ideológico
(1973) e O apoio brasileiro à causa da Namíbia: Dificuldades e possibilidades (1983).
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se de entrevistas concedidas por ambas. Destacam-se, entre elas, a entrevista de Gonzalez ao
tabloide O Pasquim em 1986 e a de Bicudo, realizada em 1995 e publicada apenas em 2010
pelo sociólogo Marcos Chor Maio na revista Cadernos Pagu, buscando demonstrar as possíveis
correlações “entre a experiência de vida, a experiência profissional e a escolha do tema de pes-
quisa” (Figueiredo, 2020, p.10) das autoras. Na segunda seção, o presente trabalho propõe um
diálogo das contribuições das autoras nas dimensões das relações raciais: a centralidade dos
sujeitos de pesquisa; o debate interseccional
6
, tensionando raça, classe e gênero; os indícios de
reflexões sobre as experiências das mulheres negras brasileiras no trabalho; e reflexões sobre
os impactos das dimensões da inferioridade e da ideologia do branqueamento no Brasil na rea-
lidade da população negra, propondo, assim, um encontro dessas autoras que além do epis-
temicídio perpassados em suas trajetórias. Na terceira e última seção, como um texto produzido
por duas autoras negras inseridas na pós-graduação brasileira na área das Ciências Sociais, es-
pecificamente na Antropologia, buscamos retomar as ausências de tais mulheres em nossa re-
cente formação no ensino superior (2018-2022), bem como seu “surgimento” e suas produções
através de estudantes e coletivos negros.
Lélia Gonzalez
Olhar para parte da história e vida de Lélia Gonzalez serviu como ponto de partida, no
presente texto, para construir uma reflexão sobre racismo e sexismo, abordados pela autora no
seu clássico texto Racismo e Sexismo na cultura brasileira (1984) e apresentado no evento da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), permitindo
uma análise da situação da mulher negra brasileira e também da vida da autora.
7
Em de fevereiro de 1935, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, nasceu Lélia
de Almeida, uma menina negra, irmã mais nova de dezessete filhos, frutos do casamento de um
ferroviário e uma empregada doméstica. Lélia de Almeida passou a assumir o sobrenome Gon-
zalez apenas após seu primeiro casamento com Luiz Carlos Gonzalez no ano de 1964. De uma
família de classe baixa, aos sete anos Lélia mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, e um
dos seus irmãos mais velhos, Jaime de Almeida, foi contratado como jogador de futebol pelo
time do Flamengo. Lélia, enquanto um corpo negro feminino de família de classe baixa, é dire-
tamente perpassada pelo que ela mesma chamou de uma “tríplice discriminação”, isto é, o
6
As autoras em diálogo Lélia Gonzalez e Virginia Bicudo apresentam imbricações entre marcadores sociais, em
suas obras, que se aproximam da abordagem do denominado paradigma da interseccionalidade, cunhado posteri-
ormente à época de escrita das autoras em questão.
7
RIOS, Flávia; LIMA, Márcia. Uma cronologia de Lélia Gonzalez. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia. Por um
feminismo Afro Latino Americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 371-374.
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preconceito de raça, sexo e classe, uma vez que suas vivências estão intrinsecamente ligadas
por esses três marcadores sociais.
Gonzalez dirá que “para s o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a
neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulão com o sexismo produz efei-
tos violentos sobre a mulher negra em particular” (Gonzalez, 2020, p.76). Em uma entrevista dada
ao jornal O Pasquim em 1986, podemos perceber as primeiras manifestações da articulão do
racismo e do sexismo desde cedo nas experiências de mulheres negras. Conta lia Gonzalez:
Quando criança, eu fui babá de filhinho de madame, você sabe que a criança negra
começa a trabalhar muito cedo. Teve um diretor do Flamengo que queria que eu fosse
pra casa dele ser uma empregadinha, daquelas que viram cria da casa. Eu reagi muito
contra isso e então o pessoal terminou me trazendo de volta pra casa. Já em Belo Hori-
zonte houve uma coisa que muito me marcou. Minha mãe trabalhou como ama de leite
de uma família italiana onde a mãe de uma criança tinha morrido no parto, e essa família
tinha uma menina que havia nascido na mesma época que eu. Nós fizemos amizade, e
quando ela foi para o colégio os pais dessa minha amiguinha se ofereceram pra pagar a
escola pra mim. Eu era muito aplicada nos estudos, e sempre era convidada pelas minhas
amigas para estudar na casa delas; isso me fez muito independente da família; eu mesma
me inscrevi na escola, fui à luta (Gonzalez, 2020, p. 321).
Esse breve relato que a autora faz da sua infância alerta sobre os lugares impostos às
meninas e mulheres negras, bem como as imagens atribuídas a elas na sociedade brasileira. A
construção da imagem das mulheres negras está diretamente ligada à experiência que Grada
Kilomba (2019) denomina como “racismo genderizado”, uma vez que construções racistas
baseiam-se em papéis de gênero e vice-versa, e o gênero tem um impacto na construção de
“raça” e na experiência do racismo” (Kilomba, 2019, p. 94).
Segundo lia Gonzalez (2020), no Brasil as imagens perpassam as noções de “mulata”,
dostica e e preta, sendo papéis que, atribdos às mulheres negras em situão de escravidão,
foram atualizados ao longo dos anos, carregando em si as características das relões coloniais.
Isso, segundo Gonzalez (2020), es atrelado ao mito da democracia racial no Brasil, construindo
um discurso ideológico sobre o lugar e o papel das mulheres negras, que ainda são mobilizados
com a fuão de domesticação (Gonzalez, 2020) e controle (Collins, 2019) desses corpos.
Sua mãe era uma empregada doméstica, e Lélia é enxergada pelo diretor do time de
futebol também como uma empregada doméstica. A produção desse tipo de discurso sobre os
corpos femininos negros proporcionou a mobilização dessas imagens/noções sobre esses corpos
a partir do que se esperava e se construía sobre o papel de mulheres negras no país. Segundo a
Gonzalez (2020), no carnaval, em que é celebrado o mito da democracia racial, a imagem da
“mulata” é colocada em destaque e exaltada, o que, em contraposição a esse mesmo corpo, no
restante do ano, é ocultado na figura da doméstica, demonstrando que “os termos “mulata” e
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“doméstica” são atribuições de um mesmo sujeito. A nomeação vai depender da situação em
que somos vistas” (Gonzalez, 2020, p.80).
Importante destacar também que, tanto nessa exaltação quanto no ocultamento, o corpo
feminino negro é visto como objeto, ora como objeto sexual e de desejo, ora como um meca-
nismo de exploração do trabalho. Nas palavras da autora:
O que se opera no Brasil o é apenas uma discriminação efetiva; em termos de represen-
tações sociais mentais que se reforçam e se reproduzem de diferentes maneiras, o que se
observa é um racismo cultural que leva, tanto algozes como vítimas, a considerarem na-
tural o fato de a mulher em geral e a negra em particular desempenharem papéis sociais
desvalorizados em termos de população economicamente ativa (Gonzalez, 2020, p. 42).
Em outro quadrante, uma vertente dos estudos vastos de Gonzalez é também a psicalise
e seus usos, especialmente a partir da linguagem, como na ressignificação de palavras na criação
do neologismo “Améfrica Ladina” (Gonzalez, 1988), am das discuses acerca dos silenciamen-
tos e usos de categorias lacanianas para aproximações analíticas em seus trabalhos (Ratts, 2022).
Ler e entender Lélia Gonzalez, a partir da compreensão dessas experiências que a atra-
vessam por ser um corpo negro feminino oriundo da classe baixa, é o ponta-pé inicial para
perceber como a autora, ao olhar para sua realidade e de corpos semelhantes aos seus, formulou
produções clássicas que contribuíram não para o estudo de gênero e raça no Brasil, mas
também para a recepção dessas produções na academia. Esse esforço tem nos ajudado, também,
a pensar como seria a mobilização dessas imagens das mulheres negras presentes no discurso
brasileiro dentro da produção de conhecimento.
E Lélia Gonzalez, antropóloga, “cumé que fica?”
Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente para uma festa deles, dizendo
que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido
e tratado com toda consideração. [...] E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava tão
cheia que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem,
procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles (Gonzalez, 1983, p. 75).
É com esse trecho acima que Lélia Gonzalez abre seu clássico texto Racismo e Sexismo
na cultura brasileira (1984), uma narração que conta o episódio no qual se convida pessoas
negras para uma festa solicitando que falem sobre elas, mas sem proporcionar um espaço direto
na mesa para essas pessoas se sentarem. Esse parece ter sido, por muito tempo, o “lugar” ocu-
pado por Lélia Gonzalez dentro da produção do conhecimento no mundo acadêmico.
Estudando nas escolas próximas ao seu trabalho e muitas vezes em escolas que os em-
pregadores da sua mãe disponibiliza, em 1954, Lélia concluiu o ensino científico no Colégio
Pedro II. Em 1958, tornou-se bacharel em História e Geografia pela Universidade Nacional da
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Guanabara, atual Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), depois se formou em filo-
sofia na mesma universidade. Com uma alta produção acadêmica nos anos 1980, Gonzalez, em
1982, publicou o livro Lugar do Negro em parceria com o sociólogo argentino Carlos Hasen-
balg. Em 1983, a apresentação do seu clássico Racismo e Sexismo na cultura Brasileira e outros
textos mais conhecidos como, por exemplo, Por uma feminismo afro-latino-americano em
1988. Em 1987, Gonzalez tornou-se professora no Departamento de Sociologia e Política da
PUC-Rio, e publicou o livro Festas Populares no Brasil (1987)
8
. A intelectual ainda compôs o
Instituto de Pesquisas de Culturas Negras (IPCN) (Rios, 2019).
A trajetória de Lélia Gonzalez esteve por muito tempo apagada dentro das universidades
brasileiras, mesmo com alta produção em vida. Ainda hoje exige-se de pesquisadores uma alta
pesquisa de recuperação de tudo que a autora produziu, mas que foi apagado. Sueli Carneiro
(2005) explica que um dos processos que levam ao epistemicídio é criação da ideia do outro
como não produtor do conhecimento ou produtor de um conhecimento que não é válido. bell
hooks (1995) compreende que esse processo de apagamento se inclusive pelo uso e pelas
atribuições de imagens de mulheres negras como não intelectuais, servindo apenas para ocupar
espaços de subalternidade e não o do conhecimento.
Em sua dissertação de mestrado, Elizabeth do Espírito Santo Viana (2006) explica como
a atuação política de Gonzalez, por meio das candidaturas pelo Partido dos Trabalhadores em
1978 e depois pelo Partido Democrático Trabalhista em 1986, foi compreendida por muitos
como abandono da autora de sua vida acadêmica, enquanto Gonzalez, na verdade, se mostrava
uma intelectual que produzia conhecimento e que transformava isso numa atuação política. Em
analogia com a narração citada anteriormente, é como se Gonzalez tivesse sido convidada para
“a festa” da produção do conhecimento devido a sua inserção nas universidades, inclusive como
professora, mas não tivesse um espaço direto para “se sentar” à mesa, produzir e divulgar co-
nhecimento, tendo como resultado o longo apagamento da autora nas universidades.
Tal epistemicídio do pensamento de Gonzalez pode ser pensado a partir do que a autora
entende como a “neurose cultural brasileira”, conforme supracitado, de modo que o “neurótico
constrói modos de ocultamento do sintoma porque isso lhe traz certos benefícios” (Gonzalez,
2020, p. 84). Dessa forma, o não reconhecimento de muitos pesquisadores e o apagamento da
produção intelectual Lélia Gonzalez refletem um processo intencional de evitar debates sobre
o que constitui conhecimento válido nos espaços acadêmicos. Além disso, também se evita a
confrontação dos incômodos que os escritos de Gonzalez podem gerar, o que serve de
8
Reeditado e publicado pela editora Boitempo em 2024.
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manutenção da zona de conforto que perpetua privilégios e benefícios para determinados gru-
pos nos espaços de produção de conhecimento.
Virgínia Bicudo
Virgínia Leone Bicudo nasceu em São Paulo, no dia 21 de novembro de 1910. Mulher
negra, ela e mais cinco irmãos são fruto do casamento de uma imigrante italiana e um homem
negro, o qual, entendendo a educação como essencial, fez que todos os filhos estudassem, como
Virginia mesmo expôs em entrevista a Maio (2010, p. 336): “Para meu pai todo mundo tinha
que ser alfabetizado. E todo mundo foi para escola. Ninguém foi trabalhar. Meu pai escolheu o
que havia de melhor”. Bicudo terminou o curso secundário na Escola Normal em 1930 e atuou
como professora e ingressa no Curso de Educadores Sanitários do Instituto de Higiene de São
Paulo
9
. Em 1936, ingressou na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (ELSP), onde
a autora teve o primeiro contato com a psicanálise.
Concluindo seus estudos em 1945, Virgínia Bicudo apresentou a sua dissertação Atitu-
des raciais de pretos e mulatos em São Paulo, na qual buscou, por meio de entrevistas, descre-
ver as atitude de pretos e mulatos quando se deparavam com as questões raciais, dividindo-os
por duas classificações raciais (pretos e mulatos) e pela classe social. Encontramos, assim, um
vasto trabalho que deixa muitas contribuições para os estudos raciais no Brasil e os campos da
Sociologia, Antropologia e Psicologia.
Essas informações talvez sejam as mais comuns nas apresentações acadêmicas, e, como
realizado com a trajetória de Lélia, desejamos também trazer elementos da vida de Virginia que
contribuam para pensar a realidade dessas autoras que passaram a pensar o Brasil, demons-
trando que suas trajetórias de vida e familiares também representam um “grande Brasil”. Nessa
perspectiva, a socióloga Gabriela Silva (2021) discute, em seu trabalho de conclusão de curso
de graduação dedicado a pensar a trajetória e contribuições de Virgínia Bicudo: “a história de
Virgínia e sua família se cruza com o período pós-abolicionista, a migração europeia para o
Brasil e a inserção das mulheres no mercado de trabalho, com aspectos muito peculiares e in-
teressantes para analisar o período do início do século XX” (Silva, 2021, p. 17). Além de filha
desse casal interracial, Virginia é neta de Virgínia Júlio, sua avó paterna, uma mulher negra e
ex-escravizada, que viveu na Fazenda Matto Dentro do Jaguari, em Campinas, São Paulo (Silva,
2021, p.17). A pesquisadora explica, também, a origem do sobrenome “Bicudo”:
9
MAIO, Marcos Chor. Introdução: A contribuição de Virgínia Bicudo aos estudos sobre as relações raciais no
Brasil. In: BICUDO, Virgínia L. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Sociologia e
Política, 2010, p. 23-62.
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Tfilo Bicudo - pai de Virgínia - nasceu em 1888, na mesma Fazenda em que sua e
trabalhava. Como tornou-se órfão muito cedo, foi criado pelos donos das terras em troca de
trabalho. A Fazenda era administrada por Bento Augusto de Almeida Bicudo, coronel e
chefe da família, herdou a propriedade estabelecida há anos, e sua atuação na política e
conexões no jornalismo possibilitaram que circulasse pela elite do interior de São Paulo.
Como suposto afilhado de Bento Bicudo, Teófilo recebe o sobrenome do fazendeiro, dei-
xando para ts qualquer menção ao sobrenome de sua mãe (Silva, 2021, p. 18).
O vínculo criado com essa família e o pai de Virginia baseia-se na possibilidade de
relações de compadrio, que representam a famosa construção de parentesco “à brasileira”, que
é intensificada pela laço ritual (religioso) como o batismo, principalmente entre famílias abas-
tadas e famílias não abastadas, conhecida no Brasil à época, como articula o antropólogo Vini-
cius Venâncio (2022, p. 10): “o compadrio era uma forma de as famílias pobres garantirem
proteção de um grande senhor de terras, assim como emprego, e por parte dos poderosos este
atuava como um arregimentador de gente”. É nesse contexto, que também demarca relações de
trabalho, que os pais de Virginia se conhecem, e também “foi através das conexões e relações
que Teófilo construiu com Bento Bicudo que sua vida mudou de rumo, abrindo novas possibi-
lidades para que Virgínia e seus irmãos tivessem, de certa forma, um caminho distinto do que
se esperava para os negros no início do século XX” (Silva, 2021, p. 19). Dirá Virgínia em
entrevista a Maio:
Sou filha de Teófilo Júlio Bicudo e Joana Leone Bicudo. Meu pai nasceu em Campinas
e ele tinha muito orgulho de ser campineiro. Ele foi criado em casa dos que tinham sido
patrões dele. De modo que era muito querido nessa família, dentro da qual ele nasceu.
Minha mãe trabalhava também nessa casa. Isso tudo no interior de São Paulo. Eles que
me contaram essas coisas [risos]. O que eu sei é que meus avós maternos vieram da
Itália. Minha mãe teria 10 anos quando aqui chegaram, e foram então para o interior do
estado de São Paulo. Acho que cuidavam de café, não era? Deve ser isso. Sabe, eu nunca
pensei como estou pensando agora, primeira vez [risos]. Eu nunca reconstituí, agora eu
estou construindo o que ouvi dos meus pais. Eu nunca pus ordem, agora que estou ima-
ginando, assim. Acho que iam lavrar a terra, cultivar. Então eu sei que os imigrantes e
meus pais foram para o interior de São Paulo. Meus pais se casaram em 1905.
Marcos: Eles trabalhavam na mesma casa?
Virgínia: Acho que era trabalho de empregado doméstico.
Marcos: E quando ele veio para São Paulo, trabalhou em quê? Virgínia: Veio casado.
Aí já tinha vida independente, era funcionário do Estado. Marcos: Ele se tornou funci-
onário do Estado? Virgínia: A própria família para quem ele trabalhou conseguiu co-
locá-lo no Estado. No Estado, ele trabalhava na Agência Postal. Então ele era agente
postal, trabalhava lá dentro (Virginia Bicudo apud Maio, 2010, p. 332-333).
É interessante pensar como essas famílias brancas, em relações que podem envolver
muitas coisas, mas principalmente relações de trabalho, do pai de Virgínia, da mãe e irmão de
Lélia, surgem nas trajetórias dessas autoras como vias de acesso à educação e à formação
lia e Virnia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras
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educacional. Como articula Patrícia Hill Collins (2019) pensando a realidade de trabalhadores
domésticas com famílias brancas, trabalhar para esses grupos e estar entre os detalhes íntimos
da vida dos patrões brancos pode oferecer aos trabalhadores “uma visão de dentro e as/os ex-
põem a ideias e recursos que podem ajudar seus filhos a ascender socialmente” (Collins, 2019,
p. 308), e, entre essas ideias, destaca-se a educação.
A nível de questões e relações raciais, nesta mesma entrevista a Maio (2010), Virginia
(1945) fala sobre o que é, em parte, refletido em seu trabalho sobre o processo de ascensão
social, embora com poucas influências de seu pai, mas que fazia com que ela e seus irmãos
convivessem, em sua maioria, com pessoas brancas:
Era um bairro de brancos. É, eu acho que preto não tinha lá. Acho que tinha nós.
Geralmente era assim, a gente nunca esteve no meio de pretos. (...) Onde eu nasci
meu pai era preto, ninguém mais. Eu nunca tive convívio com pretos ou negros (Virginia
apud Maio, 2010, p. 337).
Virginia complementa, ao falar sobre como a ascensão do pai e da família era marcada
pelas questões de discriminação racial, que ela própria vivenciou na infância, e especificamente
ao relatar a história de seu pai:
Virgínia: Olha, vou contar uma coisa tristíssima da história dele. Ele queria fazer uni-
versidade. Na época era Curso Superior. E ele queria ir para Medicina. Então estava no
sexto ano do ginásio. Veja que homem esforçado, hein? Veio de empregado doméstico
que ele era, depois foi subindo e fez o Ginásio do Estado. E quando terminou o Ginásio
do Estado naquele ano, ele passava direto para Faculdade de Medicina. Naquele tempo
não havia vestibular para Medicina. Terminava o ginásio e entrava na Medicina ou em
qualquer curso superior. Então, o professor que chamava Barros ou Barrinhos, do giná-
sio do último ano, quando viu que meu pai ia para Faculdade de Medicina, reprovou.
Porque ele disse que negro não podia ser médico. Então, meu pai durante 10 anos ficou
fazendo o sexto ano para passar e entrar na Medicina. E esse professor que eu não es-
queço o nome... Parece que é castigo, Barros, da Física, reprovava.
Marcos: Durante 10 anos?
Virgínia: 10 anos. Meu pai insistiu que queria ir pra Medicina e não conseguiu porque
esse homem barrava [...] meu pai desistiu, tinha a filharada toda. Então ele foi
barrado por preconceito. Puro preconceito. Eu quando criança via tudo isso. Eu existia
quando meu pai ficou nessa luta. Eu ouvia as brigas todas, as decepções que não podia
entrar, mas ele tinha que ir. Tudo isso eu vi, acompanhei como criança (Virginia Bicudo
Apud Maio, 2010, p. 334-335).
A dissertação de Bicudo, que envolveu entrevistas com mais de trinta pessoas, entre
essas ex-militantes da Frente Negra Brasileira (FNB), dedicou-se justamente a tensionar o que
posteriormente iríamos nomear de “uma interseccionalidade da experiência de raça e classe
social”, considerando experiências como as do seu pai, quem vivenciou uma ascensão social,
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em grande parte, devido aos estudos e conquistas de diplomas, mas ainda sendo atravessado
pelas experiências de um preconceito racial. Nas palavras de Bicudo, seu pai:
Empenha-se, então, em conseguir status ocupacional das classes sociais intermediárias,
conquistando diploma de cursos secundário e superior ou habilidades profissionais.
Mas, apesar do esforço para valorizar o capital humano pela instrução, o preto continua
sentindo-se rejeitado em certas esferas sociais, rejeição que o traumatiza [...] (Bicudo,
2010, p. 158).
Ressaltamos as conees de trajetória de vida e acamica entre Lélia e Virginia e suas
singulares realidades o somente para dizer que pesquisaram temas que versem sobre teticas
raciais, única e exclusivamente por serem parte da trajetória de vida delas pois obviamente um
rito acadêmico e cienfico em suas pesquisas e trajerias como intelectuais , mas sobretudo
para ressaltar como, a partir de suas realidades e saberes localizados (Haraway, 1995), as autoras
conseguiram pesquisar e teorizar temáticas que refletissem a realidade brasileira e o pensamento
social brasileiro diante de um ponto de vista enegrecido. Isso também é observado por Marcos Chor
Maio, na introdão da republicão do trabalho de Bicudo em 2010:A vincia do racismo pela
menina da Vila Economizadora transformou a experiência social e individual do preconceito de cor
em reflexão intelectual, nomeando-aqueso racial(Maio, 2010, p. 32).
Lélia e Virgínia: o encontro
Lélia Gonzalez viveu cinquenta e nove anos (1935-1994), mais jovem que Virginia Bi-
cudo (1910-2003), mas a última viveu cerca de 34 anos a mais que Lélia, falecendo em 2003
com noventa e três anos. É interessante pensar que as duas intelectuais viveram por alguns anos
nos mesmos anos, mas não há registro de encontro delas, o que talvez seja explicado por esta-
rem, na maioria do tempo de suas vidas, em capitais brasileiras diferentes, Lélia no Rio de
Janeiro e Virginia em São Paulo. Mas, no presente trabalho, muitos anos depois do falecimento
das autoras, queremos propor um encontro entre elas.
Figura 1 Colagem autoral das imagens de Lélia Gonzalez e Virgínia Bicudo. 2024.
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Este texto não é o primeiro a propor esse encontro, e seria bastante presunçoso pensar
que os leitores dessas autoras ainda não tivessem considerado essa possibilidade antes. Algumas
pesquisas como a de Landerson Lemos Santana De Araújo (2020) e Aline Mendonça Fraga
(2022) propõem não somente o encontro de Gonzalez e Bicudo, como Araújo (2020) propõe
uma encruzilhada dessas intelectuais juntamente com Neusa Santos Sousa, psicanalista negra
baiana autora do clássico “Tornar-se negro” - As vicissitudes da Identidade do Negro Brasi-
leiro em Ascensão Social (1983). Evidentemente a primeira conexão realizada entre essas au-
toras é o violento processo de apagamento e epistemicídio que atravessa as trajetórias das duas
intelectuais, nas mais diferentes áreas das ciências humanas e da saúde, destacando como os
pioneirismos das autoras, dentro de suas áreas de pesquisa, simplesmente foram apagados e
silenciados na história, como articula Araújo (2020) sobre Bicudo:
Na psicanálise não foi diferente. Integrante do grupo que fundou a primeira Sociedade
Brasileira de Psicanálise - SBPSP e do grupo de tradução permanente das primeiras
edições 32 das Obras Completas de Sigmund Freud (Imago) - seu nome encontra im-
presso nos livros - Bicudo nunca foi devidamente situada como representante dos pri-
mórdios da psicanálise no Brasil Ocupando o cargo de tesoureira durante anos na SBP
(Maio, 2010), Virginia parece ter sido invisibilizada ao lado de Durval Marcondes, o
qual recebe todos os créditos pela institucionalização da psicanálise no país (Araújo,
2020, p. 31-32).
Compreendemos a importância de ressaltar o debate do epistemicídio (Carneiro, 2005;
2023) promovido por essas autoras. Nós, duas pesquisadoras negras que iniciaram a graduação
no ano de 2018, no curso de Ciências Sociais na região Sudeste do país, demoramos muito para
conhecê-las, e o acesso aos seus textos dentro do currículo do curso demorou mais ainda. Tal
inserção tardia foi feita depois de muitas cobranças e lutas dos coletivos negros e foi realizada
de maneira irrisória, quando comparada à enorme produção dessas autoras e seus esforços em
vida em pluralizar suas produções, seja Lélia no ativismo político militante, seja Virginia na
rádio (Fraga, 2022). Mas, queremos acrescentar ao debate desse encontro a intersecção das
autoras em reflexões de temáticas raciais, especialmente perpassando questões como a centra-
lidade dos sujeitos de pesquisa; o debate interseccional, tensionando raça, classe e gênero; os
indícios de reflexões sobre as experiências das mulheres negras brasileiras no trabalho; e refle-
xões sobre os impactos das dimensões da inferioridade e da ideologia do branqueamento no
Brasil na realidade da população negra.
Ao abordar as relações raciais com centralidade nos sujeitos negros, tanto Virginia
quanto Lélia demonstram uma postura responsável em seus escritos e discussões teóricas. No
caso de Virgínia, a pesquisa analisada neste trabalho evidencia a construção cuidadosa de
lia e Virnia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras
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relações com os/as entrevistados/as. Já em Lélia observamos uma produção analítica e teórica
que se dedica e se fundamenta na empiria das realidades da população negra, contrapondo-se,
à época, aos discursos predominantes sobre a suposta democracia racial no Brasil. Ambas as
pesquisadoras apresentam uma aproximação com a psicanálise
10
, o que reforça a profundidade
de suas reflexões. Em seus trabalhos, os sujeitos de pesquisa não são tratados como meros ob-
jetos, mas como figuras centrais de suas análises. Essa abordagem busca estar o mais próxima
possível das realidades vivenciadas e demonstra, acima de tudo, um compromisso ético com os
sujeitos e com as temáticas abordadas.
Outro encontro teórico entre as autoras está no fato de ressaltarem o que posteriormente
seria nomeado como interseccionalidade (Crenshaw, 2002), a partir das divisões e classifica-
ções estabelecidas por Bicudo em seu trabalho (1945), tensionando as junções entre raça e
classe ao subdividir os grupos de entrevistados pesquisados como: “Casos de pretos da classe
social “inferior”; Casos de pretos das classes sociais intermediárias; Casos de mulatos da classe
social “inferior”, Casos de mulatos das classes intermediárias” (Bicudo, 2010, p. 61). Lélia
Gonzalez demonstra e nomeia o que seria a “tríplice discriminação (social, racial e sexual)”
(Gonzalez, 2010, p. 217) que perpassa as vivências das mulheres negras, o que nos encaminha
a outro ponto de encontro das autoras, que é a dimensão do debate da situação das mulheres
negras, especialmente aquelas que estão realizando trabalhos domésticos remunerados.
Nos escritos e entrevistas de lia Gonzalez, é muito tido o recorte de gênero que a autora
faz ao analisar a realidade da população negra brasileira, especialmente quando estamos falando de
raça enero no Brasil. A relação das mulheres negras com o trabalho dostico destaca-se desde
os seus primórdios, obviamente perpassado por heraas colonialistas escravistas, que se dedicam
a perpetuar tais mulheres nesses espaços de subalternidade e que destinam cuidado a outros, sendo
esse um trabalho que permanece racializado e generizado ao longo do tempo.
Ainda que Bicudo não faça declaradamente uma menção à dimensão do gênero em seu
trabalho, a autora delimita dos casos relatados sempre o gênero e o trabalho dos/as entrevista-
dos/as, de modo que, dos trinta casos apresentados por Bicudo, dez são de mulheres classifica-
das à época como “pretas, pardas ou mulatas”, as quais se concentram, em sua maioria, na
categoria dividida pela autora como “Casos de pretos de classe social inferior” (Bicudo, 2010)
e com profissões declaradas como “cozinheira, atividades de limpeza e empregada doméstica”.
Ao analisar especialmente tal grupo, Bicudo (2010) formula: “as atitudes do preto da classe
10
muitos diálogos que podem ser traçados a partir da psicanálise na obra das duas autoras que não serão
abordados no presente.
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social “inferior” para o preto e para o branco estariam baseadas em sentimento de inferioridade”
(Bicudo, 2010, p. 72), sinalizando o sentimento de inferioridade que perpassa as relações raciais
entre essas mulheres negras e as pessoas brancas.
A figura da empregada doméstica, posteriormente descrita e analisada de forma mais
contundente por Lélia Gonzalez, irá tensionar as relações raciais e de trabalho presente nas
realidades das mulheres negras que são maioria nessa função no Brasil. Temáticas que posteri-
ormente serão tratadas em estudos da temática do trabalho doméstico, tensionando essas di-
mensões raciais e gênero que precisam ser consideradas nas relações do trabalho doméstico,
destacando dentro dessas relações de trabalho, o que aparecia na produção de Virgínia Bicudo
e Lélia Gonzalez que é o sentimento de inferioridade.
A contribuição de Virgínia Bicudo, em suas conclusões em relação ao sentimento de
inferioridade por ela percebido nos relatos dos seus interlocutores, manifesta um sentimento
que se dá a partir da relação desses corpos negros em relação ao mundo branco como:
sentimento de inferioridade ligado à consciência de cor, [de modo que] a inteligência
individual e o incentivo proveniente do contato primário com brancos parecem produzir
atitudes que influenciam a ascensão social do preto (Bicudo, 2010, p. 98).
Reflexões como essa também aparecem em Lélia Gonzalez ao explicar o que se entende
por “ideologia do branqueamento”. Segundo Gonzalez, essa noção se constitui como “pano de
fundo dos discursos que exaltam o processo da miscigenação como expressão mais acabada de
nossa democracia racial” (Gonzalez, 2020, p. 33). A autora ainda complementa que, mesmo
que o branqueamento da população brasileira tenha se efetivado em números demográficos, a
ideia da necessidade desse branqueamento se permanece enquanto discurso no país, o que ve-
mos, por exemplo, nos relatos dos interlocutores do trabalho de Virgínia Bicudo (2010), ao
apontar: “Desejaria ser branca, mas que fazer…” (Caso 04 - Justina apud Bicudo, 2010, p.
69). Essas acepções se assemelham às discussões de Frantz Fanon (2008), na obra Pele Negra
Máscaras Brancas (2008), na qual o autor localiza o papel crucial da colonização na imposição
e na criação do sentimento de inferioridade em corpos negros. Isso também é trabalhado pela
psicanalista e intelectual negra Neusa Santos Souza (1983), que explica o olhar do negro diante
da vivência num mundo branco como “[...] um olhar que se volta em direção à experiência de
ser-se negro numa sociedade branca. De classe e ideologia dominantes brancas. De estética e
comportamentos brancos. De exigências e expectativas brancas (Souza, 1983, p. 17).
A experiência do corpo negro em um mundo branco, que lhe impõe um lugar inferiori-
zado, é também observada por Bicudo (2010) em seus relatos. A autora analisa os processos vi-
venciados por seus interlocutores diante das tentativas malsucedidas de assimilação como forma
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de sobrevivência nesse contexto, seja por meio de relações interraciais ou de outras questões es-
ticas. Contudo, essas estratégias não conseguem retirar esses corpos do lugar de inferioridade,
da "Outroridade" (Kilomba, 2019), que lhes é imposto em um mundo onde o ideal é o branco.
Ainda há muito a ser pesquisado sobre as contribuições e trajetórias de vida das intelec-
tuais negras Virgínia Bicudo e Lélia Gonzalez, assim como sobre o estabelecimento de um
diálogo possível entre ambas. Esse aprofundamento permitirá que elas e seus escritos ocupem,
de forma plena, o lugar de destaque como produtoras de conhecimento nas Ciências Humanas
e Sociais, especialmente nos campos da Antropologia e da Sociologia. Os trabalhos de Lélia e
Virgínia nos inspiram à continuidade e nos remetem às nossas origens, lembrando-nos de onde
viemos e por que escolhemos trilhar essas reflexões.
Carta a Lélia e Virginia
A Lélia e Virginia,
Dedicamo-nos a escrever uma carta que vocês, infelizmente, o recebeo. No entanto, ela
permanecerá como registro de como nossas trajetórias, enquanto autoras negras nas Ciências Soci-
ais, se entrelaçam às de nossas destinatárias e foco deste trabalho, Lélia Gonzalez e Virgínia Bicudo.
Apesar das cadas que nos separam, não nos distanciamos das queses que atravessaram vos e
que ainda nos atravessam hoje. Certamente, continuamos carregando e recolhendo as pedras que
ficaram dos caminhos que vocês abriram com tanta assertividade, cuidado e coragem.
Pedimos licença para nos apresentarmos. Eu, primeira autora, sou uma mulher negra, filha
de uma trabalhadora doméstica também negra, que estabeleceu uma maternidade coletiva susten-
tada por muitas políticas públicas. Sou, com orgulho, “filha das cotas” desde minha graduação.
De modo semelhante, eu, segunda autora deste texto, sou fruto das ações afirmativas
tanto na graduação quanto na pós-graduação. Enquanto antropóloga negra, meu olhar é perme-
ado por minha vivência como um corpo negro, feminino e periférico nesse mundo.
pontos de confluência entre as décadas que nos separam. Por isso, é importante con-
textualizar de onde falamos. Ambas concluímos a graduação em Ciências Sociais na Universi-
dade Federal de Minas Gerais, mas em tempos muito diferentes daqueles em que vocês ingres-
saram no ensino superior. As ações afirmativas ampliaram a presença de estudantes negros/as
nas universidades públicas. Contudo, esse avanço ainda é limitado por questões graves de per-
manência estudantil e pela presença quase inexistente de docentes negros/as nesses espaços.
Foi possível acessar a obra de vocês graças à articulação de estudantes negros/as durante
a graduação em Ciências Sociais. Essas articulações, nas quais colaboramos, resgataram e for-
taleceram o legado de seus trabalhos, vivências e anseios. Hoje, novos caminhos teóricos têm
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sido traçados, mantendo-se vivos os princípios que vocês inauguraram. Estamos aqui, atentas,
embora nem sempre firmes. Este espaço acadêmico, para nós, parece uma dança das cadeiras:
sempre com o risco de perdermos nosso lugar e sermos obrigadas a sair da roda. Ainda assim,
buscamos frestas para existir, mesmo quando parecem pequenas demais para acolher nossos
corpos por inteiro.
Somos também frutos das coletividades que sustentaram e influenciaram a permanência
de vocês na pesquisa. Esses esforços estão enraizados nos sonhos e vontades que agora habitam
em nós. O desafio de ocupar um espaço hegemonicamente branco e em constante disputa, como
o ambiente acadêmico, muitas vezes nos a sensação de estarmos sempre perdendo. No en-
tanto, seguimos em busca de formas de reinventar nossas vozes, como vocês fizeram. Dia após
dia, enfrentamos o processo quase truculento de nos relembrarmos quem somos, de inventar
maneiras de nos autodefinir (Collins, 2019), e de escrever no espelho para reforçar essa lem-
brança cada vez que olhamos nossa própria imagem. Esse é um caminho de guerrilha.
Para além de falarmos em pretuguês, buscamos mobilizar um pensamento em pretuguês
que, como vocês o fizeram, aponta saídas para esperançar. O abraço às contribuições de Virgí-
nia, já na década de 1940, e de Lélia, na década de 1980, retomadas apenas 30 anos depois
marcou o início de uma nova forma de fazer Ciências Sociais no Brasil. Vocês nos ensinaram
a compreender, de maneira sofisticada, o racismo brasileiro, como destaca Lélia (1988).
Este texto buscou traçar pontes entre os trabalhos de vocês, evidenciando as possibili-
dades e os usos comuns que suas trajetórias oferecem. Enquanto autoras do terceiro mundo e
antropólogas negras oriundas das ações afirmativas, assumimos a responsabilidade de reescre-
ver as Ciências Sociais a partir das contribuições que vocês nos deixaram. Nosso esforço é
reestruturar vias epistemológicas e recalcular rotas para pensar o pensamento social brasileiro.
Um pensamento que incorpore nossa existência enquanto sujeitos produtores de conhecimento,
seguindo o legado que Lélia (1988) nos deixou: tomar a própria voz e decidir dizer em primeira
pessoa. Não somos apenas sujeitos de nosso discurso, mas também da história que vocês rees-
creveram, uma história que continua a ser ampliada pelos novos capítulos que escrevemos com
nossa própria existência.
Com esperança,
[Assinatura]
lia e Virnia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras
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Recebido em 19/07/2024
Aprovado em 21/10/2024
Publicado em 31/12/2024