Lélia e Virgínia: produzindo diálogos entre as intérpretes das realidades raciais brasileiras
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Teófilo Bicudo - pai de Virgínia - nasceu em 1888, na mesma Fazenda em que sua mãe
trabalhava. Como tornou-se órfão muito cedo, foi criado pelos donos das terras em troca de
trabalho. A Fazenda era administrada por Bento Augusto de Almeida Bicudo, coronel e
chefe da família, herdou a propriedade já estabelecida há anos, e sua atuação na política e
conexões no jornalismo possibilitaram que circulasse pela elite do interior de São Paulo.
Como suposto afilhado de Bento Bicudo, Teófilo recebe o sobrenome do fazendeiro, dei-
xando para trás qualquer menção ao sobrenome de sua mãe (Silva, 2021, p. 18).
O vínculo criado com essa família e o pai de Virginia baseia-se na possibilidade de
relações de compadrio, que representam a famosa construção de parentesco “à brasileira”, que
é intensificada pela laço ritual (religioso) como o batismo, principalmente entre famílias abas-
tadas e famílias não abastadas, conhecida no Brasil à época, como articula o antropólogo Vini-
cius Venâncio (2022, p. 10): “o compadrio era uma forma de as famílias pobres garantirem
proteção de um grande senhor de terras, assim como emprego, e por parte dos poderosos este
atuava como um arregimentador de gente”. É nesse contexto, que também demarca relações de
trabalho, que os pais de Virginia se conhecem, e também “foi através das conexões e relações
que Teófilo construiu com Bento Bicudo que sua vida mudou de rumo, abrindo novas possibi-
lidades para que Virgínia e seus irmãos tivessem, de certa forma, um caminho distinto do que
se esperava para os negros no início do século XX” (Silva, 2021, p. 19). Dirá Virgínia em
entrevista a Maio:
Sou filha de Teófilo Júlio Bicudo e Joana Leone Bicudo. Meu pai nasceu em Campinas
e ele tinha muito orgulho de ser campineiro. Ele foi criado em casa dos que tinham sido
patrões dele. De modo que era muito querido nessa família, dentro da qual ele nasceu.
Minha mãe trabalhava também nessa casa. Isso tudo no interior de São Paulo. Eles que
me contaram essas coisas [risos]. O que eu sei é que meus avós maternos vieram da
Itália. Minha mãe teria 10 anos quando aqui chegaram, e foram então para o interior do
estado de São Paulo. Acho que cuidavam de café, não era? Deve ser isso. Sabe, eu nunca
pensei como estou pensando agora, primeira vez [risos]. Eu nunca reconstituí, agora eu
estou construindo o que ouvi dos meus pais. Eu nunca pus ordem, agora que estou ima-
ginando, assim. Acho que iam lavrar a terra, cultivar. Então eu sei que os imigrantes e
meus pais foram para o interior de São Paulo. Meus pais se casaram em 1905.
Marcos: Eles trabalhavam na mesma casa?
Virgínia: Acho que era trabalho de empregado doméstico.
Marcos: E quando ele veio para São Paulo, trabalhou em quê? Virgínia: Veio casado.
Aí já tinha vida independente, era funcionário do Estado. Marcos: Ele se tornou funci-
onário do Estado? Virgínia: A própria família para quem ele trabalhou conseguiu co-
locá-lo no Estado. No Estado, ele trabalhava na Agência Postal. Então ele era agente
postal, trabalhava lá dentro (Virginia Bicudo apud Maio, 2010, p. 332-333).
É interessante pensar como essas famílias brancas, em relações que podem envolver
muitas coisas, mas principalmente relações de trabalho, do pai de Virgínia, da mãe e irmão de
Lélia, surgem nas trajetórias dessas autoras como vias de acesso à educação e à formação