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Lucas Assis Souza
UM ESBOÇO SOBRE O ANTICOMUNISMO
NO CAMPO DA SEGURANÇA PÚBLICA
Para a intelectual, a história hegemônica silencia e exclui as memórias e narrativas das mulheres negras.
Em contraposição a essa narrativa dominante, a intelectual resgata a memória não hegemônica, presente na
história não oficial do Brasil. A partir de sua concepção de memória, ela analisa como a imagem da mulher
negra é historicamente estereotipada, seja pela figura da “mulata de carnaval”, seja pela da empregada do-
méstica ou mucama (Gonzalez, 2018, p. 224). Neste primeiro momento, detenho-me à figura da empregada
doméstica.
Bell hooks, em Intelectuais Negras (1995), aponta que, no exercício de um sistema racista e sexista, existe
uma iconografia de representação da mulher negra como um corpo sem mente, animalesco e primitivo,
necessitando, assim, ser dominado. Angela Davis, em Mulheres, raça e classe (2016), ao analisar a intersec-
cionalidade entre o corpo da mulher Negra, raça e classe, ressalta que o espaço ocupado de forma significa-
tiva e densa pelo trabalho na vida das mulheres Negras hoje nada mais é do que a reprodução de um padrão
estabelecido durante o período da escravidão.
Davis (2016) destaca um aspecto crucial para compreender o impacto da escravidão nos corpos Negros.
Ela afirma que esses corpos eram desumanos e reduzidos à condição de escravos. Tanto homens quanto
mulheres eram submetidos às mesmas tarefas e exigências, trabalhando lado a lado (Davis, 2016, p. 27).
Beatriz Nascimento (1976) também segue o mesmo fio da meada; a autora considera a mulher negra dentro
do sistema colonial como produtora essencial, desempenhando um papel ativo semelhante ao dos homens.
Como escravizada, ela trabalhava não apenas nos afazeres da casa-grande, que incluíam a produção de ali-
mentos para a escravaria, mas também no campo, nas atividades relacionadas ao corte e ao engenho. Além
de sua capacidade produtiva, sua condição de mulher e potencial mãe de novos escravizados lhe atribuía
a função de reprodutora de nova mercadoria para o mercado de mão de obra interno, concorrendo com o
tráfico negreiro.
Em contraste, a mulher branca, vista como esposa e mãe dedicada, era percebida como ociosa e dependente
do trabalho masculino para sua sobrevivência. No entanto, essa inatividade era uma falsa aparência, pois
servia como disfarce para a exploração do trabalho escravo que sustentava seu estilo de vida. Sua imagem
era moldada como símbolo de pureza feminina e do lar, reforçando a ideia de que seu lugar era no âmbito
privado, longe da esfera pública e do trabalho manual. A mulher Negra, por outro lado, era vista como es-
sencialmente produtiva, desempenhando um papel ativo, similar ao do homem. No entanto, essa atividade
não era reconhecida como trabalho, mas como uma obrigação natural e inquestionável. Como escravizada,
a mulher Negra era forçada a trabalhar incansavelmente, sendo vista como uma mera ferramenta de produ-
ção e reprodução, desprovida de direitos e humanidade. Ainda hoje, na condição de trabalhadora doméstica,
digamos que a situação não seja muito diferente.
Janaína Damasceno, em “O corpo do outro. Construções raciais e imagens de controle do corpo feminino
negro: O caso da Vênus Hotentote” (2008), evidencia como a mulher Negra é a antítese do outro – o outro
em oposição é o branco, ou a branca, assim por dizer. Se, no século dezenove, o corpo europeu masculino
representava a normalidade, o que se não o corpo de uma mulher Negra poderia representar sua radical
alteridade? (Damasceno, 2008, p. 2). A formação do pensamento social brasileiro, empanturrado pelo racis-
mo e pelo sexismo, moldou a percepção do corpo da mulher Negra como “anormal”. Vistos como a antítese
dessa “normalidade”, nossa cor de pele, nossos traços físicos, nossa cultura e nossa história foram utilizados
para nos marcar como “coisa”, construção da “radical alteridade” que serve apenas para justificar a violência
sobre os nossos corpos.
“Começamos a história de novo, como sempre, na esteira de seu desaparecimento e com a esperança desvai-
rada de que nossos esforços possam devolvê-la ao mundo” (Hartman, 2020, p. 33). Saidiya Hartman (2020),
ao analisar a história e a memória das mulheres Negras no período escravista, investiga suas experiências
no sistema colonial. Em diálogo com Lélia Gonzalez, a autora examina o impacto devastador das múltiplas
violências coloniais sobre os corpos femininos negros. Movida por uma esperança quase utópica e através de
uma minuciosa análise das narrativas históricas dominantes, Hartman busca resgatar do esquecimento as
memórias da população negra, recontando-as a partir de uma perspectiva radicalmente diferente.
A autora revira uma gama de documentos históricos, arquivos e registros legais do período escravocrata e,
por meio desse rebuliço, revela como as relações de poder coloniais transformaram a história em um arqui-
vo de narrativa única, moldada pela visão dominante, a do colonizador. Essa narrativa hegemônica, edificada
sobre os alicerces da subordinação e da desumanização, perpetua a invisibilização e a marginalização de ho-
mens e mulheres Negros, tanto no período escravocrata quanto no período pós-abolição. Quando Hartman
nos convida a refletir sobre a natureza complexa e fragmentada da memória, ela destaca que a memória, por