O OUTRO E NÃO EU: MULHER NEGRA,
MEMÓRIA E A ALTERIDADE DO SER
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The other and not me: Black women, memory and the otherness of being
El otro y no yo: mujeres Negras, memoria y la alteridad del ser
LARISSA NEVES DA COSTA
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ORCID: 0000-0003-2934-7908
RESUMO
Lélia Gonzalez retoma ideias basilares da produção antropológica brasileira para tecer uma profunda aná-
lise da experiência da mulher Negra no Brasil. Com seu refinado conceito de memória, Gonzalez destrincha
como o racismo e o sexismo, moldaram a identidade, a memória coletiva e o trabalho das mulheres Negras.
Neste artigo, pretendo explorar o conceito de memória elaborado pela autora, para analisar a situação da
mulher Negra no Brasil. Através dessa lente analítica, buscarei compreender como nós, mulheres Negras,
ao longo da história, fomos sistematicamente subjugadas por meio da formação do pensamento social bra-
sileiro. Discutirei como a construção de uma memória nacional excludente e eurocêntrica silenciou e mar-
ginalizou nossos corpos, relegando-nos às posições subalternas na sociedade. Pretendo também abordar
as diversas formas de violência que marcam a nossa experiência de existir, desde as socioeconômicas, as
simbólicas, e principalmente a racial.
Palavras-chave: Memória; alteridade; mulher Negra, trabalho doméstico.
ABSTRACT
Lélia Gonzalez takes up basic ideas from Brazilian anthropological production to weave a profound analysis
of the experience of Black women in Brazil. With her refined concept of memory, Gonzalez unravels how
racism and sexism have shaped the identity, collective memory and work of Black women. In this article, I
intend to explore the concept of memory developed by the author in order to analyze the situation of Black
women in Brazil. Through this analytical lens, I will seek to understand how we Black women have been sys-
tematically subjugated throughout history through the formation of Brazilian social thought. I will discuss
how the construction of an exclusionary and Eurocentric national memory has silenced and marginalized
our bodies, relegating us to subordinate positions in society. I also intend to address the various forms of
violence that mark our experience of existence, from the socio-economic to the symbolic, and especially the
racial.
Keywords: Memory; alterity; Black woman, domestic work.
1 Este artigo é fruto da minha dissertação de mestrado. Fui orientada pela Prof. Dr(a). Luciana de Oliveira Dias no Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da Universidade de Goiás, onde fui bolsista da FAPEG entre os anos de 2021 a 2023. Esse artigo também é resultado de um grande
esforço para a valorização de intelectuais Negras, sendo assim um privilégio ter autoras Negras em minhas referências bibliográficas.
2 Doutoranda no Departamento de Antropologia da UnB. Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal
de Goiás. Bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG, com Graduação Sanduíche através do Programa Abdias Nasci-
mento, no Centro de Investigación y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS). Integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa Coletivo Rosa
Parks (UFG) e MOBILE (UnB).
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Larissa Neves da Costa
O OUTRO E NÃO EU: MULHER NEGRA,
MEMÓRIA E A ALTERIDADE DO SER
RESUMEN
Lélia Gonzalez retoma ideas básicas de la producción antropológica brasileña para tejer un profundo aná-
lisis de la experiencia de las mujeres negras en Brasil. Con su refinado concepto de memoria, Gonzalez de-
sentraña cómo el racismo y el sexismo han configurado la identidad, la memoria colectiva y el trabajo de
las mujeres negras. En este artículo, pretendo explorar el concepto de memoria de la autora para analizar
la situación de las mujeres negras en Brasil. A través de esta lente analítica, intentaré comprender cómo las
mujeres negras hemos sido sistemáticamente subyugadas a lo largo de la historia a través de la formación
del pensamiento social brasileño. Discutiré cómo la construcción de una memoria nacional excluyente y
eurocéntrica ha silenciado y marginado nuestros cuerpos, relegándonos a posiciones subordinadas en la
sociedad. También pretendo abordar las diversas formas de violencia que marcan nuestra experiencia de
existencia, desde la socioeconómica hasta la simbólica, y especialmente la racial.
Keywords: Memoria; alteridad; mujer Negra, trabajo doméstico.
1. INTRODUÇÃO
Sou um rio caudaloso, banhando as margens, atravessando os espaços, abundante, sou uma mulher Negra
3
que reescreve a história
com a própria tinta, com a própria memória, dignifico minhas palavras, para que se ouça nelas minha mãe, minhas avós, minhas
irmãs, minhas sobrinhas e quem sabe no futuro minhas filhas. Minha escrita é um rio que não seca e nela guardo memória, pre-
servo meu passado e reescrevo meu futuro. Afinal, não sou eu uma mulher Negra com minha Negra memória, uma mulher-raiz
4
.
(Autora, 2025)
Na reunião do Grupo de Trabalho “Temas e Problemas da População Negra no Brasil”, realizada durante o
IV Encontro Anual da Associação Brasileira de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, no estado do
Rio de Janeiro, nos anos 80, a intelectual Negra Lélia Gonzalez, em tom provocativo – “o lixo vai falar e numa
boa” (Gonzalez, 2018a) –, convidou a presente elite intelectual branca para uma profunda reflexão sobre a
intrínseca relação entre consciência e memória, conceitos centrais para a compreensão das dinâmicas so-
ciais e da construção da identidade, especialmente no contexto das lutas contra o racismo e o sexismo e na
formação do pensamento social brasileiro.
A gente tá falando das noções de consciência e de memória
5
. Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do
encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a
gente considera como o não-saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar
da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que a memória inclui. Daí, na
medida em que é o lugar da rejeição, consciência se expressa como discurso dominante (ou efeitos desse discurso) numa dada
cultura, ocultando memória, mediante a imposição do que ela, consciência, afirma como a verdade. Mas a memória tem suas
astúcias, seu jogo de cintura: por isso, ela fala através das mancadas do discurso da consciência (Gonzalez, 2018, p. 226).
Lélia Gonzalez define que a memória é o “não-saber que conhece”, representando um conhecimento que
emerge das brechas do discurso oficial, abrigando fragmentos de histórias que foram silenciadas, aquilo que
não é falado, mas ainda assim está lá. É nesse espaço que a verdade emerge, mesmo que estruturada como
ficção, pois desafia as narrativas dominantes e abre caminho para novas interpretações da realidade. Já a
consciência é permeada por lacunas, onde o saber hegemônico se entrelaça com o encobrimento de outras
realidades. É nesse terreno onde o discurso ideológico se enraíza, moldando então a história oficial para o
interesse de quem a representa.
Por assim dizer, a consciência dominante busca excluir e ocultar a memória, impondo-se como verdade ab-
soluta. A memória, no entanto, possui suas “astúcias” e “jogo de cintura”. Ela se manifesta nas brechas do
discurso da consciência, subvertendo suas verdades e revelando as contradições que permeiam a sociedade
brasileira. Então, através das hesitações da consciência, a memória rompe com algo, a consciência hegemô-
nica branca. Sendo assim, a memória não se limita à lembrança passiva de eventos passados, mas desempe-
nha um papel ativo na construção e reconstrução de identidades, nos seus aspectos mais minuciosos.
3 O uso da letra maiúscula “N” na palavra “Negra” será recorrente neste texto para destacar a unidade de um povo que compartilha história e identi-
dade.
4 O termo “mulher-raiz” vem de “mulheres-raízes”, expressão mobilizada por Luciana Dias, Cristina Souza Carlos Henning (2020) e que se refere
às mulheres que revelam intelectualidades e criticidades formadas no Sul, desafiando os campos de conhecimento hegemônicos. Uso o termo como
provocação, sendo eu uma intelectual Negra jovem que mobilizo conhecimento desde a diáspora.
5 Sublinhado conforme o texto original.
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Lucas Assis Souza
UM ESBOÇO SOBRE O ANTICOMUNISMO
NO CAMPO DA SEGURANÇA PÚBLICA
Para a intelectual, a história hegemônica silencia e exclui as memórias e narrativas das mulheres negras.
Em contraposição a essa narrativa dominante, a intelectual resgata a memória não hegemônica, presente na
história não oficial do Brasil. A partir de sua concepção de memória, ela analisa como a imagem da mulher
negra é historicamente estereotipada, seja pela figura da “mulata de carnaval”, seja pela da empregada do-
méstica ou mucama (Gonzalez, 2018, p. 224). Neste primeiro momento, detenho-me à figura da empregada
doméstica.
Bell hooks, em Intelectuais Negras (1995), aponta que, no exercício de um sistema racista e sexista, existe
uma iconografia de representação da mulher negra como um corpo sem mente, animalesco e primitivo,
necessitando, assim, ser dominado. Angela Davis, em Mulheres, raça e classe (2016), ao analisar a intersec-
cionalidade entre o corpo da mulher Negra, raça e classe, ressalta que o espaço ocupado de forma significa-
tiva e densa pelo trabalho na vida das mulheres Negras hoje nada mais é do que a reprodução de um padrão
estabelecido durante o período da escravidão.
Davis (2016) destaca um aspecto crucial para compreender o impacto da escravidão nos corpos Negros.
Ela afirma que esses corpos eram desumanos e reduzidos à condição de escravos. Tanto homens quanto
mulheres eram submetidos às mesmas tarefas e exigências, trabalhando lado a lado (Davis, 2016, p. 27).
Beatriz Nascimento (1976) também segue o mesmo fio da meada; a autora considera a mulher negra dentro
do sistema colonial como produtora essencial, desempenhando um papel ativo semelhante ao dos homens.
Como escravizada, ela trabalhava não apenas nos afazeres da casa-grande, que incluíam a produção de ali-
mentos para a escravaria, mas também no campo, nas atividades relacionadas ao corte e ao engenho. Além
de sua capacidade produtiva, sua condição de mulher e potencial mãe de novos escravizados lhe atribuía
a função de reprodutora de nova mercadoria para o mercado de mão de obra interno, concorrendo com o
tráfico negreiro.
Em contraste, a mulher branca, vista como esposa e mãe dedicada, era percebida como ociosa e dependente
do trabalho masculino para sua sobrevivência. No entanto, essa inatividade era uma falsa aparência, pois
servia como disfarce para a exploração do trabalho escravo que sustentava seu estilo de vida. Sua imagem
era moldada como símbolo de pureza feminina e do lar, reforçando a ideia de que seu lugar era no âmbito
privado, longe da esfera pública e do trabalho manual. A mulher Negra, por outro lado, era vista como es-
sencialmente produtiva, desempenhando um papel ativo, similar ao do homem. No entanto, essa atividade
não era reconhecida como trabalho, mas como uma obrigação natural e inquestionável. Como escravizada,
a mulher Negra era forçada a trabalhar incansavelmente, sendo vista como uma mera ferramenta de produ-
ção e reprodução, desprovida de direitos e humanidade. Ainda hoje, na condição de trabalhadora doméstica,
digamos que a situação não seja muito diferente.
Janaína Damasceno, em “O corpo do outro. Construções raciais e imagens de controle do corpo feminino
negro: O caso da Vênus Hotentote” (2008), evidencia como a mulher Negra é a antítese do outro – o outro
em oposição é o branco, ou a branca, assim por dizer. Se, no século dezenove, o corpo europeu masculino
representava a normalidade, o que se não o corpo de uma mulher Negra poderia representar sua radical
alteridade? (Damasceno, 2008, p. 2). A formação do pensamento social brasileiro, empanturrado pelo racis-
mo e pelo sexismo, moldou a percepção do corpo da mulher Negra como “anormal”. Vistos como a antítese
dessa “normalidade”, nossa cor de pele, nossos traços físicos, nossa cultura e nossa história foram utilizados
para nos marcar como “coisa”, construção da “radical alteridade” que serve apenas para justificar a violência
sobre os nossos corpos.
“Começamos a história de novo, como sempre, na esteira de seu desaparecimento e com a esperança desvai-
rada de que nossos esforços possam devolvê-la ao mundo” (Hartman, 2020, p. 33). Saidiya Hartman (2020),
ao analisar a história e a memória das mulheres Negras no período escravista, investiga suas experiências
no sistema colonial. Em diálogo com Lélia Gonzalez, a autora examina o impacto devastador das múltiplas
violências coloniais sobre os corpos femininos negros. Movida por uma esperança quase utópica e através de
uma minuciosa análise das narrativas históricas dominantes, Hartman busca resgatar do esquecimento as
memórias da população negra, recontando-as a partir de uma perspectiva radicalmente diferente.
A autora revira uma gama de documentos históricos, arquivos e registros legais do período escravocrata e,
por meio desse rebuliço, revela como as relações de poder coloniais transformaram a história em um arqui-
vo de narrativa única, moldada pela visão dominante, a do colonizador. Essa narrativa hegemônica, edificada
sobre os alicerces da subordinação e da desumanização, perpetua a invisibilização e a marginalização de ho-
mens e mulheres Negros, tanto no período escravocrata quanto no período pós-abolição. Quando Hartman
nos convida a refletir sobre a natureza complexa e fragmentada da memória, ela destaca que a memória, por
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Larissa Neves da Costa
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MEMÓRIA E A ALTERIDADE DO SER
si só, não é suficiente para reconstruir um passado apagado e silenciado. É preciso um trabalho árduo de pes-
quisa, análise crítica e reinterpretação dos vestígios que restaram para que possamos desvendar a verdade
sobre a experiência das mulheres Negras na escravidão.
A memória muitas vezes foi tratada como uma categoria estática e homogênea, ignorando sua natureza di-
nâmica e multifacetada. Sendo assim, repenso a memória como uma categoria complexa e transformado-
ra, moldada por fatores sociais, culturais e individuais. Isso significa que a memória não é um registro fiel
do passado, mas uma construção social influenciada pelas perspectivas e experiências de quem a narra, de
modo que as memórias presentes em arquivos e documentos históricos, embora fragmentadas e incomple-
tas, desempenham um papel crucial na construção das representações de indivíduos e grupos.
No caso de nós, mulheres Negras, os registros históricos estão repletos de memórias estigmatizantes que
serviram para perpetuar nossa subalternidade e invisibilidade social. Essas memórias, cuidadosamente se-
lecionadas e manipuladas pela branquitude, contribuíram para a construção de uma narrativa histórica que
nos relegou às margens da sociedade, negando a nós humanidade e agência. Essa narrativa única, marcada
pela violência, pela exploração e pela desumanização, serviu para legitimar o poder colonial e silenciar ou-
tras memórias, ou seja, as que são nossas. Fica evidente, assim, que a memória está intrinsecamente ligada
aos processos históricos e à consciência hegemônica. Mais do que um “objeto” de estudo para a antropologia,
a memória revela-se como uma força ativa na criação e reprodução de representações sociais.
2. MULHER NEGRA, TRABALHO DOMÉSTICO E MEMÓRIA: UM CAMPO DE BATALHA
A manhã infiltra-se pela janela da cozinha, observo do meu quarto o vapor que sobe da leiteira fervilhante
enquanto meu pai passa um café, minha mãe se levanta às cinco e se ajeita para trabalhar. O aroma inebrian-
te de café toma conta do ar de modo que o cheiro do cansaço de minha mãe se mistura ao do café fresco.
Nesse momento eu me vejo filha de uma mulher Negra, neta de uma mulher Negra, bisneta de uma outra
mulher Negra e, seguindo a história do Brasil, sabemos que minha linhagem feminina Negra não cessa aqui
e é circunscrita por mulheres Negras trabalhadoras rurais e domésticas.
Minha linhagem, marcada pela resiliência e pela luta constante, é um testemunho vivo das complexas in-
tersecções entre raça, gênero e classe social no Brasil. Cada uma dessas mulheres Negras, dentro e fora de
minha família, construíram um legado de resistência por meio do trabalho doméstico. A minha história se
entrelaça com a trajetória de tantas outras mulheres Negras cujas vidas foram marcadas pelo trabalho do-
méstico. Trabalho que muitas das vezes é invisibilizado e desvalorizado, extensão do sistema colonial que
perpetuou a exploração e a subjugação de corpos de mulheres Negras.
O trabalho doméstico, historicamente relegado às mulheres Negras no Brasil, é uma extensão das dinâmicas
de poder estabelecidas durante o período escravocrata. Após a abolição, muitas mulheres Negras não tive-
ram acesso a oportunidades de emprego fora do ambiente doméstico, perpetuando um ciclo de subordina-
ção e exploração. Minhas antecessoras foram parte dessa história: trabalharam incansavelmente em casas
alheias, cuidando dos filhos dos outros, limpando e cozinhando, enquanto suas próprias necessidades foram
negligenciadas, sua humanidade, negada e suas memórias, apagadas.
Essas mulheres não apenas cuidaram de casas que não eram suas, mas também sustentaram suas famílias,
educaram seus filhos e transmitiram valores incomensuráveis. Durante séculos, mulheres Negras enfren-
tam jornadas extenuantes, salários irrisórios e condições de trabalho degradantes. No entanto, foi por meio
desse trabalho que muitas conseguiram garantir o sustento de suas famílias e a educação de seus descenden-
tes, alimentando sonhos de um futuro melhor.
Hoje me vejo sentada na cozinha da casa de minha mãe, escrevendo com as mãos de quem quer contar
outras memórias. Escrevo para dar vida às memórias que foram silenciadas, para honrar cada sacrifício e
cada sonho interrompido. Escrevo com a certeza de que minhas palavras têm o poder de transformar a dor
em resistência e a opressão em liberdade. Cada linha que traço é uma homenagem à minha linhagem, uma
reafirmação de nossa dignidade.
Escrevo com a convicção na força transformadora da nossa memória e na importância de contar nossas
próprias histórias. E, para romper com o silêncio, como nos convida Vera Rodrigues (2021 apud bell hooks,
2019), é necessário fazer a transição do silêncio à fala. Para o oprimido, o colonizado, o explorado e aqueles
que se levantam e lutam lado a lado, essa transição é um gesto de desafio que cura, possibilitando uma vida
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nova e um novo crescimento. E o meu lugar de rompimento é a escrita, pois o oprimido luta na linguagem
para recuperar a si mesmo — para reescrever, reconciliar, renovar. Nossas palavras não são sem sentido.
Elas são uma ação — uma resistência. A linguagem é também um lugar de luta (hooks, 2019, p. 58), lugar de
recuperar a memória e lugar de fecundar raízes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A história da mulher Negra no Brasil é marcada pela invisibilidade, pela desvalorização de seu trabalho e
pela negação de sua humanidade. Por muito tempo, a narrativa oficial tentou silenciar nossas vozes, apagan-
do nossas marcas da história. Mas a memória é um rio que continua a fluir. A nossa memória recuperada es-
trutura o presente e projeta o futuro. Ela nos dá os instrumentos para romper com os ciclos de invisibilidade
e violência que persistem.
A memória, como bem nos ensinaram Lélia Gonzalez, Angela Davis e Saidiya Hartman, não é passiva nem
estática. Ela é dinâmica, astuta e carregada de potência transformadora. É nas brechas da consciência he-
gemônica que a memória resgata as narrativas ocultadas. Ao trazer à tona essas histórias, possibilitamos
rompimentos com a lógica colonial que insiste em nos reduzir ao “outro”. Essa memória, enquanto “não-
-saber que conhece”, como nos ensina Lélia Gonzalez, é mais que uma ferramenta de resgate. Ela é também
uma estratégia de sobrevivência, uma forma de desafiar a consciência dominante que tentou nos separar de
nossas raízes e reescrever nossa humanidade em seus termos.
Ao analisar o trabalho doméstico como um espaço histórico de subordinação, evidenciei como as experi-
ências das mulheres de minha linhagem se conectam com a história de tantas outras mulheres Negras. A
escrita, para mim, apresenta-se, então, como um ato de ruptura, uma ferramenta para restaurar a dignidade
e projetar novas possibilidades de futuro. Como nos lembra bell hooks, é na linguagem que lutamos para
recuperar a nós mesmas. A escrita é um lugar de luta, onde resgatamos memórias silenciadas e as transfor-
mamos em territórios de resistência. Escrever é também uma forma de assegurar que nossas histórias sejam
contadas por nós mesmas, em nossas vozes, com nossas perspectivas. É por meio dessa escrita insurgente
que fertilizamos o terreno, onde nossas memórias deixam de ser estigmas e se tornam raízes que sustentam
as nossas narrativas.
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