TONIOL, Rodrigo; FLEISCHER, Soraya (orgs). E quando a limonada antropológica azeda? 1. ed. Porto
Alegre: Zouk, 2023.
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TONIOL, Rodrigo; FLEISCHER, Soraya (orgs). E quando a
limonada antropogica azeda? 1. ed. Porto Alegre:
Zouk, 2023.
Valentina Calado Pompermaier
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ORCID: 0000-0002-5348-6193.
E quando a limonada antropológica azeda? é uma coletânea organizada por Rodrigo
Toniol e Soraya Fleischer, cujos 8 artigos propõem refletir sobre algo frequentemente invisibi-
lizado nos trabalhos da antropologia: o que acontece quando nossos trabalhos de campo não
dão certo? Esta publicação homenageia os 100 anos de Os Argonautas do Pacífico Ocidental
(1922), de Bronislaw Malinowski, remetendo ainda a outras obras do autor, como Coral Gar-
dens (1935) e seus diários de campo (1967). O prefácio de Karina Kuschnir faz o brilhante
trabalho de costurar todos os capítulos em uma mesma trama condutora: a necessidade de re-
fletir criticamente sobre os múltiplos desafios que podem inviabilizar um trabalho de campo.
Desafios estes que vão além dos imponderáveis da vida social e que transformam nossas ex-
pectativas e hipóteses. Quando isto acontece dizemos que a vida nos deu limões, e deles fizemos
limonada. Nesta coletânea, contudo, a limonada azeda e, como afirma Sanabria no primeiro
capítulo, somos obrigados a “bebê-la até a última gota, azeda como ela era.” (p. 38).
No primeiro capítulo, Guillermo Veja Sanabria nos apresenta sua trajetória de pesquisa
acerca do negacionismo do HIV na África do Sul, durante o governo do presidente Thabo
Mbeki. Em uma análise crítica sobre seu trabalho ali, o autor nos convida a refletir sobre a
crença de que os antropólogos necessariamente estarão de acordo com as perspectivas e posi-
cionamentos de seus interlocutores, crença esta que desconsidera o trabalho feito em contextos
de conflitos. Ao investigar o negacionismo sobre o HIV, Sanabria procurou dialogar com ambos
os lados do conflito, mas foi impedido de acessar qualquer grupo, seja porque exigiam seu
engajamento, seja porque não confiavam em sua pessoa. Concluindo, o autor nos apresenta
ainda a “premissa do final feliz ou da pesquisa sempre bem-sucedida”. Para ele, essa premissa
considera que o antropólogo irá necessariamente produzir um estudo que atenda à todas as ex-
pectativas das premissas anteriores. Para Sanabria, no entanto, sua pesquisa esteve muito longe
de alcançar esse ideal.
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Doutoranda em Antropologia Social na Universidade de Brasília (PPGAS/UnB). Mestre em Antropologia Social
pela Universidade de Brasília (PPGAS/UnB). Bacharel em Antropologia pela Universidade Federal do Oeste do
Pará (Ufopa). Email: valentina.calado@gmail.com.
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Na sequência, conhecemos o trabalho de Natânia Lopes. Para apresentar o contexto a
autora faz uso de um recurso narrativo: a criação de uma personagem conceitual e ficcional
chamada Giovana, que reúne características pessoais suas, mas também de outras, referidas pela
autora como “transpessoais”. Do ponto de vista de Giovana, acompanhamos sua experiência de
conduzir uma pesquisa de doutorado sobre a prostituição de luxo, ao mesmo tempo em que
atuava ela própria enquanto prostituta. Giovana teria sido contemplada com um doutorado san-
duíche na França, mas é impedida de dar continuidade pois o professor orientador da universi-
dade francesa, ao descobrir sua atuação como prostituta, se recusa a lhe orientar. Para Lopes, o
contexto em questão deve ser compreendido simultaneamente enquanto uma questão moral e
metodológica, na qual diferentes posições de poder influenciam os caminhos do “como fazer”
da pesquisa, e acabaram por ditar os rumos da pesquisa em questão.
O capítulo 3 é narrado por Clarice Cohn. Tendo atuado junto ao povo indígena Xikrin
do Bacajá desde 1992, Cohn viu-se na difícil posição de ter que integrar a equipe dos Estudos
de Impacto Ambiental no processo de licenciamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Como a própria antropóloga antecipava, muitas coisas deram errado no processo. A tarefa de
mediar interesses e expectativas entre o empreendimento, agências do Estado e os Xikrin resul-
tou num desgaste na relação entre a antropóloga e o povo indígena. Embora sua atuação tenha
garantido que o estudo reconhecesse que os Xikrin e seu território seriam diretamente impacta-
dos, grande parte dos indígenas ainda assim a responsabilizou pelos resultados do empreendi-
mento e por todos os problemas do processo. A autora reflete sobre como sua relação com este
povo passou do “aparentamento”, visto que ela era entendida como uma figura de confiança
para este povo, à “inimizade”, pois sua atuação gerou repercussões negativas, quase impossibi-
litando a continuidade de seus trabalhos junto a eles.
Ainda no contexto indigenista, acompanhamos a experiência de Tadeu Lopes Machado,
que se aproximou do povo indígena Palikur, enquanto atuava como docente na Universidade
Federal do Amapá (Unifap). Machado enfrentou um longo processo de idas e vindas junto às
lideranças indígenas, de forma que, em vez de iniciar o campo em 2018, o antropólogo foi
autorizado a iniciar seus estudos em fevereiro de 2020, sendo subitamente interrompido pela
pandemia da COVID-19. O autor especula que sua atuação enquanto professor, em vez de ter
facilitado sua inserção junto ao povo indígena, muito provavelmente criou empecilhos, pois à
época Unifap se opunha à demanda em criar processos seletivos diferenciados para os indíge-
nas. Além disso, a hierarquia entre as lideranças indígenas e o fluxo das aprovações não lhe
estava clara num primeiro momento, gerando desconfortos e desconfianças. Para Machado,
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muito além do trabalho da etnografia em si, as tensões e articulações que permeiam o momento
de bastidores e de negociações para a pesquisa devem também receber atenção do antropólogo.
O capítulo de autoria de Tiago Hyra Rodrigues nos desloca do campo indigenista para
pensarmos a violência em contexto urbano. Em sua trajetória, Rodrigues buscou investigar essa
temática em diversos espaços, e em praticamente todos eles, o autor vivenciou dificuldades em
estabelecer contatos, pois as pessoas repetidas vezes recusavam conceder-lhe entrevistas. Todas
essas experiências levaram o autor a questionar sua própria qualidade enquanto pesquisador e
mesmo sua apresentação física (o próprio se descreve como um “cabeludo”). Contudo, como o
próprio acaba por concluir, não parece que suas dificuldades em campo se remetam a uma
inaptidão do etnógrafo. As recusas em participação na pesquisa têm muito mais a ver com 1) a
própria temática escolhida, visto que muitas pessoas preferiam não reviver a experiência da
violência através do relato; 2) por medo de retaliação e perseguição; 3) por desconfiança em
relação ao trabalho do pesquisador.
Ainda na temática da violência, o capítulo de autoria de Stephania Klujsza e Jaqueline
Ferreira remete à experiência da primeira autora em sua pesquisa acerca da violência obstétrica.
Klujsza dedicava-se a este estudo desde 2012. Durante seu doutorado a autora vinha conduzindo
entrevistas junto a mulheres que vivenciaram situações de violência antes, durante ou após o
parto. Cabe notar que a própria antropóloga estava grávida pela segunda vez enquanto realizava
seu estudo. Embora a autora acreditasse que sua ampla experiência com o tema da violência
obstétrica, por mais “pesado” que fosse, não implicaria um desconforto pessoal. Isso provou-
se um equívoco após ter contato com a experiência específica de uma entrevistada. Desde então,
Klujsza sentiu-se profundamente afetada com o sofrimento da interlocutora, e viu-se obrigada
a alterar os rumos de sua pesquisa.
O peltimo capítulo é de Raquel Littério de Bastos e Pedro Paulo Gomes Pereira. Nele,
acompanhamos Bastos em sua etnografia sobre a antroposofia na Suíça em 2014. Ela é recebida na
casa de Madame Elisabeth, famosa personalidade no contexto da antroposofia. A vivência ali inicia-
se como uma oportunidade entusiasmante, que aos poucos ganha o contorno de uma relão desa-
gradável: o trabalho de desenvolvimento pessoal no âmbito da antroposofia requer dedicação aos
servos de manutenção do espaço, atenção à alimentação e o aprimoramento intelectual. Bastos
narra suas dificuldades em atender às expectativas de sua anfitr, o que lhe coloca em um estado
de adoecimento. Em uma reflexão posterior, Bastos reavalia seus conflitos com sua principal inter-
locutora, reconhecendo suas próprias “falhase preconceitos”, e os de sua anfitriã.
O último capítulo é de autoria de José Miguel Nieto Olivar. Seu ponto de partida são
seus trabalhos junto às mulheres indígenas do Rio Negro, no Amazonas, perpassando questões
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como o comércio sexual, o tráfico de crianças e adolescentes, que o levou a entrevistar muitas
mulheres, especialmente lideranças, e atores da assistência social e dos conselhos tutelares lo-
cais. Conforma narrado pelo autor, seus trabalhos de campo correspondem a vários períodos de
4 meses, 6 meses e algumas semanas. Durante seu campo em 2016, o autor chega à conclusão
de que atingira uma espécie de limite. Se quisesse adentrar mais profundamente nas temáticas
que investigava, precisaria investir em um trabalho de campo de longa duração. Contudo, esse
trabalho representava um grande investimento, e o autor reflete sobre que sentidos teriam in-
vestimentos dessa magnitude. Neste mesmo período, o autor se torna pai. Diante de tudo isso,
Olivar opta por recuar e não embarcar nessa longa jornada etnográfica, investindo em trabalhos
de outras naturezas junto a seus interlocutores.
Desta coletânea, com histórias tão diversas e particulares, mas ao mesmo tempo tão
familiares ao leitor-antropólogo, algumas considerações são possíveis. De fato, como apontam
os organizadores, não se trata de um “manual sobre como evitar fracassos”. Longe disso, ao
expor tão corajosamente suas experiências”, os autores destacam como esses desafios coloca-
ram em xeque não somente o andamento de suas pesquisas ou os resultados destas, mas também
a autoestima e a confiança dos pesquisadores.
Tais desafios são das mais diferentes naturezas: desde a dificuldade de negociar a en-
trada em campo (como nos mostram Sanabria, Machado e Rodrigues), as recusas de interlocu-
tores e de agentes institucionais diante da aparência ou atuação do pesquisador (como no caso
de Rodrigues e de Lopes), as desconfianças geradas no relacionamento com os interlocutores
(como descrevem Cohn e Machado), ou mesmo os impactos na dimensão da vida pessoal dos
pesquisadores, que se veem impedidos de dar continuidade ao trabalho seja pela forma como o
campo ressoa em suas experiências (como em Klujska e Ferreira), seja por experiências de
adoecimento (como em Bastos e Pereira), seja por questionarem o sentido de avançar na pes-
quisa (como em Olivar).
Os antropólogos que experimentaram situações semelhantes tendo ou não encon-
trado uma solução adequada certamente encontrarão conforto em finalmente verem narradas
experiências de ser “malsucedido” e tendo a crer que somos muitos os que compartilhamos
desse sentimento. É preciso, no entanto, destacar que essas mesmas situações de “fracassos”
permitiram a estes autores experimentar reflexões teóricas potentes, que talvez jamais existis-
sem não fosse pelo espaço criado na chamada desta coletânea. Refletir sobre campos frustrados
e sobre pesquisas que não se concretizaram na forma esperada permite dar vazão ao sofrimento
acadêmico e a profícuas proposições teóricas, que talvez permitam tornar essa limonada mini-
mamente palatável, mesmo que nunca plenamente saborosa.
TONIOL, Rodrigo; FLEISCHER, Soraya (orgs). E quando a limonada antropológica azeda? 1. ed. Porto
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Recebido em 24/06/2024
Aprovado em 27/06/2014
Publicado em 16/08/2024