TONIOL, Rodrigo; FLEISCHER, Soraya (orgs). E quando a limonada antropológica azeda? 1. ed. Porto
Alegre: Zouk, 2023.
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Na sequência, conhecemos o trabalho de Natânia Lopes. Para apresentar o contexto a
autora faz uso de um recurso narrativo: a criação de uma personagem conceitual e ficcional
chamada Giovana, que reúne características pessoais suas, mas também de outras, referidas pela
autora como “transpessoais”. Do ponto de vista de Giovana, acompanhamos sua experiência de
conduzir uma pesquisa de doutorado sobre a prostituição de luxo, ao mesmo tempo em que
atuava ela própria enquanto prostituta. Giovana teria sido contemplada com um doutorado san-
duíche na França, mas é impedida de dar continuidade pois o professor orientador da universi-
dade francesa, ao descobrir sua atuação como prostituta, se recusa a lhe orientar. Para Lopes, o
contexto em questão deve ser compreendido simultaneamente enquanto uma questão moral e
metodológica, na qual diferentes posições de poder influenciam os caminhos do “como fazer”
da pesquisa, e acabaram por ditar os rumos da pesquisa em questão.
O capítulo 3 é narrado por Clarice Cohn. Tendo atuado junto ao povo indígena Xikrin
do Bacajá desde 1992, Cohn viu-se na difícil posição de ter que integrar a equipe dos Estudos
de Impacto Ambiental no processo de licenciamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Como a própria antropóloga antecipava, muitas coisas deram errado no processo. A tarefa de
mediar interesses e expectativas entre o empreendimento, agências do Estado e os Xikrin resul-
tou num desgaste na relação entre a antropóloga e o povo indígena. Embora sua atuação tenha
garantido que o estudo reconhecesse que os Xikrin e seu território seriam diretamente impacta-
dos, grande parte dos indígenas ainda assim a responsabilizou pelos resultados do empreendi-
mento e por todos os problemas do processo. A autora reflete sobre como sua relação com este
povo passou do “aparentamento”, visto que ela era entendida como uma figura de confiança
para este povo, à “inimizade”, pois sua atuação gerou repercussões negativas, quase impossibi-
litando a continuidade de seus trabalhos junto a eles.
Ainda no contexto indigenista, acompanhamos a experiência de Tadeu Lopes Machado,
que se aproximou do povo indígena Palikur, enquanto atuava como docente na Universidade
Federal do Amapá (Unifap). Machado enfrentou um longo processo de idas e vindas junto às
lideranças indígenas, de forma que, em vez de iniciar o campo em 2018, o antropólogo só foi
autorizado a iniciar seus estudos em fevereiro de 2020, sendo subitamente interrompido pela
pandemia da COVID-19. O autor especula que sua atuação enquanto professor, em vez de ter
facilitado sua inserção junto ao povo indígena, muito provavelmente criou empecilhos, pois à
época Unifap se opunha à demanda em criar processos seletivos diferenciados para os indíge-
nas. Além disso, a hierarquia entre as lideranças indígenas e o fluxo das aprovações não lhe
estava clara num primeiro momento, gerando desconfortos e desconfianças. Para Machado,