Baker, Z.; Law, T.; Vardy, M.; Zehr, S. (eds.). Climate, Science and Society: a primer. Taylor &
Francis, 2023.
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Baker, Z.; Law, T.; Vardy, M.; Zehr, S. (eds.). Climate, Science
and Society: a primer. Taylor & Francis, 2023.
Wanderson José Francisco Gomes
1
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5788-0174
O livro Climate, Science and Society: a primer, editado por Zeke Baker (Sonoma State
University), Tamar Law (Cornell University), Mark Vardy (Queen’s University) e Stephen
Zehr (University of Southern Indiana), é uma coletânea de capítulos fruto de discussões reali-
zadas em 2022 em um workshop financiado pela Fundação de Ciências dos Estados Unidos.
Publicada em 2023, a obra apresenta estudos interdisciplinares especializados e contextualiza-
dos sobre as mudanças climáticas a partir de uma abordagem didática, dialógica e concisa.
Segundo orientam os editores, tanto sua totalidade pode fundamentar cursos sobre a
temática, quanto os capítulos, se tomados individualmente, podem subsidiar discussões pontu-
ais. Em todo caso, em razão da variedade de assuntos abordados, o material funciona como um
rico ponto de partida para leituras posteriores mais aprofundadas.
Organizada em 37 capítulos e distribuídos em 11 partes, a coletânea reúne contribuições
teórico-emricas de 39 pesquisadoras e pesquisadores dos chamados Science and Technology Stu-
dies STS (Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia ESCT
2
), que oferece aos leitores não uma
repetição de diagsticos sobre emerncia climática, mas uma diversidade de reflexões alternati-
vas, consistentes e factíveis sobre tópicos que devem compor o debate, tais como: mudaas climá-
ticas como uma questão social; mídia e comunicão pública; ONGs, sociedade civil e movimentos
sociais; justiça e governança climática; energia, sustentabilidade e transições sociotécnicas; adap-
tação e resiliência; arte e infraestrutura; engenharia climática, entre outros.
Um primeiro argumento a pedra angular que sustenta e conecta os capítulos é o da
posição crítica diante da objetividade/racionalidade global da ciência climática. Para os autores,
os ESCT lançam questões que desafiam os conhecimentos estabelecidos sobre mudanças
1
Doutorando em Sociologia na Universidade Federal de Sergipe (PPGS/UFS) com bolsa da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de
Alagoas (PPGS/UFAL) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
É licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas (ICS/UFAL). E-mail: wandersonjfgo-
mes@academico.ufs.br
2
No Brasil, as terminologias Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e Estudos Sociais de Ciência e
Tecnologia (ESCT) coexistem. No entanto, neste texto, optamos pelo uso da última, conforme adotado pela Asso-
ciação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (Disponível em: https://www.esocite.org.br.
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climáticas, não como forma de fragilizar a legitimidade da comunidade científica, mas de con-
siderá-la sob a lógica da estrutura social e do legado dos processos históricos.
Exemplo contundente desse entrelaçamento é a relação entre sistema colonial europeu
e ciências ambientais/climáticas, que resulta, entre outras consequências, na segregação social
dos saberes indígenas e nas características próprias que as ciências dominantes incorporam na
atualidade. Esse exercício está amparado no conceito de construtivismo social, em que a mu-
dança climática é compreendida não como um fenômeno objetivo da natureza, mas socialmente
moldado e interpretado. Essas e outras considerações compõem as partes 1 e 2, respectivamente
intituladas Climate Change Science as a Social Issue e Theorizing Climate, Science and Society.
Por seu turno, as partes 3 e 4, nomeadas de Media and Public Communication about
Climate Change e NGOs, Civil Society and Social Movements, respectivamente, agrupam ca-
pítulos comprometidos em apurar a disseminação de informações sobre o clima, ponto nevrál-
gico que ajuda a responder uma relevante questão: ainda hoje, por que persiste no debate pú-
blico a desconfiança em aceitar os efeitos climáticos como causas antropogênicas
3
?
É válido destacar que a obra oferece farto conteúdo empírico a respeito da dimensão
antropogênica das mudanças climáticas que pode ser encontrado, por exemplo, no capítulo
Rethinking Our Histories and Relations with Climate Change, segundo o trecho “human-driven
global impact on the Earth System” (Candis, 2023, p. 20
4
); no capítulo We Cannot Afford Not
to Perform Constructionist Studies of Mainstream Climate Sciente, em “human-induced climate
change” (Lahsen, 2023, p. 33); e no capítulo Expert Activists and NGOs, no excerto “this means
that the scientific concept of a global climate is inherently tied in with [...] social, cultural, and
political histories” (Fleischmann, 2023, p. 87).
Ainda, as pesquisas demonstram que as mídias e os movimentos sociais, com raras ex-
ceções, disseminam narrativas globalizantes sobre mudanças climáticas que impedem a absor-
ção eficaz do problema por parte do público e invisibilizam injustiças sociais locais. Além do
mais, comprovam que a crise climática é excessivamente associada à política, tendo pouca re-
percussão modelos econômicos vigentes e práticas cotidianas de produção e consumo.
Mesmo que a comunicação pública exerça a tradução das informações científicas, suas
linguagens correspondem a influências culturais, socioeconômicas e geopolíticas que implicam
nos enquadramentos ideológicos das notícias. Enquanto isso, o público não é mero receptor e
decodificador das mensagens veiculadas, mas produtor de conteúdos e formador de opiniões
3
Identifica a mudança climática como um fenômeno causado pela ação dos seres humanos.
4
Todas as citações são de capítulos da obra resenhada.
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sobre o clima, socializado ao tema com base em interesses e posições sociais, crenças e valores
culturais e conceitos mobilizados a partir da experiência com eventos climáticos locais.
Como recorda Zehr (2023), um mesmo conhecimento pode ser representado e interpre-
tado de formas distintas
5
. E a esse respeito, destacamos o capítulo Public Communication and
Perceptions of Climate Change in Brazil (p. 58-65), de Eloisa Beling Loose (Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul) e Anabele Carvalho (Universidade do Minho), sobre a atuação da
mídia brasileira e a percepção pública das mudanças climáticas, tendo como pano de fundo o
governo antiambiental de Jair Bolsonaro (2019-2022).
Segundo Loose e Carvalho (2023), ao tratar do clima, a mídia convencional brasileira
demonstra dependência das agências de notícias nacionais e internacionais, com limitação de
informações a nível regional e local, além de insuficiência no espaço concedido aos ativistas
ambientais. Bem como, destacam que a cobertura sobre a Amazônia, embora tenha aumentado,
é feita, em grande medida, a partir do eixo Sul-Sudeste, o que impede a ruptura com a dicotomia
metrópole-colônia materializada na ideia de uma Amazônia atrasada à espera do desenvolvi-
mento econômico.
Nas reportagens da mídia alternativa, também há uma sub-representão de povos indíge-
nas, comunidades ribeirinhas, quilombolas e outros. Por fim, chama igualmente a atenção o frágil
acesso à informação nas pequenas cidades distantes das principais áreas urbanas, aliado ao aumento
no uso de aplicativos de mensagens que contribuem para a disseminão da desinformão.
Os ESCT percorrem novas e intrigantes abordagens sobre a justiça climática nas partes
5 e 6: Climate Justice e Climate Governance, respectivamente. É problematizada, por exemplo,
a dinâmica da autoridade desigual entre conhecimento científico e saberes locais. Por acrés-
cimo, são exploradas questões acerca da complexidade decisória da governança climática em
diferentes instâncias, tendo em conta os conhecimentos enraizados nos países do Norte Global
e como estes são recepcionados e adaptados pelo Sul Global.
Como podemos constatar, esses aspectos ocultos são descortinados pelos ESCT, sendo
tão imprescindíveis quanto as discussões sobre energias renováveis e metas de diminuição das
emissões de carbono. Sobre isso, ressaltamos a contribuição de Tiago Ribeiro Duarte (Univer-
sidade de Brasília), em Trust at the Climate Science-Policy Interface (p. 161-166), que examina
a questão da confiança na interface ciência-política a partir da divisão geopolítica entre o Sul e
o Norte Global.
5
“Consequently, the same knowledge or information may be interpreted, represented, and understood differently
by diverse media and publics” (Zehr, 2023, p. 47).
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Ainda, Duarte (2023) sugere que a confiança não é um dado adquirido, mas um produto
sociocultural em permanente construção por meio de processos sociais, e que pode ser fortale-
cido com comunicação e educação científicas, interações estratégicas entre especialistas e lei-
gos etc. Assim, para o autor, o ato isolado de apresentar informações científicas é insuficiente
para garantir níveis de confiabilidade na ciência ou para anular o negacionismo, principalmente
porque os formuladores de políticas, distantes do contexto da produção científica, agem con-
forme julgamentos não-científicos. Sendo assim, ênfase e qualidade comunicativas determinam
graus de convencimento público sobre a emergência climática e, posteriormente, influenciam
deliberações institucionais.
Por sua vez, os capítulos da segunda metade da coletânea, da 7ª a 11ª partes, se dedicam
a romper analiticamente com a polaridade entre o técnico e o social. Aqui, pesquisas em ESCT
empregam o conceito de sociotécnico para demonstrar como as tecnologias desenvolvidas para
conter as rápidas mudanças climáticas (transições energéticas, por exemplo) também são enti-
dades sociais, que exigem da sociedade não apenas transformações técnicas, mas políticas, cul-
turais e econômicas.
Outras disciplinas acadêmicas também devem repensar sociotecnologias para futuros
ambientalmente responsáveis, assumindo critérios historicamente tutelados pelas ciências físi-
cas e da vida. A visão de uma mudança sociotécnica é esmiuçada nas partes Energy, Sustaina-
bility, and Sociotechnical Transitions, Climate Change Adaptation and Resilience, Art, Infras-
tructure, and Climate, Climate Engineering e Climate Futures.
Em conclusão, a coletânea evidencia que a mudança climática não é um fenômeno
inerte, uniforme e apolítico, e apesar de comumente designada como “global”, possui uma he-
terogeneidade intrínseca de causas e efeitos. Climate, Science and Society: a primer é, portanto,
uma instigante contribuição acerca da multidimensionalidade das mudanças climáticas, uma
vez que demarca a complexidade do tema e confronta autoridades, omissões e opressões e ana-
lisa criticamente instituições, explicações e conceitos universais, averiguando com êxito a “vida
social da ciência climática”
6
.
Ao propor esse cuidadoso exame, busca romper com a hegemonia do Norte Global,
inaugurando possibilidades para a diversificação de vozes sobre o clima e considerando siste-
mas de pensamento não-ocidentais que ampliem o leque de perspectivas metodológicas e apri-
morem ações colaborativas para uma reforma ambiental eficiente e um futuro climático trans-
parente, sustentável, justo, inclusivo e democrático.
6
“Social life of climate science” (Baker, 2023, p. 03).
Baker, Z.; Law, T.; Vardy, M.; Zehr, S. (eds.). Climate, Science and Society: a primer. Taylor &
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Recebido em 17/06/2024
Aprovado em 08/07/2024
Publicado em 16/08/2024