Baker, Z.; Law, T.; Vardy, M.; Zehr, S. (eds.). Climate, Science and Society: a primer. Taylor &
Francis, 2023.
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Ainda, Duarte (2023) sugere que a confiança não é um dado adquirido, mas um produto
sociocultural em permanente construção por meio de processos sociais, e que pode ser fortale-
cido com comunicação e educação científicas, interações estratégicas entre especialistas e lei-
gos etc. Assim, para o autor, o ato isolado de apresentar informações científicas é insuficiente
para garantir níveis de confiabilidade na ciência ou para anular o negacionismo, principalmente
porque os formuladores de políticas, distantes do contexto da produção científica, agem con-
forme julgamentos não-científicos. Sendo assim, ênfase e qualidade comunicativas determinam
graus de convencimento público sobre a emergência climática e, posteriormente, influenciam
deliberações institucionais.
Por sua vez, os capítulos da segunda metade da coletânea, da 7ª a 11ª partes, se dedicam
a romper analiticamente com a polaridade entre o técnico e o social. Aqui, pesquisas em ESCT
empregam o conceito de sociotécnico para demonstrar como as tecnologias desenvolvidas para
conter as rápidas mudanças climáticas (transições energéticas, por exemplo) também são enti-
dades sociais, que exigem da sociedade não apenas transformações técnicas, mas políticas, cul-
turais e econômicas.
Outras disciplinas acadêmicas também devem repensar sociotecnologias para futuros
ambientalmente responsáveis, assumindo critérios historicamente tutelados pelas ciências físi-
cas e da vida. A visão de uma mudança sociotécnica é esmiuçada nas partes Energy, Sustaina-
bility, and Sociotechnical Transitions, Climate Change Adaptation and Resilience, Art, Infras-
tructure, and Climate, Climate Engineering e Climate Futures.
Em conclusão, a coletânea evidencia que a mudança climática não é um fenômeno
inerte, uniforme e apolítico, e apesar de comumente designada como “global”, possui uma he-
terogeneidade intrínseca de causas e efeitos. Climate, Science and Society: a primer é, portanto,
uma instigante contribuição acerca da multidimensionalidade das mudanças climáticas, uma
vez que demarca a complexidade do tema e confronta autoridades, omissões e opressões e ana-
lisa criticamente instituições, explicações e conceitos universais, averiguando com êxito a “vida
social da ciência climática”