Quando a cidade se torna sala de aula: o ensino de Sociologia para além dos muros da escola
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Deste modo, o primeiro passo para o planejamento docente é levar em consideração
suas vivências e experiências na localidade definida, exercitando, assim, o estranhamento sobre
os discursos e as práticas que constroem as ruas, praças e equipamentos que formam o lugar.
O docente pode, por exemplo, partir de alguns questionamentos, quais as formas de
ocupação que deram origem a este lugar? Quais espaços são representativos para os gestores
públicos, grupos religiosos, jovens, turistas, dentre outros segmentos sociais? Quais espaços
são estigmatizados? Quais os eventos e rituais que ocorrem nesta localidade? Quais espaços da
cidade são frequentados por mim e por meus alunos? Quais fenômenos sociais podem ser dis-
cutidos a partir destes espaços? Colocar esses questionamentos em prática, visitar novamente
os espaços e observá-los com mais atenção, conversar com os estudantes sobre as vivências
deles na cidade são práticas que contribuem para um mapeamento inicial.
Bem como, praticar o estranhamento em espaços que circulamos no dia a dia ou em
momentos de lazer mostra que os lugares não são neutros, pois neles são empreendidas relações
sociais e estabelecidos códigos de conduta que podem valorizá-los e atrair determinados seg-
mentos sociais, assim como podem estigmatizá-los, afastando possíveis usuários. Esse exercí-
cio de pensar sociologicamente permite a identificação de fenômenos sociais característicos do
lugar onde se pretende desenvolver o Rolê.
Em seguida, é fundamental realizar um levantamento da produção sociológica sobre o
local escolhido em trabalhos acadêmicos que resultam de pesquisa científica, sejam teses, dis-
sertações, TCC, artigos ou trabalhos apresentados em eventos científicos. A análise desse ma-
terial, além de exercitar o olhar crítico, possibilita selecionar temáticas que serão abordadas.
No caso de Canindé, os estudos sociológicos eram principalmente sobre religiosidade, trabalho
e cultura, e tais temáticas orientaram e deram embasamento para a construção da intervenção
pedagógica em relação ao que se discutir e como discutir os assuntos, afinal, trata-se de uma
intervenção com ênfase no ensino da Sociologia.
Soma-se a isso a base teórico-metodológica das discussões da Sociologia Urbana que,
no caso apresentado, partiu das contribuições clássicas de Georg Simmel (2005) e Louis Wirth
(1967) e de pensadores contemporâneos, como Henri Lefebvre (2011) e José Guilherme Cantor
Magnani (2002). Neste contexto, o docente pode também buscar inspiração em outros trabalhos
do tipo intervenção pedagógica desenvolvidos no âmbito do ProfSocio (Cunha, 2023; Servílio
Filho, 2020; Magalhães, 2023; Figueirêdo, 2020; Zaganini, 2020).
Durante o exercício da Sociologia Local, é importante que o docente reconheça a flexi-
bilidade e a dinamicidade que envolvem o planejamento docente, identificando e deixando o
espaço aberto para as contribuições dos estudantes. Produzir um saber que faça sentido para as