Brasília, v. 21, n. 1, p. 1-8, 2026
https://doi.org/10.33240/rba.v21i1.60581
Como citar: BARROS, Flávio B.; DINIZ, Janaína D.A.S. Editorial - É preciso celebrar, no plural - Viva as Agroecologias do Brasil! Revista Brasileira de Agroecologia, v. 21, n. 1, p. 1-8, 2026.
EDITORIAL
É preciso celebrar, no plural:
Viva as Agroecologias do Brasil!
[...] Meu beija flor quando voa
Não tem medo de altura
No ar ele se segura
No jardim se sente rico
Beijando as flores com o bico
Mas não arranha nem fura
Por ser linda a borboleta
Deixa a flora colorida
Que está sendo destruída
Pela mão do homem ingrato
Tocando fogo no mato
Porque não respeita a vida...
(Mestre Barachinha, Maracatu Rural, Pernambuco)
O CBA foi lindo! Ana Primavesi, Dorothy Stang, Paulo Freire, Costabeber, Irmã Veva, Dema e muitas outras figuras icônicas do nosso campo de luta, que já partiram deste plano terreno, certamente estiveram agitadas no mundo celestial, loucas para furar o bucho do céu e aterrissar no semiárido brasileiro, bem no coração da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro, na Bahia, para estar entre nós.
O cânone dos eventos academicistas foi, outra vez, posto em suspensão. Não queremos, contudo, dizer que os congressos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) não são acadêmicos. Não é disso que estamos a falar. Pelo contrário, eles são algo que consideramos difícil de explicar, dada a limitação de nossa capacidade de enxergar aquilo que está para além do que a nossa visão e pensamento alcançam. Mas não custa tentar, ao menos ensaiar, uma reflexão, desde o nosso singelo ponto de vista.
Desta vez, sob os encantos das águas grandes e misteriosas do Velho Chico e das paisagens bioculturais agrestes da Caatinga, o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), ocorrido em Juazeiro/BA, entre 15 e 18 de outubro de 2025, trouxe luz, esperança, encontros de saberes, aprendizados infinitos e múltiplas formas de viver e sentir as Agroecologias do Brasil, deixando-nos saudades profundas, com aquela sensação de que não deveria terminar. A despeito deste sentimento, a psicologia já explicou inúmeras vezes, dizendo-nos que a alegria e o prazer são sensações com as quais nós, humanos, temos dificuldades de lidar, na medida da existência de algo que conhecemos como “depois” ou “fim”. A atmosfera de boas energias que sempre rondou os CBAs é vista, sentida e comentada por todas as pessoas. Mas em que consiste a beleza dos CBAs e, de modo particular, do 13º? Qual é o ingrediente particular que distancia tanto o CBA de outros encontros acadêmicos?
A beleza do CBA mora no respeito aos valores da democracia, da participação social, da inclusão, da ciência socialmente engajada e do forte alinhamento à diversidade e aos processos criativos e progressistas de construção do conhecimento e da prática agroecológica. É preciso reconhecer, enaltecer, festejar e dar a conhecer à sociedade e a outros setores da academia essa capacidade pulsante, fértil e imaginativa da ABA de construir, a cada dois anos, um evento que cumpre ao mesmo tempo o debate científico de temas e atende agendas urgentes.
A fome, a destruição da natureza, as mudanças climáticas, a violência contra as mulheres, a ciência colonial, a soberania alimentar, a presença avassaladora dos agrotóxicos afetando os territórios rurais dos camponeses, de povos indígenas e de comunidades tradicionais, o crescimento do agronegócio produtor de commodities e não de comida, de um lado; e, de outro, os processos formativos e de ações estratégicas para a revisitação do campo da Agroecologia enquanto ciência, prática e movimento, assumiram posição central no CBA do semiárido.
A democracia e a participação social são componentes caros para a ABA e para o CBA. Assim, cabe uma interpelação para pensarmos: quais eventos brasileiros, acadêmicos, promovidos por sociedades científicas, trazem para o centro do debate aqueles sujeitos detentores de outros sistemas de conhecimentos e pensamentos sociais que estão lá em seus territórios ancestrais, de resistências e lutas? Povos indígenas, comunidades tradicionais, a comunidade LGBTQIA+ e os movimentos sociais do campo e da cidade participaram do CBA, trocando experiências entre si, com pesquisadores e diversos grupos, a partir dos seus territórios, conhecimentos, realidades e problemáticas. Os caminhos para a busca do bem-viver e do fortalecimento do campo da Agroecologia.
Comunicaram suas formas muito próprias de fazer e praticar conhecimentos, portanto, ciências, na relação com seus pares, com a natureza e com os sujeitos mais que humanos, para a reprodução material e simbólica da vida, produzindo alimentos, culturas, histórias e memórias sociais a partir de suas ontologias. A tessitura da Agroecologia se faz, por assim dizer, a partir de dimensões concretas, no chão da escuta, abraçando a crítica, a ideia e a proposição, a fim de se reinventar, reescrevendo páginas e desenhando novos percursos.
No CBA esses sujeitos sociais são mais que bem-vindos. Tendo inscrição gratuita e lugar de fala nas mesas redondas, rodas de conversa, conferências, tapiris de saberes, atividades autogestionadas, feira agroecológica, espaço de comedoria e programação artístico-cultural, sua participação não tem o condão daquilo que poderia ser “politicamente correto” para cumprir tabela. Não. O papel desses/as parceiros/as de caminhadas é qualificar o debate com seu conhecimento, pensamento crítico e leitura de mundo a partir de suas empirias profundas, interferindo enormemente nas caixinhas das ciências acadêmicas, ortodoxas e ainda com cheiro de colonialidade na grande maioria das universidades, em suas mais distintas estruturas (faculdades, departamentos, institutos, centros, dentre outras).
Esse princípio está no DNA do CBA. A camponesa que ministra sua palestra e transmite a todos suas reflexões sobre algo, é a mesma pessoa que sobe ao palco para recitar poesias, contar causos ou ensinar uma receita, deixando nossos corações e almas inebriados de felicidade como se estivéssemos praticando uma espécie de Agroecologia dos afetos, das artes, do simbólico. Maria de Nazareth Baudel Wanderley, nossa querida dama da sociologia rural brasileira, já nos ensinava sobre a noção multifacetada do agricultor familiar, que também é pescador, caçador, criador de animais e produtor, sem sombra de dúvidas, de culturas, no plural.
O processo de construção do conhecimento agroecológico, neste sentido, precisa trilhar seu percurso com base na vida de homens e mulheres, considerando todos os atravessamentos possíveis, a fim de colaborar com a reinvenção das práticas acadêmicas e suas epistemologias coloniais demais. Sem a participação dos movimentos sociais e dos múltiplos sujeitos, não há Agroecologia.
A força do 13º CBA pode ser traduzida em números, se analisarmos pela lente da dimensão quantitativa. Com o tema "Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática", contou com 2.732 (dos mais de 3.200 submetidos) trabalhos aprovados para apresentação, distribuídos nas seguintes modalidades: 1.403 resumos expandidos técnico-científicos; 992 relatos de experiências técnicas; 255 relatos de experiências populares; e 82 relatos de experiências populares em vídeo. Cerca de 125 atividades autogestionadas foram aprovadas. Isso sem contar com a programação diversificada, explorando temas de relevância fundamental para o campo da Agroecologia, e os espaços temáticos, como a Feira de Saberes e Sabores da Economia Solidária e da Agroecologia; a Cozinha das Tradições Tia Liquinha; a Comedoria Carrancas; a Cozinha Agroecológica Dandara dos Palmares; a Tenda da Saúde, Cuidado e Cura Mães Filinha e Ciana; a Tenda Rachel Carson; a Ciranda Infantil Ana Primavesi; o Palco de Apresentações Culturais e Relatos de Participantes e a Troca de Sementes e Mudas.
A feira contou com mais de 50 barracas que comercializaram produtos da sociobioeconomia, artesanatos, livros, vestuários alternativos, biojoias, flores, alimentos beneficiados, dentre outros, oriundos de camponeses, indígenas, quilombolas e organizações dos movimentos sociais. O CBA oportuniza, assim, a relação entre quem produz e quem consome, permitindo a troca de saberes, mas, sobretudo, o desenvolvimento de uma consciência agroecológica por parte do consumidor, ao conhecer a origem do produto, quem o produziu, de que maneira, quando e como. O produto adquirido possui valores e signos que não podem ser encontrados nas grandes redes de supermercados. Leva-se para casa mais que um produto, mas a personalidade da comunidade, pessoa ou grupo, as histórias e, o principal, um bem sem as manchas da injustiça social, da degradação da natureza, do uso de veneno, do trabalho análogo à escravidão. Sem contar que o CBA está colaborando com a economia criativa e a circulação de renda.
Já a cozinha das tradições reproduziu um espaço de produção de comidas tradicionais e com memória ancestral, atraindo mestres e mestras da cultura alimentar e comensais no mesmo espaço. Nas cercanias do fogão e forno a lenha, construídos com uma estética de encantar, respeitando a arquitetura de identidade, artífices da culinária destacaram-se: a diversidade de ingredientes, de receitas e de modos de preparar comidas étnicas, cheias de histórias, sabores e saberes. O cenário era surpreendente e nada faltou: bancada com água corrente, mesas, cadeiras, utensílios para o consumo e espaço para os interessados degustarem os pratos que eram desenvolvidos na hora, servidos quentinhos pelas mãos das cozinheiras.
O território do CBA era pura resistência e também um lugar de troca de conhecimentos, constituindo-se como espaço de formação para quem buscasse compreender na prática a importância da soberania e segurança alimentar e nutricional, a partir da perspectiva de quem conhece os modos de fazer comida de verdade, tendo como base os territórios. Comida de festa, comida de axé, comida de santo e comida do cotidiano, ali, se entrelaçaram. Seguindo a dimensão da alimentação, na Comedoria Carrancas, destinada à comercialização de comidas para os congressistas, o público teve a oportunidade de consumir a rica cultura alimentar do semiárido, em que havia pratos com bode, galinha caipira, sucos e sorvetes de frutas regionais e sobremesas delicadamente elaboradas com os produtos da sociobiodiversidade do bioma Caatinga, como seriguela, umbu-cajá, licuri, tamarindo, dentre outros, gerando, assim, renda e valorização para os empreendimentos locais e para as famílias produtoras de comida boa e saudável.
Já a Cozinha Agroecológica Dandara dos Palmares forneceu, durante o período do evento, mais de 6 mil refeições (café da manhã, almoço e janta) e lanches para as crianças da ciranda infantil. Estiveram envolvidos nessa estrutura: o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Rede de Agroecologia Povos da Mata. Famílias, cooperativas e comunidades de agricultores/as familiares forneceram os alimentos e tudo foi preparado por uma equipe formada por 80 pessoas, sendo as refeições servidas no refeitório do espaço do campus da Univasf. Toda a comida foi destinada aos participantes com inscrições isentas, ou seja, camponeses/as, indígenas, comunidades tradicionais e equipe de organização do CBA. Portanto, o acesso à alimentação adequada e saudável, enquanto direito fundamental, foi garantido durante o CBA, destacando a valorização da agricultura familiar, da Agroecologia, da inclusão e da noção de bem-viver. Com insegurança alimentar não há justiça climática e nem Agroecologia.
A Tenda da Saúde, Cuidado e Cura Mães Filinha e Ciana; a Ciranda Infantil Ana Primavesi e o Palco de Apresentações Culturais e Relatos de Participantes igualmente se constituíram como territórios de cuidado, inclusão, arte, atenção e ludicidade, pois as crianças também são bem-vindas ao CBA enquanto sujeitos sociais que participam da construção das Agroecologias brasileiras. A Troca de Sementes foi apoteótica. Camponeses e representantes de comunidades tradicionais trouxeram suas sementes crioulas de espécies da agrobiodiversidade, as quais puderam ser trocadas entre os participantes. Cada detentor/a de sementes queria explicar sobre uma variedade, a forma de cultivar, os benefícios para a saúde, as propriedades de cada espécie em termos de sabor, textura, época de plantio, preferência quanto ao tipo de solo, dentre outros aspectos. Esta sessão se transformou num grande aglomerado de pessoas andando de um lado para o outro a fim de não perderem nenhum lance.
O CBA, com esta iniciativa, colaborou com a circulação de patrimônio genético e de conhecimentos tradicionais dos sistemas agrícolas das comunidades, prática crucial para a conservação das variedades crioulas. Este espaço vivo, celebrado no CBA, corrobora grandemente para o combate às monoculturas e à monotonia dos sistemas agroalimentares convencionais, que concentram sua produção em uma ou pouquíssimas espécies, trazendo rebatimentos para o prato de grande parte da população, que assume dietas pouco diversas, gerando, por conseguinte, insegurança alimentar e o surgimento de doenças crônicas com o consumo de produtos ultraprocessados.
Dentre as atividades autogestionadas, os dois periódicos de comunicação científica da ABA, a Revista Brasileira de Agroecologia (RBA) e os Cadernos de Agroecologia (CA), promoveram espaços de diálogos com autores, avaliadores e editores, momentos nos quais foi possível celebrar avanços, pensar em estratégias de fortalecimento e discutir o papel dessas revistas na construção de conhecimentos agroecológicos. No primeiro dia foi apresentado o “Rio do Tempo das revistas”, que iniciou em 2003, com o I CBA, no Rio Grande do Sul. Outras datas marcantes foram os anos de 2006, com a criação da RBA, e de 2009, quando os CAs foram lançados. De 2006 para cá, ambas as revistas acompanharam os passos da ABA e hoje celebramos a potência desses dois periódicos, que não se limitam a textos estritamente acadêmicos e de disciplinas exclusivas das ciências agrárias, mas possibilitam a publicação de links com vídeos de relatos de experiência no caso dos CAs, ou de Notas Agroecológicas na RBA. Apesar da ampla presença do público dos CBAs nos CAs, ainda precisamos ampliar a participação e o alcance do que é publicado na RBA para a comunidade da ABA e para o público dos CBAs. Fica o desafio de se pensar uma RBA multimídia e multilinguagens, com espaços para ensaios fotográficos, vídeos e documentários.
Enquanto nos preparamos para nosso próximo CBA e consolidamos os anais do 13º nos Cadernos de Agroecologia, a comunidade da ABA foi convidada para o desafio de pensar a Agroecologia crítica, no número especial comemorativo dos 20 anos da RBA, “Reafirmando a Agroecologia como ciência crítica: reflexões e perspectivas”, com chamada aberta até 30/03/2026 e publicação prevista para outubro/2026.
Viver o CBA é, ao mesmo tempo, uma experiência formativa, sensorial, espiritual, sensível, artística, política, social, cultural, científica, de resistência e epistemológica, cujas palavras esparramadas por este texto não dariam conta de traduzir o vivido, dada a natureza sistêmica e altamente criativa-progressista do evento coordenado pela ABA. Como temos dito a muitos colegas da academia: é preciso viver e sentir! A narrativa, ainda que escrita, por mais minuciosa que possa ser, não alcança a totalidade dos sentidos humanos a fim de tornar traduzível a experiência. O CBA, por assim dizer, está na vanguarda daquilo que se espera de um evento acadêmico decolonial, com metodologias muito próprias e formas de operar o conhecimento com inclusão e participação social, num movimento que deve convergir o anseio da sociedade a partir de suas múltiplas problemáticas e o papel de uma academia à serviço do povo e da soberania brasileira. Questiona-se: quais eventos acadêmicos, realizados no Brasil, conseguem entregar tantos produtos e resultados concretos à sociedade e às instituições promotoras de políticas públicas e programas, como o CBA? Que este 13º CBA, o maior da história da ABA, siga produzindo os efeitos necessários para a transformação das realidades almejadas nos territórios, realidades estas repletas de múltiplas formas de violências, ausências e carências. O CBA da Univasf pode nos servir como um arquétipo, inspirando-nos a seguir o mapa do caminho para o desenvolvimento da Agroecologia que se pretende. Os processos não estão dados e nem tudo é um acerto. No coração do semiárido, no meio da Caatinga, as Agroecologias do Brasil se fizeram sentir. Todos os louros ao CBA da Caatinga, a quem o concebeu e cuidou, e à ABA. Viva as Agroecologias brasileiras!
Flávio Bezerra Barros¹, Janaína Deane de Abreu Sá Diniz2
1 Professor associado do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares da Universidade Federal do Pará (INEAF/UFPA) e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq (Nível C - Antropologia). Membro da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE) e da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Belém-PA, Brasil. Orcid 0000-0002-6155-0511. E-mail: flaviobb@ufpa.br
2 Professora associada da Universidade de Brasília, campus Planaltina (FUP/UnB), nos Programas de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (PPG-MADER) e em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT). Membro da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia). Brasília-DF, Brasil. Orcid 0000-0002-7920-5556. E-mail: janadiniz@unb.br
Copyright (©) 2026 - Flávio Bezerra Barros, Janaína Deane de Abreu Sá Diniz.
Revista Brasileira de Agroecologia
ISSN 1980-9735
Publicação da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA-Agroecologia em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural - PPG-Mader, da Universidade de Brasília – UnB
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