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Brasília, v. 21, n. 2, p. 187-199, 2026

https://doi.org/10.33240/rba.v21i2.60364

Como citar: FERREIRA, Thiago C. Convergências técnicas, divergências espaciais: uma leitura entre os diálogos entre Agricultura Regenerativa e Agroecologia. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 21, n. 2, p. 187-199, 2026.

Convergências técnicas, divergências espaciais: uma leitura entre os diálogos entre Agricultura Regenerativa e Agroecologia

Technical convergences, spatial divergences: a reading of the dialogues between Regenerative Agriculture and Agroecology

Convergencias técnicas, divergencias espaciales: una lectura entre los diálogos entre Agricultura Regenerativa y Agroecología

Thiago Costa Ferreira¹

1 Pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais da Universidade Federal de Campina Grande. Doutor em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista Filho”, Patos, Brasil. Orcid https://orcid.org/0000-0002-2368-6223, e-mail: professor.thiagoferreira1@gmail.com

Recebido em: 14 nov 2025 - Aceito em: 28 dez 2025 – Publicado em: 01 abr 2026

Resumo

Este ensaio teórico-analítico realiza uma leitura geográfica dos fundamentos, das convergências e das distinções entre a Agricultura Regenerativa (AR) e a Agroecologia (AE). Partindo do pressuposto de que modelos agrícolas produzem diferentes territorialidades, o estudo baseia-se em uma revisão integrativa de literatura nacional e internacional (2012-2024). A análise de 54 publicações, articulada aos referenciais da literatura agrária, revela que, enquanto as abordagens convergem em práticas técnicas de manejo sustentável, divergem radicalmente em seus projetos espaciais e territoriais. A AR, com sua governança frequentemente corporativa e foco na eficiência ecológica da propriedade rural, tende a se inserir na lógica espacial do agronegócio. A AE, por sua vez, conforma territórios de resistência ao integrar dimensões políticas e culturais, fortalecendo a agricultura familiar, os circuitos curtos de comercialização e a soberania alimentar. Conclui-se que o diálogo entre essas abordagens esbarra em conflitos de territorialidade, representando não apenas escolhas técnicas, mas projetos distintos para a organização do espaço agrário.

Palavras-chave: Território, Agricultura familiar, Movimentos sociais, Questão agrária.

Abstract

This theoretical-analytical essay offers a geographical reading of the foundations, convergences, and distinctions between Regenerative Agriculture (RA) and Agroecology (AE). Based on the premise that agricultural models produce different territorialities, the study relies on an integrative review of national and international literature (2012–2024). The analysis of 54 publications, articulated with references from Agrarian Literature, reveals that while both approaches converge in technical practices of sustainable management, they radically diverge in their spatial and territorial projects. RA, with its often corporate governance and focus on the ecological efficiency of the farm unit, tends to align with the spatial logic of agribusiness. AE, on the other hand, shapes territories of resistance by integrating political and cultural dimensions, strengthening family farming, short food supply chains, and food sovereignty. It is concluded that the dialogue between these approaches encounters conflicts of territoriality, representing not merely technical choices but distinct projects for the organization of agrarian space.

Keywords: Territory, Family farming, Social movements, Agrarian question.

Resumen

Este ensayo teórico-analítico realiza una lectura geográfica de los fundamentos, convergencias y distinciones entre la Agricultura Regenerativa (AR) y la Agroecología (AE). Partiendo del supuesto de que los modelos agrícolas producen diferentes territorialidades, el estudio se basa en una revisión integrativa de la literatura nacional e internacional (2012–2024). El análisis de 54 publicaciones, articulado con los referentes de la Literatura Agraria, revela que, aunque las dos aproximaciones convergen en las prácticas técnicas de manejo sostenible, divergen radicalmente en sus proyectos espaciales y territoriales. La AR, con su gobernanza frecuentemente corporativa y su enfoque en la eficiencia ecológica de la unidad productiva, tiende a insertarse en la lógica espacial del agronegocio. La AE, por su parte, conforma territorios de resistencia al integrar dimensiones políticas y culturales, fortaleciendo la agricultura familiar, los circuitos cortos de comercialización y la soberanía alimentaria. Se concluye que el diálogo entre estas aproximaciones tropieza con conflictos de territorialidad, representando no solo opciones técnicas, sino proyectos distintos para la organización del espacio agrario.

Palabras-clave: Territorio, Agricultura familiar, Movimientos sociales, Cuestión agraria.

 

INTRODUÇÃO       

A modernização da agricultura permitiu alcançar altos índices produtivos, mas não resolveu questões relacionadas à segurança alimentar e nutricional de muitas populações (Finatto; Zeneratti, 2020). Alguns autores são claros ao descrever uma ocorrente crise dos sistemas alimentares tradicionais ao passo em que são substituídos pelos métodos de produção contemporâneos (Scarborough et al., 2023).

Seus fatores ainda são agravados pelas correntes mudanças climáticas e questões sociais. Com todas estas indagações, tem sido construído um ideário que tem impulsionado o desenvolvimento de abordagens agrícolas alternativas que valorizem a cadeia de produção e a sustentabilidade (Almeida; Moreno, 2024). Entre estas, destacam-se a Agricultura Regenerativa (Giller et al., 2021) e a Agroecologia (Kerr et al., 2021), que, apesar de compartilharem preocupações com a sustentabilidade, apresentam fundamentos e ênfases distintas (Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023; Scarborough et al., 2023).

Do ponto de vista da Geografia Agrária, essa crise não se restringe à esfera produtiva, mas também se reflete em profundas transformações no uso e na organização do território (Scarborough et al., 2023). O avanço de um modelo de agricultura convencional, com seus pacotes tecnológicos aliados a um capital empregado, tem configurado uma nova proposta de (re)composição da paisagem, provocando a reconfiguração das paisagens rurais e gerado conflitos fundiários. (Almeida; Moreno, 2024).

Outrossim, consolida-se ainda um padrão de ocupação do espaço que frequentemente marginaliza sistemas alimentares locais e tradicionais. É neste contexto de disputa por modelos de desenvolvimento rural que as abordagens alternativas de agricultura ganham relevância, representando não apenas diferentes conjuntos de práticas, mas também projetos territoriais distintos para o campo brasileiro (Rempelos, Kabourakis; Leifert, 2023; Scarborough et al., 2023).

A Agricultura Regenerativa (AR) emerge como uma abordagem inovadora, fundamentada em princípios ecológicos, que busca não apenas a produção de alimentos, mas também a revitalização das condições ambientais (Scarborough et al., 2023). Reconhecendo suas limitações na restauração completa de ecossistemas, a AR concentra-se na melhoria da qualidade de vida das populações humanas e na saúde do ecossistema (Giller et al., 2021). Metodologias agrícolas que incorporam práticas regenerativas são essenciais nesse contexto produtivo atual, visando à redução do uso de agroquímicos e à promoção de uma produção sustentável em relação ao uso dos recursos naturais, principalmente o solo, a energia e a água (Giller et al., 2021; Scarborough et al., 2023).

A reorganização da cadeia de produção alimentar por meio de práticas de AR envolve a adoção de métodos de cultivo como a rotação de culturas, o uso de adubos orgânicos e a implantação de técnicas de conservação do solo. Essas estratégias visam criar sistemas agrícolas resilientes e de baixo impacto ambiental, aproximando-se de uma abordagem sustentável (Scarborough et al., 2023).

Paralelamente, a AR enfrenta desafios como a conscientização sobre o uso de pesticidas, impulsionada pela demanda crescente de consumidores por alimentos mais seguros. A reflexão sobre o papel ecológico da agricultura é evidente, pressionando para a transição para práticas mais regenerativas (Giller et al., 2021; Rempelos, Kabourakis; Leifert, 2023; Scarborough et al., 2023).

A abordagem em AR é complementada por ações em agriculturas de base ecológica ligadas à Agroecologia, que se apresentam como uma proposta holística e sustentável para as práticas agrícolas. Buscando equidade social e uma produção mais equilibrada, a Agroecologia destaca a importância da diversidade no ambiente agrícola, promovendo a saúde do solo e a biodiversidade (Giller et al., 2021).

Ainda, a Agroecologia engloba diversas modalidades de agricultura. Cada uma dessas modalidades apresenta abordagens específicas, como o uso de insumos naturais, a valorização de práticas sustentáveis na agricultura e a interligação com fatores ambientais e sociais (Kerr et al., 2021).

Embora frequentemente analisadas por suas contribuições ambientais, a Agricultura Regenerativa e a Agroecologia carecem de uma leitura que evidencie suas implicações espaciais (Giller et al., 2021). Este artigo parte da premissa de que, para além das convergências técnicas, estas abordagens produzem divergências espaciais fundamentais. Enquanto a primeira é frequentemente incorporada por atores hegemônicos em busca de uma modernização ecológica que mantém a lógica de escala do agronegócio, a segunda emerge dos movimentos sociais como um instrumento de construção de territórios de resistência e de reforço à agricultura familiar (Giller et al., 2021; Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023; Scarborough et al., 2023). Analisar este contraste é central para compreender os rumos da questão agrária contemporânea (Kerr et al., 2021).

Neste estudo serão analisados os pontos de convergência e divergência entre a agricultura regenerativa e a Agroecologia, reforçando a importância de uma abordagem sustentável para a produção de alimentos, considerando os desafios climáticos e sociais enfrentados pela sociedade contemporânea.

METODOLOGIA

Este ensaio teórico-analítico adota uma abordagem qualitativa e interdisciplinar, realizando uma revisão integrativa da literatura científica nacional e internacional publicada entre 2012 e 2024, com o objetivo de comparar a Agricultura Regenerativa (AR) e a Agroecologia (AE) para além das práticas técnicas, explorando seus fundamentos, métodos e, sobretudo, suas implicações socioterritoriais. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases Scopus, Web of Science e SciELO, utilizando descritores como “agricultura regenerativa”, “agroecologia” e “território”, resultando na seleção final de 54 publicações que dialogam com os referenciais da Geografia Agrária.

A análise foi estruturada em três eixos inter-relacionados: (1) fundamentos teóricos, no qual se observa que a AR se ancora em uma “racionalização ecológica” do território produtivo (Sands et al., 2023), enquanto a AE se constitui como um “projeto explícito de construção de territorialidades contra-hegemônicas” (Kerr et al., 2021); (2) métodos e práticas, campo de convergência técnica, mas nos quais persistem divergências quanto à intensidade e à exclusão de insumos sintéticos; e (3) dimensão socioterritorial, na qual a divergência se radicaliza: a AR, com sua “governança frequentemente corporativa” (Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023), tende a se inserir na lógica espacial do agronegócio, ao passo que a AE “conforma territórios de resistência” ao integrar dimensões políticas e culturais e fortalecer a agricultura familiar (Almeida; Moreno, 2024). A síntese dessa análise comparativa, organizada em quadros analíticos, evidencia que o diálogo entre essas abordagens esbarra em conflitos de territorialidade, representando projetos distintos para a organização do espaço agrário.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Agricultura Regenerativa: Racionalização ecológica e a produção de uma nova paisagem capitalista

A Agricultura Regenerativa (AR) emerge como uma resposta técnica e gerencial à crise socioambiental do modelo agrícola convencional. Seu fundamento central é a regeneração da capacidade produtiva e ecológica dos agroecossistemas, visando recuperar a saúde do solo, a biodiversidade funcional e os ciclos hidrológicos (Giller et al., 2021). No entanto, sua gênese e difusão estão frequentemente associadas a atores hegemônicos do agronegócio, como grandes corporações e mercados globais, que buscam uma "modernização ecológica" do sistema (Sands et al. , 2023; Aguilar, 2024).

Do ponto de vista das práticas, a AR promove um conjunto de técnicas que convergem com os princípios da Agroecologia: rotação e diversificação de culturas, redução ou eliminação do revolvimento do solo, uso de adubos orgânicos, integração lavoura-pecuária-floresta e estímulo à atividade microbiana (Rempelos et al., 2021). O objetivo declarado é criar sistemas resilientes e de baixo impacto, melhorando a qualidade de vida das populações e a saúde do ecossistema (Scarborough et al., 2023).

Contudo, essa convergência técnica esbarra em um limite fundamental: a AR opera predominantemente pela lógica da eficiência e da certificação, buscando otimizar a produtividade e a rentabilidade da unidade de produção sem necessariamente romper com insumos sintéticos ou transgênicos (Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023). O foco é a "racionalização ecológica" do processo produtivo, no qual o solo se torna um "ativo" ou "capital natural" a ser gerido de forma sustentável para garantir o negócio a longo prazo (Sands et al., 2023).

É na dimensão territorial que a especificidade da AR se evidencia. Sua escala de atuação privilegiada é a propriedade rural empresarial inserida em cadeias globais de valor (Seymour; Connelly, 2022; Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023). A governança é tipicamente corporativa e verticalizada, com decisões tomadas com base em critérios de mercado, padrões de certificação e demandas de consumidores distantes (Aguilar, 2024). Consequentemente, a AR não questiona a estrutura fundiária concentrada nem a lógica espacial do agronegócio. Pelo contrário, ao aumentar a rentabilidade e a resiliência da grande propriedade, pode acabar por reforçar a concentração e o controle corporativo do território (Rempelos; Kabourakis; Leifert, 2023).

A paisagem resultante deste modelo é, portanto, uma paisagem de eficiência ecológica capitalista. Pode ser mais diversificada e complexa do que a da monocultura convencional, mas permanece subordinada a uma lógica de homogeneidade produtiva, controle técnico e inserção global (Gosnell; Gill; Voyeur, 2019). A AR, assim, representa menos uma ruptura e mais uma adaptação interna do capitalismo agrário às pressões ambientais e de consumo, produzindo uma nova territorialidade que atualiza, sob uma roupagem verde, a dominação do espaço pelo agronegócio.

Agroecologia: A construção de territórios de resistência e a reconfiguração sociopolítica da paisagem

A Agroecologia (AE) configura-se como um paradigma radicalmente distinto da Agricultura Regenerativa, não se limitando a um conjunto de técnicas, mas constituindo-se como um projeto político e socioterritorial explícito. Emergindo das lutas dos movimentos sociais do campo, da agricultura familiar e dos povos tradicionais, a AE se define como uma crítica estrutural ao agronegócio e um instrumento para a elaboração de alternativas (Kerr et al., 2021; Almeida; Moreno, 2024).

Sua base epistemológica rejeita a dissociação entre sociedade e natureza, integrando, de forma indivisível, as dimensões ecológica, social, cultural, política e econômica. A AE contesta o crescimento desenfreado inerente ao desenvolvimento hegemônico (Candiotto, 2023), propondo uma racionalidade fundada na equidade, na cooperação e na justiça. Seu objetivo final é a construção de ambientes de resistência (Almeida; Moreno, 2024), espaços nos quais se materializam a autonomia, os modos de vida camponeses e as relações sociais não subordinadas exclusivamente ao mercado.

No plano técnico-prático, a AE converge com a AR na promoção da saúde do solo, da biodiversidade e da resiliência dos agroecossistemas. No entanto, opera a partir de princípios de exclusão e precaução mais rigorosos e não negociáveis. Rejeita integralmente o uso de agrotóxicos sintéticos, de fertilizantes químicos de alta solubilidade e de organismos geneticamente modificados (Candiotto, 2023). Seu manejo baseia-se na complexificação dos sistemas (policultivos, agroflorestas), na reciclagem de nutrientes e no controle biológico. O conhecimento que valoriza e produz é o saber tradicional, local e contextualizado, em diálogo com a ciência, mas opondo-se aos pacotes tecnológicos universais (Vitoria; Vale, 2023).

É na dimensão socioterritorial em que a divergência com a AR se torna intransponível. A escala fundamental da AE é o território comunitário, espaço de reprodução social, cultural e econômica, articulada por meio de circuitos curtos de comercialização e de solidariedade (Maciel; Troian; De Oliveira, 2024; Martins et al., 2024). A governança é comunitária, coletiva e militante, protagonizada por agricultores familiares e seus movimentos, em uma estrutura horizontal e participativa (Almeida; Moreno, 2024). Diferentemente da AR, que opera dentro da estrutura fundiária concentrada, a AE a confronta diretamente, vinculando a transição ecológica à luta pela terra, à reforma agrária e à redistribuição radical do poder sobre o território (Kerr et al., 2023).

A paisagem resultante é, portanto, uma paisagem de resistência, diversidade e multifuncionalidade. Ela é intrinsecamente policultural, heterogênea e integrada à matriz ecológica local, espelhando a autonomia e os valores das comunidades que a constroem (Jeanneret et al., 2021). Essa paisagem materializa o princípio da soberania alimentar, em que o controle sobre os recursos (sementes, solo, água), os processos produtivos e os canais de consumo é exercido localmente, desafiando a lógica corporativa e globalizada do sistema alimentar hegemônico. A AE, assim, se afirma não como uma alternativa técnica, mas como um projeto contra-hegemônico de reconfiguração sociopolítica do espaço agrário, colocando a reprodução da vida no centro da organização do território.

Assim sendo, diversas práticas agrícolas alternativas coexistem sob o guarda-chuva conceitual da Agroecologia, conforme reconhecido e fomentado pela Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO). Esta política integra essas diferentes correntes quando elas se alinham aos princípios de produção saudável, conservação ambiental e justiça social (Brasil, 2012).

A agricultura orgânica, por exemplo, baseia-se na substituição de insumos sintéticos por naturais e exige certificação, podendo ser adotada inclusive em larga escala (Ribeiro, Sieber; Cheveleve, 2024). Já a vertente natural, frequentemente associada a movimentos religiosos, valoriza a recuperação do solo por meio de técnicas como o plantio direto e a compostagem vegetal, promovendo uma alimentação "pura" como forma de contestação ao modelo convencional (Castro; Marinho, 2020; Mendes; Demattê Filho; Gameiro, 2024).

A agricultura biodinâmica incorpora a influência do cosmos e utiliza preparados homeopáticos, buscando um equilíbrio holístico na propriedade (Leite; Polli, 2020; Hidalgo; Dalmoro; Monticelli, 2023). A agricultura ecológica coloca a saúde do solo, considerado um ser "vivo", no centro do manejo, rejeitando insumos sintéticos e defendendo o princípio da trofobiose para evitar desequilíbrios (Vitoria; Do Vale, 2023).

Por fim, sistemas integrados, como a permacultura e a agrofloresta, desenham paisagens produtivas que mimetizam a floresta, combinando cultivos, árvores e animais em múltiplas camadas, com forte ênfase no bem-estar comunitário e na sucessão ecológica (Costa et al., 2021; Souza, 2022). A PNAPO fornece o marco político que unifica essas diversas expressões no âmbito do projeto maior de construção de territórios agroecológicos (Brasil, 2012).

Síntese geográfica: A disputa territorial entre dois modelos de ocupação do espaço agrário

De fato, as perspectivas produtivas da AR podem ser ancoradas nas condições de produção em Agroecologia sem maiores problemas. No entanto, para a AR, a agropecuária ainda visaria mais o contexto econômico, tendo ainda este ponto de discussão, segundo Seymour e Connelly (2022), Gosnell, Gill e Voyeur (2019) e Sands et al. (2023). Para melhor esclarecer estes processos, a seguir, na Tabela 1, são descritos os componentes semelhantes e diferentes entre a Agricultura Regenerativa e a Agroecologia, com base em Seymour e Connelly (2022), Gosnell, Gill e Voyeur (2019) e Sands et al. (2023) para a AR, e em Dittmer et al. (2023), Geck, Crossland e Lamanna (2023) e Kerr et al. (2023) para a Agroecologia.

Tabela 1. Dimensão analítica comparada: Agricultura Regenerativa e Agroecologia

DIMENSÃO ANALÍTICA

AGRICULTURA REGENERATIVA (AR)

AGROECOLOGIA

 (AE)

Origem e base epistemológica

Inovação frente à utilização de meios e processos mais ecológicos e sustentáveis

Movimentos sociais de organização da política rural em meio às possibilidades e necessidades regionais

Objetivo central

Ambiente como sistema produtivo

Território de relações produtivas e ecológicas

Relação com o capitalismo

Baseado na exploração dos recursos naturais

Questiona a sociedade, a divisão do trabalho e o uso dos recursos naturais

Conhecimento valorizado

Protocolos padronizados, testados em contextos externos aos ambientes de produção

Saberes tradicionais, conhecimento local e empíricos do território

Embora a Tabela 1 aponte diferenças conceituais significativas, na prática, observa-se uma considerável sobreposição, segundo afirma Souza (2022). O desafio reside na aplicação desses princípios em contextos de agricultura em larga escala, em que a Agricultura Regenerativa tem demonstrado maior penetração, ainda comercial, enquanto a Agroecologia mantém vínculos mais estreitos com a agricultura familiar e com movimentos sociais, segundo Costa et al. (2021).

Na Tabela 2 evidencia-se que a divergência fundamental entre AR e AE não é técnica, mas geopolítica. Enquanto a AR opera por uma modernização ecológica do status quo territorial, a AE propõe uma reconfiguração sociopolítica do espaço agrário (Hidalgo, Dalmoro; Monticelli, 2023). A primeira produz uma paisagem de eficiência dentro do paradigma do agronegócio; a segunda, uma paisagem de resistência que materializa projetos de vida camponesa (Mendes, Demattê Filho; Gameiro, 2024). Desta forma, o diálogo entre essas abordagens esbarra em conflitos de territorialidade, representando projetos antagônicos para o futuro das áreas de produção agrícola que velam pela sustentabilidade produtiva, conforme Dittmer et al. (2023), Geck, Crossland e Lamanna (2023) e Kerr et al. (2023).

Tabela 2. Dimensão produtiva: Agricultura Regenerativa e Agroecologia

PRÁTICA / INSUMO

AGRICULTURA REGENERATIVA (AR)

AGROECOLOGIA

(AE)

Manejo do solo

Ênfase na regeneração da saúde do solo como ativo produtivo

Ênfase na vida do solo como fundamento ecológico

Fertilizantes sintéticos

Redução do uso, não o abandono

Sem utilização de fertilizantes sintéticos

Agrotóxicos sintéticos

Redução do uso, não o abandono

Sem utilização de agrotóxicos sintéticos

Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)

Possibilidade real do uso, não o abandono

Sem utilização de OGM

Biodiversidade

Diversidade funcional, econômica

Diversidade real, local e adaptada

Integração animal

Planejada

Integração produtiva

 

A divergência central sócio-política, entre estas, está descrita como: para AR, com uma governança guiada a uma produção específica, ligada ao agronegócio, otimizando a propriedade rural para mercados globais (Rempelos, Kabourakis; Leifert, 2023). Neste sentido, contrariando a mesma, a AE promove uma governança comunitária que fortalece a agricultura familiar e os circuitos curtos (Almeida; Moreno, 2024), vinculando justiça social e soberania alimentar à organização do espaço (Kerr et al., 2023). Estes fatores estão esclarecidos na Tabela 3.

Tabela 3. Dimensão social: Agricultura Regenerativa e Agroecologia

DIMENSÃO ANALÍTICA

AGRICULTURA REGENERATIVA (AR)

AGROECOLOGIA

(AE)

Lógica espacial e produção da paisagem

Racionalização produtiva

Paisagens construídas por meio das relações ecológicas e sociais

Escala de atuação privilegiada

Propriedade privada

Território comunitário e circuitos curtos/locais/regionais

Atores e governança

Governança corporativa e privada

Governança comunitária, coletiva e militante

Inserção na questão agrária

Estrutura fundiária concentrada

Enfrenta a estrutura fundiária concentrada, propondo uma reforma agrária de base ecológica

Conceito-chave de organização

Sustentabilidade como eficiência e certificação

Soberania alimentar e autonomia territorial. Controle comunitário sobre os recursos, sementes, produção e consumo (Kerr et al., 2021; Almeida; Moreno, 2024).

Relacionamento com o colonialismo

Colonialista

Decolonialista, social, igualitária.

 

CONCLUSÕES

A análise comparativa, sob a ótica da Geografia Agrária, demonstra que a Agricultura Regenerativa (AR) e a Agroecologia (AE) representam muito mais do que abordagens complementares; elas encarnam projetos territoriais distintos e, por vezes, antagônicos no campo brasileiro. A AR configura-se como uma estratégia de racionalização ecológica do território hegemônico, ancorada na propriedade rural empresarial e na governança corporativa. Busca restaurar a funcionalidade ecológica, mas sem desconstruir a lógica espacial do agronegócio nem a estrutura fundiária concentrada.

A Agroecologia, em contraste, afirma-se como um projeto explícito de construção de territorialidades de resistência. Ela amplia a perspectiva ao integrar dimensões políticas e culturais indissociáveis da organização do espaço, promovendo a autonomia dos agricultores e fortalecendo a governança comunitária do território. A divergência fundamental, portanto, não é apenas técnica ou filosófica, mas também espacial: enquanto a AR otimiza a paisagem produtiva existente, a AE produz paisagens diversificadas e multifuncionais que materializam a soberania alimentar e a justiça social.

Dessa forma, a articulação prática entre AR e AE esbarra em conflitos profundos de territorialidade. A verdadeira contribuição para a consolidação de modelos regenerativos no Brasil dependerá do reconhecimento de que esta não é uma mera escolha técnica, mas uma opção política sobre a qual se deseja construir a geografia do campo: uma de eficiência dentro dos marcos hegemônicos ou uma de emancipação e diversidade sociocultural.

Por fim, este ensaio reforça a necessidade de investigações futuras que aprofundem os impactos territoriais dessas abordagens em diferentes biomas e contextos socioprodutivos, analisando criticamente como elas, de fato, reconfiguram o espaço agrário.

AGRADECIMENTO

Termo de Outorga n.° 235/2025, emitido em 01/03/2025, Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPESQ-PB).

Copyright (©) 2026 - Thiago Costa Ferreira

 

REFERÊNCIAS

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Revista Brasileira de Agroecologia
ISSN 1980-9735

Publicação da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA-Agroecologia em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural - PPG-Mader, da Universidade de Brasília – UnB

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