Brasília, v. 20, n. 2, p. 254-264, 2025
https://doi.org/10.33240/rba.v20i2.57416
Como citar: JESUS; Ruth M.; CHECHI, Leticia A.; BOSCARDIN, Mariele. Sistemas Agroalimentares Sustentáveis: uma análise dos padrões de consumo e alimentação a partir da Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária de uma universidade baiana. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 20, n. 2, p. 254-264, 2025..
Sistemas Agroalimentares Sustentáveis: uma análise dos padrões de consumo e alimentação a partir da Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária de uma universidade baiana
Sustainable Agrifood Systems: an analysis of consumption and eating patterns based on the Family Farming and Solidarity Economy Fair at a university in Bahia
Sistemas Agroalimentarios Sostenibles: un análisis de patrones de consumo y alimentación a partir de la Feria de Agricultura Familiar y Economía Solidaria en una universidad de Bahía
Ruth Moraes de Jesus¹, Leticia Andrea Chechi 2, Mariele Boscardin 3
1 Tecnóloga em Gestão de Cooperativas, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Cruz das Almas, BA, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8122-7730 e e-mail: ruth.rutinha.moraes12@gmail.com
2 Docente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Doutora em Desenvolvimento Rural (UFRGS). São Lourenço do Sul, RS, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8937-6324 e e-mail: leticiachechi@furg.br
3 Docente na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Doutora em Extensão Rural pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasul. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3308-4189 e e-mail: marieleboscardin@hotmail.com
Recebido em: 27 fev 2025 - Aceito em: 20 abr 2025
Resumo
O presente estudo teve como objetivo analisar os padrões de consumo e alimentação da comunidade acadêmica de uma universidade no estado da Bahia e o papel de uma feira local nesse contexto. A metodologia empregada combinou pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo realizada por meio da aplicação de questionários a 336 consumidores. Os resultados indicam uma forte preferência por produtos de qualidade, demonstrando uma conscientização crescente sobre a importância de uma alimentação saudável e sustentável. Além disso, a maioria dos entrevistados demonstrou preferência por realizar compras em feiras locais, destacando a importância atribuída à Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária da UFRB. Conclui-se que a promoção de uma cultura de alimentação saudável nas instituições de ensino, como a UFRB, é fundamental para apoiar a sustentabilidade dos sistemas alimentares e melhorar o bem-estar da comunidade acadêmica.
Palavras-chave: Cadeias curtas, economia local, meio ambiente, saudável.
Abstract
This study aimed to analyze the consumption and eating patterns of the academic community of a university in the state of Bahia and the role of a local fair in this context. The methodology employed combined bibliographic research and field research conducted through the application of questionnaires to 336 consumers. The results indicate a strong preference for quality products, demonstrating a growing awareness of the importance of a healthy and sustainable diet. In addition, most of the interviewees demonstrated a preference for shopping at local fairs, highlighting the importance attributed to the Family Agriculture and Solidarity Economy Fair of UFRB. It is concluded that promoting a culture of healthy eating in educational institutions, such as UFRB, is essential to support the sustainability of food systems and improve the well-being of the academic community.
Keywords: Short chains, local economy, environment, healthy.
Resumen
El presente estudio tuvo como objetivo analizar los patrones de consumo y alimentación de la comunidad académica de una universidad del estado de Bahía y el papel de una feria local en ese contexto. La metodología utilizada combinó la investigación bibliográfica y la investigación de campo realizada mediante la aplicación de cuestionarios a 336 consumidores. Los resultados también indican una fuerte preferencia por productos de calidad, lo que demuestra una creciente conciencia de la importancia de una dieta sana y sostenible. Además, la mayoría de los entrevistados demostró preferencia por comprar en ferias locales, destacando la importancia atribuida a la Feria de Agricultura Familiar y Economía Solidaria de la UFRB. Se concluye que promover una cultura de alimentación saludable en instituciones educativas, como la UFRB, es fundamental para apoyar la sostenibilidad de los sistemas alimentarios y mejorar el bienestar de la comunidad académica.
Palabras-clave: Cadenas cortas, economía local, medio ambiente, salud.
Ao longo dos anos tem-se observado uma maior preocupação em relação à alimentação, principalmente em decorrência do avanço de doenças, ocasionadas, em sua maioria, pelo consumo de produtos artificiais e industrializados. Com isso, a busca por alimentos mais saudáveis tem se tornado promissora e recorrente. Contudo, ainda se veem problemas em relação a isso, pois o sistema alimentar atual, principalmente no Brasil, ainda é falho, não atendendo aos requisitos mínimos de segurança alimentar e de sustentabilidade (Schneider, 2021).
Conforme argumentado por Schubert, Tonin e Schneider (2023), o sistema alimentar atual é ineficiente, desperdiça muitos recursos e impacta fortemente os recursos naturais. Sem mudanças substanciais e estruturais, em poucos anos, o sistema alimentar global poderá esgotar os recursos naturais necessários para a produção de alimentos.
Com isso, o que se observa é uma necessidade latente de mudar o sistema alimentar atual. A avaliação de diversos estudos sobre o futuro do sistema alimentar mostra um consenso significativo sobre a importância de promover dietas mais nutritivas, saudáveis e sustentáveis, tanto na produção de alimentos quanto nas escolhas dos consumidores.
De acordo com o Global Panel on Agriculture and Food Systems for Nutrition (2020), estima-se que atualmente cerca de três bilhões de pessoas enfrentam dificuldades financeiras para acessar uma alimentação saudável, devido aos preços e padrões de consumo vigentes. A magnitude desse desafio econômico destaca a necessidade urgente de uma abordagem estratégica abrangente, que leve em consideração os desafios e as oportunidades contextuais locais, abordando tanto a oferta quanto a demanda de alimentos saudáveis simultaneamente.
Nesse contexto, verificam-se novas dinâmicas e relações entre produtores e consumidores de alimentos, com a intenção de criar novas formas de operar as trocas e fazer com que os negócios sejam organizados por relações de reciprocidade e valores. Os sistemas agroalimentares surgem como uma alternativa viável e diferenciada que abrange desde o acesso à terra, à água e aos meios de produção, até às formas de processamento, abastecimento, comercialização e distribuição, escolha, preparo e consumo dos alimentos. Além disso, abrangem práticas alimentares individuais e coletivas, até a geração e a destinação de resíduos, englobando, então, uma série de etapas relevantes (Brasil, 2012).
Neste sentido, os sistemas agroalimentares, então, podem ser vistos com mais amplitude do que se imagina, pois envolvem uma série de agentes e instituições, que contemplam desde a produção, os sistemas de abastecimento e comercialização, produção agroecológica, orgânica e de agricultura familiar, até chegar aos consumidores. Além de serem aspectos importantes à alimentação, também estão ligados às questões ambientais, a fim de promover a sustentabilidade e uma alimentação mais saudável (Recine; Mortoza, 2013).
As feiras desempenham um papel fundamental neste quesito, oferecendo oportunidades de promoção de hábitos alimentares saudáveis e valorização da agricultura familiar local. Ao trazer produtores locais e alimentos agroecológicos para o ambiente acadêmico, as feiras não apenas incentivam o consumo de produtos saudáveis e de origem conhecida, mas também apoiam a economia local e fortalecem os laços entre a universidade e a comunidade circundante.
A Feira da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) é um evento que se destaca pela diversidade de produtos oferecidos, muitos dos quais são novidades para o público, tais como variedades de frutas da região, alimentos produzidos com técnicas sustentáveis, artesanato local feito com materiais reciclados e plantas medicinais. Esta atividade reúne agricultores familiares de diversas associações comunitárias do território do Recôncavo. Além de promover a comercialização desses produtos, a feira também facilita a interação entre consumidores e a comunidade acadêmica. Ao fazer isso, a feira desempenha um papel fundamental no fortalecimento da agricultura familiar e da economia solidária, além de impulsionar a economia local e territorial. Conceitualmente, Alves et al. (2016) define a Economia Solidária como uma prática na qual se baseia a ideia de que os benefícios da atividade econômica devem estar ao alcance daqueles que a realizam, ou seja, dos trabalhadores.
Cabe destacar que a referida feira surgiu a partir de um projeto de extensão da UFRB intitulado “Redes de comercialização inovadoras na UFRB: agricultura familiar, economia solidária e sustentabilidade” que tem como objetivo a promoção de práticas alimentares sustentáveis, fortalecendo a economia local e criando laços de confiança entre produtores e consumidores. A feira ocorre quinzenalmente, nas sextas-feiras, no período da manhã, no campus da UFRB de Cruz das Almas, mais especificamente no Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas (CCAAB). Com o apoio da equipe da feira, composta por docentes, discentes e técnicos administrativos, é montado um espaço com barracas para que os agricultores consigam expor seus produtos. A universidade disponibiliza ainda internet Wi-Fi e banheiros para o grupo de aproximadamente 26 feirantes, contemplando agricultores(as) familiares, artesãos e artesãs, pequenos produtores artesanais e floristas.
Levando em consideração essas premissas, surge como inquietação investigar como se caracterizam os padrões de consumo e a alimentação das pessoas, atendo-se a levantar essas questões mais especificamente em relação à comunidade acadêmica da UFRB. Desse modo, emerge a seguinte problemática a ser aprofundada no decorrer do estudo: qual o padrão de consumo e alimentação da comunidade acadêmica da UFRB? A partir desta problemática, o objetivo deste estudo foi analisar os padrões de consumo e alimentação da comunidade acadêmica de uma universidade no estado da Bahia e o papel de uma feira local nesse contexto.
Metodologicamente o estudo foi realizado em conformidade com a abordagem de pesquisa denominada mista. De acordo com Santos et al. (2017), os estudos de métodos mistos combinam abordagens quantitativas e qualitativas em uma mesma investigação. Ademais, esse tipo de pesquisa visa analisar de forma crítica o tema em questão, estabelecendo conceitos e teorias relevantes por meio de técnicas de coletas de dados adequadas.
Esta pesquisa foi vinculada a um projeto de extensão intitulado: “Redes de comercialização inovadoras na UFRB: agricultura familiar, economia solidária e sustentabilidade", que tem como objetivo geral mobilizar agricultores familiares, suas organizações e a comunidade acadêmica da UFRB, no campus de Cruz das Almas – BA.
Os dados foram levantados no período novembro de 2021 a fevereiro de 2022, buscando compreender o perfil dos consumidores e suas expectativas em relação à Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária da UFRB. Esse período foi marcado pelo trabalho remoto, uma medida adotada em resposta à pandemia de Covid-19, que restringiu atividades presenciais. Durante essa etapa foram aplicados questionários eletrônicos contendo 25 perguntas, tanto abertas quanto fechadas, distribuídas por meio de listas de e-mails e grupos em redes sociais. No total, o formulário alcançou 336 respostas, alcançando, predominantemente, a comunidade acadêmica.
A pesquisa mostrou que a Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) tem como maior objetivo possibilitar que agricultores e agricultoras familiares, artesãos e artesãs, pequenos(as) produtores, de forma individual, ou por meio de associações do território do Recôncavo Baiano, exponham seus produtos para venda, criem relações com consumidores e aprimorem processos de produção e comercialização, por meio das atividades formativas. Assim, por meio desta feira, promove-se uma maior interação entre os consumidores e a comunidade acadêmica, bem como a troca de experiências, a criação de relações de confiança e o incentivo à economia local e territorial.
A UFRB criou um espaço para promover o desenvolvimento dos agricultores locais, de maneira a oferecer à população um local em que eles possam adquirir produtos saudáveis, naturais, livres de agrotóxicos e ter um contato mais próximo com aqueles que efetivamente são responsáveis pelos produtos ofertados. Apesar do público respondente da pesquisa ter sido predominantemente da comunidade acadêmica, é importante destacar que a Feira está em constante interação com a comunidade local, por meio da promoção de atividades culturais e educativas, além da divulgação para o estímulo ao consumo de alimentos locais e saudáveis.
Em relação ao gênero dos(as) participantes da pesquisa, 60,7% eram do gênero feminino e 39,3% masculino. No que concerne à idade, 6% do público pesquisado tem até 25 anos, 31,5% se encontravam nas faixas de 25 a 40 anos, 32,1% na faixa de 41 a 55 e 2,7% de 56 a 70 anos, refletindo o perfil do público universitário. Em relação à renda familiar dos participantes, 37,8% dos participantes declararam uma renda familiar de até R$ 1.874,00. As outras faixas de renda se distribuem da seguinte forma: 15,5% estão na faixa de R$ 1.874,00 a R$ 3.748,00; 17% entre R$ 3.748,00 e R$ 9.370,00; 18,5% entre R$ 9.370,00 e R$ 18.740,00; e apenas 3,2% têm renda superior a R$ 18.740,00. Um grupo de 8,0% optou por não responder quanto à renda familiar.
A ligação entre a renda e as preferências alimentares é um ponto crucial a ser analisado, já que os padrões de consumo estão intimamente ligados aos recursos financeiros disponíveis e aos princípios culturais e sociais. A renda exerce um impacto direto nas escolhas alimentares, determinando o significado que certos alimentos possuem para a comunidade a que se pertence. No entanto, essas decisões também são influenciadas por uma variedade de outros elementos, como tradições culturais, crenças religiosas e local de residência. Assim, a renda exerce uma influência significativa nas escolhas alimentares, conforme destaca Belik e Siliprandi (2010), uma vez que o valor atribuído aos alimentos está diretamente ligado ao contexto socioeconômico em que se vive. No caso desta pesquisa, há uma influência da participação do público de docentes e técnicos na feira, que possuem uma renda superior à média local, podendo assim, influenciar em suas escolhas alimentares.
Em relação ao tipo de alimentação, a pesquisa revelou que a maioria dos participantes avaliou sua alimentação como regular ou boa. De forma mais detalhada, 11% dos participantes consideraram a qualidade de sua alimentação muito boa, 51,8% a avaliaram como boa, 33,6% como regular e 3,6% como ruim.
Observou-se uma preferência significativa por compras presenciais, por 78,3% dos participantes, em detrimento às compras em plataformas on-line (21,7%). Os supermercados e feiras e os verdurões foram os principais locais de compra declarados pelos participantes, em percentuais de 92,9% e 67,9%, respectivamente. É importante destacar que os respondentes poderiam indicar todos os canais de comercialização acessados, e ainda, que a Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária da UFRB é de frequência quinzenal, como já mencionado.
A busca por produtos em feiras pode ser analisada à luz da teoria dos circuitos curtos de comercialização, discutida por Marsden, Banks e Bristow (2002). Essa teoria enfatiza a importância da proximidade física e social entre produtores e consumidores, promovendo relações diretas e transparentes que valorizam a qualidade, frescor e origem dos alimentos. A aderência significativa às feiras sugere que os consumidores da UFRB valorizam a conexão com produtores locais e a oferta de produtos frescos e saudáveis.
No quesito consumo de produtos da agricultura familiar, 75,3% dos respondentes responderam que consumiam, 7,7% que não consumiam. 16,7% não souberam e 0,3% preferiu não responder. Este percentual indica uma consciência significativa ou uma preferência pela agricultura familiar, que é frequentemente associada a práticas de cultivo mais sustentáveis e a uma economia mais local e justa.
De forma mais detalhada, quando questionados sobre os produtos preferidos pelos consumidores em feiras da agricultura familiar, destacam-se frutas in natura (88,7%), legumes (83%) e verduras (89%). Produtos processados como doces e geleias mostraram uma demanda um pouco menor, com 37,5%. Leite e derivados foram preferidos por 33,9%. Farinha, artesanato e mudas mantiveram percentuais significativos, variando entre 28,8% e 45,2% (Quadro 1). É importante destacar que nesta questão os respondentes podiam marcar múltiplas opções.
Quadro 1 – Preferências de produtos por categoria entre os respondentes para feiras de agricultura familiar.
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(%) | |
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Frutas in natura |
88,7 |
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Verduras (ex.: alface, couve, rúcula…) |
89,0 |
|
Legumes (ex.: cenoura, beterraba…) |
83,0 |
|
Temperos e plantas medicinais |
61,6 |
|
Produtos processados |
37,5 |
|
Leite e derivados |
33,9 |
|
Farinha |
44,6 |
|
Mudas |
42,3 |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).
A maior demanda por alimentos in natura em detrimento aos alimentos ultraprocessados pode estar relacionado a diversos fatores, conforme mostram alguns estudos. Conforme Hoffmann e Jesus (2021), a preocupação com o meio ambiente e o consumo sustentável também têm estimulado novos hábitos. Além disso, os autores mencionam que o consumo de alimentos ultraprocessados tem sido associado à maior prevalência de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer (Hoffmann; Jesus, 2021).
Sobre a disposição dos consumidores em pagar mais por produtos da feira, comparado aos preços dos supermercados, foi possível observar que 60,4% pagariam caro pelos produtos da feira em relação aos preços dos supermercados, em percentuais que variam de 5% a 15%. Ainda, 19% comprariam independentemente da diferença do preço do supermercado (Quadro 2). Quando essas informações são analisadas por faixa de renda, é possível observar que 29,1% dos(as) respondentes com renda de até R$ 1.874,00 não compraria se o preço fosse maior que o do supermercado, mas 33,1% compraria se fosse até 5% mais caro, sendo essa a resposta de 36,5% dos(as) respondentes com renda de R$ 1.874,00 a R$ 3.748,00. Para o público pesquisado com renda de R$ 3.748,00 a R$ 9.430,00, 34,5% compraria se fosse até 10% mais caro que o supermercado, sendo essa a resposta de 32,2% dos(as) respondentes que tem renda de R$ 9.430,00 a R$ 18.000,00. Ainda nessa faixa de renda, observa-se que 79% dos(as) pesquisados(as) pagariam mais caro pelos produtos da feira em percentuais 10% e 15% e independentemente da diferença. Essas categorias representam 91% na faixa de renda acima de R$ 18.000,00.
Quadro 2 – Disposição dos consumidores em pagar mais pelos produtos da feira em comparação com os preços dos supermercados (total geral e por faixa de renda).
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Categorias |
Total (%) |
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Compraria independente da diferença do preço do supermercado |
19 |
|
Compraria se o produto fosse até 15% mais caro que o do supermercado |
12,5 |
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Compraria se o produto fosse até 10% mais caro que o do supermercado |
23,3 |
|
Compraria se o produto fosse até 5% mais caro que o do supermercado |
24,7 |
|
Não compraria se fosse mais caro que o do supermercado |
20,5 |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).
Esses resultados indicam uma disposição positiva em pagar mais por produtos da feira, com muitos consumidores valorizando os aspectos adicionais que esses produtos oferecem, seja em termos de qualidade, origem ou impacto comunitário. Esses resultados refletem parte das características socioeconômicas apresentadas no início da discussão dos resultados deste trabalho, de uma renda que permite escolhas de consumo mais seletivas, visto que as maiores faixas de renda têm maior disposição a pagar. Adicionalmente, reforça-se a preocupação do público pesquisado, em relação à qualidade dos produtos que consome, o que pode ser influenciado pelo acesso à informação e engajamento dos respondentes em relação às práticas produtivas sustentáveis, hábitos alimentares saudáveis e valorização da produção local.
Quando questionados sobre as preocupações do público pesquisado na hora de realizar as compras, a qualidade foi o elemento central, mencionada por 90,5% dos participantes. O cuidado com a saúde também foi uma preocupação constante, com 51,5%. Essas preocupações refletem um interesse contínuo por alimentos seguros e saudáveis entre os membros da comunidade acadêmica. O preço, apesar de aparecer com menor relevância que o quesito qualidade, também é pontuado pelo público pesquisado, sendo uma preocupação para 75,9% dos entrevistados. Outros elementos como fortalecer a produção orgânica/agroecológica, a agricultura familiar, o cooperativismo e a economia solidária, também são preocupações dos respondentes, porém com menor representação dos demais itens mencionados inicialmente. Essas preocupações menos frequentes ainda indicam uma consciência sobre os efeitos abrangentes do consumo alimentar, abordando aspectos pessoais, comunitários e ambientais. É importante assinalar que nesta questão os respondentes podiam marcar até três opções.
Os consumidores passaram a valorizar mais os aspectos de sustentabilidade e qualidade dos alimentos. Isso inclui preocupações com a saúde, a segurança alimentar e os impactos ambientais da produção agrícola. Estes resultados estão associados a virada da qualidade, que promove a proteção e valorização das indicações geográficas e dos produtos típicos regionais, fortalecendo a identidade cultural e a sustentabilidade econômica das regiões produtoras (Schneider; Schubert; Escher, 2016).
A valorização e procura pela qualidade reflete não apenas uma busca por produtos que atendam às expectativas em termos de sabor, frescor e segurança alimentar, mas também uma preocupação crescente com aspectos como origem, métodos de produção e impacto ambiental. Os consumidores estão cada vez mais interessados em saber de onde vêm os seus alimentos, como são produzidos e quais são os valores e práticas adotadas pelos produtores por trás deles.
Esses resultados destacam uma tendência positiva em direção ao consumo consciente e ao suporte à agricultura local, implicando um impacto potencialmente benéfico tanto para os consumidores quanto para os produtores locais, ao fortalecer as economias locais e promover práticas agrícolas mais sustentáveis.
Este estudo sublinha a necessidade de promover uma cultura alimentar que valorize o bem-estar, a sustentabilidade e a educação nutricional nas instituições de ensino, como a UFRB, como pilares para o desenvolvimento de uma comunidade mais informada, saudável e responsável. Contudo, é importante pontuar que o fato de a pesquisa ser realizada com a comunidade acadêmica tem uma forte influência nos resultados, visto que se trata de um público que tem acesso à informação sobre práticas produtivas, alimentação saudável, além do engajamento com a agricultura familiar e economia solidária do território. Como sugestões de pesquisas futuras e considerando os achados deste estudo, destaca-se a necessidade de investigar melhor por que os consumidores preferem comprar alimentos in natura presencialmente, tendo em vista que as compras on-line de outros produtos crescem a cada ano no Brasil.
AGRADECIMENTO
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), Edital 01/2021 - PIBIC 2021/2022.
Copyright (©) 2025 - Ruth Moraes de Jesus, Leticia Andrea Chechi, Mariele Boscardin.
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Revista Brasileira de Agroecologia
ISSN 1980-9735
Publicação da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA-Agroecologia em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural - PPG-Mader, da Universidade de Brasília – UnB
Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)