Brasília, v. 20, n. 1, p. 103-108, 2025
https://doi.org/10.33240/rba.v20i1.56058
Como citar: BARBOSA, César A.S. Resenha de livro: Multitudes Agroecológicas. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 20, n. 1, p. 103-108, 2025.
Resenha de livro
Multitudes Agroecológicas
Agroecological Multitudes
Multitudes Agroecológicas
César Adriano de Souza Barbosa1
¹Pesquisador Colaborar no Núcleo de Agroecologia da Universidade de Brasília (NEA/UnB), Brasília-DF, Brasil. Orcid 0009-0004-8357-8197. E-mail: cesar.barbosa@unb.br
Recebido em: 07 nov 2024. Aceito em: 10 dez 2024
Resenha do livro:
GIRALDO, Omar F. Multitudes Agroecológicas. Ucu: UNAM 2022. ISBN: 978-607-30-6566-5. Disponível em: https://librosoa.unam.mx/bitstream/handle/123456789/3503/MultitudesAgroecologicas.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 24 fev 2025
No livro “Multitudes Agroecológicas”, a Agroecologia é apresentada como a principal alternativa à crise estrutural do Capitalismo. Segundo o autor Omar Felipe Giraldo, através dela conseguiremos superar a cultura da escassez. Uma das estratégias para esta superação é a cultura do compartilhar o excedente, assim como o Planeta Terra compartilha toda a riqueza de seus recursos naturais. Outra estratégia seria a redescoberta das nossas potencialidades e habilidades, característica do Homo habilis, o que resultaria numa fissura no atual sistema capitalista. O autor faz uma alusão às estruturas hierárquicas, destacando a necessidade de nos organizarmos de forma mais horizontal, e recorre à representação das raízes, na qual, diversos ramos se conectam a um ponto comum, e este ponto de convergência se daria através da comunicação.
Prosseguindo, o autor complementa destacando a necessidade de retornarmos à simplicidade, ao pequeno, como uma estratégia para desindustrialização por meio da arte-sanalização. Pequenas são as comunidades. Os espaços pequenos permitem auto-gestão e decisão política. A desindustrialização é a arte-salização comunitária, em que as comunidades pequenas assumem a habilidade de elaborar coletivamente o que usam e seus integrantes se desligam do trabalho abstrato do sistema industrial e voltam a ser donos do seu fazer.
Através de Cinco Chaves, o autor apresenta de forma clara a sua visão filosófica das Multidões Agroecológicas, a qual é estruturada da seguinte forma: Chave I – Do regime da escassez ao debate da suficiência; Chave II – Da pobreza modernizada à potência autônoma da diversidade; Chave III – Da tomada de poder ao exercício do poder interior; Chave IV – Da verticalidade aos desenhos/arquiteturas das raízes; e a Chave V – Do gigante ao pequeno, bem proporcionado e arte-sanalizado.
O autor aborda diversas organizações populares e destaca a Via Campesina Internacional, que defende a Agroecologia como um meio para alcançar a Soberania Alimentar e o Bem Viver de camponeses, povos e comunidades tradicionais. O movimento da Via Campesina engloba 182 organizações em 81 países, promovendo a Agroecologia e contrapondo-se aos projetos destrutivos do sistema capitalista, além de defender um novo sujeito histórico: o campesinato agroecológico. O destaque do texto é a metodologia Campesino a Campesino, que surgiu na Guatemala na década de 1970. Essa abordagem consiste na troca de saberes entre camponeses, permitindo que as práticas agroecológicas sejam compartilhadas e adaptadas às realidades locais. Essa metodologia é considerada eficaz porque os camponeses podem observar e experimentar os resultados e os adaptar conforme suas condições específicas. O texto também menciona como a metodologia foi aplicada em assentamentos no Brasil, como o caso do assentamento Santana do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e a experiência exitosa de Cuba. A metodologia se diferencia do extensionismo clássico, uma vez que o “Campesino a Campesino” promove a criatividade, a solução de problemas comunitários e o fortalecimento da ajuda mútua. É visto como uma ferramenta para criar comunidades autossuficientes e autogeridas, formando lideranças que facilitam a organização e o crescimento das multidões agroecológicas.
Ademais, o autor aborda, também, o movimento agroecológico em uma perspectiva global, definindo-o como uma coalizão descentralizada de diversas organizações e coletivos que atuam em áreas urbanas e rurais.
O movimento agroecológico é classificado em diferentes blocos, propondo uma classificação que agrupa as agroecologias em “emergentes”, “históricas” e de “retorno”. As agroecologias emergentes são iniciativas recentes que surgem como respostas às crises ambientais e sociais, propondo alternativas ao modelo agroindustrial com práticas inovadoras de cultivo e organização comunitária. As agroecologias históricas, por sua vez, englobam práticas tradicionais e conhecimentos ancestrais mantidos por comunidades indígenas e camponesas, fundamentais para a preservação da biodiversidade e das culturas locais. Já as agroecologias de retorno se concentram na recuperação de práticas agrícolas sustentáveis que foram abandonadas ou marginalizadas, mas que estão sendo resgatadas como soluções viáveis para enfrentar os desafios atuais relacionados à segurança alimentar e à sustentabilidade.
Outro aspecto central é a interseção do movimento agroecológico com outras lutas sociais, como o feminismo, o movimento indígena e as lutas populares. O autor argumenta que a articulação entre esses movimentos é essencial para o fortalecimento da Agroecologia como uma força transformadora. A Soberania Alimentar, a preservação dos territórios e o resgate dos conhecimentos tradicionais são temas comuns entre essas lutas, e a Agroecologia se posiciona como um elo capaz de unificar essas agendas em prol de uma justiça social mais ampla e inclusiva.
Além das articulações interseccionais, o autor discute o papel da Agroecologia na construção de uma alternativa ao modelo capitalista de produção e consumo e propõe que, além de resistir às práticas hegemônicas, o movimento agroecológico precisa ser propositivo, desenvolvendo novas formas de organização social e de economia que se baseiem em princípios de solidariedade, autonomia e sustentabilidade. Essa postura é vista como crucial para que o movimento possa influenciar políticas públicas e criar espaços dentro das estruturas de poder.
Nessa perspectiva, a Agroecologia vai além de uma prática agrícola alternativa. Ela é apresentada como um modelo civilizatório que propõe novas formas de relação entre os seres humanos e a natureza, rompendo com a lógica de exploração e dominação característica do sistema atual. Ao se enraizar em práticas locais, oferece soluções concretas para problemas globais, mas sempre a partir de uma lógica que privilegia a autonomia, a suficiência e a justiça ecológica.
O autor cita que parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo e que, por isso, devemos retornar à imaginação utópica como ferramenta para criar projetos de vida. Numa realidade climática planetária catastrófica, que prevê um cenário com 3.2oC acima da temperatura média global, prenunciando a inabitabilidade do planeta a partir de 2050, o único projeto que se apresenta como alternativa para a produção de alimentos para humanidade e para a reversão desta previsão é a Agroecologia. Esta crise não é um problema das fontes fósseis e sim do capitalismo e seu regime industrial, sempre buscando o crescimento infinito num planeta finito.
A contribuição para este cenário catastrófico se deve, em especial, ao modelo empresarial e poluidor da agricultura capitalista e não das diversas agriculturas tradicionais milenares. Grandes florestas e selvas espalhadas por diversos cantos do mundo como a Amazônia, as selvas da Guatemala, da África Central, Nigéria, Gabão, norte do Congo, Índia e Sri Lanka, Nova Zelândia, Equador, Austrália, Bornéu e Nova Guiné, são alguns exemplos que a literatura científica tem documentado sobre bosques tropicais antrópicos. No desenho de mundo capitalista vigente, a sociedade é excluída da natureza, bem como suas áreas preservadas, isoladas na forma de reservas protegidas da destruição dos seres humanos. Essa segregação das áreas preservadas põe em risco a sobrevivência das espécies que ficam isoladas sem possibilidade de interação. A chave para a preservação da biodiversidade, num contexto de extinção massiva é a migração das espécies. Daí a necessidade dos jardins agroflorestais e outros sistemas agroecológicos, não somente nas áreas rurais, como também nas áreas urbanas e periurbanas. Para esta transformação, a primeira etapa é a luta de classe massiva para recuperar a terra e a água, de modo que possamos por ambas nas mãos das multidões, por meio de estratégias agroecológicas. É a revolução da terra e das cidades.
Numa reflexão sobre o Estado moderno é examinada a experiência da esquerda social-democrata na América Latina, especialmente no que diz respeito às políticas agroecológicas. Discute como o Estado contemporâneo, após o fim da Guerra Fria, passou a atuar mais como um instrumento dos interesses do capital, subordinado a uma Rede Global composta por corporações e instituições supranacionais. O autor argumenta ainda que governos progressistas, em vez de desafiar o sistema capitalista, têm se integrado a ele, seguindo um pacto que permitiu a promoção de reformas sem alterar radicalmente o sistema econômico. Este cenário limita as mudanças profundas e, para os movimentos sociais, especialmente no campo da Agroecologia, isso significa que devem compreender as regras do jogo e atuar dentro dessas limitações. Finalizando, o autor defende que as verdadeiras transformações políticas e socioeconômicas surgem de processos locais e de auto-organização, não apenas de ações dos governos. As sementes de uma revolução estão nas ações pequenas e coletivas que, a longo prazo, podem gerar mudanças profundas.
Nossa sociedade vive a base do petróleo, gás e carbono. Porém, o preço desses recursos está encarecendo e a sociedade precisa mudar seu sistema de produção capitalista, passando por uma transformação energética, na qual a Agroecologia tem tudo a ver com essa discussão. Observa-se que entre 1978 a 2002 os alimentos eram mais baratos, de forma que desde 2003 é observado uma crescente nos preços dos alimentos devido ao fim da energia barata, efeitos das mudanças climáticas e da devastação das bases biofísicas do solo. Observa-se também que está surgindo um movimento mundial de reivindicações de melhoria de trabalho, qualidade de vida e acesso à alimentação. Sendo assim, este é o papel crucial da Agroecologia: possibilitar a Soberania Alimentar.
A obra é um convite à utopia. Em um mundo à beira do colapso climático, o autor apresenta um caminho, uma chave que, por mais utópica que pareça, é uma das únicas possibilidades para se mudar o rumo da inabitabilidade no planeta. Apresenta a desindustrialização por meio da arte-sanalização como mudança de paradigma do consumismo infinito em um planeta finito, para um compartilhar da abundância energética proveniente do sol.
A humanidade, principalmente uma grande parcela da juventude, carece de uma esperança nesse momento de intensificação das emergências climáticas. Sem esperança nós entraremos no pessimismo da inação que, na melhor das hipóteses, levará o planeta a condições extremas mais rapidamente, com a extinção de diversas espécies, incluindo a humana.
A Agroecologia, com seu potencial de restauração de ecossistemas, e principalmente sua simplificação da forma de se viver neste planeta, é apresentada utopicamente como a salvação da espécie humana e de tantas outras que coabitam este planeta. Essa é a ideia trazida pelo livro “Multitudes Agroecológicas” que nos últimos anos está presente nas mesas dos governantes e nos fóruns sobre as “Emergências Climáticas”, ou seja, a utopia vem se tornando realidade e a academia tem contribuído para este entendimento.
É uma mudança de paradigma e esta leva tempo, contudo, tempo é o que já não temos. Precisamos focar imediatamente nos sistemas agroalimentares biodiversos, na restauração de ecossistemas degradados e na produção de energia verde a partir da biomassa. Neste novo paradigma, a Agroecologia, nas suas diversas manifestações, ocupa posição de centralidade.
Revista Brasileira de Agroecologia
ISSN 1980-9735
Publicação da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA-Agroecologia em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural - PPG-Mader, da Universidade de Brasília – UnB
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