Prorrogação da Chamada para Edição temática: Cidades em disputas: histórias, memórias, práticas do/no espaço - até 10 de abril de 2022

2022-04-01

Prorrogada a Chamada para Edição temática: Cidades em disputas: histórias, memórias, práticas do/no espaço - 10 de abril de 2022!

Editoras convidadas: Viviane Ceballos (UFCG) e Regina Oliveira (UFSB)

A chamada aqui apresentada para esta edição temática propõe constituir-se como um espaço de reflexão sobre a(s) cidade(s) e o espaço urbano enquanto externalizações e materializações de projetos e propostas, de disputas e tensões presentes nos discursos, nas formas de uso do espaço urbano e nas práticas sociais. As cidades tem sido o lócus privilegiado para se compreender e observar as relações e as formas de disputas sobre o espaço urbano ao longo da História, é por meio delas que se pode perceber as transformações sociais na contemporaneidade, sendo o espaço das sociabilidades e dos afetos, dos encontros, afastamentos e tensões entre os diversos grupos. Nas cidades se forjam e coadunam os mais diversos interesses numa disputa de narrativas, projetos e projeções de futuro para determinados espaços.

Por meio do entrecruzamento entre as cidades reais e as cidades imaginadas (LE GOFF, 1998; SARLO, 2014), vislumbra-se a possibilidade de refletir sobre o papel do espaço urbano a partir dos diversos tensionamentos nele existentes, demonstrando  não somente os interesses dos mais variados grupos sociais que ali coabitam e coexistem, mas as disputas que formulam estratégias e ações sociais desses mesmos grupos para grafar suas marcas, posições, desejos e projetos, num processo que expressa a sobreposição de temporalidades, usos e costumes. 

Ao compreendermos a cidade como categoria de prática social, nos termos de Roncayolo emprestados por Lepetit (2001), podemos problematiza-la a partir das sobreposições, opacidades e mediações emergentes da memória dos atores sociais no processo de constituição dos seus lugares na(s) cidade(s) contemporâneas. Neste sentido, este dossiê busca divulgar pesquisa sobre temas emergentes do cotidiano das cidades, no entrelaçamento da História com outras áreas do conhecimento, contribuindo com novos olhares sobre as práticas sociais, as (in)visibilidades identitárias, as subjetividades, temporalidades, o papel dos sujeitos à definição dos usos e funções das cidades e de seus lugares, a relação entre memória-apagamento-preservação, o papel e impacto do turismo, bem como os desdobramentos das intervenções urbanas, a atuação do mercado imobiliário e do poder público na conformação das novas sociabilidades, nas transformações das espaços, o papel da técnica como indutora ou repressora de mudanças e continuidades nas cidades e no espaço urbano. Para tanto, consideramos que alguns eixos temáticos se delineiam como possibilidades de análise:

 

 Narrativas sobre as cidades

Considerando que as cidades possibilitam refletir sobre os sujeitos no mundo contemporâneo, sobre a construção de suas identidades e suas relações com o espaço, busca-se compreender as experiências coletivas e individuais,  a partir do papel dos diferentes agentes que se dedicam a pensar e falar sobre o espaço urbano a partir de diferentes formas de interação, que demonstram suas experiências dentro da cidade a partir de narrativas variadas. Narrativas fragmentadas e fragmentárias que constroem olhares sobre a cidade e sobre os seus habitantes. Nesse sentido, abre-se a possibilidade de perceber a cidade e o espaço urbano por meio de narrativas literárias, pelo imaginário da cidade, por roteiros turísticos, pelas ressignificações dos espaços e da paisagem, na tentativa de construção de novos sentidos ao espaço urbano. (FORTUNA, 2009)

Práticas do/no espaço urbano

As distintas narrativas e olhares sobre a cidade constituem-se em ponto importante para a reflexão sobre as diversas práticas do/no espaço que encontram na(s) cidades seu lugar de representação e reconfiguração, considerando a relação indissociável entre espaço, práticas, agentes, usos, funções e experiências (FRUGOLI et al, 2006). Espera-se contribuições que reflitam sobre o saber técnico que delineia contornos para a cidade, que propõe intervenções e modificações do/no espaço, pautados pelo discurso legislativo, por proposta advindas de perspectivas oriundos do planejamento urbano, pressupondo também mudanças nos usos e apropriações desses espaços. No entanto, considera-se que as apropriações feitas pelos grupos sociais dos espaços das cidades podem modificar as propostas e projetos eventualmente implementados, ou mesmo tenciona-los, portanto, enquanto experiência plural e humana, o viver na cidade impõe a essa disciplina usos e apropriações que são próprias dos passantes e consumidores desse espaço. (CERTEAU, 1998) 

A cidade em disputa 

O tensionamento das relações sociais vivenciadas no espaço urbano se apresenta por meio das disputas explícitas e/ou implícitas em torno desse espaço, manifesta por meio de ações que  que podem ser vistas como tentativas, erros, fracassos e sucessos, remetendo à ideia de espaços descontinuados (JACOBS, 2003). Ao se compreender a possibilidade da cidade como espaço educador, de sociabilidades e novas conformações sociais, podemos analisá-la como lugar de subversão, onde as tensões emergem, configurando, reformulando e moldando o urbano (LEITE, 2006). Assim, seus usos e funções são determinados por práticas, distinções sociais, econômicas e simbólicas. A preocupação com a conformação desses espaços e com as lutas ali existentes, visibilizadas ou não, pauta-se pela compreensão do papel dos sujeitos em busca do direito à cidade (Lefebvre, 2001), encontrando ressonâncias nas falas, hoje atualizadas, que pensam o urbano como locais de disputas e de apropriações diversas, com as marcas que se expressam na sua materialidade e nos significados e projetos produzidos sobre ele, mas também pelos desejos dos grupos em assegurar seus territórios dentro da cidade, suas visões de mundo,   atividades, seus modos de ser, saber e fazer. (ARANTES, 2009)

Patrimônio e memória das/nas cidades

A cidade torna-se plástica, moldável, maleável às falas de seus habitantes que com ela vivem ou viveram algum tipo de relação – seja de identificação ou de estranhamento. Neste sentido, as narrativas produzidas pela memória, os sentidos atribuídos aos monumentos e monumentalizações na/da cidade constituem uma perspectiva propositiva de discussão e de problematização do espaço urbano. O (re)fazer da experiência pela memória produz sentidos outros e olhares que redesenham a cidade a partir do lugar de memória e de fala do narrador. (SEIXAS, 2002). Existem disputas em torno da primazia da narrativa da memória, na dicotomia entre preservação/destruição dos marcos onde essas memórias se amparam (LE GOFF, 2003) e que se expressam por meio das tensões que envolvem os projetos, as lutas travadas pelos grupos sociais e na valorização e/ou depreciação do espaço urbano, em processos nem sempre óbvios em um primeiro olhar, mas que demonstram a emergência dessas pautas nas cidades contemporâneas.