Ensaio
Performance:
operador teórico no campo da Educação a partir da Teoria Ator-Rede
Performance: operador teórico en el campo de la
Educación desde la Teoría Actor-Red
Performance: theoretical operator in Education from
the Actor-Network Theory
Marcio Roberto de Lima[i]
Universidade Federal de São João del-Rei
São João del-Rei, MG, Brasil
https://orcid.org/0000-0003-3790-1104
Recebido em: 25/05/2022
Aceito em: 12/07/2022
Publicado
em: 01/08/2022
Linhas
Críticas | Periódico científico
da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Brasil
ISSN: 1516-4896 |
e-ISSN: 1981-0431
Volume 28, 2022
(jan-dez).
http://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas
Referência
completa (APA):
Lima, M. R. de. (2022). Performance: operador teórico no campo da Educação
a partir da Teoria Ator-Rede. Linhas Críticas, 28, e43415. https://doi.org/10.26512/lc28202243415
Link alternativo:
https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/43415
Licença Creative Commons
CC BY 4.0.
Resumo: Este ensaio conceitua performance a partir da
interlocução entre referenciais da Teoria Ator-Rede (TAR) e discute esse
constructo como um operador teórico no campo da Educação. Complementarmente, o
ensaio sintetiza cinco pesquisas em Educação, as quais abarcam em suas questões
de interesse diferentes performances como desdobramentos de intervenções pedagógicas
situadas. As ideias construídas neste trabalho sugerem que as (inter)ações
estabelecidas em redes sociomateriais possibilitam assumir performance como
afetações que reverberam em estados no mundo de maneira processual, múltipla e
coexistente.
Palavras-chave: Performance. Teoria Ator-Rede. Educação.
Resumen: Este ensayo conceptualiza la performance a partir de
la interlocución entre los referentes de la Teoría Actor-Red (TAR) y discute
este constructo como operador teórico en el campo de la Educación. Además, el
texto sintetiza cinco investigaciones en Educación que abordan en sus temáticas
diferentes performances como producciones de intervenciones pedagógicas
situadas. Las ideas construidas en este trabajo sugieren que las
(inter)acciones que se establecen en las redes sociomateriales posibilitan
asumir la performance como afectaciones que reverberan en los estados del mundo
de manera procedimental, múltiple y coexistente.
Palabras
clave: Performance. Teoría actor-red. Educación.
Abstract: This essay conceptualizes performance from the
interlocution between Actor-Network Theory (ANT) references and discusses this
construct as a theoretical operator in the field of Education. In addition, the
essay synthesizes five researches in Education, which cover in their questions
of interest different performances as unfolding of situated pedagogical
interventions. The ideas built in this work suggest that the (inter)actions
established in sociomaterial networks make it possible to assume performance as
affectations that reverberate in states in the world in a procedural, multiple and
coexisting way.
Keywords: Performance.
Actor-Network Theory. Education.
Introdução
Este ensaio conceitua performance
a partir da interlocução entre referenciais da Teoria Ator-Rede (TAR) e discute
esse constructo como um operador teórico no campo da Educação. Essa busca pelo
refinamento do entendimento para o termo está atrelada à sua importância nas
pesquisas que assumem fundamentos da TAR em descrições e análises de cenas
pedagógicas. Performance, apesar de
encontrar centralidade nas discussões da TAR, parece ter sua significação
diluída em diferentes obras de Bruno Latour e demais colaboradores de tal
Teoria. Assim, este ensaio delineia o conceito de performance a partir de uma cadeia de referências e imbrica esse
constructo ao campo da Educação.
Como um ensaio teórico, este texto encontra acolhimento das
concepções de Meneghetti (2011, p. 321), as quais indicam que, “diferente do
método tradicional da ciência, em que a forma é considerada mais importante que
o conteúdo, o ensaio requer sujeitos, ensaísta e leitor, capazes de avaliarem
que a compreensão da realidade também ocorre de outras formas”. Também, cabe o registro
de que este ensaio não tem a pretensão servir como uma introdução à TAR – o que
pode ser encontrado em diferentes publicações (Latour, 2012; Lemos, 2013;
Oliveira & Porto, 2016; Coutinho & Viana, 2019; Freire, 2021). Ainda
assim, provemos uma breve descrição dos fundamentos básicos da TAR partindo da
Figura 1.
Figura 1
Representação das proposições básicas da Teoria
Ator-Rede

Fonte: elaborado pelo autor.
Inicialmente, é importante evidenciar que a TAR assume “que o
‘social’ deve ser definido como associação e compreendido em termos de rede, ou
ator-rede, que envolve uma heterogeneidade de elementos humanos e não humanos” (Coutinho
& Viana, 2019, p. 17). Nesse entendimento e em termos analíticos, um
pesquisador, ao lançar mão dos fundamentos dessa Teoria, terá como meta
investigar como certas entidades se associam a outras, constituindo redes. A
Figura 1 ilustra a associação entre humanos e não humanos, que são os atores da
expressão Ator-Rede. Embora o termo ator integre o próprio nome da Teoria,
Latour (2001) explica que esse termo tem sentido restrito a humanos, sendo
preferível a utilização de actantes. Assim, um actante é compreendido como qualquer
entidade que, em uma associação, tem capacidade de produzir diferença e,
portanto, de alterar a rede onde se encontra.
As afetações produzidas nas associações pelos actantes são
assumidas como translações, isto é: “[…] o trabalho graças ao qual os atores
modificam, deslocam e transladam seus vários e contraditórios interesses” (Latour,
2001, p. 356). Analiticamente, pode-se afirmar que o foco de um estudo
fundamentado na TAR são as translações. Ao estudá-las, é preciso ter em mente
que todo actante possui a mesma condição ontológica (princípio de simetria).
Entretanto, Lemos (2014, p. 6) alerta que a “[…] simetria não é ética (coisas
valem o mesmo que humanos), mas analítica (coisas nos fazem fazer coisas e têm
implicações importantes)”. Nesse sentido, o investigador procede ao seu estudo
alerta a quem, o que se faz presente em uma cena de interesse e a como se forjam as associações e as
translações (transformações) dali emergidas.
A Figura 1 ainda favorece a compreensão de rede, que está ligada
ao espaço-tempo formado pelo coletivo de actantes em associação, o qual
desencadeia uma série de translações a partir de suas inter-relações.
Heterogêneas, as redes são ditas sociomateriais e podem ser consideradas como
“[…] o próprio movimento das associações que formam o social” (Oliveira &
Porto, 2016, p. 64). Em um esforço de síntese quanto à TAR: o interesse em uma
rede remete ao movimento e às translações oriundas das associações entre actantes.
Nesse aspecto, o trabalho ali instaurado traduz o social em dinamismo para ser
investigado.
Tendo apresentado essa breve descrição, retoma-se, na sequência, o
objetivo de construir uma significação para performance.
Com o devido zelo, ao longo da argumentação, resgata-se o esforço em situar o
leitor em alguns conceitos da TAR que subsidiam o raciocínio em construção. Valoriza-se,
aqui, uma tessitura textual que estimula reflexões, as quais favorecem a
reunião de elementos para um delineamento conceitual de performance e sua discussão como um operador do campo da Educação.
Para tanto, o trabalho articula perspectivas de diferentes autores que
trabalham com a TAR e que contribuem com a compreensão do termo. Em um segundo
momento, apresenta-se uma breve síntese de cinco pesquisas no campo da Educação,
as quais, apesar de não terem aprofundado o conceito de performance, operaram com este para descrever e analisar realidades
pedagógicas.
Seguindo rastros sobre performance
a partir da TAR e de seus colaboradores
Pode parecer ambicioso tentar
responder ao que é performance. De
fato, isso não é uma tarefa simplista. Entretanto, isso não pode nos paralisar
e impedir tentativas de se construir vias para sua conceituação. Esse particular
parte de uma constatação: a palavra performance,
apesar de aparecer uma única vez na obra Reagregando o Social: uma introdução à
Teoria do Ator-Rede – de Bruno Latour –, assume inegável relevância para os
pesquisadores que assumem a TAR como constructo teórico-metodológico de suas
investigações. Afinal, para eles “[...] a regra é a performance […]” (Latour, 2012, p. 60). Essa afirmação solitária e lacônica de Bruno Latour nos coloca em
causa e deixa em aberto a delimitação semântica para o termo considerando os
pressupostos da TAR.
Isso nos inspira a iniciar
considerando algumas definições dicionarizadas do termo performance, que não tem um correspondente na Língua Portuguesa.
Embora considerada como anglicismo, performance
é catalogada nas indicações da Academia Brasileira de Letras em seu Vocabulário
Ortográfico (VOLP). O dicionário Michaelis
indica traduções para performance
ligadas: a) à “execução, efetuação”; b) a um “cumprimento, desempenho”; c) a
uma “façanha, proeza”; d) a uma “representação artística, espetáculo”; e) a uma
“atuação” (de artista, atleta etc.); f) à “capacidade de trabalho mecânico,
rendimento” (Michaelis, 2002, s.p.). Já o dicionário da Língua Portuguesa
Houaiss apresenta um verbete, que indica performance
como: a) “atuação, desempenho”; b) “espetáculo em que o artista atua com
inteira liberdade e por conta própria, interpretando papel ou criações de sua
própria autoria” (Houaiss, 2009, s.p.). Em ambos os casos, o termo é assumido
como um substantivo feminino. Dessa forma, performance
é conveniente à denominação de ações.
A particularidade de denominação de
ações como via de compreensão de performance
encontra sintonia em fundamentos da TAR, entre os quais aquele que nos diz que
uma ação é assumida. Esse posicionamento de Latour (2012) escapa de uma
perspectiva antropocêntrica, a qual admite a ação como atributo exclusivamente
humano. As proposições latourianas inspiram o pensamento de que, quando agimos,
nunca o fazemos sozinhos ou apartados de um mundo de coisas. Essa premissa é
aderente ao pensamento de Callon (2008, pp. 307-308), que sinaliza que “[…] não
se pode compreender a ação humana, e não se pode compreender a constituição de
coletivos, sem levar em conta a materialidade, as tecnologias e os não humanos”.
Isso evidencia que uma ação carrega consigo uma fonte de incerteza, escapando
de um direcionamento determinado por forças sociais; ou seja: a ação é sempre
uma surpresa e é forjada por materialidades não exclusivamente humanas. Nessa
concepção, a agência passa a ser compreendida em uma configuração que envolve
uma circunstância oportuna e que favorece um encontro entre entes associados,
os quais formam coletivos heterogêneos.
Ações evocam movimento, circulação,
transformações e, portanto, instabilidade. Tudo isso leva à concepção de que a
TAR:
[…] afasta-se
de tudo o que é fixo: essências, estruturas, sistemas unificadores, paradigmas.
A sua ontologia […] é a que define o ser não pela substância, mas pelos seus
movimentos de subsistência.
A TAR
é, definitivamente, uma ‘sociologia da mobilidade’ […] das associações que
compõem os seres, as coisas, os humanos, os não humanos, o social. (Lemos,
2013, p. 60)
Mediante isso, temos a evidência de
que, na ótica Ator-Rede, ‘existência’ está atrelada à capacidade de agir e
produzir transformações. Nesse sentido, reitera-se que o analista precisa estar
atento aos fluxos de ações que se estabelecem nas associações, ou seja, naquilo
que provoca movimento e “[…] permite conhecer de que matéria o social está
feito e seguir sua dinâmica” (Callon, 2008, p. 309). Vale reforçar que o ato de
agir remete ao conceito de actante (Latour,
2001), isto é: humanos e não humanos, que, em associação, agem, provocam
deslocamentos e diferença onde se encontram associados.
Neste ponto, é significativo relembrar
ao leitor que a TAR não opera, sugere ou incentiva uma dicotomia entre duas
entidades ontológicas (humano versus
não humano). Por outra via de interpretação, o que se evoca é o tratamento
dessas entidades em um mesmo plano analítico buscando rastrear e expressar
aquilo que se estabelece enquanto um mundo possível de interações.
A
partir do momento em que dissemos que a ação passa através dos coletivos
distribuídos, rechaçamos a oposição entre humanos e não humanos e aparecem
todas as diferenças. […] A grande vantagem deste enfoque é que não temos que
escolher entre duas categorias de agência (humana ou instrumental), mas
simplesmente observar a decolagem de uma multidão de agências diferentes que
estão ligadas ao fato de que há numerosos agenciamentos possíveis que atuam
diferentemente. (Callon, 2008, p. 312)
Tendo isso em mente, é interessante
resgatarmos a “[…] pluralidade daquilo que faz agir […], visto que todas as
movimentações dependem da natureza dos vínculos e da capacidade reconhecida de
fazer […]” (Latour, 2015, p. 131). É com esse cuidado que nossa atenção se dirige
às translações que despontam de tudo aquilo que faz-fazer e que tipifica uma
pluralidade de agências:
A ação
não é o que as pessoas fazem, mas sim o fait-faire,
o faz-fazer, realizado juntamente com outros num evento, com as oportunidades
específicas fornecidas pelas circunstâncias. Esses outros [… são] entidades não
humanas […] que têm suas próprias especificações lógicas […]. (Latour, 2001, p.
341)
Bruno Latour nos alertou, com seu
binômio faz-fazer, que a ação carrega consigo uma acepção híbrida. Sendo assim, é fruto de uma “[…] construção
simultânea de homens e objetos em que materialidade e socialidade se mesclam,
tendo como resultado a nossa condição de humanidade” (Melo, 2008, p. 258).
Latour também nos indica que este faz-fazer é simétrico e desenvolve seus
argumentos ao resgatar uma história em quadrinhos da personagem Mafalda,
envolvendo seu pai e o ato de fumar, ilustrada por Quino (1986).
Ao discutir tal história[2],
Latour (2015) faz provocações ao seu leitor a partir de uma pergunta de Mafalda,
que, inicialmente, pode parecer ingênua: “– Que você está fazendo, papai?”
(Quino, 1986, p. 22). Observando a cena, a resposta paterna sugere algo óbvio: “–
Estou fumando um cigarro. Por quê?” (Quino, 1986, p. 22), responde ele.
Entretanto, essa obviedade é desconstruída com sagacidade pela personagem
infantil, que, ao virar suas costas, escancara uma simetria desconcertante da
ação de fumar: “– Achei que fosse o cigarro que estava fumando você, mas
desconsidere” (Quino, 1986, p. 22). Fica evidente que o cigarro faz fumar e, ao
mesmo tempo, fuma/consome o fumante. Tanto é que o pai de Mafalda, na última
parte da ilustração, mostra-se desesperado picotando o seu maço de cigarros.
Essa passagem divertida e, ao mesmo tempo, perturbadora de Mafalda evidencia o
quanto as associações estabelecidas entre actantes oportunizam um faz-fazer
hibrido e simétrico.
Essa história em quadrinhos é
densamente explorada nas argumentações de Latour (2015), porém interessa aqui
explorar as (inter)ações em uma rede para se pensar em performance a partir do faz-fazer (Latour, 2001) que ali se
estabelece. Mas, antes, cabe alertar que “[…] rede não é a estrutura,
infraestrutura ou a sociabilidade, não é o local por onde as coisas passam,
deslocam-se ou são depositadas, mas o local onde as relações se estabelecem e
se transformam” (Oliveira & Porto, 2016, p. 64). Nesse entendimento, a
compreensão de rede é pautada em movimentos de associações que “remete[m] a
fluxos, circulações e alianças, nas quais os atores envolvidos interferem e
sofrem interferências constantes” (Freire, 2006, p. 55). Dessa forma, “as redes
são urdidas com elementos que estão em complexas interações, de modo que grande
parte dos actantes é híbrida, a carregar essa dupla faceta: humana e não humana
[…]” (Latour, 2000, p. 377). Aqui, já é possível ter em mente que uma rede
sempre traduz modificações, decorrendo daí o interesse de melhor delimitação
semântica para o termo performance
segundo a TAR.
Em Sørensen (2009), também podemos
perceber que o sentido de performance
está relacionado a uma variedade de entes imbricados entre si e que formam uma
assembleia heterogênea. A partir de Giddens (1984), a pesquisadora
dinamarquesa também refuta a concepção de ação como atributo exclusivo da
racionalidade humana e vale-se das proposições de Law (2002) para
assumir performance como uma
realização de agenciamentos
sociomateriais. Vale ressaltar que um:
[…]
agenciamento tem a virtude de designar a agência e de não reduzi-la ao corpo
humano ou aos instrumentos que prolongam o corpo humano, mas de designá-la nos
conjuntos de configuração de arranjos em que cada elemento esclarece os outros
e permite compreender porque o agenciamento atua de certa maneira. (Callon,
2008, p. 310)
Assim, quando os actantes se associam
e formam uma rede passam a agir de maneira a influenciar, interferir e
modificar uns aos outros, realizando um trabalho de translação, que também é
assumida como tradução (Latour, 2012). Ampliando essa compreensão, Lemos (2013,
p. 128) acrescenta que “a mediação/tradução é a capacidade de um actante manter
outro envolvido, modificando-se e reinterpretando seus interesses”. Nesse
particular, uma translação indica mudança na forma de atuação em rede. Esse
aspecto parece ser fundamental para se começar a pensar uma aproximação para a
compreensão de performance baseada na
TAR.
Se um actante provoca diferença em uma
relação sociomaterial – actante assumido como mediador (Latour, 1994; 2001; 2012)
–, então, estamos diante de um processo de afetação, que sugere uma nova composição entre os entes de uma
dada (inter)ação. Ou seja, os rastros de uma mediação permitem mapear
reconfigurações para determinado arranjo ou entrelaçamento de actantes (Coutinho
& Viana, 2019). Seguindo esses entendimentos, fica reforçado que uma
afetação em um estado do mundo (Barad, 2007) nos faculta entrever mais uma
dimensão de atribuição de contorno semântico para performance.
Para ajudar nessa compreensão, nota-se
que Moraes e Arendt (2013) recorrem aos trabalhos de Law (2007; 2009) para
sinalizar que, para além da atenção dada à formação de redes sociomateriais, um
novo interesse passa a atrair os pesquisadores filiados à TAR: a produção de
realidades a partir de práticas enredadas. Essa concepção parece encontrar
aderência nas ideias de Mol (2008, p. 64), que também assume “que a realidade
não precede as práticas banais nas quais interagimos com ela, antes sendo
modelada por essas práticas”. Dessa maneira, somos inspirados a assumir que
essa realidade não é dada a priori,
mas é emergente das práticas rotineiras (Law, 2004).
Para situar a produção de realidades,
Annemarie Mol recorre ao campo de estudos sociais da ciência e recupera o
trabalho realizado em laboratórios, assumindo-o como uma prática sociomaterial
capaz de evidenciar transformações na composição de um estado do mundo
produzindo novas configurações:Estas formas são exportadas do laboratório, não tanto enquanto ‘teoria’,
mas antes, ou pelo menos na mesma medida, enquanto vacinas, microprocessadores,
válvulas, motores de combustão, telefones, ratos geneticamente modificados e
outros objectos – objectos que transportam com eles novas realidades […]. (Mol,
2008, p. 64)
Visivelmente, o caráter estável e
determinado da realidade assume um status
que, segundo Mol (2008), está atrelado à materialidade e suas combinações múltiplas,
históricas e culturais. Então, com a autora, é possível entender que as
realidades são multifacetadas e que elas coexistem no presente em diferentes
versões. Para ampliar essa concepção, a pesquisadora nos diz ainda que essa
multiplicidade da realidade depende de um conjunto de metáforas que evocam
intervenção – que estaria atrelada à sua produção – e performance, a qual
emerge da manipulação da realidade “[…] por meio de vários instrumentos, no
curso de uma série de diferentes práticas” (Mol, 2008, p. 66).
Em sua produção, Annemarie Mol recorre
à questão “[…] o que é a anemia?” (Mol, 2008, p. 66) e propõe um encaminhamento
ao indicar a inexistência de uma resposta única e estabilizada. Apreender
anemia estaria relacionado a diferentes performances.
Nesse sentido, em uma consulta clínica quando um médico recorre ao exame das
pálpebras de um paciente, estaríamos diante da performance clínica da anemia. Ao se pensar em uma análise clínica
para determinar níveis de hemoglobina no sangue a performance da anemia, seria a laboratorial ou estatística (que
considera padrões para determinar se um paciente está anêmico). Por fim, a
partir de um método que padroniza o nível ideal de hemoglobina para transportar
eficazmente oxigênio pelo corpo humano, é possível verificar a performance patofisiológica da anemia (Mol,
2008).
Uma definição para performance
segundo a TAR e sua variação lexical
Após as considerações e articulações
apresentadas, é preciso ter em mente que o entendimento de performance segundo os fundamentos da TAR precisa levar em
consideração:
1)
que um actante assegura sua existência
pela sua capacidade de agir e produzir transformações (translações/traduções) a
partir de suas associações em redes;
2)
que ações são fontes de incerteza
forjadas por materialidades não exclusivamente humanas, assumindo acepção
híbrida e simétrica (faz-fazer); e
3)
que um determinado estado do mundo é
estanciado por entidades que se associam formando redes sociomateriais.
Dessa feita, considerando as
contribuições de Latour (2000; 2001; 2012; 2015), Law (2002; 2004; 2007; 2009),
Callon (2008), Mol (2008) e Sørensen (2009), é possível assumir performance como aquilo que, processualmente, é instaurado a partir de agenciamentos
sociomateriais e afeta um estado de mundo, produzindo realidades multifacetadas,
que coexistem no presente em diferentes versões.
Ao encaminhar esse entendimento do
termo performance a partir da TAR e
trazer essa acepção para o universo da Língua Portuguesa, imediatamente outras
questões ganham condição de existência, sendo possível indagar: mas, afinal,
como compreender performatividade, performativo, performar e performado?
Percebe-se, portanto, que, uma vez
delineada performance a partir da TAR,
vem à mente variações que geram neologismos. Em Schveitzer (2016). nota-se que
sufixos são acrescidos a adjetivos para formar substantivos. O sufixo -dade
pode expressar ideia de estado, situação ou quantidade (Wikipédia, 2022). Com
isso, considerando tudo aquilo que foi discutido ao longo deste ensaio,
depreende-se que performatividade tem a ver com um estado específico de (inter)ação
em rede, que sinaliza que um actante assumiu status de promotor de diferenças sensíveis em suas associações. Portanto,
é um actante mediador (Latour, 2012). Já o sufixo -ivo indica capacidade,
possibilidade, utilidade ou relação (Priberam, 2022). Por consequência, ao
mediar um actante, faz-se performativo, produzindo transformações em sua rede.
Da mesma forma, se um actante é definido por sua atuação (Lemos, 2013), ele
ganha sua condição de existência ao performar. Por fim, com o sufixo -ado – usado
para formar o particípio passado do verbo performar –, assume-se que algo
performado é uma realidade que foi produzida por actantes em uma rede.
Performance como produção de realidades sociomateriais pedagógicas
A aproximação dos
constructos teórico-metodológicos da TAR do campo da Educação, apesar de
desafiadora, favorece pensar os processos socioformativos sob uma ótica
diferenciada. Professores, alunos, gestores e toda a diversidade material, que
integram e condicionam uma cena pedagógica, passam a ser considerados na
perspectiva de uma assembleia sociomaterial performativa. Assim:
[…] o
observar, o registrar, o descrever e o analisar voltam-se à identificação de
atores (não somente humanos), ao mapeamento de associações, ao rastreamento da
formação e do rompimento de vínculos, ao trabalho estabelecido na rede e, a
partir de tudo isso, à instauração de realidades. (Ribeiro & Lima, no
prelo)
Decorrente desse
constructo teórico-metodológico, desdobra-se o interesse em performances emergentes das (inter)ações
entre os actantes do cotidiano educacional. Com base nisso, a seguir, é
apresentada uma breve síntese de cinco pesquisas orientadas a partir da TAR, as
quais abarcaram, em suas questões de interesse (Latour,
2012), performances emergidas de intervenções
no campo da Educação. A seleção dessas produções envolveu: 1) o fato de que a
base SciELO e o Portal de Periódico Capes não resgataram registros[3]
considerando a temática deste ensaio, o que exigiu uma triagem manual; 2) nossa
participação em discussões com membros de diferentes grupos de pesquisa[4], cujas
produções acadêmicas trabalham com performance
sob a ótica da Teoria Ator-Rede no campo da Educação; e 3) nossa recorrente
indicação da necessidade de uma delimitação conceitual para o termo performance em diferentes participações
em bancas de trabalhos de pós-graduação em Educação.
Primeiramente,
Allain e Coutinho (2018) discutiram a identidade profissional docente
articulada a conceitos da TAR. Eles apresentaram dados produzidos com dois
grupos focais formados por estudantes de licenciatura em Ciências Biológicas de
uma universidade pública brasileira: um composto por bolsistas do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência e outro por licenciandos não
bolsistas.
O estudo
identificou, em ambos os grupos estudados, identidades performativas: a) a
identidade-natureza, aquela que estaria ligada à concepção de que “[…]
professores nascem com o dom da docência, com vocação, um talento natural” (Allain & Coutinho, 2018, p. 370); b) a identidade-instituição,
relacionada à formação acadêmica específica “[…] oferecida por instituições
reconhecidas, que lhes autorizarão a lecionar”
(Allain & Coutinho, 2018, p. 370); c) a identidade-discurso, que evoca “[…] traços individuais, que
supostamente são reconhecidos como necessários para os professores: ser
comunicativo, gostar de lidar com pessoas, de explicar […]” (Allain & Coutinho, 2018, p. 370). Como diferencial do grupo formado
pelos estudantes bolsistas, também foi identificada a identidade-afinidade, que
foi definida pelos autores a partir do trabalho de Gee (2000). Para
esse último grupo:
[…] atores
como a escola, o financiamento do programa, os projetos de trabalho, as
reuniões de estudo, o professor da universidade e o professor supervisor da
escola se associam em rede, formando um corpo articulado que agrega vivências
positivas em relação à formação docente. (Allain & Coutinho, 2018, p. 376)
Além disso, Allain
e Coutinho (2018) salientaram que o curso de formação daqueles licenciandos
possuía uma identidade, que também exercia força na rede pesquisada. Com olhar
crítico, os pesquisadores enfatizaram a responsabilidade das instituições e dos
docentes formadores de professores como actantes, que afetavam o processo de
constituição daquelas identidades performadas, exigindo atenção. Em suma, o
trabalho dos autores evidenciou performances
da identidade docente como vias múltiplas, complementares e construídas em
ação. Notadamente, essa constatação encontra aderência à definição, que foi
construída para performance neste ensaio.
Já em Coutinho et
al. (2017), encontra-se uma pesquisa, que
contribuiu para a compreensão das inter-relações entre conhecimento acadêmico e
os conhecimentos e experiências de estudantes de uma Licenciatura em Educação
do Campo de uma universidade pública brasileira. O estudo analisou discussões
de duas aulas da turma de Ciências da Vida e da Natureza com foco em
controvérsias. A partir de elementos da TAR, os autores destacaram que “[…] os
licenciandos mobilizam conhecimentos, práticas e experiências que os fazem
instaurar controvérsias em uma situação formativa e diante de conhecimentos
autorizados pela universidade” (Coutinho et al.,
2017, p. 222).
Em termos
metodológicos, a produção de dados da pesquisa de Coutinho et al. (2017, p. 225)
compreendeu “[…] observação não participante, mediante registro por meio de
gravação de vídeo, áudio e anotações em caderno de campo”. A partir desse corpus, os pesquisadores elaboraram um
mapeamento de actantes e identificaram elementos, os quais compunham as
realidades produzidas pelos estudantes e por um monitor, que conduziu uma
visita técnica junto da turma.
Em relação à performance, os pesquisadores
sinalizaram a produção de realidades – assumidas como ontologias no texto –,
“que emergem na instauração de uma controvérsia entre os estudantes de uma
licenciatura do campo e o monitor de uma atividade sobre a diversidade mineral
do Brasil” (Coutinho et al., 2017, p. 224). Essa
configuração performativa se deu durante uma visita técnica em um espaço
universitário com amostras de diferentes rochas e minerais e, posteriormente, em momento de aula considerando
as interações discursivas entre professor e licenciandos.
O estudo permitiu
identificar componentes, que integram a realidade material descrita pelo
monitor, debatida/problematizada pelos licenciados junto ao professor
responsável pelas turmas. Os resultados da pesquisa ilustram duas “topografias
ontológicas” com variações desproporcionais, que fizeram os autores concluir
que “o monitor e os estudantes do curso de Licenciatura em Educação do Campo,
pode-se dizer, habitam mundos diferentes” (Coutinho et al., 2017, p. 233). Ao considerarem
a dimensão performativa em seu estudo, os autores se aproximaram da definição
construída neste ensaio ao traduzir realidades multifacetadas e coexistentes.
A terceira pesquisa
destacada neste ensaio também trabalhou com
professores em formação em Educação do Campo em uma universidade pública na
área de Ciências da Vida e da Natureza (CVN). O foco do estudo envolveu a descrição
da “performance de um espaço de reflexão sobre sistemas de conhecimento” (Freitas
& Coutinho, 2018, p. 285) entre os licenciandos, considerando a mobilização de diferentes actantes.
No caminho
metodológico adotado por Freitas e Coutinho (2018), a TAR foi considerada na análise de
interações discursivas a partir de relações sociomateriais e da emergência em redes.
Os dados empíricos foram construídos ao longo do acompanhamento de disciplinas
e atividades envolvendo a área de CVN em janeiro de 2016, pela via de
observações, gravações de vídeo, áudio, registros em caderno de campo e a realização
de um grupo de discussão com sete estudantes da turma.
Ao considerarem a
performance em sua abordagem, os pesquisadores assumiram que um dos efeitos produzidos na
assembleia sociomaterial investigada foi o próprio conhecimento e que os
sistemas de conhecimento abordados – científicos e saberes tradicionais – “[…] são diferentes modos de
sistematização de práticas, que surgem mediante a interação entre humanos e não
humanos” (Freitas & Coutinho, 2018, p. 286). Nas passagens analíticas das
interações descritas no estudo, foi possível identificar argumentos pautados:
[…]
tanto concepções de senso comum da ciência (como a ideia de que conhecimento
científico é conhecimento provado, a ciência é objetiva, as teorias científicas
são derivadas de maneira rigorosa por meio de observações e experimentos etc.),
como também saberes tradicionais difundidos em suas comunidades (como a
influência da lua na determinação do sexo de bebês). (Freitas & Coutinho,
2018, p. 283)
Os pesquisadores
destacaram ainda que a prática empreendida entre professor e estudantes
explicitou uma rede de relações entre actantes, que instaurou um espaço de
reflexão “sobre a importância do diálogo entre saberes que deve emergir em uma
sala de aula […]” (Freitas & Coutinho, 2018, p. 283).
Em outra frente
de investigação, Venancio et al. (2020) empreenderam uma pesquisa, que estudou
performances em uma unidade
curricular de Prática de Ensino de Ciências com licenciandos em Ciências
Biológicas de uma universidade pública brasileira. Metodologicamente,
os dados da pesquisa foram produzidos por meio da observação-participante com
registros em caderno de campo, em áudio e em vídeo.
O estudo registrou
performance como “agenciamentos entre
atores humanos e não humanos e os movimentos decorrentes destes, os quais
permitem atingir um determinado fim” (Venancio et al., 2020, p. 1). Essa definição tem aderência ao que é proposto neste
ensaio, porém a definição assumida no trabalho é lacunar nos aspectos da
produção de realidades múltiplas e coexistentes, as quais foram identificadas e
exploradas na pesquisa.
Em seus
resultados, Venancio et al. (2002) indicaram performances das práticas de ensino inspiradas em planejamentos, nos
quais elementos como o tempo e as materialidades humanas e não humanas
produziram uma escola, que limitava as ações daqueles professores em formação.
A partir disso, os autores encaminharam que:
[…]
nos planejamentos de aulas de licenciandos em Ciências Biológicas, contextos
hipotético-imaginados surgem e oferecem para eles diferentes possibilidades de
atuação. Essa escola é imaginada e faz com que os futuros professores tenham
que planejar aulas para um contexto que eles não conhecem. Além disso, [… a
imaginação] se mostrou, também, contingenciada, pois deveria lidar com
diferentes possibilidades que podem ser encontradas no local de trabalho. […
Nesse sentido] a livre imaginação gera certa ‘angústia’ por parte desses
licenciandos, já que os planejamentos precisam ainda lidar com a possibilidade
de algo acontecer ou não. Parece, assim, que os licenciandos estão caminhando
em dois movimentos, ora se preparando para as diferentes realidades, ora sem realmente
saber o que pode ser encontrado pela frente. (Venancio et al., 2020, p. 13)
Os autores
indicaram ainda que, com a TAR, foi possível notar que os licenciandos
produziram realidades a partir de seus planejamentos de maneira a envolver um
arranjo sociomaterial que agrupou: estudantes, espaços de formação como a sala
de aula, instituições de ensino formal, docentes e conteúdos curriculares.
Esses actantes, em suas associações, constituíram performances da prática de ensino.
Em um quinto
trabalho que envolveu performance no
campo da Educação, Lima e Nascimento (2021) pesquisaram sobre a incorporação de
jogos digitais na formação inicial de professores de Física durante um
componente curricular de estágio supervisionado em uma universidade pública
brasileira. O objetivo foi rastrear as afetações
pedagógicas produzidas considerando as inter-relações estabelecidas na rede
sociomaterial estudada, meta essa contemplada pelo conceito de performance deste ensaio.
Seguindo
procedimentos metodológicos de uma Pesquisa-Ação, os dados empíricos foram gerados
a partir de registro de observações da experiência mapeada e de relatórios
elaborados pelos licenciandos. Esse corpus
foi sistematizado em uma codificação aberta no software ATLAS.ti, a qual embasou a formação de duas categorias
analíticas: “[…] significado inicial e significado transladado dos/pelos licenciandos
acerca de jogos digitais e sua incorporação em uma proposta de ensino” (Lima
& Nascimento, 2021, p. 7). Fundamentada na TAR, a discussão analítica das
categorias formadas descreveu uma performance
“[…] da transição de significações pedagógicas dos licenciandos relacionadas
aos jogos digitais e sua associação ao ensino de Física” (Lima &
Nascimento, 2021, p. 9).
Os pesquisadores
indicam que, para além do trabalho com referenciais teóricos de jogos digitais,
a unidade curricular culminou com a produção de um game pelos licenciandos. Esse movimento oportunizou uma série de (inter)ações,
as quais revelaram um denso processo de afetações pedagógicas entre os
professores em formação:
Os
posicionamentos dos licenciandos foram desestabilizados à medida que aconteciam
as leituras, atividades, debates e, especialmente, a produção do jogo digital
na UC [unidade curricular]. Ao circularem na rede, essas experiências foram
partilhadas pelos actantes, o que colocou em curso um processo de
reconfiguração, o qual favoreceu o estabelecimento de novos significados
pedagógicos, propiciou o rompimento com as representações pregressas e fez
emergir um novo modus vivendi. (Lima
& Nascimento, 2021, p. 14)
Os resultados do
estudo destacaram que as afetações mapeadas partiram de um lugar de ceticismo,
incipiência, desconfiança ou mesmo de impossibilidade de aproximação
jogo-prática pedagógica, para uma nova realidade, que incluiu: 1) jogo como um
produto cultural; 2) design de jogos
como um processo complexo e que envolve tempo, criatividade, referenciais
teóricos, agenciamentos etc.; 3) desenvolvimento de um jogo digital como forma
de trabalho coletivo e colaborativo; 4) jogo digital como via de inclusão da
cultura digital no espaço escolar; e 5) jogo digital como espaço de ensino e de
promoção de aprendizagens e habilidades (Lima & Nascimento, 2021).
Algumas palavras finais
No rastreamento
de elementos que favorecem a compreensão do termo performance a partir da Teoria Ator-Rede, é importante reafirmar
que as translações produzidas numa rede de actantes é que atribuem um lugar de
compreensão ao vocábulo. Essa rede assume existência em formato de um coletivo
híbrido e (inter)ativo de onde emergem fluxos de translações. Sem o faz-fazer estabelecido
pelos actantes, inexiste performance e,
consequentemente, não há produção de realidades. O social, portanto, é
produzido por esse coletivo em seus movimentos de (des)associações, revelando
um espaço-tempo, onde humanos e não humanos são constituídos e agem mutuamente,
engendrando performances.
Ao situar performance como um operador conceitual
da Educação, é possível passar a pensar em afetações, que podem traduzir:
diversificação de vias de didatização de conteúdos curriculares, produção de
inteligibilidades a partir do reconhecimento de agências de não humanos em uma
cena pedagógica (não mais como coadjuvantes, mas como coprodutores dessa rede),
reconfigurações em práticas formativas, novas formas de ser e estar no mundo e,
portanto, do ensinar e do aprender.
Considerando o
campo da pesquisa em Educação e suas múltiplas metodologias, performance – enquanto operador teórico
coligado à TAR – assume destaque na análise de incursões empíricas,
principalmente aquelas que envolvem estratégias de intervenção (uma
Pesquisa-Ação, por exemplo). Fica compreendido que essa perspectiva é viável
pelo fato de ser comum a alguns procedimentos metodológicos a integração de um
pesquisador a uma rede para estudá-la. Nesse movimento, o investigador pode
observar, afetar e ser afetado, rastrear e descrever performatividades que
modelam uma realidade situada. Entende-se, portanto, que esse constructo
favorece a percepção de agenciamentos e a captura de nuanças de uma experiência
pedagógica coletivamente construída e em investigação.
Mesmo assim, é
preciso ter em mente que a TAR não foi concebida no campo da Educação e que sua
aproximação dessa área exige abertura, deslocamentos metodológicos e novas
formas analíticas: tudo isso é desafiador! Partilhamos de Sørensen (2009) a percepção de que a pesquisa em Educação é marcada
por abordagens antropocêntricas, o que acaba por invisibilizar o quanto os
processos socioformativos são afetados pela materialidade não humana. O estudo
da TAR nos faz mais sensíveis a essa percepção, uma vez que não é possível produzir
educações sem os não humanos. Ao assumir o operador conceitual performance em uma investigação em
Educação, o pesquisador é instigado a rever sua postura, reconhecendo que o
ensino, a aprendizagem, as práticas, os saberes e os conhecimentos são afetações
forjadas em assembleias sociomateriais, que produzem realidades a serem
mapeadas e discutidas.
Por fim, destaca-se
que este trabalho também evoca uma rede, que busca no vocábulo performance uma forma de expressar o
faz-fazer acadêmico, atribuindo-lhe condições de existência. A definição de performance, aqui construída,
arregimenta aliados para amadurecer a temática, aprimorando-a e
substanciando-a. Este texto, como um produto da performance de um pesquisador ensaísta, também delineia uma
realidade, que passa a ser dividida com outros actantes. Assim, espera-se o
surgimento de novas translações socioeducativas. Ao recorrer à TAR como
plataforma de debate, esta produção passa a circular na esfera acadêmica como
um ator-rede, estando sempre sujeita às instabilidades e às impermanências das
associações onde se fizer presente e promover afetações.
Referências
Allain, L. R., & Coutinho, F. Â. (2018). Identidade docente enquanto
performatividade: Um estudo entre licenciandos em biologia inspirado na teoria
ator-rede. Pro-Posições, 29(3), 359-382. https://doi.org/10.1590/1980-6248-2015-0143
Barad, K. (2007).
Meeting the universe halfway. Duke University Press.
Callon, M.
(2008). Entrevista com
Michel Callon: Dos estudos de laboratório aos estudos de coletivos
heterogêneos, passando pelos gerenciamentos econômicos. Sociologias, 19,
302-321. https://doi.org/10.1590/S1517-45222008000100013
Coutinho, F. Â., Silva, A. P., Santiago, F. F., & Faria, E. S. de
(2017). As ontologias de um desastre ambiental. Um estudo sobre uma
controvérsia instaurada em uma licenciatura do campo. Investigações em
Ensino de Ciências, 22(1), 222-236. https://doi.org/10.22600/1518-8795.ienci2017v22n1p222
Coutinho, F. Â., & Viana, G. M. (2019). Alguns elementos da Teoria
Ator-Rede. Em F. Â. Coutinho, & G. M. Viana (Orgs.), Teoria Ator-Rede e
educação (pp. 17-33). Apris.
Freire, L. de L. (2006). Seguindo Bruno Latour: Notas para uma
antropologia simétrica. Comum, 11(26), 46-65. https://app.uff.br/riuff/bitstream/handle/1/12232/latour.pdf
Freire, L. de L. (2021). Humanos, não humanos… Ação! Considerações
sociológicas em torno de um programa de pesquisa. Em G. Alzamora, J. Ziller,
& F. Â. Coutinho (Orgs.), Dossiê Bruno Latour (pp. 113-135). Editora
da UFMG.
Freitas, A. P. da S., & Coutinho, F. Â. (2018). Performando um
espaço de reflexão sobre sistemas de conhecimento a partir de um debate:
Experiência em uma turma de licenciatura em educação do campo. Cadernos
CIMEAC, 8(1), 283-302. https://doi.org/10.18554/cimeac.v8i1.2832
Gee, J. P. (2000). Identity
as an Analytic Lens for Research in Education. Review of Research in
Education, 25, 99-125. https://doi.org/10.2307/1167322
Giddens, A.
(1984). The Constitution of Society. Polity Press.
Houaiss, A. (2009). Performance. Em Dicionário eletrônico Houaiss da
Língua Portuguesa. Editora Objetiva.
Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. Ed. 34.
Latour, B. (2000). Ciência em ação: Como seguir cientistas e
engenheiros sociedade afora. Editora da UNESP.
Latour, B. (2001). A esperança de Pandora. EDUSC.
Latour, B. (2012). Reagregando o social: Uma introdução à teoria do
Ator-Rede. EDUFBA.
Latour, B. (2015). Faturas/Fraturas: Da noção de rede à noção de vínculo
(T. Rifiotis, D. F. Petry, & J. Segata, Trads.). Ilha Revista de
Antropologia, 17(2), 123-146. https://doi.org/10.5007/2175-8034.2015v17n2p123
Law, J. (2002). Aircraft
Stories: Decentering the Object in Technoscience. Duke University Press.
Law, J. (2004). After
method: Mess in social science research. Routledge.
Law, J. (2007). Actor
Network Theory and material semiotics. http://heterogeneities.net/publications/Law2007ANTandMaterialSemiotics.pdf
Law, J. (2009). Collateral
Realities. http://www.heterogeneities.net/publications/Law2009CollateralRealities.pdf
Lemos, A. (2013). A comunicação das coisas: Teoria ator-rede e
cibercultura. Annablume.
Lemos, A. (2014). Mídia, tecnologia e educação: Atores, redes, objetos e
espaço. Em R. N. Linhares, C. Porto, & V. Freire (Orgs.), Mídia e
educação: Espaços e (co)relações de conhecimentos (pp. 11-28). EdUNIT. https://www.pe.senac.br/congresso/anais/2018/pdf/artigos-palestrantes/M%c3%addia,%20tecnologia%20e%20educa%c3%a7%c3%a3o_%20atores,%20redes,%20objetos%20e%20espa%c3%a7oTexto-%20Andre%20Lemos.pdf
Lima, M. R. de, & Nascimento, S. S. do (2021). Pensar e agir “fora
da caixa”: Jogo digital e produção de afetações pedagógicas na formação inicial
de professores. Ciência & Educação (Bauru), 27. https://doi.org/10.1590/1516-731320210048
Melo, M. de F. A. de Q. (2008). Mas de onde vem o Latour? Pesquisas e
Práticas Psicossociais, 2(2), 258-268. https://ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/revistalapip/queiroz_melo_artigo.pdf
Meneghetti, F. K. (2011). O que é um Ensaio-Teórico? Revista de
Administração Contemporânea, 15(2), 320-332. https://doi.org/10.1590/S1415-65552011000200010
Michaelis. (2022, maio 25). Performance. Moderno Dicionário
Inglês. https://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/busca/ingles-portugues-moderno/performance
Mol, A. (2008). Política ontológica: Algumas ideias e várias perguntas.
Em J. A. Nunes, & R. Roque (Orgs.), Objectos impuros: Experiências em
estudos sociais da ciência (pp. 63-78). Edições Afrontamento. https://pure.uva.nl/ws/files/899834/77537_310751.pdf
Moraes, M. O., & Arendt, R. J. J. (2013). Contribuições das
investigações de Annemarie Mol para a psicologia social. Psicologia em
Estudo, 18(2), 313-321. https://doi.org/10.1590/S1413-73722013000200012
Oliveira, K. E. de J., & Porto, C. de M. (2016). Educação e
teoria ator-rede: Fluxos heterogêneos e conexões híbridas. EDITUS.
Priberam. (2022). -Ivo. Priberam dicionário.
https://dicionario.priberam.org/-ivo
Quino. (1986). Le Club de Mafalda. Editions Glénat.
Ribeiro, P. T. de C., & Lima, M. R. de. (no prelo). Teoria Ator-Rede
e Educação: Uma revisão sistemática. Educação em Foco.
Schveitzer, L. F. (2016). Análise do sufixo -dade: São possíveis
alomorfias? uox - Revista Acadêmica de Letras-Português, 3,
59-64. https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/uox/article/view/1849/1024
Sørensen, E.
(2009). The Materiality of Learning: Technology and Knowledge in Educational
Practice. Cambridge University Press.
Venancio, B., Viana, G. M., & Silva, F. A. R. e (2020). Seguindo o
rastro do tempo: Um estudo ator-rede de performances de práticas de ensino de
licenciandos em ciências biológicas. ACTIO: Docência em Ciências, 5(3).
https://doi.org/10.3895/actio.v5n3.11915
Wikipédia. (2022, maio 25). Morfema. Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Morfema&oldid=59203359
[i] Doutor em Educação pela
Universidade Federal de Minas Gerais (2015). Professor Associado do
Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de São João
del-Rei.
[2] A ilustração de
Quino (1986, p. 22) está disponível no site
de Bruno Latour e pode ser acessada em: https://bit.ly/3gQM3T5. A imagem não foi
incorporada ao texto para assegurar direitos autorais. O diálogo que é apresentado
na ilustração foi traduzido de maneira livre ao longo do parágrafo e aparece
entre aspas.
[3] A busca realizada nos repositórios foi realizada em 01/03/2022 a
partir da string de busca ‘(performance)
AND (educação) AND (ator-rede)’ com filtros para publicações no formato de
artigos revisados por pares, dos últimos cinco anos e em Língua Portuguesa. A
escolha dessas bases de dados considerou a credibilidade acadêmica e a expressiva
quantidade de registros cadastrados.
[4] São eles: Link@ - Grupo de estudos e pesquisa em Cultura Digital,
Mídias e Educação http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/524658; Cogitamus - Educação e Humanidades Científicas http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/769782 e Gehbio - Grupo de Estudos e Pesquisas em Humanidades Biológicas
https://gehbio.com