Artigo
Institutos
Federais: vontade de universidade ou à vontade da universidade?
Institutos Federales: ¿voluntad de universidad
o a la voluntad de la universidad?
Federal Institutes: desire to be university or subjected
to the university?
Thiago Loureiro[i]
Universidade Federal de São Carlos
São Carlos, SP, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-5759-5936
Eduardo Pinto e Silva[ii]
Universidade Federal de São Carlos
São Carlos, SP, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-6017-0779
Contribuição na elaboração do texto: autor 1, pesquisa bibliográfica e empírica, construção e análise de dados, redação, consolidação; autor 2, orientação da pesquisa e da análise de dados, redação do resumo.
Recebido em: 04/11/2021
Aceito em: 09/02/2022
Publicado
em: 11/02/2022
Linhas
Críticas |
Periódico científico da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília,
Brasil
ISSN:
1516-4896 | e-ISSN: 1981-0431
Volume
28, 2022 (jan-dez).
http://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas
Referência completa (APA):
Loureiro, T., & Silva, E. P. (2022).
Institutos Federais: vontade de universidade ou à vontade da universidade? Linhas
Críticas, 28, e40626. https://doi.org/10.26512/lc28202240626
Link
alternativo:
https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/40626
Licença Creative Commons CC BY 4.0.
Resumo: O objetivo é caracterizar o campus São Carlos do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) e suas relações
com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Metodologicamente, cruzamos
análise de documentos com a de entrevistas realizadas com doze servidores.
Verificamos um elo político-partidário entre as instituições e os governos
municipal e federal. Apontamos para um atendimento tardio aos balizadores
normativos e prejuízo para a identidade do IFSP. Tais aspectos obliteram a
perspectiva de uma atuação em rede e reverberam em expectativas conflitantes
dos servidores.
Palavras-chave: Institutos Federais. Identidade. Política.
Resumen: El objetivo es caracterizar el campus São Carlos del
Instituto Federal de Educación, Ciencia y Tecnología de São Paulo (IFSP) y sus
relaciones con la Universidad Federal de São Carlos (UFSCar).
Metodológicamente, cruzamos el análisis de documentos con el de entrevistas
realizadas a doce servidores. Verificamos un vínculo político-partidista entre
las instituciones y los gobiernos municipal y federal. Señalamos una asistencia
tardía a las balizas normativas y daño a la identidad de lo IFSP. Dichos
aspectos dificultan la perspectiva de una actuación de una red y reverberan en
expectativas conflictivas de los servidores.
Palabras
clave: Institutos Federales. Identidad. Política.
Abstract: The objective is to characterize the São Carlos campus
of the Federal Institute of Education, Science and Technology of São Paulo
(IFSP) and its relations with the Federal University of São Carlos (UFSCar). Methodologically, we crossed the analysis of
documents with that of interviews carried out with twelve servers. We verified
a political-partisan link between the institutions and the municipal and
federal governments. We point to a late attendance to the normative beacons and
damage to the identity of the IFSP. Such aspects obliterate the perspective of
a network performance and reverberate in conflicting expectations of the
servers.
Keywords: Federal
Institutes. Identity. Policy.
Introdução
A Rede Federal
de Educação Profissional e Tecnológica (RFEPT) no Brasil esteve marcada por várias reestruturações e
reconfigurações em seus diferentes governos e momentos
históricos. No entanto,
a disputa sobre sua concepção e prática sempre esteve presente, expressa em uma
dualidade entre uma educação integral, politécnica,
e a de uma educação instrumental voltada para uma ocupação técnica e de
subsistência. A partir
do discurso de uma concepção
progressista de educação, a Lei n.º 11.892, de 29 de dezembro de
2008 (Brasil, 2008), inaugurou o modelo Instituto
Federal, concebido e implementado no Governo Lula. Nos últimos treze anos, o Brasil contou com sua mais
expressiva expansão no segmento da Educação Profissional
e Tecnológica (EPT), bem como da reestruturação de suas instituições, cuja maior atração,
sem dúvidas, foi a criação
dos Institutos Federais
(IFs).
O modelo IF,
enquanto novidade, está sujeito à reiteração e reconfiguração de distintas interpretações e disputas, o que
pode aprimorar o modelo, mas também apartá-lo de sua função profissionalizante original,
e assim, dificultar sua continuidade. Esta
compreensão já fora anunciada por seus propositores, na época de sua implementação (Pacheco et al., 2010), corroborada recentemente em um de
seus congressos (Loureiro, 2020), cujos profissionais e estudiosos ressaltaram suas fragilidades a partir de
considerações do Banco Mundial (BM, 2017), como o elevado custo para a formação
de um aluno nos IFs, ainda que contestadas por suas entidades
representativas (Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica [CONIF], 2017).
Outrossim, houve
esforços de seus gestores para a consolidação de sua atuação em Rede de modo a fortalecer uma identidade
institucional e mitigar incongruências nestas
instituições, e por conseguinte, o risco de sua descontinuidade. O respeito ao cumprimento dos balizadores de cursos
tornou-se emergencial, sobretudo a partir
de 2016, na ocasião da orientação expressa da Rede, e a modalidade de Ensino Médio Integrado (EMI), o “carro
chefe” dessas instituições (Loureiro, 2020).
Ainda a exemplo do que ocorreu com a Reestruturação e Expansão das Universidades
Federais (REUNI) nestas instituições, consideramos que a expansão tenha ocorrido de forma precarizada, como
nos sinalizam o Tribunal de Contas da União (Brasil, 2012), a partir da carência de servidores.
Compreendemos que os IFs estão inseridos em um campo de investigação caracterizado por uma série de discussões ideológicas e de
mudanças produtivas nas práticas e relações
da EPT, o que dificulta a constituição de uma identidade institucional (Moraes & Kipnis, 2017). A perspectiva da atuação em Rede é fundamental,
segundo seus propositores e alguns de seus gestores, tanto para a identidade do modelo, como para a sua consolidação (Pacheco et al., 2010;
Moraes, 2016). Assim, a despeito de uma vocação regional, algumas diretrizes
são norteadoras de suas atuações.
Existem, contudo, questões comuns, a despeito de particularidades. Destacamos, neste sentido, os balizadores da Rede, que preconiza
a oferta de 50% de cursos de Ensino Médio, preferencialmente de modo integrado, 20% de cursos de licenciaturas
e 30% de outros cursos, distribuídos entre bacharelados,
tecnologias, pós-graduação lato e stricto sensu e cursos de formação rápida (Brasil, 2008). Os balizadores,
são, portanto, as diretrizes basilares da atuação dessas
instituições.
Este estudo
versa sobre a identidade de uma das unidades do IFSP. Trata-se de um campus
que revelou particularidades em relação a outros campi que integram a RFEPT.
O enfoque que pretendemos demonstrar concentra-se em sua correlação política com segmentos incomuns a outros
institutos. Tal contexto foi engendrado no
momento de expansão da Rede, no qual o campus
manteve uma relação de alinhamento
político-partidário com governos Municipal e Federal, e ainda com a Universidade Federal de São Carlos, que o
alojou e foi sua principal parceira durante
quase dez anos. Respaldamos nossa consideração no fato de que dois ex-reitores da Universidade foram também ex-prefeitos do município, conforme
indicam documentos e matérias jornalísticas (Loureiro, 2020). Newton
Lima foi reitor da UFSCar entre 1992
e 1996 e prefeito do município entre 2001 e 2008. Oswaldo Batista Duarte Filho foi reitor da UFSCar entre 2000 e
2008 e prefeito do município entre 2009 e 2012. Ambos
filiados ao Partido
dos Trabalhadores (PT). Nos anos seguintes, houve uma mudança na
conjuntura política do município e da universidade.
Trata-se de um caso sui
generis, tendo em vista a sua excepcionalidade em uma Rede composta por 661 unidades
distribuídas em 38 IFs em todo o território nacional (Ministério da Educação [MEC], 2018), isto é, o único
instituto que esteve inserido no interior
de uma universidade por mais de uma década, tendo-a como sua principal parceira, ao invés do município, como ocorre
comumente em outros IFs. Nosso estudo objetivou, de modo geral, caracterizar o campus São Carlos do IFSP e demonstrar como tem sido construída a identidade da instituição e, especificamente,
como a influência de sua relação com a universidade a afeta. Para a consecução dos objetivos, foram analisados documentos referentes à legislação dos IFs, bem como dados institucionais, que foram cruzados
com questionários e entrevistas com servidores do IFSP São Carlos. A seguir, a apresentação de uma breve
explanação do histórico e da caracterização do IFSP São Carlos.
São Carlos está
localizada na região centro-leste do estado de São Paulo e é referência por sua pujante
produção acadêmica, sobretudo
ensejada por suas universidades
e empresas do ramo tecnológico. Trata-se do município com o maior índice relativo de doutores no país. Não
por acaso, o campus pesquisado possui
um corpo de servidores altamente
qualificado, na época com quarenta professores
doutores e trinta e sete mestres, um dos maiores índices nos IFs (Plataforma Nilo Peçanha,
2019). Essa configuração, somada ao histórico de cursos do campus, predominantemente superiores, corrobora o que Moraes (2016) denomina de “vontade de universidade” nos IFs que, em linhas gerais,
representa o direcionamento de oferta para cursos
superiores e a tentativa de implantação de um
modelo de pesquisa semelhante ao universitário. O modelo IF, apesar de ser uma autarquia federal como a universidade,
deve priorizar a educação básica, e se distingue desta pela verticalização entre diferentes níveis e modalidades de ensino, bem como pelas dinamizações do Arranjo Produtivo Local (Loureiro, 2020).
A partir da Portaria
n.º 1.008, de 29 de outubro de 2007 (MEC, 2007), foi autorizado
o funcionamento do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) São Carlos, iniciativa do prefeito Newton
Lima, do PT, com vistas
a atender demandas do polo aeronáutico no nível tecnológico. O curso que inaugurou o CEFET São Carlos, no entanto, foi o de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas,
o que acreditamos que tenha ocorrido por burocracias de órgãos, como a Agência Nacional de Aviação Civil. A partir
da promulgação da lei 11.892 (Brasil, 2008),
com cerca de um semestre de existência, o CEFET São Carlos tornou-se um campus do
IFSP. A Figura 1 apresenta o histórico de cursos do IFSP São Carlos.
Figura 1
Histórico de cursos no IFSP São Carlos

Fonte: Loureiro
(2020, p. 231).
O campus teve uma trajetória influenciada
pelos interesses de desenvolvimento tecnológico, pesquisa
acadêmica e ensino
superior, conforme relatos
dos entrevistados, apresentados na seção IFSP São Carlos: vontade de universidade ou à
vontade da universidade? Contudo destacamos alguns incidentes críticos
que reconfiguraram a sua trajetória
inicial.
Desde a sua
criação, enquanto CEFET, o campus São
Carlos foi planejado para comportar dois eixos tecnológicos: a Indústria e a Informática. Campus este
concebido a partir de uma forte presença
política municipal e da UFSCar,
conforme indicam matérias jornalísticas (Loureiro,
2020) e documentos institucionais, como o
Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI)(IFSP, 2017) e o Projeto Político Pedagógico (PPP)(IFSP, 2015). Em uma linha
temporal, esta seria a “primeira identidade” do IFSP São Carlos, com
vocação tecnológica aliada aos interesses de
pesquisa e de ensino superior fomentados por uma proximidade física,
política e simbólica com a UFSCar e o Poder Público Municipal.
Nesse ínterim,
a partir dos perfis de alguns docentes
no campus, somado ao contexto político
organizacional e a acirradas disputas,
tanto na Reitoria
da UFSCar e na Prefeitura, como internas, e com uma nova direção
do campus (gestão 2013-2016), nasceu o terceiro
eixo tecnológico, a Gestão, que até o momento atual concentra o menor número de docentes.
A partir de então, o campus São Carlos foi reorganizado em três eixos, com
destaque para cursos tecnológicos, isso tudo
ainda no período do seu funcionamento no interior da UFSCar, e não em sede própria.
O viés voltado ao ensino
superior permaneceu.
Neste
contexto, disputas foram travadas para a obtenção de vagas docentes que, de acordo com esse estudo, revelaram-se
contornadas por uma hierarquia interna. O
IFSP São Carlos, até o momento de consolidação do eixo da Gestão junto aos dois eixos anteriores, foi planejado e
modelado para atender às perspectivas político- pedagógicas destes eixos, e portanto, com um quantitativo (e
qualitativo) docente que compreendemos que inviabilizaria a atuação com alguns níveis e/ou modalidades de ensino, como por exemplo
a licenciatura, a formação de professores e o EMI. Com o nascimento do eixo, foram
efetivados, em 2013,
o Curso Superior
em Tecnologia em Processos Gerenciais, e em 2015, o Curso
Técnico de Qualidade. Aqui, consideramos a primeira transição estrutural do campus, ou em outras
palavras, um incidente crítico do histórico do IFSP São Carlos.
Compreendemos que essas características organizacionais de implantação e desenvolvimento,
permeadas por questões políticas (internas e externas), podem desviá-lo de suas premissas e configurar
paradoxos de sua identidade híbrida e relativamente
sui generis. Ou ainda, que não seria
razoável, e em certa medida conflitivo,
pensar uma instituição de educação profissional com certa ênfase no ensino superior, em município e região
internacionalmente reconhecidos neste segmento, por meio de suas renomadas universidades
estaduais e federal.
Apesar de
existirem as normativas da Rede, apenas a partir de 2016 houve a orientação expressa de atendimento aos
balizadores de cursos, fato que dava aos campi a possibilidade de legislarem em causa própria,
por intermédio da intencionalidade de seus servidores. Com a determinação top-down da
RFEPT, e por conseguinte da reitoria do IFSP
(Loureiro, 2020), o campus São Carlos
teve que se readequar,
desconsiderando a vontade e as expectativas de parte expressiva de seu corpo docente,
conforme inferimos das entrevistas. Nesse contexto, é efetivado, em 2016, o chamado Núcleo Comum (NC) e seu contingente docente.
Esse período
representa a demarcação de um choque cultural e identitário no campus
onde, de um lado, existem os professores veteranos das áreas técnicas/ tecnológicas que, em maior parte, defendem
que o IFSP São Carlos possui uma estrutura modelada
para atender, prioritária ou adequadamente, à educação tecnológica, e de outro
lado, o expressivo contingente docente
das chamadas áreas propedêuticas que demonstraram acreditar
que a instituição deve atender tanto
o ensino tecnológico, como o ensino técnico, especialmente na modalidade integrada, mais próxima, portanto,
das diretrizes conceptivas da Rede.
O ingresso do
grupo de professores do NC foi complexo, vieram a contragosto para uma instituição que prezava por seu perfil
tecnológico, coexistente às expectativas acadêmicas
e de pesquisa de parte de seus docentes, cuja UFSCar era referência significativa. Com a coesão e o fortalecimento deste grupo, doravante
o protagonismo em instâncias
deliberativas, foi criado um curso de especialização voltado à formação de professores, constituído integralmente por
docentes do NC, que “supre” a lacuna
de licenciaturas (Loureiro, 2020), calcanhar de Aquiles no campus.
Observamos um choque cultural, sobretudo a partir do protagonismo de docentes
das humanidades, o que tem ressignificado valores
e posturas amalgamados e metamorfoseado a identidade do IFSP São Carlos. Alguns professores
veteranos relataram mudar a visão da instituição e até mesmo a forma de lidar com alunos, com base nas
experiências compartilhadas com este grupo docente (Loureiro, 2020).
A
transição de identidade foi fortalecida com a posterior mudança do campus para sua sede própria,
em área pertencente à UFSCar,
mas desta relativamente desmembrada, em novembro de 2016. Assim, servidores, veteranos e
novatos, e
alunos passaram a conviver em um novo espaço e com uma nova configuração
que vem a atender ao balizador do EMI
e que muda, substancialmente, a estrutura e a
identidade do campus, o que o
torna, a partir de então, com uma identidade mais próxima daquilo que as diretrizes propõem, especialmente depois do recém- implementado
curso de formação de professores na modalidade especialização. Constatamos o que denominamos de “segunda identidade” em construção, oportunizada por outros dois incidentes críticos,
quase concomitantes e coincidentes: a mudança para o novo prédio e a efetivação do EMI.
O histórico
e a caracterização do campus nos
levam a questionar sobre sua condição, influências de seu elo político-partidário original
e desdobramentos subsequentes, especialmente a partir das impressões de seus servidores, com distintas biografias
e vivências na instituição. Deste modo, foi realizado um estudo de caso (Yin, 2015) no IFSP São Carlos em
que recorremos a reportagens sobre a instituição e sua intrínseca correlação político-partidária com a gestão do município
na época de sua implementação, a documentos do Ministério da Educação
e Cultura, dados objetivos institucionais, como PDI (IFSP, 2017) e PPP (IFSP, 2015), que cruzamos com questionários e entrevistas realizados com servidores da instituição. A seguir, será apresentado o método da pesquisa.
Para a
obtenção dos dados, foi aplicado um questionário a todo o corpo docente do IFSP São Carlos,
composto por noventa
e cinco professores, entre efetivos
e substitutos. Tivemos
trinta e três respondentes e realizamos doze entrevistas semiestruturadas, sendo dez com professores e duas com servidores técnico-administrativos (TAEs). Entre os professores, buscamos contemplar todos os
eixos tecnológicos do campus.
O Quadro 1 apresenta o perfil dos profissionais entrevistados.
Quadro 1
Breve apresentação dos servidores entrevistados
|
Servidores |
Área/Eixo |
Ano de Ingresso no
IFSP* |
Titulação |
|
P1 |
Núcleo Comum |
2016/2017 |
Mestrado |
|
P2 |
Núcleo Comum |
2014/2016 |
Mestrado |
|
P3 |
Informática |
2011 |
Pós-Doutorado |
|
P4 |
Gestão |
2015 |
Doutorado |
|
P5 |
Gestão |
2011 |
Doutorado |
|
P6 |
Indústria |
2013 |
Mestrado |
|
P7 |
Núcleo Comum |
2010/2016 |
Doutorado |
|
P8 |
Núcleo Comum |
2013/2015/2016 |
Doutorado |
|
P9 |
Indústria |
2012 |
Doutorado |
|
P10 |
Informática |
2012 |
Doutorado |
|
T1 |
Administrativa |
2013 |
Graduação |
|
T2 |
Administrativa |
2013 |
Graduação |
*
Para profissionais que atuaram em mais de uma unidade do IFSP, estão indicadas
as respectivas datas de ingresso em cada campus.
Fonte: os autores.
Optamos por um
maior número de professores do NC devido às suas experiências pregressas no IFSP, pretéritas ao atual campus de atuação. Esta perspectiva possibilitou um olhar aprimorado desses sujeitos sobre a instituição e maior acurácia no que a diferencia de outros campi. Quanto aos aspectos éticos,
submetemos o projeto de pesquisa para a apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da UFSCar,
aprovado sob o parecer número 2.251.111 em
31 de agosto de 2017, Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n.º 72789317.1.0000.5504. Garantiu-se o
cuidado com o sigilo dos participantes e foram
adotados códigos para identificá-los: utilizamos P1, para o Professor 1; T1 para o Técnico-Administrativo 1; e assim sucessivamente.
Utilizamos um
questionário com 33 questões fechadas no intuito de apreender o perfil dos professores e os indicadores que apontassem, neste recorte, suas percepções
acerca da identidade do IFSP em que atuam. Neste sentido, questões que abarcaram o perfil do professor do
IFSP São Carlos e sua atuação profissional (tipo
de formação profissional/propedêutica), eixo tecnológico que está vinculado, distribuição da carga horária e suas
impressões acerca de questões institucionais
(como a efetividade do modelo IF na prática, estrutura, missão, entre
outros), assim como elementos
constituintes da organização do trabalho e seus possíveis desdobramentos nas vivências desses sujeitos.
Ainda para a
construção dos dados a partir de entrevistas, optamos pelo modelo semiestruturado. Foi elaborado um roteiro com o tema geral trabalho, subjetividade e identidade, e
subtemas, como as percepções sobre o modelo IF, os aspectos organizacionais e a correlação UFSCar-IFSP. As
análises das entrevistas foram feitas
à luz da análise de conteúdo (Bardin, 2016). Para o tratamento e a análise
dos dados, seguimos
as principais etapas organizativas da análise do conteúdo (leitura
flutuante; sistematização e categorização/recategorização; inferência; interpretação). Amparados no que foi exposto nesta seção, apresentamos a seguir a discussão dos
resultados encontrados.
IFSP São Carlos: vontade de universidade ou à vontade da universidade?
Nosso estudo
indica que não há outros campi no
âmbito dos IFs cuja instalação esteja no interior de universidades, exceto o recente caso em
Sorocaba, com outro campus da mesma universidade. As
parcerias, propostas nos documentos oficiais,
comumente são pactuadas
com os municípios onde estas instituições estão localizadas. Tal contexto ensejou
dinâmicas que se revelaram influentes na identidade do campus. Confirmamos que existem aspectos
positivos da relação IFSP-Universidade, como por
exemplo a utilização de espaços
na universidade pelos profissionais e alunos do IFSP,
cuja estrutura jamais comportaria a dimensão
de uma universidade pública. Possíveis
parcerias interinstitucionais entre grupos de pesquisas
também podem ser muito proveitosas para ambas as instituições. Ainda a possibilidade da convergência, senão otimização orçamentária entre duas instituições federais, foi mencionada por P4, P5, P6 e P7.
Neste sentido,
a utilização do restaurante universitário e de laboratórios da universidade pelos servidores
e alunos do IFSP. No entanto, a predominância nos discursos dos entrevistados esboçou um contexto
adversante desta relação.
Destacamos três aspectos recorrentes entre a maior parte dos
entrevistados da relação IFSP-UFSCar:
a fragilidade da parceria político-partidária, ocasionada pelas mudanças de gestão da universidade e do
município e seus desdobramentos; o prejuízo para a identidade da instituição, especialmente pela imiscuição dos objetivos e interesses das duas
instituições e como reverberam em servidores e
alunos; e o atendimento tardio e prejudicado aos balizadores normativos.
São Carlos atendia apenas a 32,1% nos
indicadores de cursos técnicos por campus,
um dos mais baixos do Estado
(Plataforma Nilo Peçanha, 2019). Doravante, recorremos a alguns relatos
emblemáticos dos entrevistados que sustentam nossas análises.
P2 apontou
críticas à localização do campus do
IFSP no interior da UFSCar, pois diferentemente
dos outros campi do IFSP, o campus de São Carlos não estabeleceu uma parceria com a prefeitura do município, mas com a
universidade, a partir da convergência político-partidária entre as
instituições.
O campus daqui tem essa natureza
muito intrínseca com a UFSCar e isso já foi diferente
de todas as outras instituições. Ao invés de fazer uma parceria com a cidade, há uma parceria com o campus da UFSCar, onde Newton Lima
(ex-reitor) era prefeito e Barba era
reitor. Então, cedeu um pedaço do campus.
Na minha opinião, isso já não começou
bem porque não começou igual aos outros e propiciou tipos de fala “mas foi prometido
que o campus São Carlos seria
diferente”. (P2)
O município
contou com dois prefeitos que foram reitores da UFSCar. As parcerias foram fragilizadas a partir de 2013, com a
eleição de Paulo Altomani para a prefeitura, filiado ao Partido
da Social Democracia Brasileira (PSDB), e posteriormente,
com a eleição e reeleição de Airton Garcia, pelo Partido Social Liberal (PSL). De acordo com relatos, a
maior fragilização, contudo, se deu quando Wanda Hoffmann[3] assumiu a reitoria da Universidade
em 2016.
Segundo relato
do entrevistado, houve
uma promessa do IFSP São Carlos de ser mais afinado ao perfil de universidade,
ensejado pelas condutas personalistas da gestão
inicial do campus e liderança de Lima
(PT), o que prejudicaria enxergar-se como instituição.
Um dos efeitos
mais emblemáticos dessa relação de dependência com a UFSCar é a atual localização do campus, que está em área cedida pela universidade, apontado pela maioria dos entrevistados como um
aspecto deletério para a instituição, tanto
por reforçar sua dependência, como por seu distanciamento dos fluxos urbanos
e demais escolas, equipamentos públicos e instituições do município. As mudanças de gestão, inerentes às recomposições,
senão fragilidades de parcerias políticas internas
e externas, de acordo com as percepções dos entrevistados, envolvem aspectos como reconfigurações da
utilização de espaços e de recursos e cisão política.
No caso do acesso precário, há um entendimento que indica a falta de apoio do Poder Público Municipal. Com a mudança
de reitoria universitária, algumas contas que eram custeadas por esta tiveram que ser
assumidas pelo IFSP, bem como a
descontinuidade na utilização da biblioteca, de laboratórios e até do convênio com o restaurante, aspectos que
afetam a dinâmica institucional e os sujeitos que a compõem (Loureiro, 2020), conforme
indicam os relatos seguintes.
Esse acordo foi controverso, porque o que parecia ser uma situação
ideal, acabou se tornando uma
situação assim terrível pra gente! […] Nossa quadra não é coberta e não temos refeitório. Muitos alunos almoçam
sentados no chão no prédio, isso é uma cena que me incomoda demais […]. Nós não temos um anfiteatro. (P8)
Aquela
ideia de se instalar uma unidade federal no interior de outra era a de poder compartilhar recursos públicos. Essa ideia
não se manteve por conta da mudança de gestão da universidade. Não podemos mais contar com a ideia de compartilhar equipamentos que nós não temos. Nós não temos um auditório,
então por que que não foi previsto
construir um auditório no campus?
Porque a universidade tem vários, então não
fazia sentido na época de planejamento do campus
investir um recurso público na construção de um auditório
se a universidade tem vários e poderia
ser feito o compartilhamento
desses espaços. E hoje em dia não ter um auditório, isso faz muita falta. (P7)
Segundo o
relato de T1, a ausência de um anfiteatro no IFSP São Carlos leva os alunos a realizarem a sessão solene de
colação de grau na UFSCar. Para o servidor,
essa mescla institucional é emblemática do ponto de vista identitário.
O golpe de
2016 representou o declínio do petismo, berço do modelo conceptivo dos IFs, e a
assunção de uma agenda conservadora e privatista. Isso culminou na fragilização dos IFs, sobretudo pela restrição orçamentária e pelo contingenciamento
de recursos. Esse contexto ainda coincidiu com a mudança de reitoria da universidade, esta não
vinculada ao PT como seus últimos antecessores, que foi apontada como principal aspecto da mudança na tônica da
relação IFSP- UFSCar.
Além
disso dificultar a identidade do IF, o fato de estar dentro da UFSCar, foi uma parceria política que na ocasião o reitor
da UFSCar era membro do PT e esta parceria foi feita num acordo, e este acordo, por incrível que pareça, tinha prazo de validade. E essa
validade venceu e ele não foi renovado. (P8)
Sobre o
aspecto do “orçamento comum” (federal), concordamos com os relatos de P4, P5, P6 e de P7 (Loureiro, 2020) acerca
da utilização da infraestrutura já instalada
na UFSCar por profissionais e alunos do IFSP, justificado, inclusive, em documentos institucionais do IFSP (2015; 2017).
O
funcionamento do IFSP São Carlos “tem se dado por meio de uma parceria para a utilização racional de recursos materiais
da Universidade Federal de São Carlos, da Prefeitura de São Carlos
e o CEFET” (IFSP, 2015,
p. 32).
No entanto não
podemos perder de vista que são instituições distintas e que se trata de uma exceção, quando consideramos
a realidade nacional dos IFs e a questão orçamentária para a educação
pública, tão fragilizada. Acreditamos que para
melhor discutir essa “parceria”, suas possibilidades e limites, seria
necessário acessar documentos e depoimentos dos protagonistas envolvidos à época. Consideramos esta questão, portanto, como
uma limitação do nosso estudo. O que pudemos comprovar
neste meandro foi a mudança
da relação entre IFSP- Universidade com a mudança de reitoria da
UFSCar, o que culminou em muitos desacordos, conflitos
e constrangimentos. Entre os relatos,
destacamos o ressentimento dos servidores face à
indisposição da nova reitoria da universidade
em cumprir os acordos pactuados, tendo em vista que o IFSP foi privado
de alguns espaços (Loureiro, 2020).
Ao mencionar a
cultura organizacional das universidades, as entrevistadas P1 e P4 reforçam nossa premissa de que o IFSP São
Carlos é um campus notadamente com cultura
universitária. Na perspectiva das professoras, o maior impacto
dessa parceria seria no aspecto
da identidade da instituição, já que, não raro, tanto profissionais como alunos do IFSP eram confundidos com os da
UFSCar. “Nossos alunos falavam que estudavam na UFSCar” (P4).
A nossa presença na UFSCar era algo muito confuso para a nossa
identidade enquanto IF. Tinham alunos do IF que usavam uniforme
da UFSCar. Eles achavam que eram alunos
da UFSCar! Eu procurava conversar com os alunos sobre isso, mas havia
uma relutância de poucos
professores em quebrar
isso. Para mim era muito estranho. (P1)
Ainda sobre a
identidade dos IFs de um modo geral, já sabemos
tratar-se de um elemento complexo,
tema recorrente em eventos acadêmico-científicos entre seus atores. No caso de São Carlos, esta
complexidade se amplifica e ganha contornos particulares, já que o IFSP possui
um cordão umbilical
com a “progenitora” UFSCar, o que gera relações de dependência, senão
de subserviência, seja para a utilização de salas de aula, auditório para eventos, restaurante universitário, seja pela relativa invisibilidade do campus. Essas relações
constituem motivo de “estranhamento” para T1 e de
“incômodo” para P1.
Eu sentia assim, que éramos um incômodo para a UFSCar, pois
queríamos expandir algumas coisas e
não tinha sala, era uma disputa por espaço. (P1)
O IFSP foi um pouco tirado da UFSCar. Para a UFSCar, a gente estava
lá atrapalhando, nesses termos,
atrapalhando! Então, eu sinto, por mais que a gente esteja em uma área da UFSCar, a gente foi expulso de lá de
dentro! (T1)
Vale ressaltar
que P3 sugeriu que colhêssemos depoimentos de servidores que já tivessem atuado em mais de um campus dos IFs.
Essa comparação, a partir de experiências
noutros locais onde inexiste o vínculo com a universidade, poderia ampliar a compreensão sobre nosso objeto
de estudo, além de reforçar nosso argumento
da influência da UFSCar sobre a identidade e a dinâmica organizacional do IFSP São Carlos. P1, P2, P7 e P8 são
professores que já atuaram em mais de um campus. Enquanto para P1 ocorrem
incômodo e certo estranhamento, P2 identifica
um possível argumento desta “diferenciação” do campus São Carlos,
tendo em vista que lhe foi “prometido que seria diferente”, comprometido com cursos
superiores e pesquisa
nos moldes do modelo universitário. P7 e P8 também apontaram influências dessa parceria para
o IFSP São Carlos, onde destacamos o relato
de P8 sobre a (con)fusão, não casual, em trabalhar na
“Federal”. Essas são as narrativas predominantes nos discursos, o que nos leva a entender o distanciamento
do IFSP São Carlos da perspectiva de uma atuação em Rede, tão cara à
RFEPT.
Quando alguém pergunta para um aluno, onde você estuda? Ai, eu
estudo na UFSCar! Pois existe o status de estudar em uma instituição que
já tem 50 anos na cidade, reconhecida
internacionalmente. Os professores também gostam desse status, de dar aula na
UFSCar. Era muito comum ouvir isso no discurso, aí onde você trabalha? Ah, na UFSCar,
num instituto que é dentro da UFSCar. A referência faz com que estas identidades se mesclem. E toda a questão
do status da instituição, de isso
tudo se misturar propositalmente, por
parte dos servidores e de alunos, num fortalecimento deste discurso. (P8)
Ainda sobre a
possibilidade de o campus ser fora da
área cedida pela UFSCar, o relato de T1 revela um aspecto
muito interessante: a possível estratégia da universidade para facilitar a sua expansão.
A principal interessada em tirar o IFSP da UFSCar era a própria
UFSCar! A UFSCar começou a construção
de um Centro de Convenções, cuja obra está parada, e um Biotério. Então, olha só, a estratégia da UFSCar: vamos jogar o
IFSP lá no meio do mato, eles que
briguem com a Prefeitura pra conseguir acesso e aí, a partir disso a gente pode expandir a UFSCar pra lá. Eu
vejo a nossa saída e vinda pra esse local como
nada aleatória. Acho que foi estratégico para a UFSCar pensando na
expansão, já que isso não é tão simples, não pode abrir
qualquer coisa em qualquer lugar.
(T1)
Outro aspecto
que emergiu em nossa pesquisa foi a atual localização do campus, desde 2016, em
uma área do cerrado no final da UFSCar. É um local afastado do fluxo urbano da cidade e de difícil
acesso, fato reiterado
por todos os servidores
entrevistados. A entrevistada P5 disse o seguinte: “Olha onde nós estamos, você
já viu o transporte público pra
chegar aqui? Só aí já fecha a discussão. Aqui não é o melhor lugar para um campus. Essas coisas são políticas”. Para P4, a atual localização do IFSP é de difícil acesso e
especialmente perigoso por ofertar cursos noturnos e ter que lidar com grupos mais vulneráveis, como mulheres e adolescentes.
Destacamos a realidade de T2, uma mulher que, assim como P4, não possui veículo próprio, depende do
transporte público e/ou privado. O ônibus do
IFSP/UFSCar possui a mesma linha urbana, faz a primeira parada na
UFSCar, para depois contornar
a universidade e seguir para o IFSP. O acesso interno é impossibilitado
por conta da área do cerrado. Não raro, T2 não consegue pegar o ônibus para o IFSP/UFSCar em seu horário
matutino, tendo em vista que está sempre lotado com o público da Universidade.
Eu
trabalho até a noite. Volto de bicicleta pelo cerrado no escuro. Além dos
animais como cobra, aranha, onça, eu
tenho muito medo de pessoas que possam estar ali. Antes, eu trabalhava até o último horário, então eu vinha de
ônibus, apenas eu e o motorista do
ônibus na calada da noite, um homem, e eu me sentia muito insegura, imagine, passar por todo esse espaço vazio
até chegar em algum lugar, eu vinha morrendo
de medo todas as vezes, mesmo estando no ônibus. […] Mesmo que seja de dia, no meio do cerrado não tem ninguém,
se tiver alguém, você pode gritar, fazer o que você quiser que ninguém vai te ouvir. É
uma situação estressante. (T2)
Trata-se de um
caso grave de recorrentes exposições de uma trabalhadora a riscos de diferentes naturezas, dada a
localização do campus em área isolada, com acesso
precário e dificultado pela indisponibilidade do transporte público ao IFSP. Colhemos relatos de apenas alguns casos a
este respeito. A relevância da questão, certamente,
abre possibilidades para outras investigações com maiores amplitudes a todos os usuários da instituição.
Conforme
discorremos durante esse estudo, apontamos para a influência que a UFSCar exerce sobre o IFSP São Carlos. Tal
influência alcança dimensões como a adesão
sindical do professorado a uma entidade historicamente representativa dos docentes da UFSCar, e o próprio transporte
público, que por conta do “trajeto comum”
pode inviabilizar o acesso para alunos, servidores e comunidade que busquem o IFSP (Loureiro, 2020). Assim,
até no trajeto/transporte, o IFSP funde-se à UFSCar.
O acesso
dificultoso e precário do campus, na
compreensão de P6, mantém relação com
a falta de apoio do Poder Público Municipal. Para o professor, a falta de iluminação no acesso já acarretou quedas
de motos e até capotamento de um carro.
É muito problemático o acesso, quando chove alaga. O aluno que
precisa ter acesso a pé ou de bicicleta
ele corre riscos, porque tem curvas ali. Não tem uma calçada,
não tem acostamento. Mesmo com iluminação, é escuro. Estamos escondidos
dentro da UFSCar. Estamos escondidos na cidade. (P8)
Quando
questionados acerca da existência de outro campus
do IFSP instalado nas dependências de outro campus da UFSCar, a maior parte dos entrevistados mostrou-se surpresa. Entre estes, o relato de P2, que demonstrou
a existência de alianças políticas
ainda mais extensas entre os atores das duas instituições.
Não, eu não sabia. Então, aí você vê que tem uma coisa assim,
estranha. O Newton Lima (ex-reitor, ex-prefeito e ex-deputado federal) é assessor
do Modena, o reitor atual
do IFSP, então, com certeza eles têm um laço. (P2)
Para T2, a
ausência de parceria do IFSP São Carlos com o município é a razão de algumas dessas fragilidades e dificuldades
neste contexto, o que vai ao encontro das visões
de P2 e P5, já apontadas nessa seção.
O aspecto,
porém, que consideramos essencial a destacar
é a oferta (ou o constrangimento) de cursos no IFSP São Carlos. Conforme
consta em lei, os institutos possuem um balizador, o 50/20/30, respectivamente, em: cursos técnicos; licenciaturas e formação de
professores; e, tecnologias, bacharelados e cursos
de pós-graduação. Trouxemos os relatos de alguns entrevistados para tentar clarificar esta questão. Para P5, por
exemplo, “a formação do campus não
permite pensar em licenciatura”. Tal
argumento revela o quanto o IFSP São Carlos, desde a sua criação, se amolda à vontade da universidade, tal qual é
incitado no desejo e na vontade
docente, ao mesmo tempo em que o desvia de sua natureza
conceptiva.
Com a maior parte das licenciaturas que estão sendo oferecidas na
UFSCar, seria inviável oferecermos. Ofertar
licenciatura em matemática, concorre com a UFSCar. Uma licenciatura em línguas, concorre com a UFSCar, então, não
tem muitas opções. E se você for pra
algo muito diferente, mesmo tendo aqui história, ciências, você tem que ter um núcleo estruturado pra esse
tipo de licenciatura que compete com os setenta docentes que estão distribuídos em três áreas. (P5)
Os relatos de
P4 convergem com a visão apontada por P5, de que a questão colocada
é o Termo de Parceria
que impede a concorrência com os cursos ofertados
pela universidade, assim como pela questão estrutural, cujo número máximo de professores limita que se possa
ofertar cursos que não estejam ligados aos três eixos em questão.
Na hora de você construir o corpo docente, existe uma limitação. O
máximo que cada campus pode ter são setenta. E essa discussão é feita, baseada nos
eixos tecnológicos, onde se faz uma
consulta pública e atenda o Arranjo Produtivo Local. Nós não temos licenciaturas, porque quando nós fomos
fundados, isso se deu no interior da UFSCar e
foi feito um Termo de Parceria entre a UFSCar e o IF. E uma das condições era a de que
os cursos ofertados pelo IF não poderiam ser os mesmos ofertados pela UFSCar.
Isso nos limita muito. (P4)
O depoimento
de P4 levanta outro aspecto relacionado a esta determinação do balizador, a criação da Especialização de Educação em Ciência,
Tecnologia e Sociedade, ofertada recentemente pelo IFSP São Carlos, como
forma de “suprir essa lacuna” da
ausência de licenciaturas no campus.
O relato de P6 e P7 também apontam o
curso de especialização, contudo, a partir de perspectivas distintas. Tanto para P6 como para P4, a oferta dessa
especialização foi ensejada pela limitação que a parceria
com a universidade coloca. Para P4, para “suprir a lacuna”
da licenciatura. Já para P6, a ausência de licenciaturas se dá pela questão da oferta/demanda, materializada na utilização racional
dos recursos.
Então, hoje não atendemos esse balizador de 20% por conta dessa questão de construção
pelos profissionais do campus. Já
tivemos até problemas internos com outros campi, pois é questionado. Por que São Carlos não atende a Licenciatura? E nossa
dificuldade, dado o Termo de Parceria, nos limita. Não podemos, por exemplo, ofertar uma licenciatura em matemática.
Poderíamos, mas gera concorrência com a UFSCar.
Para tentar “suprir” essa lacuna, em troca, a gente criou uma Especialização de Educação em Ciência, Tecnologia e
Sociedade, recente, que vai trabalhar com Formação de Professores. (P4)
Ou ainda como P2 compreende essa relação (limitante) entre as instituições:
[…] talvez tenha sido feito algum acordo, a gente engole o EMI, mas
não ofertaremos licenciatura, não
sei, ou vai ter a graduação que a gente quer, enfim, eu não sei nada porque
eu não participei dessa discussão, na época. (P2)
Assim informalmente, a conversa inicial de ter o IF dentro da
UFSCar foi que o IF não criasse cursos que fossem
concorrentes, até por uma questão
lógica. Seria muita irresponsabilidade
criar um curso de licenciatura em educação, se temos um curso de licenciatura em educação aqui. Se temos
pedagogia. Então, esse foi um acordo inicial,
não sei se foi formalizado ou não, mas se fala muito. Hoje nós temos uma especialização que é justamente para a formação
de professor. (P6)
Ainda para P7,
não se trata de ofertar ou não a licenciatura pela concorrência, mas:
A legislação não diz especificamente que deve ser licenciatura, mas
que deve ser formação de professores,
e aí a gente na verdade contribuiria para ter uma rede pública de oferta de formação
de professores em diversos níveis.
(P7)
Pela quantidade de professores formados aqui havia uma demanda
grande em pós-graduação em um nível intermediário entre a graduação
e o mestrado e de fato a gente conseguiu atender. […] entendemos que estamos contribuindo para formar e qualificar de forma bastante positiva
profissionais no campo da educação, muito mais
do que se estivéssemos ofertando uma licenciatura. E tem outra questão,
não temos uma força de trabalho
suficiente para abrir uma licenciatura. […] o corpo docente que a gente tem do NC está ocupado com o EM e
outros cursos, Física, Matemática e Letras trabalham em outros cursos
além do EM e os demais professores ou estão com sua carga horária bastante tomada pelos
cursos de EM ou o que sobra de carga horária não é suficiente para ofertar
um curso de licenciatura. (P7)
Ao consultar a
Plataforma Nilo Peçanha a partir do ano base de 2018, constatamos que, no IFSP, vinte e oito campi ofertam licenciatura, totalizando cinquenta
e cinco cursos. Ao considerar
seus trinta e sete campi, verificamos
que nove não ofertavam cursos
de licenciatura, o que representa um percentual de 24,32% (Plataforma Nilo Peçanha, 2019). Como
podemos verificar nas percepções dos professores,
a não oferta de licenciaturas no campus está
associada a aspectos que perpassam desde a utilização racional dos recursos,
o cumprimento da lei/ balizadores ao ofertar um curso de formação
de professores, ainda que na pós-graduação, e o cumprimento do Termo de Parceria pactuado
com a UFSCar, presente no PDI do IFSP,
publicado em 2017.
[…] o campus São Carlos,
em decorrência de seus eixos tecnológicos de atuação, sua proximidade com a Universidade Federal de
São Carlos, bem como seu quantitativo de força de trabalho docente,
não irá ofertar neste momento,
curso de licenciatura. (IFSP, 2017, pp. 88-89)
Esse contexto deriva
um incidente crítico na instituição que, assim como nas demais unidades, teve que acatar,
“a fórceps”, a determinação da Rede em ofertar o EMI que, a reboque, trouxe, em 2016, um
expressivo contingente docente de áreas propedêuticas, fato que tem afetado a identidade do campus,
já comprometida por sua
relação intrínseca com a UFSCar e histórico de seus reitores com o Partido dos Trabalhadores,
metamorfoseando-a e aproximando-a do que a Rede
preconiza, a despeito do choque cultural na instituição (Loureiro, 2020) e sob a existência de expectativas
contraditórias e conflitantes de docentes de distintas áreas e eixos de
atuação neste IFSP.
Apontamos nesse
estudo algumas características e especificidades do IFSP São Carlos e de sua relação com a UFSCar. Por
meio da percepção dos servidores do campus,
compreendemos que o IFSP São Carlos tem apresentado algumas
rupturas e continuidades identitárias, desde a sua implantação, em 2008. E a relação
intrínseca com a UFSCar tem sido influente e constitutiva nessas
identidades, seja pela dependência espacial/física, seja pela oferta/não oferta
de um ou outro nível e/ou modalidade de educação,
ou ainda por sua “desvinculação” e atual configuração em seu “prédio próprio”, em
área cedida pela universidade. Trata-se, portanto,
de um contexto permeado por contradições e idiossincrasias que os sujeitos do IFSP compreendem a partir de
diferentes percepções, o que limita, senão
confunde, ainda mais, a identidade da instituição. Existe uma relação de vinculação e de dependência que, mesmo com
a separação física dos espaços prediais,
a influência da universidade no campus se
faz presente, ainda que em menor grau.
Entre sentimentos, como a confusão, o estranhamento e o incômodo, alguns sujeitos conseguiram melhor perlaborar algumas situações
e conflitos, outros nem tanto, o que reverbera na
subjetividade dos sujeitos e dificulta a consolidação
de uma identidade institucional melhor definida e compartilhada por seus membros, e o mais preocupante, vulnerabilizar sua sobrevida frente a argumentos, como o apresentado pelo Banco
Mundial, em 2017, que considerou elevado o custo para a formação
de um aluno nestas instituições.
A partir do
que foi apresentado, compreendemos que as percepções das relações entre UFSCar e IFSP oscilam
entre os entrevistados, embora a maior parte considere
sérias críticas acerca deste envolvimento. Alguns professores enalteceram a relação inicial, de apoio da
universidade ao “nascimento” do IFSP em São Carlos. Outros atribuem o esgarçamento da relação a aspectos essencialmente políticos e personalistas,
como a referenciada mudança da reitoria na
universidade, aspectos que esboçam a natureza de um campus que nasceu amoldado para atender às dinâmicas de uma cultura
universitária, ainda que codependente
desta. A maior parte dos professores indicaram as dificuldades da localização do campus,
com destaque para a precarização de seu acesso.
Consideramos, ainda, a configuração de um campus vocacionado ao atendimento do ensino superior tecnológico que,
tardiamente, e a fórceps, tem revisto
sua atuação, principalmente no
atendimento do EMI, mais próximo, portanto, do que preconiza a Rede.
A ampliação do
acesso à educação ao povo brasileiro é, sem dúvidas, uma das marcas do lulopetismo. Uma ampliação, contudo,
que tem se revelado precarizada, a exemplo do que ocorreu com
as universidades no REUNI, com a dissonância
entre o número de matrículas e de servidores. Conclui-se que o modelo IF, com pouco mais de uma década de vida,
revela idiossincrasias e reveses em sua consolidação, o que reverbera
em sua identidade e no cotidiano de seus trabalhadores, que não estão incólumes de
disputas, constrangimentos e de uma vida laboral
permeada por sofrimentos e insatisfações. Uma identidade institucional híbrida se expressa
em identidades profissionais relativamente díspares
e conflituosas, e vice-versa. Contexto este que confere um verdadeiro fermento para o reforço de argumentos
políticos e ideológicos que ameaçam a sua missão original, e até mesmo sua sobrevida.
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[i] Doutor em Educação pela Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) (2020). Técnico Administrativo em Educação do
Departamento de Medicina da UFSCar.
[ii] Doutor em Educação pela
Universidade Estadual de Campinas (2005). Professor Associado IV do
Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos.
[3] Em 2020, Wanda Hoffmann perdeu a disputa para
reitoria da UFSCar e não foi reeleita. Atualmente, ocupa o cargo de Secretária
Municipal de Educação na Gestão do Prefeito Airton Garcia, filiado ao PSL.