Temporal - prática e pensamento contemporâneos


Didascália – escrita pelas margens

 

“dizer as rubricas em voz alta”



 Editorial

Tempora tempore tempra

Tempera  os tempos com  o tempo

O primeiro número da Revista Temporal - prática e pensamento contemporâneo traz a público uma tentativa de atritar materiais diversos às tramas conceituais, expondo, sem descurar do cuidado filológico exegético, a filosofia a questionamentos mais amplos, a materiais heterogêneos, impuros. 

Como primeira experiência, pode parecer que não nos distanciamos tanto quanto queríamos de uma publicação padrão para a área, ou para as diversas áreas acadêmicas, sucumbindo, mais uma vez, à clausura do especialista, com artigos cujos diálogos só podem ser contrapostos entre si de forma externa a cada argumentação. As dificuldades eram e são evidentes, em um momento em que, ao declínio da figura do intelectual, muitas vezes algo generalista, sobrepõe-se o domínio do especialista, geralmente hermético e fechado no seu circuito. Mas, não perder de vistas a carpintaria silenciosa do conceito, não avançar por sobre o trabalho cinzento do filólogo, também é um modo de escapar às facilidades de um pensamento estéril, de romper os limites impostos por um agenciamento quantitativo estranho aos movimentos construtivos da reflexão. Talvez, dessa insistência em pôr-se à disposição, dessa dificuldade intrínseca ao fazer filosofia como ciência rigorosa, possa surgir um outro espaço. 

 

Pois ciência rigorosa não se faz por mero formalismo alheio às necessidades do próprio objeto, tal como podemos creditar ao “especialista” em seu sentido quantitativo; rigor se faz pelo reconhecimento mesmo dessa fratura, pela aridez e assombro do factual, pela historicidade complexa dos conceitos. Nesse sentido, nosso espaço convida ao risco; risco até mesmo de encontrar, ao fim e ao cabo, apenas o mesmo    o terreno deserto.

Chamada para artigos, número 2, dez 2017

Os trabalhos devem seguir as diretrizes abaixo e podem ser apresentados segundo as modalidades abaixo:

 

Comunidade acadêmica, o que é, como se faz

Vol 1, n 2, dez 2017

Em sua resposta ao debate sobre o positivismo nas ciências sociais, Adorno assim classifica a noção de comunidade científica tal como proposta por seus interlocutores:

 

“Popper esclarece a objetividade científica que sustenta: ‘Esta pode ser explicada somente mediante categorias sociais tais como: competição (tanto dos cientistas isolados, como das diversas escolas); tradição (a tradição crítica); instituição social (como por exemplo publicações em diferentes periódicos concorrentes e por meio de diferentes editoras concorrentes; discussões em congresso); poder do Estado (a tolerância política das discussões livres)’ [Popper, A Lógica das ciências sociais]. Estas categorias são notoriamente problemáticas. Assim, a categoria de competição encerra todo o mecanismo da concorrência, inclusive aquele funesto, denunciado por Marx, conforme o qual o sucesso no mercado tem primazia frente à qualidade das coisas, mesmo tratando-se de formações espirituais. A tradição em que Popper se apoia tornou-se indubitavelmente , no interior das universidade, em freio das forças produtivas [...].” (ADORNO, Positivismo na sociologia alemã)

 

Frente às proposições de Popper e às críticas de Adorno, este dossiê visa pensar a legitimidade científica em várias áreas do conhecimento humano, das ciências às artes. E visa pensar por dentro das suas práticas legitimadoras, qual seja, a instituição dos periódicos acadêmicos, em uma crítica imanente ao próprio sistema.

 

Submissões até 30 de outubro de 2017

 

Artigos em geral

artigos que não necessariamente se voltam ao núcleo de problemas sugerido pela proposta editorial de cada um dos números.

 

Traduções

A revista aceita traduções desde que o tradutor tenha os direitos para a publicação. A revista dará preferência a traduções comentadas e/ou apresentadas por um pequeno prefácio.

 

Resenhas

Publicaremos resenhas, desde que não sejam meros resumos de livros recém-publicados. As resenhas devem ser críticas e articular argumentos em torno do livro que comentam. Não há, assim, regras quanto à data da publicação do livro resenhado. O critério de publicação será a relevância da própria resenha como artigo autoral.

 

Miscelânea

A revista não se furtará a publicar textos menos canônicos, que não se apresentam no formato paper. Faz parte da política editorial questionar a formatação acadêmica, na qual o rigor parece ser sempre algo externo que concede de antemão cientificidade formal ao conteúdo. Para tornar a crítica efetiva tentaremos avaliar textos e produções nos quais o rigor não é apenas um arcabouço externo posposto ao conteúdo, textos em que a própria forma de exposição é um questionamento rigorosa e científico; mas sem descurar, todavia, das dificuldades implicadas nessa avaliação.

 

Os artigos para o  segundo  número devem ser enviados apenas pelo site da revista até o dia 30 de outubro e serão avaliados no modelo duplo parecer cego. 


v. 1, n. 1 (2017): Temporal - prática e pensamento contemporâneos


Capa da revista
Capa: Piti - intervencão sobre pintura de Franz Hals