Resiliência socioecológica em comunidades deslocadas por hidrelétricas na Amazônia: o caso de Nova Mutum Paraná, Rondônia

Berenice Perpetua Simão, Simone Athayde

Resumo


Este artigo apresenta um estudo interdisciplinar sobre processos de adaptação e resiliência cultural em situações de deslocamento e reassentamento forçado de grupos sociais por implantação de hidrelétricas na Amazônia. São apresentados resultados de uma pesquisa participativa realizada entre a comunidade de Nova Mutum Paraná, Rondônia, após seu deslocamento forçado devido à construção da Hidrelétrica de Jirau. A abordagem teórica integra conceitos das teorias dos sistemas socioecológicos complexos com conceitos originários no corpo teórico da antropologia do desenvolvimento. Métodos incluíram observação participante, oficinas participativas e atividades com grupos focais por um período de quase três anos logo depois do reassentamento. Foram pesquisados o processo de reorganização social e as estratégias de negociação da comunidade com o consórcio construtor, relacionadas ao acesso a recursos de uso comum, priorizando dois espaços de lazer e importância cultural: balneário natural e campo de futebol. Resultados sugerem que o capital social presente na comunidade nas fases iniciais de planejamento e tomada de decisão para a construção de hidrelétricas é um fator crítico no processo de negociação de acões de mitigação relativas ao acesso a bens comuns e serviços. O envolvimento e o apoio de gestores municipais também foram elementos importantes para o fortalecimento da organização social da comunidade. Apesar dos obstáculos e dificuldades, a comunidade persiste em reconstruir os espaços sociais e de convivência comum, buscando assim manter raízes de sua história por meio dos hábitos e costumes praticados na antiga comunidade ribeirinha.

Palavras-chave


Resiliência cultural; Deslocamento; Reassentamento; Reconstrução de identidade; Impactos socioecológicos; Hidrelétricas; Amazônia.

Texto completo:

PDF

Referências


ATHAYDE, Simone Ferreira de. Weaving power: Displacement, territory and indigenous knowledge systems across three Kaiabi groups in the Brazilian Amazon. Universityof Florida, 2010.

ATHAYDE, S, BARTELS, W, BUSCHBACHER, R. e ROSA, R.D. Aprendizagem colaborativa, transdisciplinaridade e gestão socioambiental na Amazônia: abordagens para a construção de conhecimento entre academia e sociedade. Revista Brasileira de Pós-Graduação10(21): 729-756, 2013.

BECKER, Bertha K. Revisão das políticas de ocupação da Amazônia: é possível identificar modelos para projetar cenários? Revista Parceria Estratégicas, n. 12, p.135-159, 2001.

BERKES, F.; COLDING, J.; FOLKE, C. (eds.). Navigating Social-Ecological Systems. Building Resilience for Complexity and Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

BERMANN, C. Impasses e controvérsias da hidreletricidade. Estudos Avançados, v. 21, p. 139-153, 2007.

BUSCHBACHER, R. A Teoria da resiliência e os sistemas socioecológicos: como se preparar para um futuro imprevisível? IPEA Boletim Regional, Urbano e Ambiental, 9: 11-24 Jan.-Jun. 2014

CERNEA, M. M. Understanding and preventing impoverishment from displacement.In: McDowell, C. (ed). Understanding Impoverishment: The Consequences of Development-Induced Displacement. Oxford: Berghahn Books, 1996.

CERNEA, M. M. and C. McDOWELL (eds.). Risks and reconstruction.Experiences of settlers and refugees.Washington: World Bank, 2000.

CHAMBERS, R. The origins and practice of participatory rural appraisal.World Development, v. 22, n. 7, p. 953-969. 1994.

CRANE, T. A. Of models and meanings: cultural resilience in social–ecological systems. Ecology and Society, v.15, n. 4 art.19, 2010.Disponívelem:

http://www.ecologyandsociety.org/vol15/iss4/art19/. Acesso em março/2013.

FREIRE, P. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FOLKE, C. Resilience: The emergence of a perspective for social–ecological systems analyses. Global Environmental Change, v. 16, n. 3, p. 253–267, 2006.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra: Ecopedagogia e educação sustentável. pp: 81-132 In Paulo Freire y la agenda de laeducaciónlatinoamericanaenelsiglo XXI. Buenos Aires: CLACSO, ConsejoLatinoamericano de CienciasSociales. 2001.

GOMES, Emmanoel. Rondônia para Concursos & Vestibulares. Porto Velho: Mundial Gráfica e Editora Ltda., 2008.

GUNDERSON, L. H. e HOLLING, C.S. (eds). Panarchy:.Understanding Transformations in Human and Natural Systems. Washington: Island Press, 2002.

KOLB, D. A. Experiential learning: Experience as the source of learning and development.New Jersey: Prentice-Hall, 1984.

MAB, MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS. 2016. A luta dos atingidos por barragens contra as transnacionais, pelos direitos e por soberania energética. Disponível em: http://www.mabnacional.org.br/publicacoes/cartilha_soberania_energetica.pdf. Acesso em abril/2016.

MAHAR, D. J. Desenvolvimento econômico da Amazônia: uma análise das políticas governamentais. Rio de Janeiro: Ipea/Inpes, 1978.

MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Plano Nacional de Energia 2030. Disponível em: www.mme.gov.br/mme/.../pne_2030/PlanoNacionalDeEnergia2030.pdf. Acesso em maio/2013.

OLIVER-SMITH, A. (ed.) Development & dispossession: the crisis of forced displacement and resettlement. Santa Fe: School for Advanced Research Press, 2009.

PINHEIRO, W. Meirelles. Políticas Públicas: o planejamento municipal como base para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Manaus: Valer/Uninorte, 2008.

RIBEIRO, A. M. ; ANDRADE, L. C. ; MORET, A. S. . Os Estabelecidos e os Outsiders da Amazônia: uma reflexão sociológica acerca de um projeto de reassentamento em Rondônia, Brasil. Territórios e Fronteiras (Online), v. 8, p. 256-274, 2015.

RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo: Atlas, 1999.

SANTOS, B. S. Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (Orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.

SARMIENTO, F. O. Arrested succession in pastures hinders regeneration of Tropandean forests and shreds mountain landscapes. Environmental Conservation, 24 (1): 14-23, 1997

SCUDDER, T. The Future of Large Dams: Dealing with Social, Environmental, Institutional and Political Costs.London and New York: Earthscan, 2005.

SCUDDER, T. Resettlement Theory and the Kariba Case: an Anthropology of Resettlement. In Oliver-Smith, A. Development and Dispossession. The Crisis of Forced Displacement and Resettlement. Santa Fe: School of Advanced Research Press, 2009.

SEIXAS, Cristina Simão. Abordagens e técnicas de pesquisa participativa em gestão de recursos naturais. In: VIEIRA, Paulo F.; BERKES, F.; SEIXAS, Cristina Simão, Gestão Integrada e Participativa de Recursos Naturais. Florianópolis: Secco, 2005.

SEVÁ FILHO, Arsênio Oswaldo. Estranhas Catedrais. Notas sobre o capital hidrelétrico, a natureza e a sociedade. Revista informativa ciência e cultura, v. 60, n. 3, p. 44-50, 2008. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v60n3/a14v60n3.pdf. Acesso em abril/2016.

SILVA, Antonio Candido da. Madeira Mamoré: “o vagão dos esquecidos". Porto Velho: M & M Gráfica e Editora, 2000a.

SILVA, Maria das Graças S. N. O espaço Ribeirinho. São Paulo: Terceira Margem, 2000b.

SIMÃO, B. P. Resiliência Cultural após deslocamento ereassentamento forçado pela hidrelétrica de Jirau, Rondônia. Monografia (especialização em Gestão Colaborativa de Sistemas Socioecológicos Complexos). UNEMAT, 2012.

THIOLLENT, M. J. M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1998.

UNIR - UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDONIA. Desestruturação Social e Ambiental das Comunidades Ribeirinhas Urbanas e Rurais no Município de Porto Velho. Projeto de pesquisa e extensão (PIBEX), 2010. Disponível em: http://www.cienciassociais.unir.br/menus_arquivos/257_desestruturacao_social_e_ambiental_das_comunidades_ribeirinhas_urbanas_e_rurais_no_municipio_de_porto_velho.pdf. AcessO em fevereiro/2013.

WCD. World Commission on Dams. 2000. Dams and Development: A New Framework for Decision-Making. London: Earthscan, 2000.

ZHOURI, A. Justiça ambiental, diversidade cultural e accountability: desafios para a governança ambiental.Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 23 n. 68, p. 97-107, 2008.

ZHOURI, A. (org.). Desenvolvimento, reconhecimento de direitos e conflitos territoriais. Brasília: Associação Brasileira de Antropologia, 2012.

ZHOURI, A. e OLIVEIRA R. Desenvolvimento, conflitos sociais e violência no Brasil rural: o caso das usinas hidrelétricas. Ambiente e Sociedade, v.10, p. 119-135, 2007.




DOI: http://dx.doi.org/10.18472/SustDeb.v7n2.2016.17850



Direitos autorais 2016 Sustentabilidade em Debate



ISSNe 2179-9067

Creative Commons License
Sustainability in Debate is a publication released by Center for Sustainable Development - University of Brasília is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Based on a work at seer.bce.unb.br.

You are visitor number:

Free Counter
Free Visitor Maps at VisitorMap.orgFlag Counter