BAUDELAIRE, 150 ANOS DEPOIS

“A mecânica nos terá americanizado a tal ponto – o progresso terá atrofiado de tal forma a parte espiritual em nós, que nada entre os sonhos sanguinários, sacrílegos ou antinaturais dos utopistas poderá ser comparado a seus resultados positivos.

A todo homem capaz de pensar, eu peço que me mostre o que subsiste da vida.”

Charles Baudelaire, 1821-1867. (Tradução livre)

 

Ainda podemos falar dele como se sua arte nos fosse familiar? Ele era escandaloso – a tal ponto que o projeto de erguer uma estátua em sua homenagem foi polêmico na Paris dos anos 1890; ele tornou-se clássico. Criticou a modernidade dos engenheiros e urbanistas – nós vivemos no mundo deles... O que há de comum entre a vida do poeta parisiense, testemunha fugaz de uma época antipoética, e a existência atual, que bane o flâneur das metrópoles conectadas? Seu imaginário não é, afinal, muito estrangeiro para nós? Ainda jovem, o poeta se foi anunciando o fim de tudo aquilo de que ele podia gostar.

Baudelaire permanece no horizonte de nossas referências, mas como podemos situar as práticas literárias e artísticas contemporâneas (e o conteúdo delas) em relação a seus “foguetes” (fusées)? Como nosso espaço mental se relaciona com as lições e posturas de sua arte poética e de suas acerbas reflexões? Existem artistas dos quais poderíamos aproximá-lo? Escandalosamente exibicionista, nossa época seria baudelairiana na onipresença de imagens publicitárias transgressivas ou essa propagação reduz ainda mais o espaço transgressivo do poeta?

Inspirado pelo 150º aniversário de morte de Baudelaire, este número da Revista XIX – Artes e técnicas em transformação é dedicado às evocações à distância da figura do poeta francês. Afastamentos e aproximações, citações e dissensos, transposições e analogias, adaptações e prolongamentos, polêmicas e debates.