A DIALÉTICA NEGATIVA DE ADORNO COMO FILOSOFIA DA POSSIBILIDADE REAL

  • Giovanni Zanotti Universidade de Brasília
Palavras-chave: Dialética negativa, Materialismo Filosófico, Metapsicologia Freudiana, Prova Ontológica, Crítica Do Trabalho

Resumo

Esse artigo investiga alguns aspectos da dialética materialista de Adorno, com particular atenção a seus Três Estudos sobre Hegel. Enquanto a filosofia de Adorno é lida frequentemente – tanto por críticos habermasianos quanto por leitores mais favoráveis – como uma “crítica da razão instrumental” visando uma mera refutação da tese hegeliana da identidade sujeito-objeto, é sugerido aqui que essa tese desenvolve um papel crucial em Adorno enquanto momento dialético. Em primeiro lugar, é esboçada a visão adorniana da essência objetiva da dialética, implicando que elementos materialistas já estão presentes no próprio Hegel. A possibilidade transcendente da utopia deve ser concebida, portanto, como uma “possibilidade real” fundada na estrutura da experiência imanente. Em seguida, é posta a questão de qual seria, segundo Adorno, o elemento efetivamente falso em Hegel. Através de um exame de alguns conceitos centrais da dialética negativa – a prova ontológica da existência de Deus, o primado do objeto, a contingência do antagonismo, a gênese histórica do Eu freudiano – mostra-se que a crítica adorniana de Hegel é dirigida à ontologização idealista do trabalho, e, portanto, do sujeito – que é, por sua vez, uma forma de trabalho. Finalmente, aponta-se brevemente para um possível resultado prático da dialética negativa, que consistiria na superação do trabalho através do trabalho, ou seja, em uma concepção da abolição da forma-mercadoria que seja dialética, negativa e baseada na aceitação do Estado de direito.

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Biografia do Autor

Giovanni Zanotti, Universidade de Brasília

Possui graduação em Filosofia - Universitá di Pisa (2008), graduação em Corso ordinario - Classe di Lettere e Filosofia - Scuola Normale Superiore (2010), mestrado em Filosofia e Forme del Sapere - Universitá di Pisa (2010) e doutorado em Discipline Filosofiche - Universitá di Pisa (2016). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia Contemporânea (especialmente Adorno e Wittgenstein), Teoria Crítica, Filosofia Política, Filosofia da Linguagem, Psicanálise, Tradução Filosófica. Atualmente é pós-doutorando em Filosofia na Universidade de Brasília.

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Publicado
2019-02-28
Seção
Artigos