A juventude no fogo cruzado

  • Ilana Lemos Paiva Universidade Federal do Rio Grande do Norte
  • Gabriel Miranda Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Palavras-chave: Estado penal. Juventude. Racismo. Polícia militar.

Resumo

Em Punir os pobres, Wacquant (2007) argumenta que foi desenvolvida nos Estados Unidos a tese, posteriormente adotada por outros países, de que a causa de uma infração penal reside na índole ou caráter daquele que a comete, e que a sanção implacável consiste no meio mais eficaz para coibir novas infrações. Tal pensamento, notadamente inspirado nos pressupostos liberais clássicos, conduz a práticas reducionistas e inefetivas para o trato da segurança pública – como a expansão do sistema carcerário ou a militarização de espaços públicos – pois centraliza sua atuação na superfície do fenômeno, escamoteando as determinações fundamentais que envolvem a produção e reprodução da criminalidade urbana. Atestar que a causa de um crime está na irresponsabilidade, no caráter ou na índole daquele que o comete significa retirar de cena as estruturas econômicas e sociais que determinam a vida dos sujeitos em sociedade. Destarte, objetiva-se no presente artigo apresentar o debate sobre segurança pública de maneira não-reducionista, reagregando a insegurança gerada pela criminalidade urbana como uma expressão da insegurança social produzida pelo esfacelamento das relações de trabalho e insuficiência ou inexistência da proteção social. Tal cenário tem colocado a juventude pobre, negra e periférica, como o grupo mais vulnerável da população, sendo o segmento mais afetado pelo Estado penal brasileiro.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Ilana Lemos Paiva, Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Professora Adjunta do Departamento de Psicologia e da Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Gabriel Miranda, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Mestrando do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio rande do Norte.

Referências

ABRAMOVAY, Mirian e FEFFERMAN, Marisa. Se ficar o bicho come.Revista Super. São Paulo: Ed. Abril 2008.
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
BAO, C. E; COLOGNESE, S. A. A geração que nos critica é aquela que nos criou: gerações, juventude, mudança social, 2011. Disponível em: http://www.sbsociologia.com.br/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=1904&Itemid=170
BATISTA. Vera Malaguti. Adesão subjetiva à barbárie. In: Loïc Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal. Rio de Janeiro: Revan, 2012.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 01/10/2017.
_____. Instituto brasileiro de geografia e estatística [IBGE]. (1991). Censo 1991. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censodem/default_censo1991.shtm>. Acesso em: 01/10/2017.
_____. Instituto brasileiro de geografia e estatística [IBGE]. (2010). Censo 2010. Disponível em: . Acesso em: 01/10/2017.
_____. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Disponível em: . Acesso em: 01/10/2017.
_____. Ministério da Justiça. (2014). Levantamento nacional de informações penitenciárias: InfoPen – junho de 2014. Brasília, 2014, p. 01-147.
_____. Ministério dos Direitos Humanos – MDH. Levantamento Anual Sinase 2014. Brasília: Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, 2017, p. 01-65.
CIAFARDINI, Mariano. La izquierda y el problema del delito. en Tiempos Violentos. Barbarie y decadencia civilizatoria, Herramienta, Buenos Aires, 2014, pp. 17-43.
FREITAS, M. V. Juventude e adolescência no Brasil: referências conceituais. São Paulo: Ação Educativa, 2005.
JAHAN, Selim. Human Development Report 2016. Disponível em: < http://www.br.undp.org/content/dam/brazil/docs/RelatoriosDesenvolvimento/undp-br-HDR16%20Report.pdf>. Acesso em: 01/10/2017.
LIMA, Renato Sérgio de; BUENO, Samira. 10º Anuário brasileiro de segurança pública 2016. Disponível em: < http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf>. Acesso em 01/10/2017.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Tradução de Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2005.
MASCARO, Alysson Leandro. Estado e forma política. São Paulo: Boitempo, 2013.
PAIS, J. M. A construção sociológica da juventude: alguns contributos. Análise sociológica, 25(105/106), p. 139-165, 1990.
RODRIGUES, Thiago. “Narcotráfico e Militarização nas Américas: Vício de Guerra” In: Contexto Internacional. Rio de Janeiro, vol. 34, nº 1, janeiro/junho de 2012, p. 9-41.
MOURA, T. W., & RIBEIRO, N. C. T. Levantamento nacional de informações penitenciárias: InfoPen – junho de 2014. Brasília, DF, Ministério da Justiça, 2014.
NOVAES, R. Juventude e sociedade: jogos de espelho. Revista Sociologia Especial – Ciência e Vida, 1(2), 6-11, 2007.
RODRÍGUEZ ALZUETA, Esteban, “La violenta regulación del territorio en el capitalismo criminal”, en Tiempos Violentos. Barbarie y decadencia civilizatoria, Herramienta, Buenos Aires, 2014, pp. 17-43.
WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Tradução de Sérgio Lamarão. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007a.
_____. Loïc. “Rumo à militarização da marginalização urbana” In: Discursos sediciosos: crime direito e sociedade, Rio de Janeiro, ano I, nº 15/16, p. 203-220, 2007b.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. The World Health Report: Reducing Risks, Promoting Life. Disponível em: < http://www.who.int/whr/2002/en/whr02_en.pdf?ua=1>. Acesso em: 01 de outubro de 2017.
Publicado
2018-04-14