A fenomenologia se diz de muitos modos. É polifônica por natureza. Os artigos que se apresentam no dossiê deste número da Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea o testemunham. Eles foram ocasionados pela participação de diversos fenomenólogos do Brasil no Encontro de Fenomenologia, promovido pelo Grupo de Trabalho de Fenomenologia da ANPOF, nos dias de 28 a 30 de setembro de 2015, em Belo Horizonte, e realizado graças ao apoio da FAFICH (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) da UFMG.

A fenomenologia vem à fala de muitos modos e em diversos sentidos. De modo originário e num sentido inaugural, fenomenologia é o lógos do próprio fenômeno, isto é, a coisa mesma se manifestando, doando-se, clareando-se, evidenciando-se a si mesma desde si mesma. É o evento do ser se dando e se retraindo, se dizendo e se silenciando, no acontecer dos seres. Em sua originariedade, a fenomenologia dos fenômenos é o que provoca o pensamento a pensar. Com efeito, o pensar só é, propriamente, em correspondendo, ele mesmo, à fenomenologia dos fenômenos. Neste sentido, já Aristóteles, no livro I da Metafísica, ao expor as doutrinas hesitantes dos primeiros filosofantes, está atento ao decisivo: a coisa mesma (autò tò pragma) abriu o caminho para eles e os constringiu a investigar para além dos caminhos que tinham, até então, percorrido (cf. Metafísica A 3, 984a: 18-19). Fenomenologia se torna, assim, conceito de método do questionamento do pensar, da investigação filosófica. Método, no sentido de um estar a caminho numa busca investigadora, que se deixa aviar pelas vias abertas pelas coisas mesmas e se deixa constranger pela necessidade das intuições e das evidências que estas doam desde si mesmas e por si mesmas. O caminho e a coisa para a qual o caminho se encaminha, como busca questionadora, investigativa, não podem ser duas coisas. Precisam ser um. Esta unidade de método e coisa é o fenomenológico de uma investigação filosófica. À medida que isso acontece, o pensar revela sua essência fenomenológica.

A busca da radicalidade da filosofia entendida como investigação, que se dirige, em sua intencionalidade, às coisas mesmas que estão em questão, as quais provocam o pensamento a pensar, abrem caminhos para os pensadores e os constrangem em seus esforços de perseguir o sentido de ser do que, a cada vez, se mostra, fez surgir a fenomenologia como um dos movimentos reflexivos mais importantes do pensamento no século XX. Por caminhos cada vez singulares que se cruzam num diálogo sempre plural, diversos pensadores, partindo de diversas arrancadas, se empenham por elucidar, clarear, a relação significativa do fenômeno com o homem. O caminho de Husserl, em diálogo com o qual estão os demais participantes desse movimento, se avia pelas vias da análise fenomenológica da intencionalidade. É um caminho de retorno, ou melhor, de recondução às fontes geradoras de todas as estruturações de sentido, a qual acontece ao modo de uma tríplice redução (fenomenológica, eidética e transcendental). Tematiza-se como o que se mostra numa experiência intuitiva da verdade se dá a uma consciência; como isso esboça de si uma estrutura, uma forma essencial; como encontra a sua gênese constitutiva no processo gerador de estruturações de sentido produzido pela subjetividade, e, enfim, pela intersubjetividade transcendental. Outros pensadores deste movimento reflexivo da filosofia contemporânea encontrarão a abertura de outros caminhos de investigação fenomenológica, que se cruzam, no entanto, com o caminho de Husserl. Assim, só para citar um destes, para Heidegger, a coisa mesma que provoca o pensamento a pensar, abre caminho e constrange a investigar a fenomenologia dos fenômenos em sua referência como o homem, dando-se e retraindo-se na ambivalência da verdade manifestativa do ser, enquanto mistério, isto é, enquanto o abrigar de toda a abertura e descoberta, se dando no jogo de encobrimento e desencobrimento.

A fenomenologia, no sentido do movimento reflexivo da filosofia contemporânea, apresenta-se como uma comunidade de pensadores, envolvida num perene diálogo, e que se estrutura com círculo de círculos de investigação fenomenológica. É essencial a este movimento, para não se cristalizar em escola, corrente ou ponto de vista, colocar-se a si mesmo continuamente em questão, medindo-se com a radicalidade da sua proposta de método investigativo. Acima, portanto, da realidade histórica já formada, está a possibilidade do pensamento, que responde aos apelos do porvir.

Os artigos que o leitor encontrará neste dossiê de fenomenologia, que a Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea oferece neste número, trazem contribuições de uma comunidade de pensadores, filósofos, estudiosos, que se reconhece como um Grupo de Trabalho de Fenomenologia. A expressão “Grupo de Trabalho” aqui não tem a função de apenas nomear um elemento da organização acadêmica, focada na produtividade da pesquisa, que se dá no nível institucional da educação superior no Brasil. Para a fenomenologia, a noção de trabalho investigativo, desenvolvido numa comunidade de pensadores, marcada pela pluralidade de caminhos, perspectivas, interesses, não é algo de acidental, de acessório, mas sim algo de essencial, de estruturante.

Publicado: 2016-03-09