• Extremophilia
    v. 6 n. 6 (2018)

    PROLEGÔMENOS DA EXTREMOPHILIA

    Notas da organização: Fabiane M. Borges 

    A “REVISTA DAS QUESTÕES” do departamento de filosofia da Universidade de Brasília (UNB), nos propôs em 2018 a realização da sua 6ª Edição com o tema Arte e Ciência Espacial. Nós aproveitamos a oportunidade para criar nossa própria revista, fazendo a 6ª Edição da Revista das Questões ser ao mesmo tempo a 1º da Extremophilia. Pretendemos lançar o 2º número da Extremophilia em 2019, para poder continuar falando desse tema que relaciona subjetividade, arte e ciência espacial.

    Como não tivemos nenhum suporte financeiro, contamos com o engajamento das pessoas, a partir de uma chamada aberta em português, espanhol e inglês, sugerindo os temas que nos interessavam para esse número:

    /EXOBIOLOGIA / DIREITO E POLÍTICAS ESPACIAIS / COMUNAS INTERPLANETÁRIAS / ANCESTROFUTURISMO / CULTURA ESPACIAL / MULTIVERSOS / FICÇÃO ESPECULATIVA / CIÊNCIA E TECNOLOGIA ESPACIAL DISRUPTIVA E ARTE QUESTIONADORA /

    Sobre os textos

    Chegaram textos de várias partes do mundo nas três línguas da chamada aberta, publicados em sua língua de origem. Vieram textos de pessoas conhecidas no meio da pesquisa em Arte e Ciências Espaciais como Joanna Griffin (Inglaterra/Índia) falando de resistência criativa com satélites, Alejo Duque (Colômbia/Suíça), com o tema da Declaração de Bogotá, que assim como Joanna tenta recuperar a discussão sobre a extensão da territorialidade até os limites da gravidade, e os problemas tratados na declaração de Bogotá em relação ao domínio dos países ricos e corporações sobre a linha do Equador. Pedro Soler (Espanha/Colômbia) falando da exposição Arte em Órbita feita em Quito em 2015 cujo tema foi Pós Colonização Espacial onde analisa os trabalhos de vários artistas de países da linha equatorial que participaram da exposição. Juan José Infante (México) do satélite Ulisses que conta sua história e saga, pois há anos percorre os caminhos burocráticos dos programas espaciais para poder enviar Ulisses para o Espaço, e seu trabalho se tornou exatamente deixar público todas as instâncias necessárias para lançar um satélite de arte.

    Kênia Freitas (Bauru/SP) e José Messias trazem um pensamento apurado e propositivo sobre o Afrofuturismo e o afropessimismo, dizendo que o futuro será negro, ou não haverá futuro, Leila Lopes (Brasilia/DF) com imagens performativas autorais, afro-utópicas e erótico-espaciais conduz o imaginário negro interplanetário, Kongo Astronautas (República do Congo) discute os dilemas pós coloniais a partir de seu grupo de arte e performance que tem uma pegada de extraterrestre que cai na Terra e se surpreende, como mostra em seu filme Dilema Pós Colonial.

    Recebemos também textos de filosofia especulativa como de Fabián Ludueña Romandini (Argentina) problematizando o aceleramento da contemporaneidade ou JP Caron (Rio de Janeiro) propondo um aceleracionismo de esquerda, ou o de Fabiane M Borges sobre  Astrofuturismo fazendo um recorte das utopias de alteridade expressas na ficção científica entre terrestres e não terrestres no período entre a pós II Guerra Mundial até final dos anos 1970, perguntado-se sobre a comunicabilidade possível entre o monolito, o oceano e o humanoide.

    Tem o artigo crítico de Clara Meliande e Luiz Mors Cabral (Rio de Janeiro) que fala do lixo espacial e mostra os humanos como obsessivos criadores de lixo, que está tornando a órbita terrestre numa grande lixeira. Tatiana Avedaño (Colômbia/Equador) simula uma conversa entre uma câmera de vigilância, um drone e um satélite.

    Tem textos mais científicos, de pesquisadores ligados ao Observatório do Valongo (UFRJ) como a astrônoma Silvia Lorenz Martins (Rio de Janeiro, RJ) que desenvolve modelos de planetas e funcionamento espacial para cegos, ou pesquisadores técnicos em sensoriamento remoto do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) como Othon Barros, Helena K. Boscolo e Laercio Namikawa (São José dos Campos, SP), que enviaram imagens que consideram poéticas dos satélites CBERS 2B e CBERS 4. Sensoriamento remoto também é tema do Adriano Belisário (Rio de Janeiro, RJ), que a partir de uma visão questionadora, quase jornalística traça um paralelo analítico  entre o desenvolvimento da tecnologia de sensoriamento remoto e as constituição de políticas públicas, como direitos humanos. Pedro Victor Brandão (Rio de Janeiro, RJ) também fala de satélites, para mineiração de moedas virtuais, e sobre a ECSA (Economic Space Agency).

    O texto mais feminista provavelmente é de Helen Schell (Inglaterra) que fala da missão Leda 1 de um programa da NASA chamado “Woman in Space Program” e do desaparecimento em 2001 da astronauta Jeanne J. Crane, que supostamente teria ido para uma missão espacial e não teria voltado. 

    Além disso tudo tem Ewen Chardronnet do AAA (Association of Autonomous Astronauts) falando das experiências com bactérias extremófilas (Aliens in Green), os Astrovandalistas (Brasil/EUA) que fazem glifo-poemas em pedras e rochas encontradas na fronteira entre Estados Unidos e México, Lucas Bambozzi (São Paulo, SP) falando de invisibilidade e campo eletromagnético, enquanto Arendse Krabbe & Mirko Nikolić (Dinamarca) fazem experiências com fungos e archaes. Sasha Engelmann (Inglaterra) fala das suas experiências com arte, balões e atmosfera e Jeronimo Voss faz poemas baseados em hipóteses astronômicas do século XIX.

    Também tem a apresentação dos trabalhos da Kosmica Institute de Nahum Mantra (México, Alemanha) e do Quo Artis (Espanha), ambos com várias experiências de trabalhos voltados pra as políticas espaciais, arte contemporânea e educação, pensando em uma cidadania planetária. Tem as análises pulsantes do antropoceno através de animes japoneses de Mateus Felipe Xavier (Rio de Janeiro),  o questionamento sobre as relações entre ciborgues, mutantes e revolucionários de Carlos Henrique Carvalho (Goiás), ou a viagem a pé de Rodrigo Paglieri (Chile-Brasil) com sua rádio mochila fazendo uma cartografia das ondas de rádio. Por fim Annick Bureaud (França) faz uma cartografia da cena contemporânea voltada à arte e ciência espacial, trazendo vários exemplos de ações ao redor do mundo, ajudando-nos a perceber as diferentes vertentes desse movimento. Mas o que abre a Extremophilia é o MANIFESTO TERRACOSMISTA feito durante a II Comuna Intergaláctica a partir de uma oficina de Ficção Especulativa criada por Fabiane M. Borges e Leno Veras.

    Acreditamos que a revista consegue dar um bom panorama sobre o que anda acontecendo nesses domínios de Arte e Espaço, e as questões que isso suscita em termos críticos e propositivos.

    Sobre o nome da revista: 

    EXTREMOPHILIA surge como uma admiração às bacterias sobreviventes, capazes de habitarem ambientes de condições improváveis: temperaturas radicais de frio ou calor, salinidade exagerada, regiões abissais, falta de gravidade, hipergravidade, zonas bombardeadas com altos níveis de radiação, zonas vulcânicas, geleiras, fundo do mar...

    Essas pequenas formas de vida têm sido protagonistas das mais variadas investigações exobiológicas. São assíduas nos vôos espaciais, produzindo suas nano colônias dentro de foguetes, satélites, rovers. Elas sobrevivem a tudo e, desde que são capazes de resistir às viagens interplanetárias - cientistas espaciais insistem na possibilidade delas sairem da terra disseminando a vida universo afora.

    Para além dos domínios de bactérias e archaes, propomos o conceito de extremøphilia nos remetendo ao pensamento cosmopolítico, abrangendo as políticas radicais da atualidade, as identidades de gênero, raça, classe, os processos migratórios forçados, as ameaças climáticas prementes, a globalização corporativa. Nesse cenário de pressão civilizatória, nos vemos atravessados por um programa desenvolvimentista que promove com tenacidade sua sociedade ideal - individualista e hiper vigiada. Seus tentáculos  tentam alcançar todos os substratos, da matéria à psiche, estendendo suas ocupações intraterrenas e orbitais, em busca de mais informação, poder e controle. Entretanto outras formas de vida resistem, como os seres extremos que sobrevivem de forma autônoma, populando as beiradas desses sistemas e ambientes, alheios ao antropoceno e seus apocalipses.

    A revista é uma plataforma de referência sobre o tema da Arte e ciência espacial no Brasil. Um espaço para produção especulativa e ficcional, e também para apresentação de pesquisas acadêmicas e projetos experimentais científicos - elaborada como um arquivo artístico e científico.

    Alerta!!! O futuro será de toda as espécies!!!

     

    Equipe:

    Organização Fabiane M. Borges -

    Capa: Rafael Frazão.

    Colaboração: Eduardo Duwe e Marina de Moraes

  • Anico Herskovitz. Vaso com copos de leite. Litografia, 2013 Das Deusas
    v. 5 n. 5 (2018)

    Editorial

     

    As questões recebem as deusas. As deusas, as questões.

     

    Que outro útero seria melhor para gestar o projeto Das Deusas, se não o da revista polifônica e multilíngue com os pés fincados na Universidade de Brasília? Só os pés... Uma revista de questões, filosofia, tradução e arte, um ventre fecundo, que nesta edição aninha linguagens e discursos em torno de deusas.

    Na seção ensaios, Loraine Oliveira apresenta o projeto Das Deusas: arte, gênero e filosofia. A seguir, Ana Elisa de Castro Freitas escreve e desenha Jakaira Chy Ete, deusa Mbya Guarani, sopro, palavra, inspiração.

    Em artigos, uma profusão de deusas, mulheres e heroínas vem povoar as páginas da revista. Gabriela Guimarães Gazzinelli enseja mostrar o processo de mitificação do Sertão, por meio de relações entre a personagem Diadorim, de Guimarães Rosa, e a deusa grega Palas Atena. Katia Pozzer analisa representações imagéticas da mesopotâmia Ištar, deusa tríplice, resultado da fusão de divindades ligadas à guerra, a virilidade, o feminino, o amor livre, o sexo. Márcia Vasques apresenta a deusa egípcia Hator, que é associada ao amor. Transformada em leoa, para destruir a humanidade, ou vista como deusa das profecias, Hator era também a senhora da música, da dança, dos banquetes, festividades e da bebida. Karina Oliveira Bezerra discorre sobre Ártemis, expondo seus aspectos principais e observando que hoje ela é adorada em religiões neopagãs, como a Wicca e o Reconstrucionismo Helênico. Ainda transitando pelo panteão grego, o próximo artigo, de Mayã Fernandes, investiga como a ninfa Calipso, na Odisseia de Homero, busca efetivar o casamento e esconder os viajantes que passam por sua ilha. Keli Pacheco, em um artigo-ensaio, lança olhares sobre Medeia, de Pasolini, e Montedemo, de Hélia Correia, observando as experiências das protagonistas nas sociedades em que vivem. O conceito de corpo, de Jean-Luc Nancy, a reflexão sobre a comunidade, de Blanchot e a noção de ruína, de Maria Zambrano, compõem o tecido das análises sobre as duas estrangeiras. Kathrin Rosenfield reflete sobre a complexidade das tramas envolvendo deusas de diversos panteões e heroínas trágicas gregas. Em panteões mais complexos, em ordens sociais mais diferenciadas, o poder feminino vai sendo cerceado e se torna mais sutil, mais sorrateiro, nos diz a autora.

    Fechando o conjunto de narrativas textuais, Aline Matos oferece um poema a Oxum e Luciana Gabriela Soares Santoprete apresenta um conjunto de poesias francesas que fazem referência a Iemanjá, ilustradas por Fernanda Manéa.

    Na seção Artes Visuais, vislumbramos traços da exposição Iemanjá, realizada no Atelier Jabutipê, em Porto Alegre, de 22 de agosto a 13 de outubro de 2017. Anico Herskovitz, Carla Magalhães, Fernanda Manéa, Lia Letícia, Roberta dos Santos, Tais Fanfa, Saionara Sosa e Zoravia Bettiol apresentaram desenhos, objetos, pinturas, vídeo e performance.

     

    Esta etapa do projeto só foi possível graças à inestimável parceria com as seguintes pessoas: Kathrin Rosenfield, que participou da coordenação e organização do evento, chancelando o projeto na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graças a isso, recebemos apoio da Capes. Antônio Augusto Bueno, que acolheu a exposição Iemanjá e as palestras em um agradável dia de primavera, no Atelier Jabutipê. Hilan Bensusan, que com seu habitual “fera”, recebeu a ideia de um número chamado Das Deusas, na revista Das Questões. Mayã Fernandes, que acompanha este projeto desde a sua concepção, com frutíferos diálogos e estimulante troca de ideias, sem o quê aquele meu lampejo inicial talvez se perdesse nas nuvens. Mayã participou da organização do evento, da montagem da exposição, é a assistente de edição deste número e revisora.

    Enfim, o projeto não teria nascido sem a presença de algumas pessoas queridas. Carla Magalhães, amiga de um mundo de conversas, escutas, elucubrações sobre arte, filosofia, vida, força e tantos outros assuntos. Wanderson Flor do Nascimento, generoso em partilhar seus saberes. Lia Letícia, que trouxe importantes questões sobre o lugar da mulher negra nas artes. Elisa de Castro, colaboradora inspirada e alegre. Keli Pacheco, presença gentil e querida. E a todas as escritoras e artistas que aceitaram o desafio, produzindo textos e trabalhos de artes visuais.

     

    Loraine Oliveira

    Editora

       

  • Sobre EXU
    v. 4 n. 1 (2016)

    Caminhos cruzados. Em celebração ao movimento, apresentamos o quarto número da revista Das Questões. Dedicada ao abre portas – Exu, o qual concebe caminhos sempre possíveis de serem percorridos. A Revista interessada – muito mais – em percorrer as questões do que as responder, invoca o senhor dos percursos e intercursos. O hospedeiro da pluralidade em relação a tudo o que se refere a filosofiatraduçãoarte. Como aquele que recebe. Exu é aquele que faz chegar, e aquele também que solta. Como escreve Daniel Arcades, é a boca do universo. A revista foca em um santoconceitobatida: Exu. Èsù, Bará, Legbá, senhor das transformações, irreverente Enugbarijó, feito em muitos fragmentos que proliferam yanguís que o representam, titulado de Elegbara do poder ilimitado, virado em Pomba-Gira no Brasil e também em Maria Padilha, Molambo, Zé Pilintra e nos 21 Exus da Bahia. Falar de Exu é falar das transversalidades iorubás.
    Com a editoria convidada de Aline Matos, convocarmos Exu para esse número, buscando apresentar múltiplas perspectivas. Já que a Revista Das Questões motivada pelo que se esconde e se revela na encruzilhada, encruza pensamentos de diversas áreas. Assim, neste quarto número reunimos tecituras que rodeiam e (in)traduzem algumas das imagens de Exu, o qual para cada pessoa que oferenda suas palavras por meio do texto, aquele se expressa de uma forma, entre várias. Exu é a força ou a arte de por na coexistência, assim é a hospitalidade de uma tradução ao invocar as entradas e os meios, é partícipe dos começos sendo sentinela das disseminações: descende do primeiro de todos os “entres”, aquele entre o céu e a terra. Orixá dos horizontes, tradutor do que está de fora para o que está de dentro, batida que marca o batente: batuque. Exu, polimórfico e transmutador, é tradutor, pensa, dispensa e nunca tem completamente cabimento porque sempre é arteiro.
    Desse modo, para wanderson flor do nascimento, Exu aparece sobre a forma de Olojá: Entre encontros – Exu, o senhor do mercado. Ressaltando os mercados tradicionais que fortalecem os laços societários, em contraposição ao modo capitalista de mercado. Em Exu: o filósofo da comunicação. Aline Matos da Rocha discute a legitimidade da filosofia africana e afrodiaspórica. Como falar de Exu é invocar a filosofia africana, e esta deve ser pensada desde a referência ao pensamento filosófico dos africanos, Rodrigo dos Santos nos apresenta Filosofia africana e etnofilosofia: Uma abordagem da concepção de Paulin Hountondji a partir do baraperspectivismo.
    No embaralhamento com Exu, Luisa Mesquita embaralha através de Exu a compreensão tradicional ocidental. Carlos Ronald Oliveira de Pinho, reflete a ancestralidade desde a Ancestralidade na poética de Fausto Antonio e a virada sintática da linguagem: algumas
    interpretações a partir de Bacherlard. Através de uma reflexão sobre a expressão Jesus Salva. Jorge Gomes Junior nos indaga: Exu Salva? Um percurso reflexivo nas encruzilhadas do imaginário. Luis Augusto Ferreira Saraiva, coloca Exu defronte a Clio, a musa da história em Exu interroga Clio: contribuições da Filosofia Africana na construção de um novo paradigma para o estudo da História. O Exu-ruído do Guto é descendência da quebradeira, quebra, requebra, sacode as cadeiras e pede pito. Ouça, é o caos. Exu não é partidário da ordem, Exu é anarca. Por léo da heresia. [E]xU[A]n[A]rc[A]: Ser anarquista de uma anarquia só, é pouco! Quero todas as anarquias! Para tudo ficar bonito, Alexandre de Oliveira Fernandes nos presenteia com Pro mundo ficar odara: não entender Exu.

    Editora convidada: Aline Matos

    ISSN 2447-7087

  • "Nós só podemos interrogar o Poder. O Não-Poder é a questão mesma"  E. Jabès    capa: Lucas Sertifa Variedades
    v. 3 n. 3 (2015)

    Este é o terceiro número da revista Das Questões. Os textos aqui reunidos apontam para muitas direções ciceroneadas por muitas vozes: Jabès, mas também Dona Bibi, Rosenzweig, Susana Kelsseman, Graham Harman, Pai Paulo, Lovecraft, Godard, Gabriel Tarde entre outras. Eles se entrecruzam na Revista como os grupos de investigação Anarchai e Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora se encontraram muitas vezes nos últimos meses. Os textos refletem as encruzilhada, os interstícios onde se encontram as palavras da arte, os relevos da filosofia e as questões de tradução. Muitas vezes sem tempo para hífens ou espaço entre as palavras, buscando a impossibilidade do neutro.

    A revista faz questão do entrelaçamento das questões, do seu destrinchamento – o pensamento se move nas afinidades, ainda que seja avesso à fidelidade aos grupos fechados. Ela reafirma sua vocação peri-acadêmica: da universidade para fora, e para baixo, e para oeste, e para dentro, e para o outro lado. Não há indisciplina apenas dentro das disciplinas. Ela procura fazer filosofiatraduçãoarte entendendo que se o que ela teima tem eiras e beira, ainda que passe ao largo da compartimentação do pensamento. Ela aposta em partilha, em troca, em envio e em reenvio, das coisas em sua incondição.  
    • capa: Lucas Sertifa

     

    ISSN 2447-7087

  • O maior perigo da existência é que a nutrição humana é composta inteiramente de almas.  Ivaluardjuk, Xamã Inuit    capa: desenho e concepção de Rodrigo Acioli ("Autofagia", 2015) Das Questões 2: DeComer
    v. 1 n. 2 (2015)

    Das Questões 2: DeComer

    Eis aqui o segundo número da revista Das Questões. Ela congrega contribuições sobre a gula, a digestão, a ingestão, o apetite, a devoração, a mastigação – o de comer. A revista, dedicada a morder questões sem hífens, virgulas ou cesuras, se debruça sobre quem e o que alimenta o que e quem. A pergunta pelo jantar – e Helga Müller, em seu Anjo da Fome, descreve a ausência de comida como uma deformação e a fome mesma é uma forma mesmo de olhar para qualquer fundamento com uma falta de sustento – é um chamariz de aflições: não há comida que não seja, ou não tenha sido, outra coisa. O drama da existência de Ivaluardjuk é precisar comer e desconfiar que tudo o que se ingere é engolido em camuflagem. É que servir o alimento – assim como engoli-lo – são formas de tradução – e portanto de um jogo perigoso de perdas e ganhos.

    Como se transforma o mundo exterior em alguma coisa comível? Os povos do baixo Amazonas chamados por Philippe Descola de animistas entendem que tudo come e será comido. Nos termos do perspectivismo, que Eduardo Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima encontram entre os povos da mesma área, para a comida quem come muitas vezes também é comida. Que ética, ou antes que diplomacia, rege um regime alimentar? Para os Modernos, todo não-humano é recurso alimentar. E eis a fronteira: o humano é aquilo que está protegido da grande bouffe – e, de fato, seu corpo lacrado na terra fica dedicado prioritariamente à microbiota que o deglute, aquela mesma que compartilha de perto as manivelas dos dispositivos que fazem dos humanos humanos. Talvez como consequência de se separarem do fluxo alimentar, os Modernos tiveram que tomar a natureza indiferente a qualquer negociação diplomática.

    Este segundo número da Revista – dedicada a sustentar a tonalidade das questões – está focado na deglutição. A conexão entre compreender e deglutir – antropofágica – é explorada de algumas diferentes maneiras. Depois dos fragmentos culinários e etológicos do Coletivo Indigestão e de Lucia Garrido, alguns ensaios abordam a antropofagia (Alexandre Nodari e Filipe Ceppas), a digestão como experiência de um outro (Denise Paiva Agustinho), a comida ritual do candomblé (Wanderson Flor do Nascimento), a pele que cobre a pele (Loraine Oliveira) e os frutos do conhecimento e alguns mistérios destravados pela ingestão transformadora da consciência (Lucas Kaeté). A Revista se encerra com dois manisfestos, de Claudio de Morais Maia e Leonardo Ortegal, que invocam as aporias éticas da trama nutricional: a questão mortal.

    Dados da capa: desenho e concepção de Rodrigo Acioli ("Autofagia", 2015)

     

  • As pessoas e as palavras se ensinam mutuamente.  Ch. S. Peirce Das questões
    v. 1 n. 1 (2014)

    Editorial

     Apresentamos com alegria o primeiro número da revista Das Questões. Ela é um efeito das nossas conversas sobre as tonalidades insuspeitas e subversivas no pensamento de Edmond Jabès. Com ele partilhamos o gosto pelas questões, partículas de hospitalidade, gatilhos de instabilidades. Quando uma questão perturba, o pensamento experimenta uma proliferação de começos. As questões sobrevivem nas respostas, mas como pensava Deleuze, elas sempre as transcendem. Assim, a demora nas questões nos levou a estes pontos de encontro que são também impasses: Filosofia Tradução Arte (sem hífens, nem vírgulas, nem espaço para respirações ou cesuras) . Era preciso por nossos pés na academia na largada do pensamento, e não mais na sua chegada. Era preciso acolher o pensamento indisciplinado, indisciplinarizado. Ocupado não com uma área, com uma linha, com uma língua ou com uma maneira de dizer – mas com as traduções, translações, entre elas.

     A tradução é o lugar do meio onde alguma coisa é perdida, alguma coisa é recuperada, alguma coisa é ganha. É também diplomacia: um gesto das caras mas também uma coreografia improvisada de mãos, aquilo que escapa das mãos abertas, aquilo que fica preso entre pela força dos dedos. As traduções são sempre cheias de interstícios, mas porque elas mostram o incompleto do que já havia antes. Whitehead distingue entre o que precisa ser atenuado – que ele chama de aversion – e o que precisa ser enfatizado – que ele chama de adversion – para que a tradução entre a percepção física e o conceito possa ter lugar. Aversions e adversions são talvez ingredientes de toda tradução. É um balanço de intensidades. E as fronteiras são melhores quando elas balançam – e são permeáveis.

     Como estamos ligados a dois grupos de investigação, o ANARCHAI e o Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora, a Revista se abre às produções destes grupos. O ANARCHAI pretende revirar o tema da proximidade e da distância entre ontologia e política, que muitas vezes é o espaço entre alguma coisa e nada de um lado, e alguém e ninguém do outro. O Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora se ocupa com o literário e o filosófico nas confluências que Blanchot e seu meandro insinuaram, e as pensa traduzindo. A Revista é uma sede para os temas destes grupos. Porém nosso intento é confabular uma comunidade mais ampla com quem não se apresse em parar de esticar, adensar e sacudir questões. Uma comunidade de quem faz questão do lapso, da deriva, da interferência presentes na experimentação quando ela arregala os ouvidos para captar o não-dito e o ainda-por-dizer.

     *

     A revista Das Questões é uma revista de Brasília, da Universidade de Brasília e com os pés fincados nela. Mas só os pés. Assim, desde este primeiro número, ela mostra sua polifonia e seu tendência multilíngue. Ordep Serra, helenista e antropólogo, abre a Revista com seus fragmentos de metafísica inextrincavelmente mitológica. Ana Cristina Chiara e Dieter Roos adicionam outros pedaços de textos ilustrados e desenraizados. Vicente de Paulo Siqueira conta de um galo-gato que implica em parecer que explica. Danivir Kent trata da escrita e pensamento no Livre des Ressemblances de Jabès. Juliana Merçon escreve sobre a escola e as ficções de etnicidade inspirada por Balibar. Monica Udler resgata elementos do espírito do judaísmo para contrastá-lo com as práticas correntes em torno de um estado judeu. Há também neste número o Manifesto da Escola de Brasília, trechos da tradução de Jarry feita por Olegário Eudasio Barroso (com transcrição de Eclair Antonio Almeida Filho  e  Odulia Capelo Barroso) e tradução de Samuel Butler feita por Bernardo Tavares dos Santos, que conta ainda com um comentário de ficção científica sobre supremacia maquínica, pensamento e política.

    Eclair Antonio Almeida Filho & Hilan Bensusan